Um Remédio Para Crises Existenciais

Um Remédio Para Crises Existenciais

Uma Breve Introdução à Logoterapia

 

Qual é o sentido da vida? De fato essa é uma questão bastante pertinente, e que certamente já deve ter surgido na mente de diversos indivíduos ao longo de todas as eras, que nos faz questionar o sentido de nossa própria existência, e de certa forma faz com que nós indaguemos o nosso próprio sentido, o principal motivo de crises existenciais. Com essa primeira questão, seguem outras que são provocadas pela mesma, como: a vida teria um sentido inerente caso ela tivesse algum? Seria sequer possível descobrirmos esse sentido? Enfim, todos esses questionamentos foram discutidos e pensados por um dos mais célebres psicoterapeutas do século passado, numa das experiências mais miseráveis conhecidas pela humanidade, seu nome é Viktor Emil Frankl, e ele foi um judeu que presenciou de forma brutal a II Guerra Mundial dentro dos campos de concentração.

No campo de concentração Frankl perdeu tudo o que poderia ser imaginado, dormiu em vagões lotados durante dias, sobreviveu a noites de um inverno miserável, dividiu restos de comida com vários de seus companheiros de campo, viu mortes injustas, e contudo, no fim após todas essas experiências que ele viveu, notou que apenas uma coisa restou: sua nua e crua existência, seria possível alguém nesse tipo de condição ainda sim encontrar um motivo para viver no meio de tantas atrocidades? Para Frankl sim, discorreremos sobre isso no decorrer do artigo, por enquanto trataremos primeiro de como foi a sua experiência no campo de concentração.

A Vida no Campo de Concentração 

Dentro de todo esse inferno que é viver dentro do campo de concentração, Frankl dividiu a sua experiência em 3 fases: a recepção, a vida dentro do campo e a vida pós-campo. Logo na chegada ocorre um choque de realidade ao se defrontar com a realidade do local, uma realidade das piores possíveis, pelas condições de trabalho e morte iminente de alguns, esse choque poderia proceder a chegada no campo, pois toda aquela realidade vista pode ser idealizada pelo prisioneiro. O horror era o principal sentimento levado em conta, porém, até mesmo esse horror teria algo de “positivo”, pois o enclausurado teria que se acostumar já que teria que ver horrores dia após dia a todo momento. 

Nessa primeira fase ocorre a “desinfecção”, na qual são retirados todos os pertences de um prisioneiro, até mesmo as roupas do seu corpo, que são substituídas por alguns trapos putrefatos. O objeto mais valioso que foi retirado do psicoterapeuta, foi um esboço de sua teoria que seria melhor desenvolvida dentro do campo de concentração, mas quem dera essa fosse a única coisa a se perder nessa situação. A vida como era conhecida, é simplesmente jogada fora, estando à mercê de vermes cruéis, que geralmente não davam valor à vida humana desde que ela não correspondesse com seus ideais.

Entrando na segunda fase, ela é caracterizada por uma apatia a todas as barbaridades vistas, que acabam se tornando comum na vida do prisioneiro. Todas essas situações vão matando-o por dentro, sendo que essa apatia também servia para se acostumar com os espancamentos diários pelos motivos mais banais, pois nada poderiam fazer sobre as atrocidades que ocorriam. A maior dor no entanto, era a injustiça, tudo que era físico parecia apenas ser costumeiro, a apatia servia como um mecanismo de autodefesa não apenas contra as surras, mas para o próprio psicológico reduzindo a percepção da realidade ao seu redor, deixando a atenção a um único objetivo: salvar a própria vida. A mente humana se torna tão fragilizada, a ponto de ter desejos e sonhos com as coisas mais simplórias, mas que parecem ser tão distantes num lugar terrível, como um pão ou uma banheira quente, isso levava com que literalmente muitos se sentissem apenas como pedaços de carne, alguns sequer preservavam o restante de seus sentimentos a não ser o desejo por preservar a própria vida.

Dentro dessa experiência, a existência de um prisioneiro torna-se “provisória e sem prazo”, por se caracterizar justamente por causa do prisioneiro não saber quando iria sair dali, por quanto tempo aquela forma de existir se daria pra ele nessa maneira brutal de se viver. Uma pessoa nesse estado normalmente não consegue viver conforme um sentido específico, ou para um futuro, já que está presa nessa forma de existência, e com isso ocorre o decaimento de suas formas de vivência. A pessoa se sente morta de tal forma que todo o seu passado parece parte de uma outra realidade e se vê apenas como um cadáver por todas as suas perspectivas estarem mortas, uma forma de existência retrospectiva, essas formas de existência dão ao prisioneiro a oportunidade de crescer interiormente, no entanto é um grande desafio no qual poucos conseguem interpretar, já que diversas situações no campo de concentração eram complicadas de tomar decisões e qualquer tipo de iniciativa, além de que estar num lugar como esse, é ser privado de ter várias escolhas que normalmente teríamos.

E por último, fica aqui a principal característica desse tipo de circunstância, o sofrimento, que deixarei para o próprio autor vienense:

“Em sentido figurado, se poderia dizer que o sofrimento do ser humano é como algo em estado gasoso. Assim como determinada quantidade de gás preenche um espaço oco sempre de modo uniforme e integral, não importando as dimensões desse espaço, o sofrimento ocupa toda a alma da pessoa humana, o consciente humano, seja grande ou pequeno este sofrimento.” [1]

Contudo, segundo o autor, o campo de concentração pode privar a pessoa de tudo, menos de reagir frente às condições que ele apresenta, e que afinal, a vivência ali não determinava completamente o comportamento do indivíduo, e que isso no final era uma decisão interior, uma liberdade que nada poderia retirar de nós. Segundo Frankl, a existência de uma liberdade interior, permite um indivíduo envolto no sofrimento configurar algum sentido à própria vida, como ele diz no seguinte trecho do seu mais famoso livro “Em Busca de Sentido”: 

“Quando um homem descobre que seu destino é sofrer, tem que ver neste sofrimento

uma tarefa sua e única. Mesmo diante do sofrimento, a pessoa precisa conquistar a

consciência de que ela é única e exclusiva em todo o cosmo-centro deste destino sofrido. Ninguém pode assumir dela isso, e ninguém pode substituir a pessoa no sofrimento. Mas na maneira como ela própria suporta este sofrimento está também a possibilidade de uma vitória única e singular.” [2]

E nesse momento centra-se a questão pelo sentido da vida, no qual devemos ver não o que esperar da vida, mas sim o que a vida espera de nós, como diz o autor, tudo isso procurando a conduta correta para agir e pensar em uma determinada situação, isso acaba sendo, de certa forma, subjetivo, pois o sofrimento de cada um varia de acordo com a experiência de vida, o que pode ser estabelecido são os meios de como encontrar um sentido (que ainda serão abordados no artigo), em meio ao vazio e sofrimento. No momento em que damos um sentido ao sofrimento, é aí que conseguimos uma liberdade interior, Frankl gosta de citar Spinoza em sua “Ética”  no trecho em que ele diz: “A emoção que é sofrimento deixa de ser sofrimento no momento em que dela formarmos uma idéia clara e nítida.” (apud. SPINOZA, Ética, quinta parte, “Do poder do espírito ou a liberdade humana”, sentença III). Esse excerto deixa bem clara a ideia que Frankl tem em mente como solução para o sofrimento, uma delas se categoriza por formar do sofrimento uma ideia que não fosse torpe, mas sim uma forma de sentido; e a segunda diz basicamente que, com esse sentido, seria possível aguentar qualquer forma de sofrimento.

E por fim, chega a terceira fase no campo de concentração: a libertação, essa é uma das mais estranhas possíveis, a realidade no campo de concentração era tão sofrível, que quando ela desaparecia, a saída do local parecia apenas um sonho de como seria boa a realidade fora daquele lugar, ou sua vida antes dele, como alguns dos tantos que o iludiram durante a experiência no campo. Nessa etapa, o prisioneiro tem que reaprender a ser uma pessoa comum e se livrar das angústias que o prendiam, é a tentativa de voltar a sentir tudo aquilo que foi perdido dentro do campo.

A libertação também traz consigo problemas, já que o contato com uma realidade normal depois de tanta desgraça, acaba por causar uma pressão anímica; há casos em que a reação chegava a ser o indivíduo virar um monstro no mesmo nível em que foi maltratado, por se sentir de certa forma injustiçado após tanto infortúnio. A amargura e a decepção são duas coisas recorrentes após a libertação. A amargura é sentida logo após o contato com o mundo real ao ter contato com pessoas que estiveram fora do campo, pois muitos agem de maneira simplória com todo o ocorrido, de uma maneira que não entende o sofrimento vivido, não tendo certa noção da quantidade de sofrimento provocada, o que é revoltante para alguém que vivenciou experiências miseráveis. Quanto na decepção a pessoa apenas vê-se jogada ao destino e sente que o sofrimento é algo que não tem fundo e que pode piorar ainda mais, dependendo da interpretação do indivíduo frente ao seu tormento. Mesmo após tudo, um dia chegará na consciência do liberto o pensamento de como seria possível sobreviver após tanto tormento, e como uma vida após essa experiência seria possível, nessa parte cito Frankl que pode relatar o sentimento melhor que qualquer um:

“Ele mesmo (o prisioneiro) não conseguirá mais entender como foi capaz de suportar tudo aquilo que lhe foi exigido no campo de concentração. E se houve um dia em sua vida em que a liberdade lhe parecia um lindo sonho, virá também o dia em que toda a experiência sofrida no campo de concentração lhe parecerá um mero pesadelo.” [3]

 

Onde a Logoterapia Entra no Meio de Tudo Isso?

 

Durante a exposição das observações feitas na experiência de Frankl no campo, já é possível notar o principal atributo da logoterapia, que se caracteriza por ser uma escola de psicologia que se centra no futuro e na busca pelo sentido em sua essência, buscando orientar o indivíduo na sua razão de viver e na sua existência. O termo logoterapia, vem de “logos” , que em grego significa sentido (segundo o autor). Segundo essa teoria, não seria o prazer ou a vontade por poder a principal força motivadora no ser humano, mas sim a vontade de sentido,  sendo este único e exclusivo para cada indivíduo, ou seja, subjetivo, sendo ainda algo tão significante que até mesmo a vida pode ser sacrificada por ele.

O que a logoterapia mais busca extinguir é o vazio existencial, que foi inicialmente produzido pela falta de instintos que o ser humano perdeu, os seus instintos animais mais básicos que asseguravam sua existência, ou seja quando sequer eram “humanos”, o vazio existencial começou a se manifestar junto com a racionalidade e quando o ser humano passou a questionar-se inicialmente. As razões mais modernas para a falta de sentido ocorrem pela falta das tradições que servem como guia e apoio para sua conduta, a depressão e o suicídio também possuem como efeito esse vazio, ou em alguns casos até mesmo sua principal razão. Em vários casos de vazio existencial, nota-se que o indivíduo acaba perdido no vazio, pois põe a responsabilidade que ele tem sobre o seu próprio rumo na mão de outros, acaba fazendo apenas aquilo que é comum com a maioria (conformismo), ou então apenas aquilo que lhe é ordenado.

Porém, o sentido escolhido pelo ser humano pode ter sido falho de alguma forma, quando isso ocorre acontece a frustração existencial, como se o propósito a ser escolhido, quando falho (ou quando sequer é encontrado), invalidasse todo o sentido de uma pessoa, e com isso acaba gerando um tipo específico de neurose noológica (que vem do termo grego nous que significa mente), que tem sua origem nas frustrações existenciais. Contudo, nem todo conflito mental é algo que pode ser tido como neurótico, na verdade eles são necessários e sadios para o desenvolvimento. A frustração existencial em si acaba não sendo patológica, nem patogênica, ou seja, não configura nenhuma doença mental.

Outro fator contribuinte não para o vazio existencial, mas para o sofrimento, é o fato de que a infelicidade é tida como algo que não fosse comum, como diz Edith Weisskopf-Joelson, que foi professora de Psicologia na Universidade da Georgia, em seu artigo sobre logoterapia. [4] Com isso, a pessoa sente vergonha de se admitir infeliz frente à sociedade, o que faz com que todo o temor psicológico se torne ainda pior pela falta de compreensão do sofrimento, que como já foi dito, é algo inevitável.

A transitoriedade da vida (o fato de que a vida se torna passageira, e que a qualquer momento podemos perdê-la) também pode fazer com que ela possa parecer sem sentido, sendo ela uma característica da existência humana, Frankl diz que os únicos aspectos transitórios da vida são as potencialidades, mas elas se tornam concretas e deixam de ser transitórias assim que se tornam reais. Isso só demonstra a nossa responsabilidade em frente à vida, pois as potencialidades dependem de nós para serem concretizadas. A maior arma contra essa transitoriedade seria o passado. É importante saber e ter certeza do que já se viveu, tanto das coisas boas, quanto das coisas ruins que se superou, diz Frankl que: ter sido é a forma mais segura de ser.

Como um caminho para a saída desse vazio, Frankl determina algo que ele chama de noodinâmica que é um processo constante de luta por um sentido, um estado de tensão entre um ser e um vir a ser, algo que ele classifica como se fosse inerente ao ser humano, a noodinâmica é aquilo que o ser humano precisa, pois ela se encontra no campo de tensão, no qual um polo é representado por algo a ser cumprido e o outro é aquilo que ela deve cumprir. Em meio a esses conceitos, é importante notar que nessa questão sobre o sentido, não é o indivíduo que questiona a vida, e sim a vida que o questiona para que ele reaja sendo responsável por si mesmo, e é nessa responsabilidade que a logoterapia enxerga a essência da existência humana. Com isso, o logoterapeuta é aquele que é menos propenso a ser autoritário, pois ele não dá um sentido ao paciente, mas sim busca criar nele uma consciência na sua responsabilidade em frente à própria vida, caso fosse o inverso, a responsabilidade seria transferida para o terapeuta e assim ocorreria uma situação de dependência.

 

O Papel do Logoterapeuta

 

A principal tarefa do logoterapeuta consiste em ampliar e alargar o campo visual do paciente de modo que todo o espectro de sentido e potencial se torne consciente e visível para ele. De certa maneira a logoterapia se assemelha à psicanálise, pois ela analisa a condição do paciente e o guia em sua procura, mas se difere pois não se centra apenas em fatos instintivos no inconsciente do indivíduo e em suas gratificações, mas sim no motivo da sua existência, tanto no que ele almeja, e tanto pelo que ele já tem e põe o seu sentido.

Nessa ampliação do campo visual, se encaixam dois termos, o auto-distanciamento e a auto-transcendência. O auto-distanciamento é fazer com que o sujeito, de alguma forma se distancie da situação que lhe causa alguma dor.  E o que Frankl denota como auto-transcendência humana, afirma que o sentido da vida deve ser encontrado no mundo e fora do próprio indivíduo, sobre isso ele argumenta:

“Ela denota o fato de que o ser humano sempre aponta e se dirige para algo ou alguém diferente de si mesmo – seja um sentido a realizar ou outro ser humano a encontrar. Quanto mais a pessoa esquecer de si mesma – dedicando-se a servir uma causa ou a amar outra pessoa – mais humana será e mais se realizará. O que se chama de auto-realização não é de modo algum um objetivo atingível, pela simples razão de que quanto mais a pessoa se esforçar, tanto mais deixará de atingi-lo. Em outras palavras, auto-realização só é possível como um efeito colateral da auto-transcendência.” [5]

Para o estímulo de sua responsabilidade, por fim, o autor apresenta o princípio supremo de sua teoria: “Viva como se já estivesse vivendo pela segunda vez, e como se na primeira vez você tivesse agido tão errado como está prestes a agir agora” (FRANKL, 1991, p. 75). Essa máxima faz com que o sujeito tenha uma vontade mais ávida de agir corretamente, pois o liga com uma ideia do passado que pode ser corrigido junto com todos os seus arrependimentos e erros, estimulando assim a sua responsabilidade frente a própria vida.

 

Quais São os Meios para se Encontrar um sentido?

 

O sentido da vida sempre se modifica, mas nunca deixa de existir, de acordo com a logoterapia existem 3 formas de encontrar um sentido: praticando um ato, experimentando algo ou encontrando alguém, ou então pela atitude que tomamos com relação ao sofrimento (que é a principal e mais complexa).

A primeira maneira se torna um tanto óbvia, simplesmente buscando uma atividade em que o indivíduo se identifique e busque. A segunda se consiste experimentando outro ser humano em sua originalidade própria, como diz Frankl, amando-o. Segundo o teórico, o amor é a única forma de encontrar o íntimo da personalidade de alguém, ou seja, a sua essência, seu jeito de ser, sua exclusividade, a logoterapia caracteriza o amor não como um impulso apenas, o amor faz com que se veja a essência da pessoa, e todas as suas qualidades que ainda podem ser obtidas e realizadas, e através disso, até mesmo ajudando a pessoa amada a alcançar essas potencialidades. 

A terceira forma de encontrar sentido na vida é através do sofrimento, transformando-o numa vitória, em alguma forma de aprendizado e/ou encontrando um sentido para ele, até mesmo quando se trata de uma fatalidade ou algo inalterável, nesse tipo de situação somos obrigados a mudar aquilo que somos para nos adaptar a uma nova realidade. No entanto, o sofrimento não é necessário para encontrar um sentido, se o sofrimento for evitável, sua causa deve ser cortada da vida do indivíduo, o sentido no sofrimento é apenas encontrado em uma situação que é inevitável.

O próprio autor vienense dentro de sua experiência no campo de concentração, sentiu bastante a dor do sofrimento, ainda mais com a perda de seu manuscrito com os fundamentos da logoterapia em Auschwitz, estava dentro de sua capa que foi trocada na chegada ao campo de concentração, porém encontrou algo novo que o surpreendeu quando recebeu trapos ao invés de suas roupas, relatou ele:

“Em lugar do grande número de páginas do meu manuscrito, encontrei no bolso da capa recém-adquirida uma única página, arrancada de um livro de orações hebraico, contendo a principal oração judaica, o Shem Yisrael. Como interpretar semelhante  ‘coincidência’ senão como desafio no sentido de viver meus pensamentos, em vez de simplesmente colocá-los no papel? Lembro-me que pouco depois me pareceu que eu morreria em futuro próximo. Dentro dessa situação crítica, entretanto, eu tinha uma preocupação diferente da maioria dos meus companheiros. A pergunta deles era: ‘Será que vou sair com vida do campo de concentração? Caso contrário, todo esse sofrimento não tem sentido.’ A pergunta que atormentava a mim era: ‘Será que tem sentido todo esse sofrimento, toda essa morte ao nosso redor? Caso contrário, em última análise não faz sentido sobreviver; uma vida cujo sentido depende de semelhante eventualidade – escapar ou não escapar – em última análise nem valeria a pena ser vivida.” [6]

Com isso, Frankl encontrou um dos sentidos para o seu sofrimento, que era fazer com que toda sua experiência fosse base para a construção de sua teoria para ajudar outras pessoas saírem de suas próprias encruzilhadas. 

 

O Super Sentido

 

Frankl ainda imagina uma forma de super sentido, esse seria o mundo pós-vida, ou seja,  um encontro com Deus, no qual o sofrimento poderia ser extinguido, porém, um mundo que não somos capazes de saber como realmente é. O super sentido serve para suprir a necessidade de sabermos se a vida tem um sentido incondicional ou não, que pode ser utilizado para ajudar indivíduos que são firmes em sua fé religiosa, essa visão é  parecida com a de vários filósofos, como por exemplo: Agostinho que afirma que para ser feliz é necessário um bem eterno e imutável que no caso seria Deus. [7] Mas deixando claro aqui que a utilização do super-sentido não é necessária para a logoterapia em si, mas é bastante útil para lidar com indivíduos que têm uma fé bastante estruturada.

 

O Temor

 

O temor segundo Frankl produz justamente aquilo que a pessoa teme com maior intensidade, assim como esta (como e quanto você pensa naquele medo) forçada, faz com que o objetivo se torne cada vez mais forçado, provocando uma pressão que intensifica o medo cada vez mais, até chegar a um ponto em que ele se torna algo paralisante. Para o combate desse sentimento inerentemente humano, Frankl recomenda a sua técnica chamada “intenção paradoxal”, que é justamente fazer aquilo que mais teme, tentando provar o quanto você é aquilo que teme.

Um exemplo seria no caso de alguém que tem dificuldade em falar em público, por achar que não seria capaz de fazer uma boa apresentação, a solução para esse caso seria que a pessoa fizesse sua apresentação com a intenção de provar justamente o quão “ruim” ela conseguiria ser. Com essa atitude irônica o ciclo vicioso que provoca pressão no indivíduo estaria quebrado e ridicularizaria o seu medo até que ele se dissipasse.

 

A Liberdade

 

Para provar que sempre é possível a busca pelo sentido, Frankl entra com o conceito de liberdade em sua teoria. Segundo o autor vienense, o ser humano jamais é determinado apenas pela natureza ou pelo seu destino, ou ele o decide ou simplesmente cede a ele, o que é uma das principais características do ser humano, a de se elevar dessas condições e mudar a sua vida e a si mesmo. De acordo com Frankl a liberdade é apenas um aspecto negativo da humanidade, a responsabilidade que vem em conjunto com esse atributo se torna mais importante, pois a mera liberdade sem responsabilidade se torna algo perigoso e até mesmo inconsciente, deixando o ser humano apenas à mercê da sua natureza e prazer. A liberdade ainda é algo que, segundo Frankl, é inerente ao ser humano independente de seu estado mental, argumenta ainda que o mais íntimo da personalidade humana sequer é tocado, preservando assim a sua dignidade. Mesmo em caso de indivíduos neuróticos, o que há é uma negação do seu próprio livre-arbítrio, no qual há uma negação da sua responsabilidade.

Com isso, por fim, como visão de mundo de sua teoria, Frankl elaborou o otimismo trágico, que como o nome já diz, é um otimismo que vive apesar das 3 características imanentes à existência humana, que são: dor, culpa e morte. E esse otimismo só é possível pois o ser humano sempre tem particularidades que permitem isso, essas que já foram citadas no artigo, também outras como: ver na culpa uma oportunidade para melhorar a si mesmo, e aproveitar a transitoriedade da vida para fazer mais ações responsáveis.

 

Conclusão e Agradecimentos

 

Com tudo que já foi dito acima, e estudado durante décadas nas situações mais adversas possíveis, vemos que não importa o quão grande seja o sofrimento, ele sempre tem uma saída, ou melhor dizendo, um sentido; algo que realmente faça com que toda miséria sofrida não exista apenas para provocar dor, mas também para nos fazer refletir e de alguma forma também extingui-la. 

Quero agradecer aqui a todos os membros do Neoiluminismo, que me estimulam a continuar na estrada do conhecimento, e que se esforçam para tornar esse projeto cada vez mais grandioso, inclusive recomendo dois artigos que podem aprofundar mais os temas abordados aqui o “Tratado Acerca do Absurdismo” de Israel Russo, que aborda essa questão de um ponto de vista filosófico, que pode ser lido aqui, e os 3 artigos sobre a liberdade em Kant de Samuel Santana, que podem ser acessados começando por aqui.

Agradeço também a todas as outras pessoas fora do movimento, que me estimularam a continuar nesse caminho e que me ajudaram a não desistir, e por último, mas não menos importante: Sapere Aude!

 

Notas

 

  1. FRANKL, Viktor Emil. Em Busca de Sentido: um psicólogo no campo de concentração. 35ª edição. Porto Alegre: Editora Vozes, 1991, p. 36.
  2. Ibid., p. 58.
  3. Ibid., p. 68.
  4. apud. WEISSKOPF-JOELSON, Edith. Some Comments on a Viennese School of Psychiatry, The Journal of Abnormal and Social Psychology.
  5. FRANKL, Viktor Emil. Em Busca de Sentido: um psicólogo no campo de concentração. 35ª edição. Porto Alegre: Editora Vozes, 1991, p. 76.
  6. Ibid., p. 79.
  7. AGOSTINHO, Santo. A Vida Feliz. São Paulo: Editora Paulus, 1998.

 

Referências Bibliográficas

 

  1. FRANKL, Viktor Emil. Em Busca de Sentido: um psicólogo no campo de concentração. 35ª edição. Porto Alegre: Editora Vozes, 1991.
  2. AGOSTINHO, Santo. A Vida Feliz. São Paulo: Editora Paulus, 1998.
  3. PEREIRA, Ivo Studart. Espírito e liberdade na obra de Viktor Frankl. 2015.
  4. SILVEIRA, Daniel Rocha; MAHFOUD, Miguel. Contribuições de Viktor Emil Frankl ao conceito de resiliência. 2008.

 

Este post tem um comentário

  1. Muito bom artigo. Parabéns!

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