O comércio internacional e a difusão do conhecimento – Guilherme Machado

O comércio internacional e a difusão do conhecimento – Guilherme Machado

INTRODUÇÃO

O caráter do conhecimento e seu papel no desenvolvimento econômico ainda é muito subestimado e desconsiderado nos modelos micro e macroeconômicos que existem hoje no pensamento econômico ortodoxo. Apesar de que, após os recentes desenvolvimentos teóricos no campo da macroeconomia – com um aumento importante na aplicação de microfundamentos a tal campo e, consequentemente, aos seus modelos -, o debate acerca da “economia do conhecimento” ainda toma um lugar obscuro no debate sobre as causas e a natureza da riqueza das nações. Contrário a esse pensamento contemporâneo, o conhecimento é, em si, responsável por uma grande parte do processo de desenvolvimento econômico. Ele permeia todo os processos de mercado, desde as tomadas mais específicas de decisão por parte dos empresários, até os mais agregados dados estatísticos. (HAYEK, 1945)

Um erro comum que os economistas cometem é não saberem reconhecer as diferentes dimensões do conhecimento, talvez impulsionados a pensar de tal forma devido aos avanços formidáveis na ciência e na tecnologia. Pressupõe-se ainda que todo o conhecimento pode ser alocado numa única mente, seja a de um expert ou a de um leigo, e que, sendo esse o cerne do problema, ele seria capaz de utilizar esse conhecimento da maneira mais eficiente possível. Tal pressuposição consiste no principal erro que os socialistas “oldschool” cometiam, assim como os socialistas neoclássicos, como Oskar Lange e Henry Dickinson. Claro que não fora a única falha que cometeram, mas foi o erro central de suas teorias.

As dimensões do conhecimento podem ser colocadas como 2, apesar de uma análise mais específica nos revelar 3. Cabe-me aqui focar somente numa geral. O conhecimento estatístico é aquele que os economistas e os mais diversos cientistas sociais utilizam em suas pesquisas, aquele que está diante de nós, feito a partir de cálculos, pesquisas, estudos econométricos e, consequentemente, o mais utilizado como base para políticas econômicas efetuadas pelo Estado. Existe, ainda, um outro conhecimento, desprezado em grande parte pelos analistas de eficiência de políticas econômicas. Esse é o conhecimento acerca das particularidades do espaço e do tempo de um dado local; as melhores técnicas de produção e a melhor alocação dos recursos.

Tal conhecimento é pertencente em grande parte aos empresários, sejam grandes ou pequenos. Isso porque é efetivamente muito difícil que uma única mente, ou um único modelo estatístico, possa incorporar essa dimensão do conhecimento em suas análises, o que consiste num grave problema, pois o mesmo é o principal fator na decisão de criar ou não um novo negócio e/ou uma política econômica, pelo simples fato de que precisamos saber sobre a demanda local, a disponibilidade de recursos para a construção/efetivação de tal negócio/política etc.

 

O PROBLEMA DA DISPERSÃO

Sendo esse conhecimento particular de muitos indivíduos, contingente às diversas variáveis, ou seja, o mesmo sendo disperso, faz-se mister pensar que em algum outro lugar do mundo, país ou até mesmo de nossa cidade ou estado, exista alguém que saiba produzir um bem e/ou efetuar um serviço de maneira mais eficiente que nós mesmos. Emerge então o principal problema que a ciência econômica deve resolver, e o que mais importa quando o assunto é “crescimento econômico”.

Precisamos descobrir como podemos passar esse conhecimento para todos da economia, de forma que todos adotem as técnicas mais eficientes e, por meio dos processos de mercado, novas técnicas mais eficientes sejam recompensadas com o lucro, e técnicas piores sejam excluídas do mercado, passando por um processo falibilístico que permeia toda a atividade empresarial. Desde economistas clássicos até as recentes pesquisas dos economistas mais modernos, essa resposta parece existir. Adam Smith, David Ricardo, Friedrich von Hayek e Daron Acemoglu ressaltaram tal resposta constantemente em seus estudos, e por certo tempo foi o principal objetivo de suas pesquisas econômicas. Para que um país possa se desenvolver, é necessário que exista comércio, inclusive internacional, sendo o Estado o responsável por garantir que esse comércio exista de maneira competitiva e saudável, assim como assegurar um ambiente econômico, político e institucional que permita ao máximo a dispersão e “falibilização” desse conhecimento, ou seja, garantindo os direitos de propriedade e adotando uma alta descentralização nos processos de tomada de decisão.

Grande parte do desenvolvimento econômico de muitos países se deve ao aumento do comércio, tanto do interno quanto do internacional, pois como mencionado, o comércio é o principal fator que dispersa o conhecimento existente; consequentemente, é um remédio que age diretamente na causa do problema. O comércio internacional, além de proporcionar diversos outros benefícios advindos da especialização, permite que países tecnologicamente atrasados possam buscar alcançar a tecnologia dos outros países, permitindo que a mesma adentre nos países e tenha seu efeito bem estabelecido, consequentemente aumentando o desenvolvimento econômico, o qual advém do aumento da produtividade total dos fatores.

O consenso acadêmico atual é de que existem 4 fatores principais no aumento da produtividade, e consequentemente, no crescimento econômico de um país: trabalho, Produtividade Total dos Fatores (PTF), capital humano e capital físico. No entanto, todos com exceção da PTF sofrem retornos decrescentes a longo prazo. O Investimento em capital físico irá tornar-se cada vez mais ineficiente, como foi visto nas análises do modelo Harrod-Domar, que incentivaram o surgimento do modelo de Robert Sollow, no qual a tecnologia tem um papel crucial no desenvolvimento. O Capital humano também sofre de tal problema. Porém, uma característica do mesmo é que caso o país tenha um sistema de incentivos suficientemente eficaz – no sentido de alocar de maneira eficiente tal mão de obra qualificada – seus retornos decrescentes podem ser minimizados consideravelmente. E um ambiente econômico competitivo é o melhor sistema de incentivos para tal finalidade. 

Participação no trabalho não adianta muito per se, pois é necessário mão de obra mais qualificada e mais investimento em capital físico, o que, como mostrado, não é eficiente a longo prazo. Precisaríamos ter uma explosão demográfica gigantesca, assim como um aumento massivo no estoque de capital físico, para que a produtividade brasileira crescesse exponencialmente, o que claramente é algo inconcebível, com muitas consequências adversas. Seria atacar os sintomas, e não as causas, de uma doença. (EASTERLY, 2002)

A tecnologia medida empiricamente pela PTF é o único fator que não sofre retornos decrescentes. Na verdade, ela sofre de retornos crescentes. Novos meios de alocar os recursos, máquinas mais eficientes, ferramentas de trabalho mais sofisticadas e outros diversos lugares em que a tecnologia pode se manifestar geram o que se chama de ganhos de escala. Ou seja, podemos produzir mais, com a mesma quantidade de fatores, como capital físico e oferta de mão de obra. Além disso, conforme a tecnologia aumenta, torna-se ainda mais fácil desenvolver novas tecnologias. Isso pode ser visto no desenvolvimento tecnológico antes do século XIX. Nesse período, a ciência não era tão desenvolvida quanto é hoje, então todo desenvolvimento econômico se dava por tentativa e erro de engenheiros e técnicos talentosos, com um conhecimento tácito muito grande, apesar de serem quase ignorantes a respeito dos motivos de tal desenvolvimento acontecer. Eram ignorantes, mas habilidosos com seus serviços.

Tal desenvolvimento tecnológico permitiu que os processos de produção nas indústrias e outros campos da economia pudessem ser mais facilmente observados por cientistas. Assim, podemos dizer que a ciência teve mais tempo, conforme o mundo se desenvolvia economicamente, de investigar as causas do porquê de certas inovações ocorrerem. Esse desenvolvimento científico que surgiu num contexto em que a evolução de tecnologias da época baseava-se apenas na intuição e no conhecimento tácito de seus inventores, criou um cenário propício ao desenvolvimento de mais inovações. Sendo assim, quanto mais tecnologia, mais fácil torna-se desenvolvê-la, numa espécie de progressão geométrica.

 

OS GANHOS DE PRODUTIVIDADE DO COMÉRCIO

A evidência empírica dos ganhos de produtividade – que representam o aumento tecnológico – advindos do comércio internacional é, sem exageros, imensa. Um exemplo para elucidar tudo que foi falado até agora é o do desenvolvimento do Japão pré-industrial.

O cenário institucional do Japão nessa época, por volta de 1850, era bem precário e impróprio para o desenvolvimento econômico. A economia, principalmente por fatores culturais, era uma das mais isoladas do mundo, o que provocou um retardo em seu desenvolvimento técnico e institucional, o que é ainda mais agravante, pois países na mesma situação, porém com maior abundância de recursos naturais, teriam uma possibilidade maior de sustentabilidade. No caso do Japão acontecia o contrário, devido a sua escassez de recursos naturais e solo impróprio a uma agricultura minimamente eficiente. A sociedade era segregada em algumas castas, sendo a principal a casta dos Shogunatos e os Bushi

Os shogunatos eram os grandes líderes, uma espécie de nobreza que tinha pleno poder dentro do país e era proprietária de cerca de um terço de todas as terras disponíveis, enquanto os Bushi – que eram líderes ou guerreiros que se aliavam aos Shogunatos – tinham propriedade do resto. A relação entre ambos, apesar de serem aliados, era rigidamente delimitada pelos Shogunatos. Eles não podiam se desvirtuar dos interesses do Shogunato, deveriam permanecer em Tokyo – podendo visitar sua família ou região apenas depois de um ano – e, muitas vezes, eram impostos trabalhos de administração pública, que ficavam sob sua responsabilidade finalizar. Seu contato com o exterior, de fato, foi a delimitação mais rígida. Só poderia ser efetuado pelo porto de Nagasaki, e apenas com os chineses e os holandeses. Caso tais regras não fossem obedecidas, os Bushi poderiam sofrer todos os tipos de sabotagem e ameaça, que era um meio efetivo de perpetuar o sistema feudal, principal objetivo dos Shogunatos. Os principais métodos iam desde aumento do imposto sobre suas terras, até ameaças aos familiares e/ou ao povo.

Apesar de tal relação desarmônica, os maiores prejudicados eram os camponeses, maioria da população japonesa e, comparativamente, a única que realmente produzia. Camponeses não podiam se mover entre territórios, vender terras, mudar de profissão ou qualquer outra coisa que os Bushi poderiam fazer, inclusive no âmbito privado, onde até sua quantidade de comida diária era delimitada. Sua única função era trabalhar e sustentar o país até a morte. (MATAJI MIYAMOTO, 1965)

A situação técnica da agricultura japonesa, apesar de rudimentar, teve evolução. A venda e o uso de fertilizantes, de alguns animais para facilitar o plantio e, posteriormente, após o governo trazer técnicos do exterior com maior conhecimento sobre agricultura, o uso do sistema de rotação de culturas – isso depois de um longo período de uso intensivo das mesmas terras, o que desgastou o solo de certa forma. Com o fim da era Tokugawa, muitos progressos industriais foram notados, desde a produção mais simples, como a de arroz e de algodão, até a indústria com escala de produção mais complexa, como a produção de cerveja e ferro. Surgiram vendedores atacadistas que comercializavam os mais diversos bens por todo o Japão, como a venda de guarda-chuvas, arroz, fios, papéis, lanternas, e também muitos produtos derivados de algodão. Tal aumento progressivo no comércio permitiu que os trabalhadores japoneses desenvolvessem técnicas e habilidades muito úteis para a indústria, um conhecimento tácito aprimorado que serviu bastante para que as classes mais baixas pudessem ascender socialmente, o que progressivamente modificou os arranjos institucionais do Japão e, posteriormente, gerou um grande desenvolvimento econômico.

Surgiu assim uma classe de membros no feudalismo japonês, que apesar de serem muito mais pobres quando comparados com os Shogunatos, estavam cada vez mais enriquecendo e ascendendo socialmente. Eles passaram a ter um papel ativo na economia japonesa, pois com seus investimentos na venda de feudos comerciais e a criação de algumas indústrias manufatureiras (investiram até mesmo na pesca), conseguiram exercer uma pressão crescente sobre o arranjo institucional feudal da época. Apesar de – como resultado de seu enriquecimento – suas relações com os Shogunatos, os Bushi e os lordes feudais, seus investimentos foram importantes para o posterior desenvolvimento econômico. 

Além do aumento do conhecimento industrial e tácito que a população havia desfrutado, eles tomaram uma posição semelhante a dos bancos. Frequentemente os comerciantes emprestavam dinheiro para as mais variadas classes da sociedade feudal, com exceção, claro, dos camponeses, nos quais o investimento era indireto, mas, ainda assim, eficaz. Inclusive os comerciantes foram os primeiros a começar um trabalho muito importante para o futuro, pois eles passaram a executar processos de escrituração contábil, possibilitando o armazenamento de valiosas informações em livros. Essa utilidade é ampla desde a sua necessidade devido à crescente complexidade comercial da época, assim como está sendo útil agora para a pesquisa da situação do país em épocas passadas.

Por incrível que pareça, as mais variadas instituições de crédito surgiram e foram utilizadas no Japão pós-Tokugawa. Letras de crédito, os mais variados empréstimos, notas promissórias, cheques e outros tipos de instrumentos de crédito foram extensivamente utilizados.

 

O PAPEL DO COMÉRCIO INTERNACIONAL NO DESENVOLVIMENTO JAPONÊS

Com o fim da era Tokugawa, as classes mais abastadas do Japão feudal começaram a ter problemas financeiros. Com a chegada da Expedição Perry – uma expedição puramente imperialista realizada em 1853 – o Japão começou a receber choques que exerceram forte pressão sobre o status quo econômico e institucional do país. Sob ameaça de bombardeio, os japoneses foram obrigados a ceder a abertura de seus portos, permitindo a entrada dos mais diversos produtos e commodities. Aqui começam a atuar os processos de mercado, os quais ocorrem em todo e qualquer país que passa por uma abertura comercial. 

A curto prazo pode parecer maléfico pela subsequente quebra de empresas improdutivas e alta pressão competitiva, porém, é essencial a longo prazo, pois tal processo funciona como filtro, excluindo os ultrapassados e otimizando os existentes, o que é de suma importância para o desenvolvimento econômico de um país. Após sua primeira visita, houve uma segunda avisada aos japoneses, na qual o comandante Matthew Perry negociou com o Japão a assinatura da chamada Convenção de Kanagawa, que efetivava a abertura das fronteiras do país, expondo sua economia, e também a entrada de diversos materiais e máquinas que foram importantes para o desenvolvimento tecnológico da nação, sendo eles uma pequena locomotiva, um teleférico, diversas ferramentas para agricultura, relógios, Whisky e, com maior importância, livros sobre os Estados Unidos.

Esse processo foi a maçante quebra de muitas indústrias japonesas, assim como a alta pressão competitiva gerada pela tal abertura. Indústrias de seda, algodão, fio e quase que toda a economia industrial japonesa sofreu pressão devido à entrada dos mesmos produtos, só que vindos do exterior, com maior qualidade e preços mais baixos. A primeira reação – um erro comum – foi a do governo tentar ao máximo limitar a entrada desses produtos e proteger os interesses dos comerciantes e lordes feudais nacionais. Os mais afetados foram os produtores de arroz, seda e algodão. Agricultores que cultivavam produtos derivados de óleo vegetal, assim como cera, também sofreram muitas perdas. Os comerciantes também perderam espaço conforme a entrada de outros comerciantes norte-americanos os deslocavam para a periferia da economia na época.

Para impedir essa dizimação econômica, apesar de impedidos de colocar impostos sobre as importações, eles adotaram algumas medidas de análise dos produtos exportados, porém, sem sucesso. A pressão dos comerciantes internacionais era muito forte e, posteriormente, o Japão feudal desistiu de resistir e finalmente caiu.

Obviamente, após alguns anos esse processo veio a gerar frutos para a economia japonesa em todos os sentidos possíveis. Para ilustrar, os índices de preços das importações e exportações em 1860 eram respectivamente, 104 e 234. Em 1865, o índice de importações subiu para 134 (o que significa que o Japão passou a ter custos mais altos com importação), mas, em contraponto, o índice de preços das exportações subiu para 384, o que mais que compensou o aumento do preço das importações. Isso para não falarmos da produtividade do Japão, que aumentou tanto em consequência do aumento da formação de capital físico quanto da qualificação dos trabalhadores por meio da experiência de trabalho nas fábricas e, mais importante, a tecnologia. Todo esse crescimento foi possível também por conta dos altos índices de poupança advindos da própria cultura japonesa.

 

ASPECTOS IMPORTANTES DA TECNOLOGIA

Apesar de todo esse período que o Japão passou, ele não sofreu por um processo puro e completo de ocidentalização, ao menos não nessa época. Esforços do governo foram feitos para que a cultura japonesa se ocidentalizasse, porém, sem sucesso. Com a entrada massiva de concorrentes, novos produtos e novas técnicas, fica óbvio que o Japão sofreria do chamado “International Demonstration Effect”, que é nada mais que uma mudança nos aspectos políticos, econômicos e culturais de um país ao se expor a outras culturas.

No entanto, esse efeito quando analisado no âmbito econômico, não foi prejudicial de maneira alguma. O Japão, ao invés de simplesmente comprar as máquinas industriais construídas com ferro dos Estados Unidos – mais eficientes e resistentes – adaptou as técnicas estrangeiras ao seu próprio país, além de “importar” a tecnologia, para que pudesse produzir tais máquinas. Isso reduziu o embargo que o Estado tinha que custear caso, do contrário, ele optasse por somente comprar as máquinas já prontas, que envolveriam altos custos de transporte fora o próprio custo das máquinas. Isso pode ser chamado de “catch-up”, e acontece porque os países mais tecnologicamente subdesenvolvidos não precisam passar por todo o processo de descoberta de novas tecnologias que os países nos quais tais tecnologias surgiram passaram, como os EUA. 

Eles podem simplesmente executar uma série de políticas econômicas, como abertura comercial, simplificação e redução da carga tributária, assim como efetuar gastos com a importação das técnicas produtivas de outros países, permitindo tanto que a tecnologia entre no país, como assegurando que ela tenha um ambiente propício a sua disseminação por toda a sociedade. O Japão não precisou criar seus próprios inventores, como Thomas Edison ou até um Bill Gates; simplesmente permitiu que as contribuições dos inventores do exterior entrassem no seu país.

A tecnologia tanto pode complementar, quanto pode substituir, ou seja, pode complementar as técnicas já existentes, mas também pode excluir do mercado os produtos mais antigos, tornando-os ultrapassados. No caso do Japão, a tecnologia do exterior, a longo prazo, complementou as técnicas agrícolas e industriais do país mais do que as substituiu. Isso pode ser visto no fato de que as indústrias japonesas que mais prosperaram após a assinatura do Tratado de Kanagawa, não eram aquelas que usavam diretamente o capital físico importado dos Estados Unidos, muito pelo contrário, mas as que produziam seda e chá, nas quais as mudanças em suas técnicas foram menos drásticas do que em outros setores. 

Algumas ferramentas da produção foram complementadas por tecnologia externa, como as ferramentas para o enrolamento da seda, que passaram a utilizar engrenagens, e certas partes puderam ser feitas com ferro. O governo construiu uma grande fábrica de seda com tecnologia importada, mas não com as máquinas importadas. Os equipamentos estavam sendo produzidos dentro do país, usando uma soma de madeira e ferro, utilizando-se apenas da tecnologia em si que o exterior tinha provido a eles ao invés do equipamento completamente pronto. Na tecelagem, eles passaram a utilizar o maquinário criado dentro do país com o complemento da tecnologia do exterior, como a utilização dos pedais de engrenagem e correias para a transmissão de força. Até mesmo as ferramentas usadas na fiação do algodão passaram por desenvolvimento com o surgimento de uma ferramenta de madeira chamada Garaboki, que tinha como complemento das tecnologias do exterior a transmissão de força por correias e o uso da força da água.

A tecnologia tende a segregar-se onde ela já esteja em grande avanço, como os grandes centros tecnológicos do Vale do Silício. Os países que, por motivos políticos ou por contingências do destino, ficaram para trás no desenvolvimento tecnológico, têm tanto uma vantagem quanto uma desvantagem. A desvantagem é que eles estão numa armadilha, pois grande parte dos países subdesenvolvidos tem um péssimo ambiente de negócios – consequentemente, repulsivo à entrada e utilização de novas tecnologias. Outro problema é que o mercado não tem incentivos para produzir e/ou importar tecnologias do exterior, pois uma característica do avanço tecnológico é que os ganhos que o inventor de uma nova técnica de produção (suponhamos) tem, é substancialmente menor que os ganhos que a economia como um todo recebe.

Nikola Tesla e Thomas Edison podem ter tido bons ganhos a partir de suas invenções, mas nada se compara ao ganho que a sociedade teve depois que elas foram produzidas e usufruídas por todos. Nesse caso, somente depois de uma grande revolução institucional, como o ataque da expedição Perry, ou uma atitude direta do governo em tanto gastar diretamente com a importação de tecnologias do exterior (como contratar trabalhadores ou técnicos de lá, assim como comprar as máquinas já prontas, ele também pode enviar trabalhadores do país para aprenderam fora e depois voltarem, que foi o caso da Desh-Garments Ltd, em Bangladesh), quanto em promover um ambiente econômico propício à disseminação da utilização dessa nova tecnologia, já citados anteriormente.

A vantagem já foi citada. O país não precisa passar por todo o processo de descoberta da tecnologia. Ele pode simplesmente copiar a tecnologia do exterior e ter altíssimos ganhos com isso. Resta o Estado promover os incentivos para tal.

No fim das contas, fica claro que países protecionistas nunca poderão ter um futuro próspero com um aumento do bem-estar econômico para sua população e ganhos de produtividade significativos, já que a mãe da inovação é a competitividade em todos os níveis possíveis. Isso talvez explique o porquê da China, que quase 100 anos antes da grande abertura econômica japonesa, já havia evoluído tecnologicamente mais que todo o resto do mundo, com sua invenção da pólvora, bússola, impressão e papel. Hoje possui a renda per capita de 8,804 dólares, enquanto a do Japão é de 38,440 dólares, quase 5 vezes maior. Enquanto o Japão já adotava políticas econômicas e fazia reformas institucionais voltadas ao liberalismo econômico em 1850, a China só foi dar uma “guinada” ao capitalismo em 1970, mais de 100 anos depois.

 

REFERÊNCIAS

EASTERLY, W. The elusive quest for growth: Economist’s adventures and misadventures in the tropics. MIT Press, 2002.

HAYEK, F. V. The use of knowledge in society. The American Economic Review, p. 519-530, 1945.

MATAJI MIYAMOTO, Y. S. Economic Development in Preindustrial Japan, 1859-1894. The Journal of Economic History, p. 541-564, 1965.

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