[Coluna] Caos no Chile: Brasil está seguindo os mesmos passos? – Guilherme Machado

[Coluna] Caos no Chile: Brasil está seguindo os mesmos passos? – Guilherme Machado

Recentemente, os noticiários do mundo inteiro direcionaram seus olhos para um único evento: o tão glorificado modelo chileno colapsou! Ou, pelo menos é o que os comentaristas e as pessoas dizem por todos os lugares e veículos de informação. Após constantes elevações nos preços de bens sensíveis a população – mais importante dos quais, no contexto chileno, o das passagens de metrô –, reuniram-se nas ruas, com cartazes e vozes de protesto, diversas pessoas, buscando uma atitude do governo quanto a um problema muito maior que os 3.7% de aumento nas passagens: a desigualdade.

O que começou com apenas protestantes, reivindicando seus direitos nas ruas e praças, terminou com perseguição, mortes e um caos nacional. No dia 19 de Outubro, o general Javier Iturriaga – principal representante da Defesa Nacional chilena – declarou um “toque de recolher” na cidade de Santiago, capital do Chile, e posteriormente em mais focos de protesto. O governo também não teve um papel decente em apaziguar a situação, haja vista o Ministro da Economia, por conseguinte a cuja absurda declaração pública os protestos mudaram completamente seu teor, e deixaram de ser pacíficos. Por um lado, vandalismo, assaltos e rebelião; por outro, mais repressão vinda do Estado chileno. A situação chegou a um ponto em que o presidente do Chile, Sebastián Piñera, declarou estado de emergência nas cidades onde havia maior violência – incluindo Santiago. Logo após a declaração de estado de emergência, a maior e mais brilhante “estrela” da América Latina esmaeceu-se por completo.

O neoliberalismo atingiu o fim do seu intrínseco ciclo: o fim dos direitos civis – bem expressos na ditadura de Augusto Pinochet –, o economicismo elitista dominante no governo – na influência dos Chicago Boys sobre a política econômica chilena – e, por fim, porque é assim que o capitalismo funciona, o colapso do modelo. Disso a reação da mídia, especialmente a brasileira, não poderia ser diferente. Composta de exageros, simplificações e confusões, logo o fenômeno do “fracasso” chileno foi associado ao Ministro da Economia brasileiro, Paulo Guedes, que, no ideário dos noticiários brasileiros, quer levar o Brasil para este mesmo caminho.

Sim, o Chile tem graves problemas de desigualdade. Apesar da maior prosperidade econômica lograda diante de seus outros vizinhos latinos, o Chile tem uma desigualdade muito maior que a dos outros países da OCDE, cujo grupo integra. Há alguns anos, os problemas com a previdência – que paga, em alguns casos, apenas metade de um salário mínimo – geram desgosto na população. Os serviços de saúde são ruins e a educação não está numa situação favorável. Todos esses fatores são resumidos na posição 26 do Chile no Ranking Mundial de Felicidade, que demonstra insatisfação generalizada entre seus habitantes. O aumento nos preços das passagens, a reação violenta aos protestos e o baixo decoro do governo para com seus habitantes foram, em conjunto, a gota d’água para a eclosão dos protestos hoje vistos.

No entanto, associar tais eventos e características particulares ao que seria “desejável” pelo governo brasileiro seria, na melhor das hipóteses, uma análise equivocada de como as coisas são. O primeiro erro nessa visão é a de assumir que a desigualdade no Chile é uma consequência necessária do neoliberalismo. Milton Friedman, um dos economistas que mais discutiu programas de imposto de renda negativo – semelhantes ao bolsa família – enquanto formas de lidar com a desigualdade e a pobreza, estivesse vivo para ver culparem-no pela desigualdade chilena, decerto se enfureceria.

Não se pode esquecer que os ditos Chicago Boys tiveram mínima influência direta nos rumos dos programas sociais e em alguns setores da política econômica chilena. Afinal, Augusto Pinochet era um ditador, e são os ditadores que decidem o que será ou não feito. Por seu teor autoritário, era esperado que o governo tivesse uma mínima ou nula preocupação com as camadas marginalizadas da sociedade. O erro está em associar um problema relacionado a um ditador e ditadores em geral; o maior contato que Friedman teve com Pinochet foi uma conversa de 45 minutos – com um conjunto de medidas econômicas para combater problemas como inflação. É perfeitamente possível conciliar responsabilidade fiscal, controle da inflação e liberdade econômica com programas que busquem reduzir a desigualdade de renda. Dois exemplos clássicos são os países escandinavos e a Austrália.

O segundo erro nessa análise, mais especificamente um excesso, é dizer que o Chile fracassou. Não! O Chile definitivamente não fracassou. Apesar de seus problemas, em termos gerais, o Chile é, não só quando falamos de indicadores macroeconômicos, mas também em qualidade de vida para as pessoas, um dos melhores, se não o melhor, país da América Latina para se viver. Se em alguma coisa fracassou, fracassou em deixar o viés, contrário a programas de assistência social, herdado da ditadura de Augusto Pinochet; fracassou em estabelecer um contato mais pacífico e cauteloso com seu próprio povo; fracassou em ouvi-lo. Há um medo de que o Chile esteja dando uma guinada ao populismo típico do Brasil e Argentina, mas, particularmente, acho-o exagerado. Transformações sociais dessa magnitude não acontecem de um mês para o outro.

Jair Bolsonaro e Paulo Guedes querem, e conseguiram, junto com o forte apoio das bases do governo, encaminhar e implementar algumas reformas importantes, como a previdenciária e a MP da Liberdade Econômica – essas, principalmente a previdência, muito criticadas pela população brasileira. De um lado temos os “liberais” dizendo que o povo chileno está errado e reclamando de “boca cheia”; do outro, temos a “esquerda” dizendo que o Brasil vai imitar tudo aquilo que há de ruim no Chile, quando nos há, na verdade, muito de melhor bem na nossa frente.

O sucesso chileno mostra-nos de perto as políticas econômicas necessárias para o crescimento de um país; já os protestos, por sua vez, quais atitudes e políticas o governo deve tomar para desenvolvê-lo – (atenção para a diferença entre crescimento e desenvolvimento). Uma experiência ótima, vizinha a nós, com altos e baixos, e ainda as pessoas preferem fazer polarizações exageradas sobre política, em vez de aprender como podemos mudar a nossa realidade com base no que sabemos da realidade alhures.

Ainda é cedo para tecer conclusões sobre os protestos no Chile, e mais cedo ainda para conjecturarmos quais serão as medidas do governo chileno daqui para frente. Quanto ao Brasil, antes tarde do que nunca, temos a oportunidade de aprender com a experiência de um país, cuja origem muito se nos assemelha. Deixaremos, mais uma vez, o espetáculo tomar o lugar do pragmatismo?

 

REFERÊNCIAS:

Days and nights of rage in Chile. The Economist, 24 de out. de 2019.

Riots after a fare increase damage Chile’s image of stability. The Economist, Santiago, 20 de out. de 2019.

EDWARDS, Sebastian. Left Behind: Latin America and the False Promise of Populism. University of Chicago Press, 2012.

www.worldhapiness.report

 

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