Introdução à Filosofia da Ciência I: Do Senso Comum ao Conhecimento Científico – O Modelo Nomológico de Carl Hempel – André Filipe   

Introdução à Filosofia da Ciência I: Do Senso Comum ao Conhecimento Científico – O Modelo Nomológico de Carl Hempel – André Filipe  

 

 

  • Introdução

 

A influência da ciência na vida quotidiana moderna é inegável. Chega a ser impossível imaginar como seria o mundo sem coisas como medicamentos, tecnologias, transportes, eletrodomésticos ou meios de comunicação. Todas essas coisas – além de uma vasta gama de conhecimentos na Astronomia, Geologia ou Biologia que nos permitem entender como funciona o mundo, devem a sua existência a teorias científicas desenvolvidas sobretudo nos últimos três séculos. 

Para além do seu caráter prático, o desenvolvimento científico tem levantado outros tipos de questões políticas, ambientais e até éticas como no caso da manipulação genética e da clonagem. Embora a ciência não deva ser vista como a única representante do conhecimento, ela possui um nível de confiabilidade bastante sólido e um nível de solidez teórica incontestável. Desde teorias da Física que estudam movimentos que por sua vez possibilitam que um avião possa fazer viagens intercontinentais, passando pelo estudo e desenvolvimento de farmacos para doenças que há algum tempo atrás pareciam incuráveis até à forma como funciona o cérebro e as órbitas dos astros no universo e entre muitos outros exemplos, a ciência parece vim desbravando diversas áreas do conhecimento de forma fascinante e bem fundamentada. 

É importante evitarem-se os extremos: de um lado, os adeptos do cientificismo, que criam uma espécie de idolatria à ciência e desprezando outras formas de conhecimento genuíno. Por outro prisma, existe a ideia de que a ciência teria o mesmo valor cognitivo de testemunhos pessoais ou fideísmo pré-concebido. Este artigo propõe-se a distinguir os critérios de validação de conhecimento cientifico do conhecimento do senso comum, bem como fazer uma breve exposição do Modelo Nomológico de Hempel

 

 

  • O Conhecimento de Senso Comum

 

Grande parte do conhecimento que temos não é científico e existe desde os primórdios da humanidade. Coisas como necessidade de cozinhar alimentos para evitar doenças, que existem plantas venenosas e outras comestíveis e que existem doenças que contagiam é algo que existe antes do aparecimento do método científico. Assim, podemos caracterizar o conhecimento do senso comum como um conjunto de crenças amplamente partilhadas por seres humanos, justificadas pela experiência do dia-a-dia e transmitidas de maneira intergeracional, refletindo necessidades imediatas e que tem um caráter prático.

Contudo, muito do conhecimento científico atual surgiu dessa necessidade prática, como por exemplo a Química apareceu devido à necessidade de produzir medicamentos, a Geometria à necessidade de medir e construir casas e a Biologia à necessidade de estudar o organismo humano e a forma como ele é influenciado. A distinção entre o conhecimento de senso comum e o conhecimento científico seria, de maneira bem resumida, o fato do primeiro ser disperso e pouco organizado enquanto o segundo é sistematizado e metodologicamente rigoroso. E é esse processo de sistematização obediente a critérios de conhecimento rígidos que torna a ciência tão confiável e assertiva.

Ela pretende proporcionar explicações para fatos conhecidos, não importa apenas saber que alguém adoece, mas como e por que essas doenças ocorrem. Essa procura por explicações racionais do que observamos tem raízes na filosofia grega, mas teve a sua grande explosão teórica no período do Iluminismo, onde se começaram a testar hipóteses através de experiências. Neste sentido, é bem estabelecido que o conhecimento científico tem um alcance e poder explicativo muito superior ao conhecimento do senso comum.

 

 

  • Linguagem Comum e Linguagem Científica: A importância da Explicação

 

Ernest Nagel (1901-1985) foi um dos mais proeminentes filósofos da ciência do século XX. Na sua obra A Estrutura da Ciência, o autor discorre a respeito destas diferenças e como o senso comum ou se omite ou dá explicações pouco consistentes sobre os fenômenos como propriedades medicinais de plantas ou as forças que fazem uma roda mover-se: ele tem um conteúdo prático, imediato e pouco rigoroso.  Nesse sentido, a ciência tem uma preocupação não apenas com o rigor metodológico, mas também com a adoção de uma linguagem apropriada: 

“(…) é o desejo de explicações que sejam ao mesmo tempo sistemáticas e controláveis através de dados factuais que gera a ciência, e é a organização e classificação do conhecimento segundo princípios explicativos  que é o objetivo próprio das ciências (…) Na sua procura por explicações sistemáticas, as ciências devem reduzir a indeterminação da linguagem comum, remodelando-a (…) “( Negel, 1961). 

As crenças pré-concebidas são testadas e colocadas debaixo de uma peneira teórica crítica. O cientista não se preocupa em falar que uma roda com uma determinada dimensão se move. Ele estabelece hipóteses, testa e constrói edifícios teóricos socorrendo-se de conhecimento sobre física de movimentos que vão permitir fabricar rodas que se movem melhor, mais seguras e resistentes. A linguagem científica vai assim responder a critérios metodologicamente estabelecidos, sendo a explicação a pedra angular deste tipo de conhecimento.

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Observe-se a seguinte questão: Porque os astros do sistema solar têm órbitas com movimentos elípticos?

Aqui estamos perante uma questão de caráter regular: os astros sempre se moveram e sempre se irão mover da mesma forma, isto permite estabelecer uma regularidade geral ou uma lei.  Mas também é possível inferir que quando, por exemplo, uma ponte cai (acontecimento particular) se outras pontes foram colocadas nas mesmas condições, também cairão. Chamamos explanadum ao fenômeno que pretendemos explicar e podemos inferir leis quer através de eventos regulares ou de eventos particulares.

Quando estamos na posse de informação que permite responder ao pedido de explicação, esse elemento é denominado explanansPortanto, para entendermos uma explicação científica, é fundamental determinar-se que tipo de informação existe na explanans. A perspectiva mais famosa sobre esta posição é o Modelo Nomológico, desenvolvido por Carl Hempel.

 

 

  • O Modelo Nomológico

 

Para compreender o que o modelo nomológico diz sobre as explicações dos fenômenos particulares, analisemos o seguinte silogismo:

  1. Todos os troncos de madeira que são colocados em contato com o fogo ardem.
  2. Este tronco foi colocado em contato com o fogo.
  3. Logo, este tronco de madeira ardeu

Assim, nesta explicação encontramos uma descrição de uma lei ou regularidade que liga o acontecimento “contato com o fogo” a “arder”. Deste modo, existe uma conexão explicativa que obedece ao modelo nomológico. A partir deste exemplo, podemos entender de maneira simples como é a estrutura fundamental deste modelo.

A segunda ideia associada ao mesmo, diz respeito ao explanans de uma explicação científica, onde além da regularidade ou lei de caráter geral temos pelo menos uma proposição que descreve condições iniciais.

As condições iniciais são então os vários aspectos da situação que se verificam antes ou na altura da ocorrência do acontecimento a explicar. Para explicarmos a ocorrência de um incêndio, as seguintes condições podem ocorrer: folhas estavam secas, temperatura elevada ou uma forte trovoada. E para completarmos a explicação teríamos de apresentar regularidades e leis que implicam a ocorrência de um incêndio sempre que essas condições se verificam. Como tal, o modelo nomológico vai mostrar que em virtude de certas regularidades ou leis da natureza, o acontecimento tinha de ocorrer ou era muito provável que ocorresse, dadas as condições iniciais, isto é, explicar um acontecimento é justificá-lo com leis, através do uso de um argumento válido.

Essas leis da natureza são de caráter universal e aplicam-se sempre a todos os objetos de uma certa categoria, de tal modo que “Todo F é um G” – leis deterministas- ou expressam probabilidades estatísticas “Os F têm uma probabilidade de 90% de serem G” – leis estatísticas.

 

  1. Objeções ao Modelo Nomológico

O exemplo do incêndio é simples e ajuda-nos a entender o modelo nomológico mas é enganador, já que uma explicação científica interessante deve estabelecer leis mais rigorosas e profundas, exigindo uma investigação experimental e expressa em termos matematicamente expressivos e conceitos mais abstratos do que “arder”.

A objeções mais comuns a este modelo compõem-se em uma série de contra exemplos, sendo o mais conhecido o seguinte:

  1. Os homens que tomam pílula não engravidam;
  2. Joaquim tomou pílula;
  3. Logo, Joaquim não engravidou.

Apesar do argumento estar de acordo com o modelo, a condição inicial não explica o fenômeno ocorrido. Um homem não engravida porque não tem útero e não porque toma a pílula contraceptiva. Deste modo, a explicação deve ter em conta se as condições iniciais são ou não relevantes para o desenvolvimento da explicação, algo que possa ser provado como uma causalidade, ou seja, o estabelecimento de causas que apresentem informações apropriadas sobre cadeias de acontecimentos que levam à uma ocorrência.

Um exemplo atual é a forma como certos fármacos como a hidroxicloroquina são usados como propaganda política, sem comprovação rigorosa, no tratamento da COVID – 19. Sabe-se que cerca de 90% das pessoas que são infectadas são curadas naturalmente, assim, a simples “cura após a toma de um medicamento x” por si só não vai provar que tomá-lo foi de fato a causa da cura – são necessários estudos com condições iniciais iguais, randomizados e com eliminação de vieses. O simples “testemunho” de alguém que tomou o medicamento e tenta conectar a uma cura é totalmente inválido cientificamente e não deve servir para embasamento de decisões políticas de saúde pública.

Por fim, uma última crítica ao modelo disputa que ele pode ser adequado, dentro de certos critérios já mencionados, e.g., às ciências naturais, mas parecer pouco efetivo no estudo de ciências humanas uma vez que a explicação das ações são dinâmicas e não obedecem a leis universais: pessoas das mesmas crenças, ambientes e até ambientes familiares podem agir de forma totalmente distinta quando colocados nas mesmas situações.

 

  1. Conclusão

Em um cenário onde a pseudociência e teorias conspiracionistas vêm galgando terreno no debate público, urge cada vez mais entender, investigar e divulgar as raízes, estruturas e confiabilidade do conhecimento científico, estabelecendo desde logo a distinção deste ramo da epistemologia que tanto tem contribuído para o desenvolvimento das condições de vida da humanidade e o mero conhecimento do senso comum, que apesar de válido em um certo sentido prático, não possui a mesma sistematização e rigor metodológico. Neste artigo introdutório, abordou-se assim o Modelo Nomológico de Hempel, um dos alicerces usados no desenvolvimento de teorias científicas.

A filosofia da ciência fornece-nos ferramentas essenciais na exploração desta área. Nos próximos artigos desta série, outros assuntos e problemas serão abordados e refletidos de forma a fornecer ao leitor um panorama histórico geral sobre tudo o que rodeia este ramo do saber tão caro à sociedade moderna.

 

Bibliografia (em normas APA):

Almeida, A; Teixeira, C ; Murcho, D; Mateus, P; Galvão, P (2008) A Arte de Pensar,1a Ed, Porto Editora

Nagel, E. (1961) A Estrutura da Ciência, tradução Pedro Galvão, pp. 3-9

Hempel , C. (1965) Aspects of Scientific Explanation, Cambridge

 

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