[Coluna] Manifestações no Chile – Caique Januzzi

[Coluna] Manifestações no Chile – Caique Januzzi

I. INTRODUÇÃO

 

Este artigo não será uma visão econômica do regime chileno. Não entrarei na falha ou não do Liberalismo. Há artigos mais que suficientes para isso. Me aterei na forma em que o projeto econômico foi colocado em prática e, por consequência, uma visão da origem dessas manifestações.

 

II. CHILE ANTES DE PINOCHET

 

II.I A ELEIÇÃO DE ALLENDE 1970

Para entendermos a realidade social dos chilenos devemos entender a origem do liberalismo nesse país.

Antes do golpe de Pinochet, em 1973, o país dos Andes era governado por Salvador Allende. Sim, o Chile era governado por um socialista – Allende foi fundador do partido socialista chileno – em época de Guerra Fria; período no qual os EUA estavam fortemente preocupados em manter sua hegemonia na América – ainda mais após perder Cuba para os soviéticos – e no ocidente, de forma geral.

A eleição de Allende em 1970, contou com 36,63% dos votos. Não foi majoritária, mas ficou à frente com aproximadamente 2% de vantagem em relação ao candidato da direita chilena. Como a Constituição chilena previa a necessidade de “maioria dupla” (no voto popular e no Congresso), complexas negociações foram entabuladas para a aprovação do nome do eleito no parlamento.

O Chile dos anos 70 se parecia muito com o Brasil pré-64. E o resultado não podia ser diferente, houve uma intervenção militar, mas com um agravante: a cultura chilena. Uma cultura marxista explodia com uma radicalidade que, como dizia Victor Jara*, “não era apenas música de protesto, mas música popular que nascia da identidade compartilhada com o povo e suas lutas. E se a esquerda abraçou o povo e seus anseios, o povo abraçou as bandeiras da esquerda e o socialismo tornou-se um fenômeno de massa” [1]. 

II.II AUGUSTO PINOCHET

E foi nesse cenário – no mínimo, conturbado – que Pinochet tomou o poder e se manteve por meio de uma ditadura.

Ao alcançar o poder, o ditador adotou medidas econômicas liberais, sim. Colocando especialistas da famosa escola de Chicago à frente do projeto econômico. Privatizações, desregulamentações, livre concorrência etc. Tudo isso aconteceu durante o governo de Augusto. E por causa dessas atitudes – devo ressaltar – hoje em comparação com os países da América Latina, segundo a ONU, o Chile tem o maior IDH, maior salário médio e a melhor posição no rank do PISA.

Apesar das lições econômicas dadas pelo Chile, fica claro que o ditador Pinochet se esqueceu de um dos primeiros e fundamentais ensinamentos do expoente da escola de Chicago, Milton Friedman com sua ideia de não existir liberdade econômica sem liberdade individual. E caro leitor, “a liberdade econômica é uma condição essencial para a liberdade política” (FRIEDMAN, 2017. p. 23) Liberdade esta que não existia na ditadura chilena.

Por causa disso e outros fatores, podemos dizer que o liberalismo chileno foi forçado? Sim, podemos. O sistema foi implementado na base da força, com um regime ditatorial que torturou aproximadamente 40 mil civis, deixando 3 mil mortos [2]. Quem discordava do sistema era, literalmente, atirado de helicópteros.

Além disso, o país passava por um período cultural tomado pelo marxismo. O que, sem dúvidas, era um problema para a implementação do projeto político-econômico do ditador. O lado social e o imaginário da população, eram tomados como grandes inimigos de Augusto Pinochet. Visando acabar com essa resistência cultural, durante o período da ditadura, foram queimadas dezenas de bibliotecas que, em 1988, ele admitiu ter incinerado cerca de 15 mil livros. Atitude que ficou conhecida como Genocídio Cultural.

III. O PROBLEMA

 

Tendo explicado como o projeto liberal foi posto em prática (à força) no Chile, vamos buscar como as manifestações atuais são consequências dessa imposição.

Como apresentado acima, a população chilena foi obrigada a abrir mão da sua cultura que, naquele momento, era marxista. Um erro tremendo, como ensinado por Montesquieu, “devemos alterar o que é das Leis pelas Leis e o que é dos costumes pelos costumes” (MONTESQUIEU, 2014. p. 413). Qualquer alteração dos costumes pelas leis, causa um colapso social cedo ou tarde.

E é isso que vemos hoje no Chile, um colapso da cultura com o sistema liberal. Vemos o reflexo da imposição feita por Pinochet. É uma economia de mercado que tem sua base em uma sociedade marxista. São extremos antagônicos que foram colocados lado a lado abraçados. A consequência é clara: manifestações progressistas na capital.

IV. AGRAVANDO A CRISE

 

IV.I EFICÁCIA ECONÔMICA

Sim, é isso que vocês estão lendo: o alto desempenho econômico agravou e impulsionou a crise, principalmente na capital, Santiago. Explico, o preço dos aluguéis na capital dispararam graças ao interesse de novas empresas que ali se instalaram. O preço disparou de tal forma que o considerável aumento da renda média chilena não conseguiu acompanhar.

Ok, admito o bait. Não foi o liberalismo que falhou nesse caso dos aluguéis. O Chile, em 2007 [3], criou incentivos para capital estrangeiro no país. Dessa maneira, atraindo investidores e distorcendo o preço do aluguel. O cidadão, natural da capital, passou a se sentir um intruso na própria cidade, sendo obrigado a ir para o interior.

IV.II O CAOS DA PREVIDÊNCIA

A previdência chilena foi privatizada; um sistema de capitalização puro. Fato. Contudo, no seu processo de reforma foram cometidos alguns erros do tipo: pouco tempo – praticamente nenhum – de transição; não levou em conta a renda da pessoa, ou seja, não colocou nenhum piso mínimo de renda. Mais uma vez, os liberais da ditadura latino-americana não consideraram o livro aqui já citado, Livre para Escolher de Milton Friedman, no qual o autor fala, explicitamente, sobre um piso para a aposentadoria.

 

V. CHILE VS. BRASIL

 

Tendo apresentado os fatores que contribuíram para a convulsão social em Santiago, vamos agora fazer uma breve comparação com o Brasil. Afinal, pessoas ligadas ao governo brasileiro estão com medo que a esquerda tupiniquim tente reproduzir o caos dos nossos vizinhos, claro que sempre guiados pelo Foro de São Paulo.

Como já ficou claro, o liberalismo chileno chegou ao poder por meio da força, sem a aprovação e consciência popular. Já no Brasil, a direita – tanto conservadores quanto liberais – chegou ao poder por meios legítimos: as eleições. A população brasileira foi às ruas – desde 2014 – clamando por uma alteração no status quo. Desejo que encontrou sua realização nas ideias liberais de redução da máquina pública, privatizações, livre concorrência, reformas estruturais etc. Assim como nas ideias conservadoras antirrevolucionárias, de respeito às instituições, prudência etc.

Tais manifestações resultaram no Impeachment da então presidente Dilma Rousseff e, em 2018, na eleição de Jair Bolsonaro. Além disso, tais manifestações criaram uma espécie de “anticorpo” revolucionário na sociedade civil organizada. A população brasileira passou a entender que as vias institucionais são os meios de alterar a sociedade de forma permanente. Comprovado pelo repúdio da maioria dos grupos organizados à declaração – vergonhosa – de Eduardo Bolsonaro apoiando um novo AI-5.

Diferentemente do Chile, o Brasil está rumando para um governo de economia liberal, porém, com um respaldo na população, na cultura e no imaginário das pessoas. Conquistado pela maturidade política, adquirida graças à participação popular.

Se o Brasil corre risco de sofrer com manifestações parecidas com as do Chile? Duvido muito, nós alteramos pelos costumes o que deve ser alterado pelos costumes. E assim, vamos alterar pelas leis o que deve ser alterado pelas leis.

* Víctor Lidio Jara Martínez (San Ignacio, 28 de setembro de 1932 — Santiago, 16 de setembro de 1973) foi um professor, diretor de teatro, poeta, cantor, compositor, músico e ativista político chileno.

  

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

[1] IASI, M. Chile e a Experiência do Poder Popular. Disponível em: <https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Politica/Chile-e-a-experiencia-do-Poder-Popular/4/28538>. Acesso em 3 de Novembro de 2019.

[2] PALACIOS, A. 10 Coisas que você não sabia sobre a ditadura de Pinochet. Revista Época. Disponível em: <https://epoca.globo.com/10-coisas-que-voce-talvez-nao-saiba-sobre-ditadura-de-pinochet-23054621>. Acesso em 3 de Novembro de 2019. 

[3] Chile concede incentivo para capital externo. Monitor Digital. Disponível em: < https://monitordigital.com.br/chile-concede-incentivo-para-capital-externo>. Acesso em 3 de Novembro de 2019.

FRIEDMAN, M. Livre para Escolher. Uma reflexão sobre a relação entre liberdade e economia. Editora Record, 4ª Ed. 2017. 

MONTESQUIEU. Do espírito das Leis. Editora: Martin Claret. 2ª reimpressão. 2014.

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