[COLUNA] Uma lição de Kant aos olavistas – Mateus Maia

[COLUNA] Uma lição de Kant aos olavistas – Mateus Maia

“Esclarecimento é a saída do homem da menoridade pela qual é o próprio culpado.” — Immanuel Kant

Assim Immanuel Kant inicia seu ensaio “Resposta à questão: O que é esclarecimento?”, estabelecendo que Esclarescimento é a saída da Menoridade, que, explica Kant, “é a incapacidade de servir-se do próprio entendimento sem direção alheia”. E esta é culpa do próprio homem que pois “sua causa reside na falta, não de entendimento, mas de resolução e coragem de fazer uso dele sem a direção de outra pessoa”.

Nesse pequeno e poderoso atestamento, que reside ainda no primeiro parágrafo do ensaio, não é de possível imaginar que o filósofo, ainda que falecido em 1804, dialogue diretamente com os seguidores fiéis de Olavo de Carvalho do Brasil atual. Entre esses, a Menoridade é evidente; Olavo é a “outra pessoa” que, ainda que indiretamente — dada seu grau de influência já quase religioso — , dá direção ao uso do entendimento de seus súditos; e a culpa disso é de mais ninguém além dos próprio súditos, que são carentes de coragem para assumirem o protagonismo do próprio pensar, pois, como coloca Kant, “é tão cômodo ser menor”.

Há no espírito dessas pessoas uma verdadeira vocação às sombras; preferem, por inércia, esconderem-se na subserviência ao seu líder. Esse, por sua vez, exerce a função mais fácil de todas: comandar os que clamam por serem comandados. Com o tempo, a inércia passou a fazer esse trabalho por Olavo, que não precisa caçar a reputação de qualquer um dos seus alunos que o contradigue, como uma forma de punição para fazer posta a direção que deseja que eles sigam com seus respectivos entendimentos; o psicológico dos alunos passa a exercer essa função.

O olavista, por ser olavista, não questiona se a direção que lhe é imposta é a a da verdade; ele não se atreve à enxergar contradições quase aparentes para os que estão de fora da seita, pois lhe é conhecido que isso quebraria a inércia e a comodidade, colocando-o na posição de ser o único responsável pelo próprio pensar — que é um exercício de muito esforço. Esse medo do Esclarescimento imposto aos olavistas pode ser comparado à analogia feita por Kant no texto em questão:

“Após terem emburrecido seu gado doméstico e cuidadosamente impedido que essas dóceis criaturas pudessem dar um único passo fora do andador, mostram-lhes em seguida o perigo que paira sobre elas, caso procurem andar por própria conta e risco. Ora, este perigo nem é tão grande, pois através de algumas quedas finalmente aprenderiam a andar; mas um exemplo assim dá medo e geralmente intimida contra toda nova tentativa.”

Por conta disso, é muito improvável que um desses seguidores consiga, isoladamente, e através do exercício individual de seu espírito, livrar-se das amarras do olavismo. Porém, ainda há esperança para que esse grupo de covardes fuja da Menoridade que condenaram a si mesmos, pois

“mesmo dentre os tutores estabelecidos do vulgo, sempre se encontrarão alguns livre pensadores, os quais, após terem sacudido de si o jugo da menoridade, difundirão à volta de si o espírito de uma avaliação racional do próprio valor e a vocação de cada um de pensar por si mesmo.”

Aqui está a ponte para o Esclarescimento; o caminho possível para que os olavistas deixem para trás a subserviência intelectual. Visto isso, àqueles que aindam estão presos à Menoridade; subjugados intelectualmente por Olavo, o lema do Esclarescimento: “Ousa fazer uso de teu próprio entendimento!”, “Sapere Aude!”. Que eles tentem, com a força de seus espíritos, atingir o Esclarescimento e inspirar seus pares a buscá-lo também.

Publicado originalmente em: Além dos Fatos – Medium

Deixe uma resposta

Fechar Menu
Top