Ensaio sobre a (ir)realidade do Tempo – Samuel Santana

Ensaio sobre a (ir)realidade do Tempo – Samuel Santana

Inquieta pensarmos na possibilidade de tudo depender do que fazemos agora, de não existir nada lá na frente nos esperando, do porvir ser um grande vão esperando nossa chegada para ser preenchido por nossos feitos.

– por Samuel Santana

Primeiras Considerações

     Vem chegando o fim de mais um ciclo transacional terrestre, enfim termina o ano de 2020, em muitas mentes surgem reflexões sobre os eventos que se deram neste ano que se finda, e sobre as possibilidades que o vindouro trará. Alguns podem se indagar sobre o quão proveito tiraram do tempo que os foi dado, outros pensarão em maneiras de aproveitar melhor o tempo que virá, a maioria estará atenta apenas aos eventos imediatos que tomarão os próximos dias; fato é, apesar das nuances, que o crepúsculo de um ano nos acomete de reflexões sobre nosso tempo e como o encaramos.

     O aproveitamos bem ou estamos só o perdendo? O que aprendemos e trazemos do tempo que passou? O que nosso futuro nos tem reservado? 

     Dos momentos bons de um ano difícil queremos saber o que nos resta, se eles estarão eternamente em nosso passado ou se vivem só nas lembranças. Acometidos por expectativas de um ano novo melhor, questionamos se há algo de bom em um futuro que nos aguarda, ou mesmo se realmente há algo nos aguardando; inquieta pensarmos na possibilidade de tudo depender do que fazemos agora, de não existir nada lá na frente nos esperando, do porvir ser um grande vão esperando nossa chegada para ser preenchido por nossos feitos, de tudo que possuímos do tempo ser a mera realidade do agora, do presente, do atual, e a nossa frente nos restar apenas um infinito leque de possibilidades, de caminhos, de consequências, os quais cabe a nós darmos o passo a trilhar. Afinal, existe mesmo passado, presente e futuro? O tempo é real?

     Não foram poucos os pensadores que indagaram isso, dos mais famosos: Aristóteles, Newton, Leibniz, Kant, aos menos conhecidos: Dainton, Emery, McTaggart, Ingram, todos se debateram em questionamentos como se o tempo existe, se há presente, passado e futuro, se há eternidade, a existência da mudança, se o futuro é inevitável, entre diversas outras; muitas as quais, felizmente, foram formuladas respostas um tanto quanto satisfatórias sobre certos pontos de vistas.

     Nas próximas linhas, convido o leitor para conhecer algumas das várias respostas sobre as questões do tempo, foram selecionadas apenas aquelas mais satisfatórias, ou ao menos intrigantes dadas na filosofia do tempo, aprenderemos sobre cada uma dessas e suas possíveis implicações e falhas, com o propósito de amadurecer nosso discernimento acerca desse importante aspecto da nossa realidade que é o tempo. 

Tudo está determinado

     O senso comum carrega como herança da filosofia antiga uma velha crença a respeito do tempo, de forma não tão embasada quanto as concepções filosóficas sobre a ontologia do tempo, a opinião do homem vulgar tem dado crédito às noções de destino, futuro, determinação, de modo que o senso comum implicitamente tende a crer na existência de um futuro que já de antemão está escrito.

     Como reflexo do imaginário vulgar vem a ficção científica manifestar essas noções em suas obras: vejamos o exemplo da série Dark da Netflix.

     Em Dark, série alemã de ficção onde os personagens são capazes de interagir com suas versões passadas ou futuras através de um portão de viagem no tempo, os protagonistas iniciam suas viagens intertemporais acreditando poderem mudar eventos passados e futuros para salvar pessoas queridas, porém pouco a pouco descobrem que suas ações inserem-se numa cadeia causal onde contribuem para a efetivação do evento que tentavam evitar. Ao longo da trama, conforme amadurecem, os protagonistas começam a compreender que todos os eventos no tempo já estão predeterminados e irão fatalmente ocorrer. Aos poucos eles vão se conformando a essa realidade e acabam por apoiarem suas certezas na crença de que todo o tempo já está determinado, e se algo tiver de acontecer no futuro, acontecerá necessariamente, assim, estão refletindo uma crença muito antiga da filosofia e da opinião vulgar, a saber, o Fatalismo.

     O fatalismo é a crença de quem sustenta que o que quer que vá acontecer no futuro, acontecerá inevitavelmente, compreendendo que qualquer evento vindouro é impossível de ser prevenido, ao menos por meros seres humanos. Se algo for ocorrer, ocorrerá necessariamente.

     Nesse sentido, se a vacina contra o coronavírus for começar a ser distribuída em 25 de Janeiro de 2021, será inevitavelmente. Se a humanidade for estabelecer postos avançados em Marte, isso acontecerá. Ou ainda se Bolsonaro for reeleito em 2022, ele será necessariamente.

     Para o fatalista existe um futuro determinado de tal modo que é possível proferir afirmações verdadeiras sobre ele desde agora. Isso se deve a um princípio lógico basilar a toda lógica aristotélica conhecido como princípio do terceiro excluído, segundo o qual toda proposição só pode ser verdadeira ou falsa, não existindo uma terceira saída para ela, deste modo, a proposição “o vento é incolor” é verdadeira se o vento não tiver nenhuma cor ou é falsa se o vento for verde, mas não é concebível pensar em qualquer outra opção para tal proposição que não seja uma dessas.

     Destarte, existem proposições que afirmam coisas acerca de eventos futuros, e estas proposições devem ser, segundo esse princípio, ou verdadeiras ou falsas, por exemplo, a proposição “O Brasil será a maior potência econômica mundial em 2030” ou é verdadeira ou falsa, se for verdadeira, então o Brasil será o país mais economicamente poderoso do planeta no ano de 2030 inevitavelmente.

     Note que ainda que assumamos que tal sentença é falsa, o futuro estará fatalmente determinado, uma vez que sendo falsa uma proposição, sua negativa é verdadeira, portanto, se a proposição acima é falsa, logo a proposição “o Brasil não será a maior potência em 2030” é verdadeira.

     Portanto, existe já agora, no presente, um conjunto de proposições que dizem coisas sobre o futuro, e que sendo verdadeiras ou falsas, demonstram que o futuro é já determinado e tudo que essas proposições afirmam ou negam ocorrerá, do modo em que elas afirmam ou negam, fatalmente.

     Consequentemente, vez que existem tais proposições sobre o futuro, e essas proposições podem ser tão numerosas que englobam todos os eventos futuros, ainda que você não conheça tais proposições e/ou não tenha meios para verificar o valor verdade delas, todos os acontecimentos futuros já estão determinados a ocorrer e fatalmente ocorrerão.

     As consequências metafísicas de tal pensamento acarretam em um arcabouço teórico sofisticado acerca do tempo que também subsiste no imaginário comum e nos universos da ficção, dessa maneira, deve-se levar o pensamento fatalista adiante e notar até onde ele se estende.

O amanhã já existe

     Primeiramente é preciso ressaltar que o valor de verdade de uma proposição depende da correspondência do conteúdo dela com a realidade, isto é, a proposição “o Brasil está na América Latina” é verdadeira se e somente se o Brasil for um país localizado na América Latina, portanto, é notável que deve haver um estado de coisas na realidade que corresponda ao conteúdo da proposição, a fim de que esta seja verdadeira. Se é dito, por exemplo, que “o Presidente da República de Mordor tem 80 anos”, para ser verdade é necessário que haja um presidente, em uma república chamada Mordor e que ele tenha 80 anos. Se não existir uma república chamada Mordor, a proposição já resta falsa.

     Ora, uma vez que há proposições que já são verdadeiras e falam sobre eventos futuros, logo podemos dizer que o objeto dessas proposições já são reais de agora, e por serem afirmações sobre eventos futuros, pode-se concluir que objetos futuros já existem desde já. Portanto, se é verdade que “a humanidade estabeleceu colônias em Marte em 2099”, então tais colônias já são reais, não no presente em que nos encontramos, mas em 2099. Já há, no ano de 2099, colônias em Marte.

     Raciocínio semelhante podemos inferir acerca dos objetos passados, a saber, que proposições verdadeiras sobre eventos que já ocorreram, referem-se a objetos passados existentes. Assim, a afirmação “Tomás de Aquino é um católico da Idade Média”, é verdadeira, e por isso é real tudo aquilo que corresponde ao seu conteúdo, a saber, que existe um católico, chamado Tomás de Aquino, em um período do passado chamado Idade Média, que tudo isso não só foi, como É real agora quando pronuncio esta verdade.

     Esse é o pensamento Eternalista, segundo essa posição, todas as coisas, tanto as que se deram no passado, quanto as futuras, são reais e existem já agora em um sentido não temporal, elas não estão presentes em nosso tempo, elas já existem ontologicamente; caso fossemos quantificar todas as coisas que existem no universo, todas essas coisas, passadas e futuras, deveriam estar na conta, pois elas já existem, apesar de não estarem presentes, são todas as coisas eternas.

Tudo acontece o tempo todo

     Com esses pressupostos em mente, de que todas as coisas são eternas e existem ontologicamente de modo que devem ser contadas na soma total das coisas existentes do universo, pode-se visualizar o tempo como aquilo que contém todas essas coisas que estão ou não presentes no agora. Esta é uma boa metáfora para isso: imagine um grande container. 

     Esse container bem grande é dividido em vários compartimentos, algo como paredes que o subdividem em partes contínuas de cima a baixo. Mais ou menos no compartimento do meio estamos nós, nesse momento, agora, todos nós, toda a realidade presente, tudo no universo agora, este compartimento é o presente. Nos compartimentos anteriores estão as coisas passadas, nos posteriores as futuras.

     Cada compartimento é um momento e contém tudo o que existe naquele instante. Porém o importante na metáfora é que todos eles estão dentro do container que é o tempo.

     O tempo é então aquilo que contém em si todos os momentos, passados, presente e futuros, tudo isso está no tempo. Os objetos passados, presentes e futuros existem todos dentro daquilo a que chamamos tempo, assim, o tempo é uma substância, uma entidade de existência independente, continente do conjunto dos momentos. 

     Essa posição é o substantivismo, absolutismo, ou ainda, platonismo, acerca do tempo.

Através do tempo

     Demonstrou-se acima as teses que afirmam alguma forma de realidade do tempo, i.e., que passado, presente e futuro existem com seus respectivos objetos já neles, e que existe uma entidade tal que contém os três e se chama Tempo.

     Essa é a concepção platônica eternalista fatalista, defendida por grandes nomes como Platão e Newton, e também majoritariamente pelo senso-comum, ainda que não-rigorosamente, no sentido de que sobre eles não se empreende reflexões rígidas, próprias da filosofia; tal pensar é refletido nas artes, como por exemplo já citamos a série Dark, e também poderíamos citar outras tantas ficções, como X-men, Vingadores, que insistem em usar uma concepção de tempo absoluto, algumas vezes mesclando com teorias de múltiplas linhas temporais ao brincarem com ideias de viagens no tempo.

     Aliás sobre viagem no tempo, vale ressaltar o absurdo metafísico que é pensar em algo assim, ainda que sobre uma concepção substantivista, pois não se pode escapar do paradoxo do avô ou do problema da retroação causal, no primeiro caso apela-se às teorias de múltiplas linhas temporais, o que é problemático, visto que não se explica como é possível que uma simples ação individual, matar o avô, possa gerar todo um universo novo paralelo ao original e com uma nova linha temporal; no segundo caso, bem, talvez seja bom descrevê-lo:

     O problema da retroação causal questiona o seguinte: como é possível que a ativação da uma máquina do tempo em 2020 e a minha entrada nela, possa causar o meu aparecimento no ano de 1812? O princípio da causalidade descreve como o processo de movimento segue da causa ao efeito, tal que esse efeito é causa de outro efeito e assim se sucede, na concepção substantiva, essa ordem deve suceder para o futuro, e marca o fluxo temporal, de modo tal que tudo o que ocorreu no passado é de alguma maneira causa para o atual estado de coisas. Agora, como podemos conceber que um evento presente seja causa de um efeito num evento passado?

     O Eternalista há de defender que, existindo todos os objetos agora, só ontologicamente, é perfeitamente concebível, dada as devidas condições nos avanços científicos, que uma máquina do tempo no presente, possa alçar alguém para acessar os objetos passados, sendo colocado num estados de coisas passados, em 1920 por exemplo, onde ele poderá interagir com os objetos nesse ano, pois ele próprio também será um objeto passado, ou, olhando de forma mais fenomenológica, os objetos antes passados serão para tal pessoa, presentes. Esse último ponto de vista, mais subjetivo, é mero en passant aqui, tornaremos a ele quando formos tratar do presentismo.

A linguagem de tempo

     Muito longe foi a metafísica do tempo a ponto de fazer afirmações eternalistas ou substantivistas, em verdade são argumentos ontológicos intuitivos, que passam um ar de precisão e realidade, todavia muitas vezes não passam de uma complexa confusão linguística, que corrompe os esquemas conceituais comuns e nos priva de uma análise limpa e fria da nossa ideia sobre o tempo.

     O hegeliano McTaggart nos legou uma iluminação a respeito do assunto, algo que ajudaria a esclarecer as confusões filosóficas a respeito da ontologia do tempo. Para ele, a metafísica do tempo deve ser tal que explique objetivamente seu objeto, de modo que estabeleça um parâmetro de explicação que sirva para todos compreenderem de forma uníssona a entidade temporal.

     Ora, a maioria das afirmações acerca do tempo acaba utilizando os conceitos comuns de passado, presente e futuro, até aqui por exemplo, falamos sobre futuro para explicar o fatalismo, falamos sobre passado e futuro para falar do eternalismo e sobre os três para falar do absolutismo, dificilmente trata-se do tempo sem fazer menção a essas três noções, de modo que elas são essenciais para a localização e descrição temporal, assim, é comum afirmar que a guerra fria está no passado, enquanto que a pandemia do novo coronavírus está no presente e mesmo que a neutralização do covid-19 pela dispersão da vacina é um evento que está no futuro, de igual modo poderíamos, para fazer bom uso do aspecto analítico da língua portuguesa, dizer que esses eventos são, respectivamente, passado, presente e futuro, no inglês esse sentido fluiria já na primeira formulação pela ambiguidade do verbo to be, enquanto que na nossa língua temos a graça da analítica; divago.

     Ao observar a forma como se usa a linguagem para descrever o tempo, McTaggart postulou duas teorias que sintetizam essas explicações e elucidam a filosofia do tempo. Primeiramente, explica-se o tempo em termos de passado, presente e futuro, a isso chamaremos de propriedades A, se digo que dado objeto O ocorreu em 1929, o crash por exemplo, posso inferir que O é passado, assim, O tem a propriedade A de passado, portanto, passado, presente e futuro são propriedades A, e a teoria que explica o tempo dessa forma é a teoria A.

     Contudo, podemos descrever os eventos através da forma como eles se relacionam uns com os outros, assim, dizemos que tomei café da manhã mais cedo que agora, quando estou escrevendo, e postarei este ensaio mais tarde, talvez amanhã. Às relações de mais cedo que, simultâneo a e mais tarde que, chamamos de relações B. E existe uma teoria tal que usa de relações B para descrever as relações temporais que é denominada teoria B.

     O importante aqui é frisar que ambas teorias enquadram a descrição temporal com tamanha precisão que pouco se pode pensar sobre exceções a isso, assim, as afirmações sobre eventos no tempo tendem a utilizar de uma dessas duas formas de descrição, ao passo que elas duas se complementam, apenas com esta leve ressalva. Note que a teoria A está falando diretamente do tempo e assume alguma espécie de substantivismo, podendo ainda assumir ou não o fatalismo e o eternalismo, a depender de sua variação teórica. No entanto, a teoria B fala apenas de relações entre eventos usando um deles como referencial, assim, se digo, a Copa do Mundo ocorre mais cedo que as Eleições, ou que o Natal vem antes do Réveillon, os primeiros são eventos referências e se relacionam com seus respectivos referenciais através de uma relação B.

     Consequentemente, a teoria B sozinha poderia no máximo assumir uma teoria relativa do tempo, como defendia Aristóteles e Leibniz, que o tempo existe somente como relações entre os objetos.

     Por isso, McTaggart afirmou que ambas as teorias são necessárias para descrever o tempo, porém, a teoria B por si só não fala sobre tempo, apenas sobre relações de antecedência, simultaneidade e procedência entre objetos. Devido a isso, caso a teoria A fosse refutada, estaria declarada a inexistência do tempo. Prestemos, então, um pouco mais de atenção a essa teoria. 

Passado, Presente e Futuro

     Propriedades A são as mais usadas para se falar especificamente sobre o tempo em si, de modo que as teorias do tempo, como as três anteriormente mencionadas, se referem a essas propriedades a fim de localizar temporalmente objetos.

     Vimos que a propriedade A de um objeto, segundo todas as teorias que se suportam na teoria A, onde o conjunto A são o parâmetro de descrição objetiva da temporalidade (conjunto A é a totalidade das propriedades A aplicada aos eventos para explicação temporal), localiza-o  em um ponto no tempo, por exemplo, as eleições de 2018 tem a propriedade A passado, enquanto que as de 2022 tem a propriedade A futuro. Assim os teóricos de A repousam em uma suposta explicação consistente e objetiva do tempo, fechando os olhos para o erro evidente que cometem.

     Pegue um evento E com propriedade A futuro Af, digamos que E seja o carnaval de 2021, segundo a teoria A, E é Af. Agora, se o leitor estiver lendo este ensaio após março de 2021, já notou a incongruência, pois para você o carnaval de 2021 já é um evento passado, então para ti E é Ap’, enquanto que o leitor que estiver lendo durante esse feriado, E é Ap.

     Como pode então um evento ter todas as propriedades A? Este é o furo da teoria, tome qualquer evento e analise-se do ponto de vista de leitores de várias épocas anteriores e posteriores a este, e verá que este evento tem todas as propriedades A, restando apenas assumir que o que define a propriedade A de dado evento é a posição do sujeito, pois, futuro e passado são propriedades antagônicas, não podendo o mesmo evento ter ambas ao mesmo tempo objetivamente, apenas subjetivamente. Pois bem, assumir propriedades A objetivas é contraditório, podendo estas serem apenas subjetivamente assumidas, i.e., propriedades A são relativas ao sujeito.

     Portanto o conjunto A é tão relativo quanto o conjunto B, e nenhuma das teorias pode explicar objetivamente o tempo, mas usam apenas de uma linguagem subjetiva e psicológica para falar sobre uma aparência do tempo.

O declínio do Tempo

     Assim morre o Eternalismo, pois o conjunto A é incapaz de descrever objetivamente o tempo, a linguagem e a lógica torna-se incapaz de falar sobre a ontologia objetiva de objetos passados ou futuros, como se estes existissem já.

     O mesmo vale para o substantivismo, sendo a linguagem do tempo apenas subjetiva, estamos então sem condições de falar sobre a substância daquilo que sequer apreendemos.

     As proposições que se referem a objetos futuros dependem da existência destes para sustentar seu valor verdade, consequentemente tais proposições não se referem extensionalmente a nada, pois não há já agora um futuro, e são sem significado objetivo algum, não podendo pois serem verdadeiras qualquer uma delas, sendo então o fatalismo a mais incoerente dessas teorias, pois se eu digo que Lula é presidente em 2023, isso não se refere a nenhum objeto real (não é que por ser falsa, sua negativa é verdadeira, antes a negativa da existência dos objetos da proposição é que é verdadeira, preservando o princípio do terceiro excluído), realmente não tem qualquer significado a não ser o de se referir a possibilidade disso acontecer, assim como se eu digo sobre o passado que Bolsonaro se elegeu em 2018, não me refiro a outra coisa senão às memórias que tenho e que meu interlocutor talvez tenha, e aos registros históricos e tudo o mais que exista já agora que faça alusão a esse fato que lembro ter acontecido antes.

     Não há algo como o tempo, tudo sobre o que discorremos sobre ele é aquilo a que apreendemos com aparência de tempo, observamos a mudança, o movimento, a causalidade e inferimos do conjunto dessas coisas o conceito de tempo, inventamos o tempo. Não há passado, presente ou futuro objetivos, apenas o agora, as memórias do que se foi e as possibilidades do porvir, nosso Platão interior inventou uma entidade que mantinha tudo isso objetivamente, o Tempo, porém não totalmente sem razão, afinal, parece que existe algo como tal, grandes pensadores acreditam nisso, nos colocamos em uma ilusão coletiva que fez sentido.

     Fez sentido porque as coisas mudam, os eventos seguem um fluxo, da causa ao efeito, tudo ordenado, o que passou não volta, o “tempo” segue avançando. Isto pelo que McTaggart vai chamar de conjunto C, segundo ele, existe uma realidade subjacente, dissimulada, que corresponde à aparência do tempo no conjunto B, uma realidade explicada talvez em termos de adequação ou inclusão, onde a teoria B seria a que chega mais perto de compreendê-la.

     No entanto, McTaggart, pelo seu viés hegeliano, incorre no próprio erro que criticou, vez que fala de aparências subjetivas para falar de uma suposta realidade objetiva. Vamos dar um passo atrás, voltando no “tempo”, mais cedo que Hegel, vamos até Kant.

O Tempo em nós

     Na Estética Transcendental, Kant dispõe que o tempo é algo que está já em nós, como uma disposição mental receptiva, uma forma pura que nossa capacidade de sentir objetos possui, a fim de que nela seja ordenado a multiplicidade dos objetos e dos momentos que apreendemos, assim, vemos que primeiro chuta-se a bola, depois ela entra no gol, primeiro o lutador desfere um soco, depois o adversário cai, primeiro pressiono os botões deste teclado, em seguida as letras são projetadas no monitor. Duas apreensões, a do pressionar e a da projeção, a forma do tempo em nós ordena o que veio primeiro e o que segue e nisso temos a impressão de que há um fluxo temporal, porém este é somente aparente, não existe algo assim fora de nós, não faz sentido que exista.

     Apreendemos a ordem das mudanças nos objetos, de forma particular e subjetiva, relacionada diretamente com aquelas sensações, e disso nossa razão acha-se legitimada a concluir que além dessas mudanças pontuais há um tempo absoluto que passaria independente de qualquer mudança particular nos objetos, ou mesmo independente destes, e ainda, o pior de tudo, independente de  nós como sujeitos observadores.

     Essa é uma mera ilusão (transcendental) a que nossa mente nos leva, tentando ir além daquilo que podemos experienciar. O que existe, no máximo, se me permite usar uma linguagem do conjunto A, é o presente, pois aparentemente sentimos as coisas presentes e nelas percebemos a mudança e a simultaneidade, pelo que formamos nossa intuição do tempo. 

     Essa última é uma teoria relevante na metafísica do tempo, chama-se Presentismo, não tivemos muito tempo para apresentá-la neste trabalho, ela se baseia na teoria A e atribui a todos os objetos existentes a propriedade A de presente. Assim, tudo que existe é presente, nada é passado ou futuro, há só o que está aqui. Existem alguns fortes argumentos para sustentar essa teoria (i)ela remove a contradição da teoria A, pois só há a propriedade A presente, (ii)se não existe tempo, tudo é eterno, considerando que eternidade significa atemporalidade, e a forma mais adequada de falar do eterno é o presente, pois somente esses dois: (a) são constantes, (b) são mais reais que o passado e futuro, (c) têm mais valor psico-emocional e (d) têm eficácia causal, note que aqui está sendo usada uma perspectiva de conjunto C; (iii) apreendemos apenas as coisas presentes, então estamos em condições legítimas de afirmar a existência do presente.

     Embora todos esses argumentos tenham suas ressalvas – Rian Lobato, por exemplo, oferece um argumento contra (iii), dizendo que, grosso modo, nossas sensações só são sintetizadas como objetos e eventos ordenados no mundo, como fenômenos, alguns microssegundos após a afecção que as causaram, assim, os fenômenos que percebemos são sempre do passado, ainda que um passado muito recente, porém que enfraquece a ideia de que apreendemos o presente – o Presentismo, considerando as limitações de nossa experiência, é a forma mais coerente de encarar o tempo, talvez este precise de uma reformulação baseada na teoria B, a fim de se desvencilhar das pretensões realistas da teoria A, porém essa é uma discussão para outro momento.

     Por ora, temos apenas que o tempo não existe de fato como substância independente e em si mesmo. Não há futuro ou passado (as implicações teológicas disso também podem ser discutidas em outro momento), e as proposições que falam sobre eles referem-se somente às possibilidades e as memórias, coisas que já existem agora, a realidade agora é tudo o que existe, tudo o que temos é o real diante de nós, para construirmos o porvir.

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