O futebol como instrumento político: a história que se repete – Ana Flávia Coelho Marques

O futebol como instrumento político: a história que se repete – Ana Flávia Coelho Marques

“Para vender uma casa, asse biscoitos.” Qual a relação dessa frase com a política? O cheiro de biscoitos nos lembra a sensação de estarmos em um lugar confortável, um ambiente familiar, uma zona de conforto. Então é mais fácil para vender uma casa nessas circunstâncias.

A política usa dessa mesma técnica, mas com o futebol. Os governantes tentam vender uma falsa imagem de seus governos, através do esporte, nos períodos mais fatídicos de seus mandatos. Tem se isso claro no Brasil no período de mais repressão da ditadura, os anos de chumbo. 

Durante o governo de Castello Branco, o primeiro “presidente” da ditadura militar, foi criado o Serviço Nacional de Informações (SNI) pela lei n° 4341 de 13 de junho de 1964, que tinha como objetivo espionar todas as atividades de informação dentro do território nacional. 

Nada mais escapava do regime militar. Logo, os novos donos do poder entendem que a paixão maior do brasileiro deve estar sobre o estrito controle do estado, o futebol. 

Esse ufanismo foi comum em todos os governos ditatoriais, mas se intensificou no terceiro período – entre 30 de outubro de 1969 e 15 de março de 1974comandado por Emílio Garrastazu Médici. A copa de 1970 foi o oásis para o planejamento de Médici e seus aliados.

Em sua dissertação de mestrado, onde cita a relação íntima entre o regime militar e o futebol brasileiro, o pesquisador Aníbal Renan Martinot Chaim diz que:

“A Copa de 1970 completou um serviço que nem 100 anos de Publicidade oficial maciça poderiam ter feito: a conquista da Taça Jules Rimet fez com que o ‘orgulho de ser brasileiro’ e o nacionalismo – elemento tão caro a governos autocráticos – emanassem espontaneamente dos espíritos populares embriagados de orgulho com o ‘Brasil’, o único Tricampeão mundial”.

A utilização do desempenho da seleção brasileira na Copa de 1970 como propaganda política, no período mais duro da ditadura, não foi uma estratégia exclusiva do Brasil, e governos militares de outros países sul-americanos fizeram o mesmo com suas equipes na época, como a Argentina, Uruguai e Chile. 

Em 24 de março de 1976 – dia do mais sangrento e cruel golpe de Estado da Argentina – nos comunicados dos jornais estava claro: proíbe-se fazer greves, proíbe-se legislar. “Proíbe-se”, essa foi uma palavra que marcou a maior parte dos comunicados militares para a população. Indaga-se, era então algo permitido para os argentinos? A resposta é sim. Um dos comunicados dizia “Autoriza-se as transmissões das partidas de futebol da seleção Argentina”. 

A partir desse momento ficou claro que o governo sabia – e sempre soube – do que se trata o futebol. O futebol é a forma de biscoito que eles assam para venderem essas enormes “casas”, mas se esquecem que estão em chamas. O cheiro dos biscoitos pode ser o melhor possível, mas não consegue disfarçar o cheiro da fumaça da casa que queima fervorosamente.

O mesmo acontece no governo Bolsonaro. Seu oportunismo sempre foi marcado pela sua atuação prática e simbólica. 

Presidente da República, Jair Bolsonaro durante partida de futebol Brasil e Argentina.Foto: Carolina Antunes/PR
(Belo Horizonte – MG, 02/07/2019) Presidente da República, Jair Bolsonaro durante partida de futebol Brasil e Argentina.rFoto: Carolina Antunes/PR

 

O presidente sempre gostou de deixar claro sua presença em jogos e conquistas de clubes – elemento prático – além de usar sempre a camisa verde e amarela como um símbolo, que se tornou a marca registrada de seus apoiadores.

No ano mais difícil para governar e para tentar manter a pose, Jair Bolsonaro se manifestou em meio à pandemia que destruiu e ainda está destruindo o Brasil em todos os sentidos. Na MP (medida provisória) 984/2020 que mudou a lógica dos direitos de transmissão no futebol brasileiro, O presidente afirma em seu Twitter que “estamos democratizando o futebol”:

A MP serviu como pretexto para corrigir anomalias geradas pelo vírus do COVID-19. A medida que mais chamou atenção foi a mudança nas regras quanto à propriedade do direito de transmissão e reprodução das partidas esportivas, a que Bolsonaro se referia. 

No formato atual, os dois clubes que disputam a partida são detentores do direito de transmissão. A medida provisória em questão altera essa situação, dando apenas ao mandante o direito sobre a transmissão. Seria a opção mais democrática? Não sei, só sei que é mais uma forma de usar o futebol como instrumento político.

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