A transição da Al-Qaeda do Iraque ao Estado Islâmico do Levante e do Iraque – Gabriela Santos Silva

A transição da Al-Qaeda do Iraque ao Estado Islâmico do Levante e do Iraque – Gabriela Santos Silva

INTRODUÇÃO

 

Para entendermos o avanço islâmico e sua linhagem fundamentalista, no livro “A fênix islamista: o Estado Islâmico e a reconfiguração do Oriente Médio”, a autora e especialista em terrorismo, Loretta Napoleoni, irá retratar o motivo que desencadeou a formação do Estado Islâmico, e o processo de fundamentalismo na região que fomentou um novo cenário a partir da globalização, bem como da instabilidade sociopolítica e econômica no Iraque.

Essa autora esclareceu que a movimentação pelo poder que aderiu ao nome de Estado Islâmico, foi frenética. O grupo vinha desde 2001 mudando de nomes até se concretizar em 2014, no qual foi reconhecido e que se tem exclusivamente por Abu Bakr al-Baghdadi, o califa autodeclarado dessa organização e de todos os muçulmanos. O papel desse líder seria um enigma que deveria ser decifrado pelas próprias organizações islâmicas.

Não é de se impressionar que o processo de recrutamento ocorreu através das redes sociais e pela comunicação, que ao longo do tempo foi tomando medidas de ocorrência no Twitter e Facebook com sua propaganda salafista, que atraiu vários combatentes para a linha de frente por uma causa que não estava no seu seio. Porém, várias casualidades irão contribuir: sua formação, governos com uma liderança forte do ocidente e a corrupção interna entre grupos. Essa expansão foi essencial para que as organizações internacionais observassem uma nova onda de terrorismo vista como “moderna”.

Uma relutância veio à tona quando houve a proclamação do califado. Para a mídia australiana era preferível pronunciar “Grupo de Estado Islâmico”, para que não houvesse uma imagem delimitada territorial, pois não era observado de prelúdio como uma organização “terrorista”, mas sim algo legitimado por intermédio do conflito, por meio da conquista.

É, por sinal, uma questão confusa relacionar o processo do terrorismo, visto que não há um consenso entre os intelectuais e os organismos internacionais, tanto para obter uma visão que difere da religião quanto sobre a compreensão mais rigorosa do Corão. Esses grupos formaram-se através da incapacidade dos governos, mas também da presença nítida do ocidente. a luta será observada pela população mundial em 2001 com o ataque feito pela Al-Qaeda, contra o Pentágono e, o mais conhecido, contra as torres gêmeas do World Trade Center.

Logo depois, os Estado Unidos iriam lançar a Guerra contra o Iraque, que consequentemente fracassaria, estabelecendo novas diretrizes da luta contra o secularismo que seria eclodida em 2014 em quatros anos de guerra na Síria. Não é de se espantar que a Guerra contra o terror, nada mais foi que um fracasso ocidental, como no Afeganistão, Iraque e por fim, a Síria.

Durante a incursão no Afeganistão, os Estado Unidos financiaram grupos afegãos para liderar o avanço contra as tropas soviéticas que se instalaram na região. O financiamento dos mujahidin para balancear e ter o controle geopolítico sobre esse território, significava poder, já que no contexto se passava por uma Guerra Fria. Após seu fim, iria nascer a insondável Al-Qaeda. Dito isso, não podemos desmerecer o papel do Paquistão e Arábia Saudita para a formação dessa nova organização jihadista que, mais tarde, empreenderiam esforços econômicos para deter o monstro que eles próprios ajudaram a criar.

Do nascimento da Al-Qaeda, outros grupos iriam surgir, estes com uma visão mais radical que o primeiro; e filiações começariam a contornar o Oriente Médio. Seria basicamente o “engendramento” de grupos jihadistas na região, buscando domínio em cada fronteira a partir do avanço estadunidense no Iraque.

Analisaremos a Tawhid al-jihad para Al-Qaeda do Iraque tendo seu califa, Abu Musab al-Zarqwai que, depois que saiu da prisão, destinou-se para o Afeganistão para combater como mujahidin, porém, chegou tarde para o confronto.

Antes do evento terrorista nos EUA, Abu Musab tinha se encontrado com Osama Bin Laden, o fundador da Al-Qaeda, na cidade de Candaar, Afeganistão. O objetivo do encontro era a junção, porém ele se recusou a entrar para essa organização, já que seu objetivo estava na Jordânia, onde por meio do ataque, iria obter o meio de criar um governo verdadeiramente islâmico. de primeira instância liderava a Tawhid Wal-Jihad (Organização do Monoteísmo e do Jihad), logo mobilizou-se para o Iraque, onde preparou uma ofensiva por intermédio de homens-bomba para atacar a população xiita, um dos quesitos que preocupava a Al-Qaeda.

Sua principal tática era por meio de missões suicidas; entre agosto de 2003 até 2004, ocorrerá a aproximação de Al-Zarqawi com Osama Bin Laden, na qual Zarqawi será considerado por Osama o novo chefe do grupo. De Tawhid vamos ter a transição para Tanzim Qaidat al-Jihad fi Bilad al-Rafidayn, vulgarmente conhecida como a Al-Qaeda do Iraque.

O embate é permeado de conceitos e interpretações que emanam de dentro da religião do islamismo. A base para compreender a leitura sagrada do Alcorão é uma semente de vários conflitos entre os religiosos muçulmanos. Depois da morte do profeta Maomé, será desencadeada a criação de dois grupos, conhecidos como xiitas e sunitas, os quais analisam a tomada pelo califado de uma maneira excludente.

Não será apenas uma disputa entre o poder, mas também uma luta contra os conceitos, assim como contra seu próprio povo a fim de manter a sua concepção religiosa. A visão do “Jihad” será exortada no século XXI de uma forma nunca vista na humanidade, porém será criticada pelos próprios muçulmanos e pelas organizações internacionais.

Propagar o ilustre da geopolítica no Oriente Médio, contribui para noções de acordos sociais e econômicos na esfera política ao longo do percurso entre a Primeira Guerra Mundial e a Guerra Fria, a exortação dessa produção acadêmica gera a observação dos conflitos e o perigo para o ocidente, pois se idealiza com o progresso religioso fundamentalista. Essa conjuntura de guerra de procuração com a consequência dos Estados Unidos na região, abre espaço para a questão do petróleo e gás, que ajudam o mercado negro dessas organizações terroristas.

 

AL-QAEDA DO IRAQUE AO ESTADO ISLÂMICO

 

A presença norte-americana e soviética na região do Afeganistão, posteriormente se expandindo no Oriente Médio, mobilizou a formação de grupos islâmicos, os quais começaram a aumentar e contornar as fronteiras de cada país, mostrando-se cada vez mais agressivos politicamente ou religiosamente. Depois do assentamento judaico no local, as relações de paz entre árabes e judeus eram quase impossíveis devido à presença de facções islâmicas.

Em 1922, Al-Zarqawi ficou sob a visão da vigilância de inteligência do Reino da Jordânia devido aos temores que estavam ocorrendo entre árabes-afegãos, e isso se mostrou mais atentamente após a conversa de paz entre Israel e Jordânia, o que provocou uma hostilidade entre os combatentes que estavam retornando do front do Afeganistão e, posteriormente, fundando grupos como: al-Hashaykkah e Jaysh Muhammad.

O surgimento do pensamento antiocidental aumentou na Jordânia, tendo por idealizador, Al-Maqdisi, que estabeleceu sua célula chamada de Bayt al-Iman e que agrupou o futuro líder da organização Al-Qaeda do Iraque, Abu Musab al-Zarqawi. Este, por sua vez, mantinha uma estratégia na qual capturava todos os mantimentos e suprimentos que eram descartados por exércitos inimigos e, além disso, o conhecimento adquirido durante alguns anos na Guerra do Golfo fez com que incorporassem armas antitanques, granadas e outros tipos de armamentos, que contrabandeava para a Jordânia a fim de futuras incursões terroristas.

A Inteligência do reino estava analisando toda a articulação do grupo tendo em vista os contrabandos, porém falhou, e em 1994 tanto al-Maqdisi e al-Zarqawi foram presos por contrabando de armas ilegais, tentativa de assassinato e ligação a grupos terroristas e, durante o julgamento, eles pautaram no tribunal que a Jordânia estava violando o islamismo e a Lei de Deus, sendo indiciados a quinze anos de prisão em Swaqa, que localiza-se no deserto, sob supervisão máxima.

As prisões que ocorrem no Oriente Médio são basicamente uma universidade para a formação de terroristas que, ao longo do percurso, criam grupos para atuarem em determinadas regiões. E não foi diferente com Zarqawi, que, através da persuasão, conseguiu formar sua facção dentro da prisão, não só por intermédio de guardas corruptos, mas também se mostrando o supremo jurisprudente do islã, mentalidade que proporcionava força e novos fiéis para essa organização.

A definição da ideologia era muito promíscua quando se falava em Abu Musab al-Zarqawi, pois os “kuffar”, para ele, incluía também os próprios muçulmanos, mas estes de segmento do xiismo, inclusive os sunitas que não seguiam corretamente o alcorão e a convenção salafista.

O líder da Al-Qaeda, Bin Laden, sabia que a visão convergia em vários aspectos, principalmente na luta contra os xiitas, pois a sua mãe era uma aluita – uma ramificação do xiismo -, mas decidiu emprestar tal valor para um campo de treinamento que localizava-se no Afeganistão, no qual palestinos e jordanianos eram treinados ostensivamente, e que logo mais tarde seria conhecido como Tawhid wal-Jihad.

Verifica-se que de antemão não havia uma aliança ideológica entre al-Zarqawi e Bin Laden, sendo apenas uma troca de interesses e paramilitares. Posteriormente iremos observar que al-Zarqawi sempre se recusava a fazer a Bayat para o líder da Al-Qaeda por diversos motivos, já que não era o seu intuito entrar realmente para a organização por completo.

No entanto, não se passava de procuração, visto que durante a batalha de fallujah, que coincide com a ocupação norte-americana no Iraque, a estratégia principal foi o ataque aéreo que culminou com a morte de um dos principais integrantes do grupo da Tawhid. Apesar dos impactos, a facção não se desmembrou, mas era necessária uma força, e a única opção era que al-Zarqawi fizesse Bayat para Bin Laden e, em 2004, quando ocorreu a lealdade a nome do grupo, passou de Tawhid wal-Jihad para Al-Qaeda do Iraque.

A formação de um membro da Al-Qaeda no Iraque irá se passar por variações não só dentro da luta islâmica, mas também dos fatores sociopolíticos.  De acordo com Weiss (2015), foram encontrados pelos soldados norte-americanos, calendários de decapitações gravadas em vídeos e vítimas de sequestros que tinham tido suas pernas tiradas. Foram descobertas três casas onde eram realizadas essas torturas, juntamente em locais de instalação de produção de explosivos.

A estratégia de fazer a Bayat para Bin Laden, iniciou-se por intermédio do líder. que sabia que não se passava por uma oportunidade desconfiada. A luta de Zarqawi não irá se centrar apenas nos sectários, mas também nos xiitas e posteriormente até nos próprios sunitas, uma medida irrisória, pois tratava-se de um fanatismo nunca visto antes, que logo foi criticado até pelos líderes nucleares da Al-Qaeda. No mesmo ano, ele veio a se intitular o Emir do grupo, algo contraditório, pois o mesmo tinha apenas o controle de campo operacional, porém seu estímulo era tão forte que começou atrair pessoas de todas as formas, devido a sua posição contrária aos xiitas, vistos como pérfidos e invasores.

Para angariar um conflito interno no Iraque, sabia-se que não dependia apenas do seu grupo, mas um malabarismo interno poderia desencadear movimentos em prol dos seus intuitos, sendo assim, o líder do grupo no Iraque procurou manter os sunitas longe da participação política durante as eleições de Janeiro de 2005. Os resultados foram eficazes; ocorreram as eleições que favoreceram o partido xiita no poder e a diminuição dos sunitas. Esse elemento é fundamental para observar um grupo centralizado em um campo, transformando-se dominante no Iraque.

 

A ORIGEM DO ESTADO ISLÂMICO

 

A formação do Estado Islâmico ocorreu por meio da desintegração da Al-Qaeda do Iraque, esse fato, se deve ao enfraquecimento do grupo, um dos fatores primordiais foi o intenso ataque aéreo estadunidense no Iraque em 2006, que causou a morte do principal califa, Abu Musab Al-Zarqawi.  Após a sua morte, Abu Ayyb al-Masri o sucedeu como o novo líder da organização.

De fato o grupo estava perdendo forças devido à expansão norte-americana e seus demasiados bombardeamentos na região, esse empreendimento diminuía o número de insurgentes, de acordo Weiss (2015) “Em um relatório analisado do Pentágono, o General Odierno comunicou que a ação militar americana, contribuiu para a apreensão e mortes de 34 dos 42 principais líderes iraquianos e com isto passavam por dificuldades em reorganizar suas principais bases”.

Consequentemente, o grupo foi incrementando ações conjuntas com grupos menores, ações estas articuladas pelo Conselho Shura Mujahideen, a união permitiu a visão linear e centralizadora que era restaurar o califado e lutar contra os infiéis, incluindo os xiitas e os próprios sunitas. Logo depois dessa junção, o grupo intitulou-se Estado Islâmico do Iraque, de maioria sunita e com interpretação salafista, sendo que Abu Omar al-Baghdadi foi anunciado o novo porta-voz, e Al-Masri tornou-se Ministro da Guerra.

O legado de al-Zarqawi não tinha sucumbido, o seu plano de controlar o território e torná-lo um Estado Islâmico, porém sunita, estava ainda em vigor. As cidades de Anbar, Diyala e Bagdá, que encontravam-se no comando dos militantes do EII, eram locais estratégicos que propiciavam o suborno do autocomando iraquiano para contrabandear petróleo, e assim revender no mercado negro – eram umas das autonomias mais fortes para o sustento do grupo.

É notório que a expansão estava contraindo mais a situação interna no Iraque, porém, o aumento do controle territorial permitiu que os Estado Unidos mandassem um contingente maior de soldados para contra atacar somente o Estado Islâmico e sua posição estratégica, assim os americanos conseguiram capturar os rebeldes e destruir suas bases por meio de bombardeios, e retirar a posição direta de Anbar e da província de Bagdá.

É insofismável não notar a decadência em que a corporação se encontrava entre 2007 e 2010, por meio de uma entropia dentro dos seus ideais que impactava diretamente sua locomoção, principalmente com a grande perda de militantes. E isso irá aumentar com a morte dos principais líderes, Abu Ayyub al-Masri e Abu Omar al-Baghdadi, executados em uma ação aérea americana. Com isso, o grupo permanecia sem um Emir, era o fim, ou realmente o início da mobilidade do salafismo na região do Oriente Médio.

O conselho Shura indicou Abu Bakr como novo substituto temporário, este estava fora de circulação da mídia e até da inteligência estadunidense. Veio à tona, depois de sua inclinação ao poder da organização, que mostrava-se ocioso em relação a al-Zarqawi, o presente estudo mostra que sua relação era ruim devido a sua posição.

WEISS (2015, p. 117), afirma que:

“A ascensão de al-baghdadi a emir do Estado Islâmico do Iraque foi decidida esmagadoramente, por nove de onze membros do conselho Shura, Havia três razões para esta escolha. Primeiro, ele pertenceu à confederação tribal Quraysh, considerada umas das mais veneráveis no Oriente Médio, graças a sua proximidade ao Profeta Maomé. Segundo, o próprio al-Baghdadi havia sido membro do conselho de shura do Estado Islâmico do Iraque, portanto, esteve próximo de Omar Baghdadi. Final, devido a sua idade; ele era de uma geração jovem que outros candidatos viáveis para Emir e era visto como alguém  com maior resistência para liderar o Exército Islâmico”

A Organização encontrava-se sem um líder após a morte dos principais comandantes, o que proporcionou a ascensão de Abu Bakr al-Baghdadi, que tinha o pensamento semelhante ao de Zarqawi, porém mais radical, devido ao processo de instabilidade no grupo depois das operações militares estadunidenses. Essas incursões causaram uma escassez de homens, o que fez Baghdadi abrir a propaganda, recrutando em sua maioria ex-participantes da política de Saddam Hussein.

 

OBJETIVOS DA ORGANIZAÇÃO

 

A Utopia do Daesh (Estado Islâmico no Iraque e no Levante) é assegurada por textos canônicos que exortam seus militantes muçulmanos para o renascimento de um novo califado que deixou de existir após o fim do Império Otomano em 1924. Mas, para os soldados do Estado Islâmico, o califado não era legítimo, visto que a Sharia não era aplicada de forma rigorosa, e os califas vigentes na época não eram descendentes do profeta.

Nesse cenário surgem movimentos islâmicos propagando a ideologia salafista, que tem por inimigo principal, o ocidente. Essa insurgência se deve ao imperialismo europeu e tem o intuito de combater os dhimis, aqueles que seguem os valores morais e políticos da civilização judaico-cristã.

Segundo os muçulmanos, o ocidente necessita da moralidade islâmica e para isso é necessário começar pela Europa. Em uma entrevista na TV Al-Nass, em 2010, o clérigo Salem Abu Al-Futouh, disse: “o Islã irá destruir o ocidente, pois é o seu destino. Os clérigos acreditam que todos irão se converter ao Islamismo, e Alá entrará em toda Europa, sendo assim, a América não vai escapar, todos os povos irão se juntar ao islã. Os Muçulmanos acreditam que irão salvar o ocidente do materialismo e sua imoralidade, pois estamos na derrocada, e a única salvação é o islamismo”.

 

A GUERRA NA SÍRIA

 

A Síria localiza-se em uma posição estratégica na visão econômica e política, e em 2011, a questão interna começou se mostrar instável devido às manifestações por parte da população, desafiando a política instalada por Bashar al-Assad, conhecida como Primavera Árabe. A República estava há 48 anos em estado de emergência, o que estimulou Assad a elaborar uma nova constituição, as medidas tomadas por parte do governo se mostraram inviáveis, visto que a luta continuava em tramitação.

A Primavera Árabe reluta não só na Síria, conforme Ayerbe (2016, p. 15)

“A onda de mobilizações passa a ameaçar um establishment regional que parecia consolidado, especialmente na Líbia e na Síria, onde a radicalidade dos confrontos adquire o status de Guerra Civil. Bashar-al-Assad até consegue manter o poder central, mesmo perdendo o controle em parte importante do território com o consequente prolongamento da crise.”

Contudo, as medidas tomadas não iriam contribuir mais para o encerramento, apenas uma onda de protestos contra o governo instalado. O processo histórico do país não condiz exclusivamente com esses dois aspectos, mas também com as disputas étnica e religiosa presentes na região desde a formação do país, em 1946, com a luta pelo poder entre xiitas e sunitas. Como o governo atual é de origem alauíta, não representando totalmente a população síria – que é de maioria sunita -, criou-se uma onda de grupos fundamentalistas na região.

    Por consequência do agravamento do conflito interno, chegando a uma escala global, a ONU começou a emitir sanções por meio dos direitos humanos. Países do Golfo Pérsico começaram adentrar também no conflito para conquistar territórios estratégicos e ricos em recursos naturais ou geopolíticos, assim como os Estados Unidos, Rússia, Turquia e Irã, todos movidos por uma causa.

Os Estados Unidos, ao iniciar o conflito, procurou se limitar na ajuda humanitária e no apoio aos rebeldes, permaneceu neutro em relação aos problemas que permeavam a Síria, foi apenas depois de minuciosas investigações que o governo de Obama priorizou o investimento nos grupos contra o governo de Assad. Sob outra perspectiva, a Rússia pró-governo sírio financiou armas a Bashar al-Assad e disponibilizou investimentos no país, já que a Síria é um local estratégico para o governo russo.

Ao examinar o conflito e sua entropia, temos que analisar o processo regional, principalmente a interferência de países vizinhos, como também a Arábia Saudita, Emirados Árabes e Qatar, sendo eles os principais armadores e treinadores de grupos contra o governo de Bashar, isso porque internamente a estrutura religiosa em sua maioria é sunita.

Na medida em que o Iraque, Líbano e Irã investem bilhões no processo militar e econômico do país, esses países acabaram criando grupos por meio do financiamento de organizações radicais e islâmicas, como a Frente Al-Nusra, Irmandade Muçulmana, Estado Islâmico e o Exército livre da Síria; todos com um objetivo: derrubar o governo Sírio.

 

JOVENS NAS FILAS DO JIHAD

 

As condições ocidentais que em nossa visão não passam de fantasias, para o Estado Islâmico já não ocorrem dessa maneira, eles levam a sério e trabalham diariamente para obter mais recursos e jovens para se converter ao islã usando redes sociais, a nova ferramenta para obter fiéis. Os discursos salafistas têm se tornado mais presentes nas mesquitas, imprensas, programas de TV e universidades, onde anseiam em tornar realidade a formação de um Estado Islâmico.

É necessário ressaltar as condições que levam jovens ao fanatismo da Jihad, uma delas é a forma de vida que levam, bem semelhante à da população brasileira nas periferias, onde muitos se entregam ao tráfico. Na França é onde ocorre com mais frequência, pois nas suas periferias, em sua maioria, são centralizados os imigrantes que sofrem com a falta de políticas públicas e o desemprego em massa.

Essa falta de políticas públicas proporciona o surgimento de gangues, que para o governo local é uma questão de falta de segurança, e os policiais acabam usando do brutalismo, o que gera um conflito com as gangues. Essas rivalidades alimentavam a sua fascinação pelo islã, visto que em sua maioria tratam-se de árabes-muçulmanos, por serem solitários e não terem uma causa, era um caminho utópico equidistante.

 

 RECURSOS FINANCEIROS

 

O investimento dos países árabes para introduzir um novo grupo no tabuleiro dos líderes geopolíticos, criou uma desordem no Oriente Médio, como consequência do alto investimento nessa organização que não se deixou depender fortemente do dinheiro governamental, e procurou uma independência financeira sem nenhuma oposição.

A formação de organizações para impedir o avanço do Estado Islâmico mostrou-se uma medida incapaz, tornando os financiadores impotentes. financiando-se então, grupos paramilitares para impedir o avanço do Estado Islâmico, os quais eram armados, porém em sua maioria fracos e pequenos, mostrando-se na maioria das vezes, covardes.

Como a visão do Emir estava centrada na questão econômica, a expansão dos militantes do EI foi empreender a luta por locais estratégicos e ricos em recursos naturais, que era basicamente se expandir no Leste da Síria, onde ficam os maiores campos de petróleo; antes sob domínio de rebeldes. Acabaram caindo nas mãos do estado islâmico.

Contudo, o grupo sabia que manter o embate nesta região não iria trazer pontos positivos a longo prazo, era mais eficaz buscar uma relação de paz para atrair seguidores do que por meio da luta. Com isso em mente, Abu Bakr al-Baghdadi trabalhou realizando alianças com tribos sunitas locais para explorar o recursos que obtinha, o Estado Islâmico passou então a viver do contrabando do petróleo, vendido até para o governo da Síria.

Mas para manter essa fidelidade, era necessário que a população vivendo sob o julgo dos militantes, observasse esse “Estado Novo” como uma forma de governo justo que distribuía as demandas de acordo com a sua extração, tornando mais viável do que o regimento sírio que era imposto.

O Estado Islâmico do Iraque não procurou reprimir as tribos conquistadas como faziam os mongóis; pelo contrário, sua medida era obter o consenso da população e assim atribuir recursos que eram necessários para a sobrevivência do grupo e dos cidadãos, trazendo benefícios no âmbito social, econômico, do lazer e da saúde.

À medida em que a guerra se ampliava, o grupo construía um novo modelo de Guerra, conforme Loretta (2015, p. 57):

“Enquanto prosseguia na privatização de suas atividades terroristas, o Estado islâmico descobriu que o modo de Estado-Fantasma era um instrumento perfeito para alcançar ambiciosa meta de criar o califado.”

Dessa forma, analisamos um sistema nunca empreendido por organizações, que em razão da Guerra, causou o desaparecimento de um ordenamento jurídico e político, e fez renascer das cinzas um novo modelo tido como um Estado Fantasma, que nada mais é que uma estrutura sem uma delimitação territorial, apenas uma sólida construção econômica.

Para entender como era relacionada essa demanda, Loretta (2015, p. 58):

“No Estado Fantasma, as premências da economia prevalecem sobre a organização política. E esta forma tem a vantagem adicional de demandar poucos recursos financeiros para ser administrado, pois sua esfera econômica está limitada à economia de Guerra e a privatização de ações terroristas. Despesas com coisas fora da esfera militar são mínimas e é necessário fornecer à população apenas o suficiente para satisfazer suas necessidades fundamentais”.

A exortação permanecia no financiamento da sociedade e em suprimentos de Guerra. A relação ao grupo operava por um valor pequeno em comparação com outras organizações como Al-Qaeda, era um estilo de vida, mas não na manutenção necessária, o grupo além da demanda, investia nas estruturas sociais.

De acordo com Ministério da Defesa que manteve o registro dessa contabilidade, Loretta (2015, p. 58) demonstra que:

“O soldado de infantaria comum do Estado Islâmico recebia um salário-base de apenas 41 dólares mensais, bem menor do que o recebido por operários iraquianos, como o de pedreiros, que ganhavam 150 dólares por mês. Tal como especialistas em antiterrorismo desconfiavam desde muito tempo, os membros do Estado Islâmico são tão fanaticamente movidos por ideologia que é improvável que incentivos econômicos para conter a incorporação de novos combatentes gerem resultados expressivos”.

A intuição não se baseava no processo do viés econômico, mas sim para a criação de um califado e deste reger todo mundo muçulmano. Sendo assim, os homens de Abur Bakr se distinguiam de Zarqawi, pois a visão era que o homem bomba não estava inteiramente a desfrutar do sonho das 72 virgens no céu.

 

EMPREENDIMENTO DO ESTADO ISLÂMICO

 

Relatar o processo de transição de facções no Oriente Médio e os novos grupos com ideologias fundamentalistas cada vez mais radicais – que favorecem o desencadeamento da diplomacia contemporânea e sua contribuição na ação política e econômica -, por sua vez, exorta não só ação jurídica internacional, mas também nacional e o investimento na segurança contra certas incursões, que vêm aumentando na Europa depois da instituição do califado.

Impor as regras e saber auxiliar durante uma instabilidade diplomática e uma guerra civil, propicia o conhecimento específico para não só impedir o avanço, mas também atenuar a propagação de mensagens através das redes sociais, proporcionando uma certa segurança para a população; essa atuação, porém, acaba desenvolvendo mais ainda o ódio por parte de alguns muçulmanos.

Comparar os variados grupos insurgentes – que foram renascendo devido à insatisfação com: o governo regente, a presença do ocidente na região, a divergência sobre o alcorão e o regulamento da jurisprudência do islã -, pode ser um erro, já que se trata de grupos com objetivos diferentes, como o Estado Islâmico, que impõe o verdadeiro segmento para os muçulmanos. Temos, por exemplo, a Umma, que traz à tona o auxilio apenas a antigos que são tido como ‘puros’, assim excluindo seguidores entendidos como infiéis.

A crescente onda de adesão de novos membros às fileiras desses grupos, advém dos meios de comunicação, em razão de verificar o processo moderno sem se basear na globalização. Isso dificulta compreender o discernimento e a finalidade de cada organização, assim a mídia cria, através da massificação, a insegurança interna e o sentimento pelas causas.

Quanto maior o noticiário, maior a venda, e o jornalismo tem se comprimido não em divulgar a situação desses grupos, mas em minimizar sua própria ignorância, a manchete com sensacionalismo e sem objetivo específico perante a mobilização do Iraque, Síria e outras regiões no Oriente Médio, impedindo assim uma visão mais cabível das insurgências.

Em um empreendimento midiático e o uso de redes sociais, a tecnologia foi um material essencial para estabelecer o recrutamento e ingresso de novos jovens na fileira do Estado Islâmico, atraindo não só homens para combater e obter uma parte territorial – ou explicitamente falando um califado -, mas também mulheres, com a intuição de desposar com os jihadistas, algo bastante comum na religião islâmica.

No entanto, para obter seus objetivos, era necessário se expandir para uma área, e a partir dela mover suas ideologias. A Guerra na Síria, estrategicamente falando, auxiliou no processo de expansão com uma atenção internacional e milícias ocidentais mais presentes, tendo a junção de grupos e desmembramento de outros, e no ano de 2011 já foi cabível analisar como seria complicado o processo de impedimento e o apaziguamento na região; as questões psicológica, militar, social e política, estavam entrando em um colapso que atualmente não tem saída.

Calfat, (2015, p. 6-20), disse:

“O Estado Islâmico aproveitou-se da guerra civil síria para, desde 2011, conquistar território, recursos e dinheiro. Considerando que a Síria se encontra em colapso, foi aberto espaço para o estabelecimento das bases de poder do Estado Islâmico nas áreas que eram fracamente controladas pelo governo sírio. Consideradas como “vácuos de poder”, tais áreas foram alvo de confisco por parte dos jihadistas, os quais viram no contrabando de petróleo um método de fácil obtenção de moeda estrangeira dos países vizinhos, o que tem facilitado sua expansão territorial e de poderio”.

O controle territorial de determinadas regiões proporciona, em última instância, uma vantagem para a população que encontra-se em situação beligerante, fazendo o uso de tributos para essa organização, solicitando às empresas locais que também paguem como uma forma de segurança para não serem atacados por foguetes ou bombas, é de se imaginar que em sua maioria estão à mercê de sua própria sorte e encontram nesses militantes uma forma de salvação, o que torna mais uma ilusão para a jihad e o combate das organizações inimigas presente.

Recrutar crianças dessas comunidades e impor a Sharia é um desenvolvimento gradual, uma nova lei é reformulada e os meios de comunicação, alimentação e políticas públicas, permanecem no poder desses militantes – a formação da maioria que contribuiu para que um estado fantasma funcione por até certo período.

Analisando o cenário atual do Oriente Médio, iremos nos perguntar quais foram os motivos que desencadearam novas raízes fundamentalistas, e o processo de expansão com intuição econômica. Por um lado, a Guerra na Síria determinou um processo de andamento que colocou o regimento de Assad contra o Estado Islâmico, o Exército Livre da Síria e vários grupos jihadistas.

Enquanto esses grupos combatem ao mesmo tempo o governo e o EI, a mobilização para essa região apenas intensificou o quadro do Oriente médio. Impor como guerra por procuração não implica em um erro, mas sim de uma base política, segundo a qual organizações financiam grupos para adquirir um controle socioeconômico e interesses nada mais que geopolíticos.

A intitulação do grupo Estado Islâmico do Iraque e do Levante contabiliza a questão no Iraque uma continuação da atuação dos Estados Unidos na luta contra o terror. A insurgência na região fez com que grupos contra-atacassem as forças invasoras, dentre eles: o partido de Saddam Hussein e de Baath. Do outro lado da fronteira, a atuação se tornava mais rigorosa, os curdos haviam iniciado sua atuação mais expressiva, financiada pelos países ocidentais. Embora tenha sido repudiada fortemente pela Turquia, a sua presença na Síria teve mais presença do que no Iraque.

O avanço do salafismo impôs: a junção da Arábia Saudita e Irã, a posição dos curdos nesses dois países em conflito e a Turquia, na qual o Estado Islâmico estava em sua expansão. Não se trata de algo fugaz, mas sim de uma reconfiguração da região que acabou afetando não só o Oriente Médio, mas a Europa, e mais tarde, a América.

 

 CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

Cabe ressaltar que o termo terrorismo vem sendo muito estipulado nas mídias, na interação social e nos setores acadêmicos, nos quais abre um amplo espaço para os debates, pois desde o ataque da Al-Qaeda nos Estados Unidos da América, os procedimentos de todos os países têm dado a devida atenção para a instabilidade da região do Oriente Médio, fazendo o uso de investimentos em equipamentos militares e também na modernização das forças armadas.

A forte intervenção das potências nos países por procura de recursos e controle, permitiu o surgimento de grupos que têm como base a luta sectária e uma ideologia nunca vista. O Estado Islâmico do Iraque e do Levante nasceu dessa proliferação que foi desencadeada durante partilha do Oriente Médio, com a insurgência contra a política em vigor e a luta contra o domínio ocidental. Por sua vez, foi examinada a movimentação da guerra contra o terror ordenada pelos norte-americanos depois do ataque terrorista e a sua consequência em longo prazo.

Não podemos tratar a região do Oriente Médio como um sistema único em todas as esferas no âmbito sociopolítico, visto que são 17 países, sendo que alguns têm pensamento mais oriental e outros mais ocidental. Em razão dessas diferenças, tornou-se mais difícil compreender a questão interna de cada país e seu desenvolvimento na guerra, até porque, depois da saída dos estadunidenses do Iraque, a visão se propagou para a Síria.

A instabilidade sendo norteada na região abriu espaço para grupos militantes se infiltrarem, como ISIS, Al-Nusra, Al-Qaeda, Curdos, entre outros, para obter interesses por cima dessa fragilidade, abrindo vários campos com pensamentos totalmente distintos, culminando em uma situação totalmente fora de controle em 2015, afinal, quem estava lutando contra quem? E quais eram seus objetivos na região? Para o Estado Islâmico era obter o controle da região e destituir o governo de Bashar al-Assad, e Al-Nusra também com o mesmo intuito que chegou a jurar lealdade a Bin Laden, líder da Al-Qaeda, e se integrou posteriormente ao Estado Islâmico.

Sendo assim, desenvolvi – a partir do estudo das organizações – a sua articulação ao processar e interagir durante as incursões terroristas, e como se manter em seu meio e obter recursos para essas mobilidades, e assim fazer a demanda da conquista não só territorial, mas também populacional. O Estado Islâmico usa o conceito de takfir, visto por eles como herege, e usa essa questão para realizar a formulação na religião e no mundo, combatendo os xiitas, outros credos e principalmente os sunitas que não seguem o salafismo.

A Guerra na Síria não propiciou apenas a instabilidade internacional sobre a questão econômica, mas também um território minado de terroristas com várias concepções diferentes. Isso implicou no aprofundamento da intensa desordem, na qual não há uma política baseada nas organizações e meios diplomáticos para resolvê-la. Trata-se de um conflito de longo prazo, no qual o que temos certeza é que ocorrerão novos surgimentos de conflitos regionais e corporações terroristas. Essa Guerra nada mais é do que um tabuleiro, no qual as grandes potências jogam e as peças são a população.

 

REFERÊNCIAS

 

AJ XIV 203, in KIPPENBERG, HANS. Religião e Formação de Classes na Antiga Judéia. 1998.

AYERBE, LUIS FERNANDO. Análise de Conjuntura em Relações Internacionais: Abordagens e Processos. São Paulo, 2016.

CALFAT, NATALIA NAHAS. O Estado Islâmico do Iraque e do Levante: Fundamentos políticos à violência política. Revista Conjuntura Austral, Porto Alegre, 2015.

DYER, CHARLES; TOBEY, MARK. A crise ISIS. Rio de Janeiro: BV Books. 2016.
FERREIRA, AURÉLIO BUARQUE DE HOLANDA. Novo dicionário da língua portuguesa. 2ª ed, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.

FOTTORINO, ERIC. Quem é o Estado Islâmico? Compreendendo o novo terrorismo. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2016.

NAPOLEONI, LORETTA. A Fênix Islamita: o Estado Islâmico e a Reconfiguração do Oriente Médio. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2015.

PIRES, BERNARDO DE LIMA.  A Síria em Pedaços. Edições tinta-da-china. Lisboa Ltda. 2015.

REICK, BO. História do Tempo do Novo Testamento: o Mundo Bíblico de 500 a.C até 100 d.C – Santo André (SP): Academia Cristã/Paulus, 2012.

SUTTI, P. RICARDO, S. As Diversas Faces do Terrorismo. Editora HARBRA Ltda, 2003.

WEISS, MICHAEL HASSAN. Estado Islâmico: Desvendando o Exército do Terror. São Paulo: Seoman, 2015.

 

Gabriela é formada em licenciatura em história pela Universidade Leonardo da Vinci e graduanda em ciências econômicas pela Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará.

Deixe uma resposta

Fechar Menu
Top