[Coluna] As manchas de óleo, omissão e conspiracionismo: o que o governo tem feito a respeito do maior desastre ambiental da história do litoral brasileiro – Mateus M. Maia

[Coluna] As manchas de óleo, omissão e conspiracionismo: o que o governo tem feito a respeito do maior desastre ambiental da história do litoral brasileiro – Mateus M. Maia

Desde o fim de agosto, o Nordeste brasileiro registra o aparecimento de óleo no litoral. A origem ainda é obscura. Ao que tudo indica, o petróleo é originário de um ou mais vazamentos em alto-mar. Essa conclusão vem de simulações feitas pelos pesquisadores Ilson Silveira e Fernando Camilo Barreto, que se baseiam no comportamento das correntes marítimas para buscar uma provável origem para o desastre, a qual aparenta estar localizada até 400 km da costa. Outra pesquisa, realizada por pesquisadores da Noaa (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA) e da Universidade de Miami, utilizou técnicas usadas em buscas de restos de avião para identificar os pontos iniciais de vazamento e chegou à conclusão de que pode haver mais de um foco inicial.

Todas essas iniciativas nos levam a pensar uma coisa: onde está o Governo Federal nessas mobilizações? Omisso – ou pregando que foi um golpe “criminoso” da Venezuela. Até mesmo na hora de limpar as praias, cidadãos independentes parecem agir com mais veemência para contornar a situação. E, ironicamente, em abril deste ano, o presidente Jair Bolsonaro comemorou a extinção de uma série de comitês federais administrativos, o que incluiu dois conselhos presentes no Plano Nacional de Contingência para Incidentes de Poluição por Óleo em Água (PNC).

A situação é tão grave que o Ministério Público Federal entrou com uma ação contra o governo por “omissão diante do maior desastre ambiental da história do litoral brasileiro” e pediu que fosse ativado um plano de contingência em 24 horas com multa de 1 milhão de reais diários para a não execução.

Tudo isso expõe um dos maiores podres desse governo: a política do “se importar com não se importar com o meio ambiente”, como bem pontuou o biólogo e youtuber “Pirula”. Ao invés de se mobilizar de fato para tentar conter a chegada de óleo no litoral, limpar as praias devidamente e investigar as origens mais acentuadamente, o presidente Jair Bolsonaro e o ministro Ricardo Salles preferem focar no fato de que o petróleo é venezuelano e tentar lucrar politicamente com a situação, deixando a encargo do azar a resolução dos prejuízos econômicos sofridos pelas regiões atingidas pelo desastre e colocando em risco a voluntariosa população que apela para a força própria para tentar limpar as praias, mesmo sem o devido preparo e equipamento.

Tudo bem, ao que tudo indica o petróleo é, de fato, venezuelano, mas isso não significa que foi um ato “criminoso” de Maduro ou coisa do tipo. Como supracitado, as pesquisas – independentes do governo, diga-se de passagem – indicam que esse petróleo veio do alto-mar, o que significa que o(s) navio(s) pode(m) não ser venezuelanos, mas de qualquer outro país que esteja transportando-o. Além disso, qual seria o interesse da Venezuela em vazar criminosamente esse óleo? Incriminar Bolsonaro para piorar sua visibilidade internacional? Maduro seria tão ingênuo em pensar que não descobririam que o petróleo é venezuelano? Quase impossível. O discurso dos líderes brasileiros soa conspiracionista e oportunista, quando deveria soar acolhedor, preocupado e determinado.

Ao que parece, nosso presidente e ministro do meio-ambiente estão mais interessados com seu próprio joguinho geopolítico do que com a tragédia ambiental da magnitude como a que ocorre no litoral nordestino. Assim como foi nas queimadas da Amazônia, preferem a verborragia, as inverdades, a despreocupação e o egoísmo, à mobilização, comprometimento, senso público e determinação. O governo Bolsonaro é omisso na hora de defender o nosso meio ambiente, mas muito presente na hora de atacar e conspirar acerca de seus inimigos políticos. Para eles, mais vale uma vitória política qualquer do que o nosso patrimônio ambiental.

Deixe uma resposta

Fechar Menu
Top