[Coluna] Cinema e moralidade: o caso Coringa – Ed N. Braga

[Coluna] Cinema e moralidade: o caso Coringa – Ed N. Braga

A essa altura é bastante óbvio que o maior debate em relação a Coringa (2019, dir. Todd Phillips) diz respeito ao caráter moralmente controverso do longa. A subversão seria facilmente desculpável, já que trata-se de um filme de origem sobre um dos maiores vilões do universo dos quadrinhos. Mas o desdobramento dramático do tema e a construção da encenação pegaram alguns espectadores desprevenidos. Cenas de insurreição, homicídio, matricídio e depredação eram por vezes acompanhadas pelo glamour de uma câmera em slow motion ou por canções de Frank Sinatra e Gary Glitter, que vestiam a decadência niilista da trama com um manto de faceirice inconsequente.

Afinal, por que os realizadores não se preocuparam em tornar mais explícito um juízo negativo de valor em relação a esses comportamentos patologicamente perigosos, violentos e imorais? Poderia o filme justificar e incentivar reações perigosas em certos grupos da sociedade (os incels sendo o exemplo mais citado), que ao se identificarem com o comportamento errático do protagonista e de seus “seguidores” sairiam por aí transformando o mundo real numa verdadeira Gotham City? Filmes clássicos como Laranja Mecânica (1971, dir. Stanley Kubrick) e o recente A casa que Jack construiu (2018, dir. Lars von Trier) nos propuseram questões semelhantes.

Antes de mais nada, parece-me claro que a resposta não é a censura. É consenso em pesquisas acadêmicas de psicologia o fato de que seres humanos sentem-se mais atraídos por aquilo que lhes é proibido. Mas se não podemos (e creio que nem devemos) apelar para proibições, como lidar moralmente com o comportamento reprovável que é jogado diante de nós na tela do cinema?

Essa questão faz parte de um antigo debate acerca das relações entre a arte e a moralidade. Em sociedades e épocas mais antigas a arte muitas vezes era usada como um veículo de sofisticação da moralidade (o pretexto ético da Ilíada de Homero, e a poesia hebraica bíblica são exemplos emblemáticos). A posição oposta expressa-se, por exemplo, na emergência das vanguardas modernistas no final do séc. XIX e início do séc. XX, nas quais frequentemente o caráter moralmente subversivo da obra de arte era tido como demonstração de gênio e originalidade.

De acordo com os filósofos britânicos Berys Gaut [1] e Matthew Kieran [2], o ringue dessa disputa é, grosso modo, dividido em três cantos: no primeiro estão os autonomistas, defensores da ideia de que os fatores estéticos e morais das obras de arte são totalmente independentes um do outro, e assim, um defeito moral numa obra jamais é um defeito estético; no segundo e terceiro cantos, ambos os lados afirmam que, ao menos às vezes, defeitos morais numa obra de arte são sim esteticamente relevantes; a diferença é que os chamados contextualistas afirmam que esses defeitos podem ser relevantes tanto de forma positiva quanto negativa, enquanto os moralistas argumentam que o são sempre de forma negativa.

Considero-me um adepto da tese moralista. Penso que um dos motivos que faz com que as boas obras de arte sejam tão preciosas para nós é o de que nossa consciência é afetada de forma cognitivamente recompensadora quando nos lançamos a uma análise interpretativa, racional e afetiva do que essas obras representam e expressam, tanto na complexidade de sua forma quanto na profundidade de seu significado. A experiência estética que temos dessas obras não apenas nos emociona e nos questiona, mas também, de alguma maneira, nos engrandece. Por isso creio que esse contato com boas obras de arte é de importância especial para nosso aprendizado social e moral. A infinitude de significados do sorriso em La Gioconda, a complexidade abismal do ciúme em Dom Casmurro, e o assombro do ser humano perante a amplitude do universo em 2001: Odisseia no Espaço exemplificam formas complexas de compreender o mundo e nosso lugar nele, às quais acredito que jamais teríamos acesso se não através de boas obras de arte.

Mas como Coringa entra nisso tudo? Será que a posição moralista não torna necessário que o filme seja completamente descartado por conta de sua instância ética questionável? Acredito que não, especialmente porque os méritos de qualquer obra cinematográfica não estão apenas na história narrada por ela, mas também no contexto no qual essa obra está inserida e na estrutura da encenação usada para desenvolver seu material temático. É esse o ponto onde se manifesta um dos fatores propriamente definidores da arte: a impossibilidade de separarmos o quê (aquilo que é mostrado) do como (seu modo de apresentação).

Todd Phillips, em entrevista sobre o processo criativo de Coringa [3], enfatizou sua intenção sistemática de criar um filme, antes de tudo, ambíguo e desconfortável. Nesse aspecto, o diretor obteve um sucesso louvável. O caráter misto de comédia e tragédia, a função ao mesmo tempo política e não-política do protagonista, os fatores internos e externos de seu processo de transformação, seu riso misturado com uma estranha asfixia, a raiz ao mesmo tempo social e neurológica de seus sintomas, e a fúria dos motins (ao mesmo tempo insana mas aparentemente legitimada pela opressão) são exemplos de como a temática do filme desafia um juízo moral único e tachativo. Por sua vez, as ilusões de ótica criadas pelas escadarias inseridas como forma de desestabilizar o cenário, a trilha sonora a oscilar entre uma crueza solitária e uma urgência orquestral, o papel vibrante da iluminação em cenas de conteúdo sádico e sombrio, bem como sua quase ausência em cenas de conforto familiar e doméstico, são mostras de como o desconforto da ambiguidade também foi o elemento primordial na construção da encenação.

Ao transformar a ambiguidade em um princípio criativo, penso que o filme não permite que se manifeste em sua própria estrutura um juízo concreto e exaustivo de valor sobre aquilo que é mostrado em tela. Assim, Coringa não nos convida a aprovar de forma absoluta aquilo que Arthur Fleck ou seus “seguidores” fazem, nem a condenar por completo suas razões. Se por acaso alguém que assistiu ao filme escolhe a primeira opção, podemos apontar para os elementos da obra que abrem margem para a responsabilidade moral e individual que os personagens deveriam ter levado em conta antes de agir no calor da revolta. E se por acaso alguém escolhe a segunda, podemos mostrar-lhe como o contexto sociopolítico esmagador de Gotham legitimava de alguma maneira a indignação inicial dos palhaços.

A posição moralista olharia para a história do Coringa de forma sensível aos motivos que levaram à sua resposta insurrecionista contra aqueles que enxergava como sendo os culpados por sua desgraça, mas deslegitimaria completamente a violência e o niilismo dessa resposta. E acredito, inclusive, que esse deve ser exatamente o nosso juízo em relação às situações sociais concretas nas quais se vê uma indignação legítima contra uma realidade ilegitimável sendo usada como pretexto para um desejo cego de destruição. Em resumo, relativizar ou ignorar completamente nossas preocupações morais em relação à arte seria uma distorção do modo como, naturalmente, lidamos com ambas.

Joaquin Phoenix (ator que interpreta magistralmente o protagonista do filme) pode estar, em certa medida, errado ao dizer que não é “responsabilidade do cineasta ensinar moralidade ao público”. Mas o sentimento que provoca sua afirmação é mais do que legítimo, fruto da indignação contra uma época na qual a riqueza semântica da arte é atacada por ideologias das mais diversas partes do espectro político, que buscam adequá-la a seus propósitos propagandísticos. O aborrecimento recente do diretor Martin Scorcese com os filmes da Marvel (acusados por ele de se parecerem mais com atrações de “um parque de diversões” do que com um verdadeiro cinema “narrativo”) ecoa outra preocupação legítima, dessa vez com a domesticação da arte pela estrutura mercadológica da indústria cinematográfica.

Coringa não faz uma coisa nem outra, e penso que seja esse o seu principal mérito. Apesar de não ser um filme absolutamente original ou inovador, sua inserção no contexto de blockbusters formulaicos sobre super-heróis é uma adição bastante positiva que, eu espero, servirá para amadurecer o público. É uma obra que nos lembra que é necessário ir ao cinema com pretensões maiores do que a de se expôr ao mero entretenimento de um banquete visual de sangue, miséria e explosões. Com o papel moral da arte tornando-se refém de ideologias, um filme ousado o suficiente para levantar questões atualíssimas concernentes a esse papel é mais do que bem-vindo. Para Arthur Fleck, “o mundo está ficando mais louco”, e é irônico que justamente uma obra sobre a loucura exija de nós um nível tão incomum de lucidez neste debate.

 

REFERÊNCIAS

[1] GAUT, B. Art and ethics. In: The Routledge companion to aesthetics (org. GAUT, B & LOPES, D). Londres, UK: Routledge, 2013.

[2] KIERAN, M. Art and Morality. In: The Oxford Handbook of Aesthetics (org. LEVINSON, J). Nova Iorque, EUA: Oxford University Press, 2003.

[3] Vanity Fair. Joker Director Breaks Down the Opening Scene. 2019. Disponível em <https://www.youtube.com/watch?v=awoQuVq2yYc>. Acesso em: 10 out. 2019.

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