Rand e Bastiat: A entrada dos “Liberais” no Ensino Público – Luis Gois

Rand e Bastiat: A entrada dos “Liberais” no Ensino Público – Luis Gois

Bem-vindo, caro leitor. Se está aqui, então posso ter certeza que tem interesse não só no tema abordado, como também em minha opinião sobre este. Em respeito a seu tempo, deixo logo claro minha percepção sobre o caso: não é positiva. Nem aos resultados da medida nem aos autores indicados. Agora, caso após este fato, ainda tenha curiosidade sobre a questão e o porquê de minha negatividade a ela, convido-lhe para ficar um pouco e ler.

Os Estreantes “Liberais”

O acontecimento em questão foi a inclusão de autores “Liberais” no currículo das escolas Estaduais de Minas Gerais. Os autores em questão foram: Ayn Rand, em oposição à Jean Paul Sartre e Frederic Bastiat, em oposição à Hobbes, sim, Locke foi esquecido. O objetivo da medida é apresentar visões diferentes dos pensadores tradicionais “esquerdistas” que povoam as páginas de Filosofia das apostilas, como afirma um dos autores da iniciativa, Luiz Orionte: “O próprio conceito de Filosofia prevê a ideia de contraditório”. Creio que também busquem, caro leitor, o fim da “vil doutrinação Cultural Marxista” que permeia nossas escolas, afinal, nas palavras do próprio Professor: “O ensino público no Brasil[…] sempre foi uma escolinha de marxismo”. Aqui minhas preocupações, enquanto o resultado dessa medida, já afloram.

Sobre os autores, Ayn Rand possui em sua descrição na apostila: “Suas frases são potentes e suas ideias são focadas no individuo enquanto motivação e motor de si mesmo, portanto, dotado da racionalidade e do livre-arbítrio para usá-los em suas ações”; Já Bastiat: “Em Bastiat, tem-se a clara preocupação de que o Estado não estenda a sua atuação para além dos direitos de cada um, visto que, para o autor, a lei se torna pervertida ao assumir postura tirana, um terror que ela mesma deveria combater”.

O Liberteen em potencial

Num primeiro momento, questiona-se: “Onde está o erro nisso? São perfeitos! Verdadeiros representantes das premissas do Liberalismo e da importância do indivíduo” Os problemas encontram-se na abordagem desses autores: rasa, superficial e rápida; é compreensível, levando-se em consideração o escasso tempo na mão dos educadores para tantos temas, mas isso não diminui o potencial nocivo desse estilo de abordagem; e no pensamento a que esses autores estão ligados: o Libertarianismo, mais especificamente, o efeito que esse pensamento possui em jovens facilmente impressionáveis e que tendem ao dogmatismo quando em primeiro contato com propostas tidas, por eles, como “reveladoras”.

Frases de efeito, sem filtros e impactantes são bem efetivas para fixar a atenção do jovem curioso, mas péssimas para o desenvolvimento intelectual dele e para o nível de nossas discussões sobre pensamentos. Em verdade, elas só perpetuam o que a iniciativa visa combater: jovens admirados em seu primeiro contato com ideias que acabam defendendo-as dogmaticamente. Não me surpreenderia se o jovem embasbacado com esses autores buscasse suas obras e, num momento de epifania, julgasse ter encontrado “a verdade”. Assim, defenderia os indivíduos, a de facto minoria em sua visão, do Estado que pratica a tão tenebrosa “espoliação legalizada” e as pobres empresas oprimidas pelo Estado e colocadas numa coleira, coleira esta que muitas vezes as próprias empresas pedem para seu próprio ganho, mas isso não vem ao caso, pois estamos falando de um “autêntico” defensor da liberdade, em seu momento revelador, pronto para pregá-la na mesa de jantar e entrar em longas batalhas no Twitter. Dessa forma, nasce o “Liberteen”.

A iniciativa visa tirar-nos desse “Carandiru Intelectual”, usando um termo de Martim Vasques, no qual estamos hodiernamente. Contudo, temo, querido leitor, que ela apenas irá perpetuá-lo. A diferença será apenas na direção que a “flecha política” do guarda apontará.

Este post tem um comentário

  1. Muito bom 👏

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