[COLUNA] Bolsonarismo: o culto terreno do recinto doméstico – Caíque Januzzi

[COLUNA] Bolsonarismo: o culto terreno do recinto doméstico – Caíque Januzzi

Bolsonarismo: o culto terreno do recinto doméstico

Caíque Januzzi

 

O Estado não é uma ampliação do âmbito familiar. E, muito menos, um agrupamento de vontades particularistas, da qual a família é a melhor representação. Não existe, entre o círculo familiar e o Estado, uma ligação. Existe, na verdade, uma oposição. O Estado e as suas instituições pertencem a ordens bem diferentes, em essência, da família; e só pela transgressão dessa ordem doméstica – mais do que familiar, afetiva – é que nasce o Estado e a noção de cidadania – a capacidade do indivíduo de assumir dever e contrair direitos.

A história nos ensinou que onde prosperou e assentou-se em bases muito sólidas, tão sólidas que subjugam o indivíduo, a noção de família – e principalmente a de tipo patriarcal -, tende a ser débil e a lutar contra intensas limitações a formação e evolução da sociedade, e do Estado Democrático de Direito, o Estado Liberal.

Essa gestão particularista é agravada por um fator sui generis. A única força política que o brasileiro conhece é o personalismo, como nos ensinou Sérgio Buarque de Holanda¹. Esse personalismo, somado ao homem cordial, é a fonte do populismo que assola nossa terra. O brasileiro, pela extrema cordialidade, precisa se sentir próximo de alguém que detêm algum tipo de poder. Isso se revela desde relações do dia a dia – como o emprego do sufixo “inho” a pessoas recém conhecidas – até as relações religiosas, e a política tornou-se um culto. Explico.

Adotarei, como exemplo, a Santa Teresa de Lisieux. O estimado leitor deve estar se perguntando: “que diabos – literalmente – de santa é essa?” Caro leitor, lhes apresento o nome de “batismo” da nossa terrena e intima Santa Teresinha. Essa aproximação do santo ao terreno nos faz sentir como amigos da santa e, talvez por isso, nossas preces serão atendidas com maior facilidade.

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