A psicologia ideóloga das massas: Nostálgicos & Utópicos – Israel Russo

A psicologia ideóloga das massas: Nostálgicos & Utópicos – Israel Russo

Várias pessoas se questionam sobre seus posicionamentos políticos e ideológicos; se são liberais, conservadores ou qualquer outra coisa. Mas após enveredar por várias filosofias, achei por bem não tomar um pensamento como ideário, tendo em vista que se faz muito mais prudente seguir princípios, como veritas, ordo, libertas e sapientia.

Ademais, minha relação com as linhas de pensamento que predominam nos espaços públicos de discussão tem se tornado cada vez mais conflituosa, visto que qualquer posicionamento tomado resultará em uma interpretação com algum grau de deturpação.

É sempre muito trabalhoso tentar definir o que é o conservadorismo sem que se abra brechas para críticas adversas. Igualmente ocorre com a grande maioria das correntes filosóficas e políticas, que se perdem no simbolismo, abandonando a realidade dos fatos. De conservadores a liberais ou socialistas, há um diagnóstico que identifica um problema muito semelhante.

Todas essas correntes de pensamentos se confundem com a nostalgia ou com utopias; embora apresentem sintomas distintos, ambas compartilham da mesma doença: a exaltação de um ideal em detrimento do real.

A ideologia é uma obrigação?

Aqueles que se definem como conservadores apenas porque denunciam a desordem da sociedade contemporânea, incorrem no erro de acreditar em uma suposta ordem ideal, que existe numa espécie deturpada de mundo das ideias platônico. O sentimento nostálgico engrandece uma realidade passada como a única provida de recursos sociais que garantam uma ordem desejável.

No entanto, essa ordem exige um pressuposto para ser apetecível: a desordem. Isto é, o conservador tomado por esse sentimento necessita que haja justamente a anarquia e a degeneração do sistema passado para que o status quo seja desprezado, enquanto toda a organização social, econômica e jurídica que já não existe mais, tornem-se objeto de desejo desses ditos conservadores.

Em um cenário hipotético, podemos imaginar que os nostálgicos conseguem saciar sua ânsia de reviver as tradições e costumes de uma época ideal, aparentemente solucionando os problemas do estado atual das coisas. Não demoraria para essa “nova velha realidade” causar desgosto, inclusive naqueles que a desejaram.

Tudo (im)perfeitamente equilibrado, como todas as coisas devem ser

A questão é que os nostálgicos não se permitem inferir que a ordem supostamente ideal e apetecível também é recheada de conflitos. Faz-se necessário entender que a desordem não é uma condição exclusiva da sociedade contemporânea, como bem explicou Sérgio Buarque de Holanda, em sua ilustre obra “Raízes do Brasil”.

Mais uma vez recorrendo a Platão, esse sentimento que domina as mentes nostálgicas têm o caráter idêntico ao Eros, o amor como desejo, e o desejo por aquilo que não se possui. Toda e qualquer realidade que apetece aos reacionários só têm o poder de causar esse ímpeto pelo fato de que ela não existe.

Não muito distante dessa lógica estão os ideólogos. Invocando o sociólogo francês, Pierre Bourdieu, “os circuitos de consagração social serão tanto mais eficazes quanto maior a distância social do objeto consagrado”. Quando o objeto de consagração é um símbolo, i.e., um ideário surreal, a distância social do objeto é de anos luz.

Psicologia ideóloga das massas

Isso explica o motivo de ser sempre uma tarefa árdua defender ideais concretas e pragmáticas. Não é de se estranhar que líderes políticos que usufruem de grande popularidade sempre mantém parte ou todo seu discurso concentrado em símbolos, ideários distantes.

Um verdadeiro conservador, que entende a complexidade social e defende a manutenção da liberdade para permitir o arranjo espontâneo da sociedade, dificilmente terá o afago das massas, pois a palavra que penetra nas mentes que negam o próprio entendimento sempre despreza o real.

Assim como se distingue o conservador do nostálgico, deve-se distinguir o liberal do utópico, que não se permite lidar com as circunstâncias em prol daquilo que lhe parece ser a única forma possível de se alcançar a felicidade ou a abundância.

Essa distinção não existe, porém, para os socialistas, fascistas ou toda e qualquer ideologia que exalte um ideal em detrimento do real. O indivíduo que é cooptado por tal pensamento é tido como um niilista, no sentido particular de niilismo da filosofia nietzschiana.

O amor ao destino e o caminho dos símbolos

O filósofo alemão resgata para seu tempo o amor fati dos estoicos. Amar as coisas tais como elas são, tendo a consciência de que toda realidade ideal só é desejável por sua distância social. Como rogou na obra “Assim Falou Zaratustra”:

Exorto-vos, meus irmãos, a permanecer fiéis à terra e a não acreditar naqueles que vos falam de esperanças supra-terrestres. São envenenadores, quer saibam disso ou não.

No entanto, é sempre muito mais conveniente seguir pelo caminho dos símbolos, tanto para os que lideram, quanto para os que necessitam de uma tutela. O segundo grupo é formado por indivíduos que rejeitam as circunstâncias e a própria capacidade de servir-se da sua autonomia para deliberar ante a realidade, optando por objetos de desejo.

Muitos entenderam o melhor caminho

De formas diversas, pensadores de todas as eras entenderam esse tipo de comportamento humano; alguns chegaram a conclusões otimistas, acreditando na emancipação das massas, enquanto outros foram bem pessimistas, afirmando que jamais existirão espíritos livres.

O fato é que não importa. O caminho mais prudente é aceitar a realidade tal como ela é, ciente de que isso pode nunca ser um entendimento geral. A ideia de “consciência coletiva” só funciona quando a massa é manipulada pelos símbolos, tal como as sombras da caverna.

Independente da corrente majoritária, a ordem, a liberdade e a prosperidade devem ser tratadas de acordo com o que se apresentam, como os fenômenos contingentes que são, sem jamais perder o princípio necessário de cada um. Talvez seja esse o entendimento que falta para um real desprendimento daqueles que possuem uma vontade pura em relação aos sentimentos fantasiosos.

Do olavismo ao Black Lives Matter, as mentes são envenenadas com a visão de uma estrutura engessada que beneficia X em detrimento de Y, sendo necessário um fato social proporcionalmente significativo para quebrar tal mecanismo, resultando, portanto, em algo que nem mesmo o mais sapiente dos ideólogos tenha o conhecimento do que seja.

Enquanto a terra prometida permanecer distante o suficiente dos sonhadores, os profetas dominarão as mentes indignadas com o status quo. A exortação de Zaratustra ultrapassa todas as barreiras históricas e nos permite amadurecer político e filosoficamente falando.

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