O retorno do tribalismo: A nova face da extrema direita e o problema do mal na politica- Victor Oliveira

O retorno do tribalismo: A nova face da extrema direita e o problema do mal na politica- Victor Oliveira

É comum que toda tradição religiosa de grande porte em certo momento tenha que lidar com a questão da existência do mal. Ora, se é próprio da religiosidade a tentativa de conexão com a dimensão divina e esta geralmente é representada como portadora de um bem, faria sentido vivenciarmos o mal concretamente? A teodiceia, além de servir de munição para os arautos de um ateísmo militante, é também, paradoxalmente, instrumento de mergulho da fé na própria experiência religiosa. E o motivo é simples: o mal existente é evidentemente percebido e é parte da experiência concreta da condição humana.

É justamente por sermos capazes de experienciá-lo e de enxergá-lo no dia a dia que percebermos que há algo de transgressor na sua existência, o que leva necessariamente ao ímpeto de nos colocarmos em oposição a ele. Nesse aspecto a presença do mal se relaciona com algo mais específico do que o simples sofrimento contingencial ou a percepção da fragilidade humana frente a incerteza e a temporalidade, – um mal natural, no caso – mas a manifestação de certos tipos de tragédias que são, em suma, produtos da própria ação humana. Esse fenômeno estaria ligado, portanto, ao que podemos chamar de um mal moral, isto é, proveniente da conduta errônea individual ou coletiva que perpetua conscientemente o que há de mais abjeto em termos éticos e com isso dá vazão às mais variadas tragédias que possamos compreender.

Não é incomum que o rastreamento desses eventos seja facilmente realizável através da consulta ao passado acumulado, haja visto que na história humana os horrores trágicos ocupam posição central de análise e de entendimento do nosso próprio passado. Basta olhar para os diferenciados momentos que será perceptível a identificação de certas atrocidades e problemas profundos que ocorreram através das relações políticas, sociais e individuais e que impactam inclusive o nosso presente. Esse olhar distanciado e assustado frente ao passado muita das vezes promove a ilusão de que muitos desses problemas não são mais concebíveis ou parte da realidade vigente.

As promessas iluministas de um progresso não apenas tecnológico e científico, mas moral e político, ecoam nas narrativas do homem moderno que se acha absolutamente evoluído em relação às barbáries cometidas pelos antigos. Mas, como bem aponta John Gray, a crença dogmática iluminista da evolução moral humana através da razão se provou falha diante tragédias particularmente modernas, coisa que o século XX, dominado pela ascensão de totalitarismos e pela ocorrência de duas das maiores guerras vivenciadas pela humanidade não nos deixa mentir. Não obstante, John Gray é taxativo em suas afirmações acerca da ideia do progresso moral contínuo e acumulativo: “na ciência, o progresso é um fato, na ética e na política é uma superstição. [. ] os avanços que foram conquistados
na ética e na política não são acumulativos. O que foi conquistado pode ser perdido, e eventualmente irá se perder.”1

Foi sob a verdade da permanência do mal que Hannah Arendt dedicou certa reflexão à questão enquanto produto de um comportamento político localizado.
Arendt, é claro, presenciou em vida a experiência histórica totalitária de adesão massiva as ideologias nazifascistas o que, em certo sentido, faz com que olhemos para sua reflexão novamente com olhar distanciado e incompreendido, a medida que a indagação espantosa a respeito da possibilidade de manifestação desses males toma conta da consciência contemporânea. Entretanto, como bem observável pela atmosfera que predomina os dias atuais, a presença de males políticos não pode ser atribuída a uma passado fixo e inalcançável do qual estaríamos imunes por algum motivo particular. Não é preciso ir longe para compreender que a presença de muitas das tragédias que vemos como parte de um passado assustador insistem em permanecer vigentes e inclusive acabam ditando muito dos dramas contemporâneos da situação política atual.

A resposta elaborada por Arendt ao se deparar com os males de seu tempo reside na percepção da banalidade do mal como um elemento indispensável de compreensão desse fenômeno, no qual a submissão irreflexiva a certas tendências, narrativas e atitudes permite a normalização e a aceitação do trágico como adequado, a ponto de se anular qualquer sensibilidade e capacidade de manifestação da própria consciência. Desse modo, o mal é absolvido não através da expressão de uma figura megalomaníaca, mas na conduta ordinária. É como a autora justamente descreve o perfil de Eichmann, julgado pelos crimes que cometeu contra a humanidade em nome do regime de Hitler: “não era nenhum Iago, nenhum Macbeth, e nada estaria mais distante de sua mente do que a determinação de
Ricardo III de “se provar um vilão”.2

Edmund Burke, ao se opor aos revolucionários franceses fez alusão a uma reação plenamente afetiva, de articulação de ‘sentimentos morais’ que que não poderiam ser ignorados3. A banalidade do mal quase que como um método de anulação da própria consciência frente a expressividade de uma maldade evidente, anula essa capacidade instintiva; a consciência não deixa de existir, o indivíduo continua sendo um ser humano “comum”, o que muda é justamente a capacidade de utilização das próprias capacidades afetivas e morais para compreender o mal apropriadamente.

O problema do mal em política às vezes se apresenta de forma complexa, em meio a dilemas éticos e situações de tensão que sequer se adequam a respostas claras e unilaterais. Porém, não são raros os momentos em que a possibilidade de compreensão da manifestação de uma mal evidente, que não tem o medo de dizer o seu nome e manifesta todas as categorias morais que contrariam a noção de
justiça, se articulam e ganham força no seio das relações humanas. O que inevitavelmente nos leva ao questionamento central acerca de como essas
tragédias se tornam viáveis e aceitáveis perante a sociedade. De tal forma, a pergunta inicial é sempre aquela de tentar responder exatamente como chegamos até esse ponto e como é possível entender o fenômeno. Se há um mal evidente e se termos certeza de que há algo de errado em relação a ele, como compreender justamente as experiências de terror e atrocidades que não foram apenas cometidas, mas que foram apoiadas, justificadas e que de diversas maneiras continuam a se apresentar como problemas recorrentes nos nossos dias?

Trazendo a questão para o contexto atual, a ascensão da mentalidade totalitária parece ganhar força novamente em meio a uma era de promessas democráticas que anunciava o fim da história em termos ideológicos. Narrativas ditas populistas de extrema direita se apresentam à luz do dia fazendo apologia descarada a violência e declarando guerra contra todo o arcabouço moral e institucional que herdamos da ordem liberal democrática e ocidental. Esses movimentos não são produtos de culturas autocráticas, não são exclusivos de uma realidade cultural obscura e específica, mas emergem propriamente no seio das maiores democracias contemporâneas e utilizam justamente de seu arcabouço para promover a barbárie como forma legítima de discurso político. Desse modo, é possível observar o surgimento de problemas que poderíamos pensar ser exclusivos de uma realidade histórica passada se apresentando de forma expressiva no nosso presente. E ao pontuarmos a emergência dos atuais grupos ideológicos que ganham cada vez mais força na promoção da barbárie, a conexão com o passado remoto marcado pelos
impactos do culto a um tribalismo ideológico pernicioso se torna inevitável. Se no século XX o fascismo e outros totalitarismos apresentaram sua face e deixaram um legado de horror irreparável, como lidar com as ameaças atuais que hoje remetem e
resgatam a mesma mentalidade, buscando legitimar a presença desse mal de forma atualizada?

A comparação com as ideologias supremacistas do século passado pode parecer exagerada para alguns, e não são raros os casos em que o exagero de fato toma conta, mas como já observado, a idealização utópica de que por algum motivo o presente se faz imune a certas barbáries não resiste a evidência empírica, e se

existe a possibilidade de algum antídoto possível, é de justamente saber identificar os verdadeiros problemas por aquilo que são de fato. É plenamente observável que o desaparecimento das ideias supremacistas que embasaram o projeto imperialista de Hitler nunca ocorreu propriamente; no seio da sociedade norte-americana a questão racial, que hoje está no centro dos protestos em torno das legítimas reivindicações da comunidade negra por justiça a George Floyd (que foi covardemente assassinado) e por processos de mudança que busquem evitar que casos semelhantes ocorram, sempre fomentou uma atmosfera de tensão que chegou a resultar em atrocidades institucionalizadas que ocorreram há menos de um século. Os exemplos são variados, e vão desde a desigualdade e da violência policial decorrente desses problemas às políticas de segregação racial que vigoraram até a década de 1960. Nesse contexto, não seria surpreendente a presença de grupos declaradamente defensores de uma política de segregação racial que busca realizar muito daquilo que foi propagado pelos ideólogos do nazifascismo nos meados do século XX.

Mas além da presença marginal de grupos terroristas como a Ku Klux Klan4, que tem uma longa história de influência nos EUA, essas ideologias hoje vigoram no mais alto escalão do debate público contemporâneo e, com o advento da internet, passaram a ganhar popularidade entre grupos dos mais variados perfis, o que,
inclusive, refletiu diretamente nas eleições norte-americanas de 2016. O fenômeno do ressurgimento do tribalismo e do identitarismo reacionário não é exclusivo da experiência estadunidense, muitos dos anseios que motivaram a campanha pelo Brexit5 no Reino Unido, que teve o referendo ocorrido também em 2016, foram cooptados pela narrativa de uma extrema direita ascendente. A correlação dos acontecimentos é atestada pelos próprios representantes de tais grupos, como afirmou Nigel Farage, conhecido militante da causa do Brexit e ex-líder do UKIP
(Partido pela Independência do Reino Unido) em debate organizado pelo Wall Street News: “Essa revolução de 2016 é algo que será estudado por séculos adiante, porque algo aconteceu em 2016 e o foi o renascimento do conceito de Estado nacional. E por décadas, o que vinham tentando fazer era construir novas forças artificiais de estruturas supra-nacionais”.6 A retórica contrária aquilo que é chamado por esses grupos de globalismo é um dos elementos basilares das teorias da conspiração que são comuns a esses movimentos. Não muito distante da situação brasileira em que, movido pela influência do ideólogo populista Olavo de Carvalho, há ocupando a cadeira do Ministério das Relações Exteriores um homem que diz que tem como objetivo “ajudar o Brasil e o mundo a se libertarem da ideologia globalista.”7

Se engana quem acredita que por detrás dessa agenda política reside um mero desapreço pelos processos de globalização e integração que passaram a ocorrer de forma mais efetiva desde a década 1990. Os pressupostos ideológicos que fomentam a ascensão e a força da nova direita populista tem, sobretudo, um pano de fundo de forte apelo a questão nativista e supremacista que é característico dos movimentos neonazistas contemporâneos. O ataque implacável as agendas universalistas são sobretudo instrumentalizadas e se relacionam com anseios mais obscuros.

Como já alertava Popper ao analisar os fundamentos ideológicos do totalitarismo de seu tempo, “de acordo com as modernas doutrinas totalitárias, o Estado como tal não é o fim mais elevado. Este é, antes, o Sangue, e o Povo, a raça. As raças superiores têm o poder de criar Estados. O mais elevado alvo de uma raça ou nação é formar um Estado poderoso, que possa servir como potente instrumento de sua auto-preservação.”8 A obsessão com o discurso isolacionista, a pauta
anti-imigratória, a rejeição ao multilateralismo, a retórica revolucionária e antiliberal que são características do novo “populismo conservador” convergem precisamente em uma ideia muito restrita do que o conceito de Estado nação representa.

O alinhamento do nacionalismo presente na ascensão desses atores políticos de forma conveniente tem sido associado com a propagação declarada de grupos explicitamente racistas e defensores de políticas de segregação. Não é, portanto, de se espantar que uma figura como David Duke, (um conhecido supremacista branco
ligado a KKK) elogia publicamente Jair Bolsonaro9, ou que o mesmo atribuía a vitória de Donald Trump a um momento de triunfo da sua agenda supremacista, como afirmou em entrevista ao El País: “nos identificamos com Trump, não especificamente pelo homem, mas pelo significado, os princípios”.10 A existência de radicais como Duke e seus discípulos, como apontado, nunca foi uma surpresa, o que espanta, todavia, é justamente a ascensão e a legitimação da mentalidade que sustenta essas narrativas a ponto de alterar significativamente o cenário político e transformar muitos dos pressupostos dessas aberrações ideológicas em algo popularizado e ativamente compartilhado por jovens no seio das redes sociais. É nesse sentido que se caracteriza a nova face do tribalismo da ideologia supremacista, que hoje ganha espaço inclusive até mesmo no interior dos dilemas políticos brasileiros.

A alt-right, ou direita alternativa, expressa de forma clara a representação dessa banalização que tem ocorrido frente a escalada cada vez mais evidente de
ideologias sombrias ao redor do mundo. A alcunha é atribuída a um movimento de extrema direita originário dos EUA e que se caracteriza por um certo padrão de militância virtual, bem como por uma rejeição às tradições conservadoras tradicionais. Além disso, a direita alternativa tem nas suas raízes uma ligação direta com a defesa de pautas supremacistas e associadas a grupos neonazistas. É o que fica evidente nos discursos e agendas dos principais nomes associados ao grupo, como no caso de Richard Spencer, criador do termo alternative right, presidente do National Policy Institute, e uma das referências do movimento, que afirma categoricamente que sua meta de vida é “criar uma consciência entre
europeus-americanos.”11

Essa “consciência racial” estaria intimamente ligada à defesa de uma ordem social organizada por fatores étnicos, como defende Jared Taylor, um dos principais
ideólogos do neonazismo estadunidense e uma das “referências intelectuais” da direita alternativa. Taylor defende em seu livro White Identity que a miscigenação e o convívio entre as diferentes etnias é a fonte de problemas sociais da sociedade norte-americana. Mais ainda, ele ousa afirmar que algumas etnias estariam mais propensas a apresentarem certos tipos de comportamento social desviante que outras, o que faria do convívio entre todas as “raças” algo ainda mais negativo.12

Taylor não apenas é um defensor assumido de teses supremacistas, como já descreveu em texto para o seu site American Renaissance, que a direita alternativa seria propriamente o surgimento de um movimento político que resgata a consciência de raça que teria sido abandonada pelos conservadores tradicionais.13 A consequência lógica e radicalizada resulta na defesa expressiva de um Estado étnico como modelo ideal de concretização da nação, o que explica a convergência expressiva com a agenda da extrema direita populista e sua plataforma nacionalista.

A retórica antiglobalista, o nacionalismo radical e a defesa de valores idílicos de um passado tido como glorioso acabam por estabelecer a tônica desses movimentos que possuem na raiz de suas ideologias a apologia de uma sociedade sectária e racialista.

Um dos maiores erros entorno das principais análises a respeito do surgimento “repentino” dessas forças políticas retorna novamente à ingenuidade cínica movida por convicções utópicas de que certos horrores podem ser definitivamente superados e de que os males que já foram presenciados não estão presentes na nossa realidade. Essa crença ilusória no progresso moral e político acaba se tornando um meio de fragilidade da sensibilidade contemporânea de conseguir
identificar seus próprios problemas. Males morais fazem parte da conduta humana e por mais que hajam avanços, eles são limitados e não absolutos. Entender essa realidade consiste em buscar compreender as fontes dos males dos nossos tempos a partir do contexto em que tais residem. O avanço da extrema direita que hoje espanta as elites políticas e intelectuais de grandes democracias não é de maneira alguma um fenômeno inconcebível em termos de possibilidade, menos ainda recente. A própria experiência totalitária do século XX não foi produto do nada, nem se quer representou uma espécie de contradição em termos históricos; no sentido de que, antes tudo, tais males foram produtos de vícios da própria modernidade e se apropriaram de tradições e elementos que já existiam na sociedade europeia naquele tempo.

O nazismo não produziu o antissemitismo, da mesma maneira que a nova direita não se constrói sem dialogar com demandas concretas da realidade vigente. Sua ascensão se quer pode ser traçada como ligeiramente recente, mas como um produto direto de certas contradições da ordem liberal globalizada que é ostensivamente apoiada por um centro democrático que por vezes peca em não conseguir lidar com essas contradições. Esse diagnóstico já foi percebido por Gray em ensaio escrito em 2002. no qual discutia a respeito de certos horrores paridos pela modernidade. Comentando sobre o surgimento da extrema direita europeia já naquele momento, Gray afirma: “o que eles têm em comum é que eles usam o deslocamento social produzido pelo livre mercado, o atual bastião da modernização, como combustível para uma nova política de identidade”.14

A identificação das mudanças sociais e do ethos produzido pela nova ordem globalizada como um dos principais elementos de explicação dessa guinada atual, questiona o utopismo liberal, que para Gray é, igual ao marxismo, uma religião política advinda do mito do progresso iluminista. Ancorado em um ideal de modernização ilimitada, essa nova utopia contemporânea, falha em termos de compreensão de certos elementos das relações sociais em torno de sentimentos mais básicos como o pertencimento comunitário e acaba demandando um desconstrutivismo que, em última instância, se torna preenchido pelos discursos
inflamados de radicais que questionam essa nova realidade. Isso sem contar fatores eminentemente econômicos que tocam em questões relacionadas a mudanças abruptas que afetam diretamente setores da sociedade, inclusive nos países mais avantajados. E não é preciso ser antiglobalização ou contra a economia de mercado para compreender essas imperfeições, não se trata de uma crítica dependentista ou neomarxista. Se refere a uma percepção de como mesmo os mais evidentes avanços em termos econômicos, tecnológicos e científicos não necessariamente
levam a um cenário de perfeição social e moral, às vezes pode ser até mesmo um dos fatores de crescimento de sérios problemas.

A construção do avanço do radicalismo crescente como resposta às desesperanças contemporâneas terminam por articular vícios antigos que permanecem como fantasmas comuns aos tempos atuais, da mesma maneira que Hitler se apropriou da linguagem viciosa do anti-semitismo, os vícios da direita populista contemporânea também fazem parte de uma linguagem que é incorporada, reconhecida e que reflete uma longa tradição de males morais que evidenciam. nos termos de Gray, “o lado sombrio da modernidade”.. É como analisa com brilhantismo o autor ao apontar que as propostas desses atores políticos que pregam a construção de um inimigo em comum (muitas das vezes incorporado na figura do imigrante), como resposta para os problemas sociais, se torna suscetível pela existência das “tradições europeias profundamente arraigadas ao racismo e a xenofobia”.15

Os males políticos de nosso tempo hoje se demonstram cada vez mais fortes e capazes de se adaptar às mais variadas realidade, em tempo que articula uma
linguagem de aparência palatável, popular e de fácil adesão a projetos de massa. Não apenas a Europa tem vivenciado o surgimento da ascensão de forças políticas que empregam uma linguagem totalitária, mas é no exemplo mais emblemático das experiências democráticas que os fantasmas do tribalismo ganham contorno cada vez mais pop. Não obstante, a realidade brasileira não se afasta dessa tendência, mas ao contrário, foi capaz de criar uma mimese fidedigna que, em tempos de
peste, não se contenta em apenas representar nos seus discursos o que há de mais sórdido e equivocado, promove, para além, uma política sistemática de banalização da morte e de negação da sacralidade da vida. Os males políticos dos nossos tempos são os mais variados, alguns dois quais eu sequer citei aqui, mas além do populismo barato que hoje manifesta o espírito tribalista do século XX, os resultados diretos dessa onda no contexto brasileiro não precisam ser concretizados na aplicação de um futuro golpe ou coisas do gênero, ele já se reflete na política oficial da peste e em um espírito de servidão que corrói o caráter de seus adeptos e resulta na expressão exata de uma atmosfera necropolítica.16

Não é a pretensão deste ensaio tentar resolver o problema do mal em política, muito provavelmente seria tola tal empreitada. O propósito é, acima de tudo, fornecer uma reflexão acerca justamente da permanência constante dessa realidade. A tradição cristã é enfática em afirmar que o caminho inevitável para a redenção e, portanto, para a capacidade de expurgo do mal, passa pelo reconhecimento da culpa. Só existe uma maneira de termos a capacidade de articular uma resposta aos males morais que afligem o cotidiano contemporâneo; não passa por nenhum “duro acerto de contas”, mas é através do reconhecimento de que esses males estão sempre a porta e que muitos deles são produtos direto dos nosso tempo e de nossos vícios pessoais. Os radicalismos de esquerda e de direita, o terrorismo fundamentalista, a corrupção, as desigualdades e as utopias ilusórias, para além de representarem a presença do trágico na nossa realidade, representam propriamente o que significa ser moderno. Que a consciência moderna de pretensa pureza moral e intelectual não nos impeça, contudo, de percebermos os males que nos assolam.

Referências:
1 GRAY, John N. Heresies: against progress and other illusions. UK: Granta UK, 2004, p. 8.
2 ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. São Paulo: Companhia das Letras, 1999, p. 242.
3 BURKE, Edmund. Reflexões Sobre a Revolução na França. São Paulo: Vide Editorial, 2017, p. 131.
4 Conjunto de três grupos reacionários originários dos EUA historicamente conhecidos pela defesa da supremacia branca e adeptos de práticas terroristas contra minorías étnicas e religiosas.
5 Referendo realizado no Reino Unido que deliberou no rompimento com a União Europeia
6 Declaração de Nigel Farage em um debate na University of Marylande, em Whasington DC, em Abril de 2018.
7 ARAÚJO – Ernesto – About Me – https://www.metapoliticabrasil.com/about – acesso em: 04 de Junho de 2020.
8 POPPER, Sir Karl R. A Sociedade Aberta e Seus Inimigos: volume 2. Belo Horizonte: ed. Itatiaia, 1974, p. 70.
9 IFANTE – Larissa – “Não estou apoiando Bolsonaro, apenas disse que gosto dele”, diz ex-líder da Ku Klux Klan –
h ttps://epoca.globo.com/nao-estou-apoiando-bolsonaro-apenas-disse-que-gosto-dele-diz-ex-lider-da- k u-klux-klan-23184362 – acesso em: 04 de Junho de 2020.
10 FAUS – Joan – David Duke, ex-líder da Ku Klux Klan: “Trump nos empoderou” –
h ttps://brasil.elpais.com/brasil/2017/08/19/internacional/1503174397_882413.html – acesso em: 04 de Junho de 2020.
11 LISSARDY – Gerardo – ‘Foi um momento de ironia’: líder supremacista branco explica saudação de ‘Hail, Trump’ a presidente eleito dos EUA – https://www.bbc.com/portuguese/internacional-38091016 – acesso em; 24 de Junho de 2018.
12 TAYLOR, Jared. White Identity: Racial Consciousness in the 21st Century. EUA. New Century Books, 2011, p. 65.
13 TAYLOR – Jared – What is the Alt-Right? –
h ttps://www.amren.com/news/2016/10/what-is-the-alt-right-jared-taylor/ – acesso em: 28 de Junho de 2018.
14 GRAY, John N. The Dark Side of Modernity: europe’s new far right. In: GRAY, John N. Heresies: against progress and other illusions. Against Progress and Other Illusions. Uk: Granta Uk, 2004. Cap. 20. p. 133.
15 GRAY, John N. The Dark Side of Modernity: europe’s new far right. In: GRAY, John N. Heresies: against progress and other illusions. Against Progress and Other Illusions. Uk: Granta Uk, 2004. Cap. 20. p. 135
16 Conceito desenvolvido por Achille Mbembe (2018), que consiste na definição do exercício da soberania e do poder do Estado como o direito de escolher deliberadamente quem deve morrer – uma política da morte, portanto.

Bibliografia

GRAY, John N. Heresies: against progress and other illusions. UK: Granta UK, 2004.

ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

BURKE, Edmund. Reflexões Sobre a Revolução na França. São Paulo: Vide Editorial, 2017.

POPPER, Sir Karl R. A Sociedade Aberta e Seus Inimigos: volume 2. Belo Horizonte: ed. Itatiaia, 1974.

TAYLOR, Jared. White Identity: Racial Consciousness in the 21st Century. EUA. New Century Books, 2011.

MBEMBE, Achille. Necropolítica. São Paulo: N-1 Edições, 2018.

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