Introdução à Filosofia da Ciência II: A Verificabilidade das hipóteses – André Filipe

Introdução à Filosofia da Ciência II: A Verificabilidade das hipóteses – André Filipe

  • Introdução

 Toda a ciência se baseia em hipóteses. As hipóteses, nada mais são, que proposições que se deseja que sejam verdadeiras. Estas, por sua vez, estruturam teorias que são avaliadas através da observação ou experiência, sendo refutadas ou validadas (critério da validade). Neste artigo, vamos nos debruçar sobre a distinção entre teorias científicas e não científicas, bem como o carateriza o método científico.

  •  O problema da demarcação e os critérios da Verificabilidade e da Falsificabilidade

 O primeiro ponto que importa ser referido é o problema da demarcação. É necessário um critério rigoroso para que se separe disciplinas de caráter científico (química, física, etc…) daquelas que não o têm (astrologia).

 Os primeiros filósofos que tentaram propor um critério de validação científica foram os positivistas lógicos, um movimento altamente empirista que exerceu uma grande influência na filosofia da ciência. Eles delimitaram os critérios para o estabelecimento de uma teoria do seguinte modo:

 Uma teoria é científica somente se consiste em afirmações empiricamente verificáveis.

 Podemos definir uma afirmação empiricamente verificável como aquela cujo valor de verdade pode ser estabelecido através de observação. Por exemplo:

A Terra é redonda

Certas plantas são verdes

Existem seres vivos não mamíferos

 A primeira afirmação pode ser observada através da observação via satélite. A segunda e a terceira pela simples observação a olho nu. Estas sentenças são relativamente fáceis de validar. Mas sobre a existência de algas em outros planetas? É uma afirmação verificável ainda que não seja comprovada , sendo que para isso tão simplesmente as imagens de uma sonda nos provem que existem algas nesses planetas. Conclui-se que para uma frase ser verificável ela não necessariamente precisa ser observada, basta apenas que em princípio o seu valor possa ser determinado pela observaçãocritério de validade.

 Por sua vez, Karl Popper estabeleceu como critério a ideia que uma teoria é científica somente se for empiricamente falsificável, indo contra a tese dos positivistas lógicos.

 De acordo com este critério, uma ciência empírica não é validada pela possibilidade de ser verificável pela observação mas sim pela demonstração que ela é falsa recorrendo a dados obtidos através da observação, isto é, a exigência que as teorias científicas devem ter é de que devem ser falsificáveis (ou refutáveis), ou seja, deve ser possível refutá-las através dos dados empíricos.

 Se uma teoria ou hipótese é compatível com tudo o que se possa observar, se nenhuma observação concebível poderia alguma vez refutá-la, então não é falsificável – e, portanto, não é científica. Podemos dar como exemplo de afirmações falsificáveis:

O céu está nublado

Não existem serpentes no mar

Toda a água entra em ebulição evapora

 A primeira afirmação será refutada se não observamos nuvens a olho nu. A segunda se encontramos alguma serpente no mar e a “lei” da evaporação seria refutável se observamos uma quantidade de água que aquecida ao ponto de ebulição não evaporasse.

 Este exemplo mostra-nos que o critério da falseabilidade tem a vantagem, em relação ao critério da verificabilidade, de não excluir leis na natureza – não é possível verificar leis da natureza, mas é possível refutá-las. Por exemplo, a observação de muitas ovelhas malhadas não prova que é verdade que todas as ovelhas são malhadas; no entanto a observação de uma única ovelha branca seria suficiente para provar que é falso que todas as ovelha são malhadas. Observemos algumas frases que não são falsificáveis.

As serpentes do mar foram criadas por duendes da floresta

Existiu uma água do passado que quando sofria ebulição não evaporava

 As afirmações podem muito bem ser falsas mas ainda que o sejam, não é possível que se prova a sua falsidade por dados empíricos.

  •   Graus de falseabilidade

 Vemos agora por que razão Popper propôs a falseabilidade como critério de cientificidade: Uma teoria que não seja falsificável acaba por nada dizer sobre o mundo empírico. As teorias mais informativas, aliás, são as que correm maiores riscos de ser refutadas pela observação. Assim, segundo Popper, devemos procurar teorias com um grau de falseabilidade elevado, pois as teorias mais falsificáveis são as que nos podem dizer mais sobre o mundo.

 Para ilustrar esta ideia, consideremos as seguintes afirmações:

Amanhã vai chover ou não vai chover

Amanhã vai chover

Amanhã vai chover à tarde

Amanhã vai chover entre as três e as cinco da tarde

 Como vimos, a primeira afirmação não é falsificável – e, portanto, segundo Popper, nada diz sobre o que vai acontecer amanhã. Todas as restantes afirmações são falsificáveis, mas cada uma delas é mais falsificável do que a anterior, pois corre maiores riscos de ser refutada pelo que observarmos amanhã. Isto significa que cada afirmação tem o mérito de ser mais informativa do que a anterior. As teorias irrefutáveis, pelo contrário, acabam por não ser informativas mesmo que , aparentemente, estejam confirmadas por muitas observações.

  •  Conclusão

 Neste artigo debruçamo-nos sobre os critérios de delimitação da teoria científica segundo os positivistas (verificabilidade) e segundo Karl Popper (falsificacionismo).

 Esta foi uma discussão pertinente e aberta, sobretudo na primeira metade do século XX, onde a ciência galgava cada vez mais terreno e a sua filosofia influenciava teorias sociais e políticas (inclusive como o próprio marxismo). Neste sentido, considerou-se importante a exposição destes pensamentos que embasaram um período muito importante da filosofia da ciência, sem que necessariamente reflitam o pensamento dos autores ou do próprio paradigma da ciência atual pois estes tiveram um papel essencial naquilo que foi o desenvolvimento da sociedade e do mundo moderno.

Bibliografia (em normas APA):

Almeida, A; Teixeira, C ; Murcho, D; Mateus, P; Galvão, P (2008) A Arte de Pensar,1a Ed, Porto Editora

Popper, K (1963) Conjucturas e Refutações, tradução Benedita Bettencourt

 

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