A Emboscada de Chisholm ao fenomenalismo – Rodolpho Alves

A Emboscada de Chisholm ao fenomenalismo – Rodolpho Alves

Fenomenalismo, fenomenismo experiencial  ou idealismo fenomenal é uma corrente filosófica radical  que se opõe ao realismo, tido por muitos como a mais radical oposição a este por negar a Deus para assegurar a existência, e, por isso mesmo, é alvo de vários ataques e respostas. Justamente neste artigo irei expor uma crítica pautada em argumentos expostos pelo filósofo Roderick Chisholm em alguns artigos publicados pelo Journal of Philosophy, da forma mais concisa e direta.

1- FENOMENALISMO

Surgindo no começo do século XX e tendo como principal defensor John Stuart Mill, inicialmente chamado de fenomenismo experiencial e posteriormente chamado de idealismo fenomenal e fenomenalismo (abordarei como fenomenalismo pois sendo essa a forma mais comum), é uma corrente filosófica que defende que nada existe fora do sujeito perceptivo, bem, tendo em fato que o fenomenalismo é anti-realista (nega a existência de objetos fora do sujeito perceptivo), podemos ter a noção da valorização deles aos “dados dos sentidos”[1], onde afirmam que o universo é constituído apenas por mentes e pelos dados dos sentidos que elas percepcionam (nos tópicos 2-b) e 2-c) será melhor formulada essa proposição). Alguém com conhecimento profundo ou mesmo raso de epistemologia irá perceber que até agora se assemelha ao idealismo de Berkeley, mas explicarei a distinção do fenomenalismo e do idealismo de Berkeley na parte profenomenalista.

2- ESTRUTURA DO FENOMENALISMO

Aqui irei demonstrar, dividindo em a, b e c, a estrutura dessa corrente epistemológica, sendo: a) o começo pro anti-realismo; b) idealismo de Berkeley e a crítica dos fenomenalistas a ele: c) a conclusão dos fenomenalistas.

a) Realismo direto e sua brecha:

Bom, como o começo mesmo diz, os realistas indiretos concordam com os realistas diretos (tanto ingênuos, quanto científicos) na questão de existir um mundo externo, de existir as coisas fora da mente do sujeito perceptivo, no entanto eles não acreditam que temos percepção direta a determinado objeto, os realistas indiretos afirmam que a percepção envolve imagens intermediárias, sendo essas imagens mediadoras chamadas de dados dos sentidos.

Já comentado no início, mas adicionando algo mais, os dados dos sentidos são considerados como tendo  duas dimensões. Para os realistas indiretos, a lata de refrigerante que estou vendo agora causa a presença de um dado dos sentidos bidimensional da cor metálica na minha mente, então esse é o objeto que percepciono diretamente. Segue que a lata de refrigerante é percebida por mim indiretamente, sendo que eu só a percepciono pois estou ciente que os dados dos sentidos a causou na minha mente. Então compreendemos que para os realistas indiretos só temos percepção direta de certos objetos mentais, mas ao colocarmos a atenção novamente no mundo externo, da nossa percepção sobre ele nesses aspectos mentais, finda que eles expõem sua teoria a um ceticismo radical. Como só podemos percepcionar o mundo indiretamente pelo dado dos sentidos, todas as nossas crenças do mundo exterior podem ser falsas, pode não existir lata de refrigerante alguma, e sim somente os dados dos sentidos de uma cor metálica na minha mente.

b) Fenomenalistas negam Deus:

Vendo a brecha que o realismo indireto deu ao ceticismo, um desses ceticismo que se manifestou foi o de Berkeley, mais tarde conhecido como idealismo de Berkeley, onde ele afirma que os objetos físicos consistem em coleções de ideias, que seria o que vimos no começo sobre dados dos sentidos, algo semelhante ao que eu disse no tópico 1 referindo-se aos fenomenalistas. Berkeley afirmava também que o universo é composto apenas por mentes e pelos dados dos sentidos que elas percepcionam, porém os fenomenalistas adaptaram um pouco, dizendo que as afirmações acerca do mundo físico deviam ser vistas como afirmações acerca das nossas experiências possíveis.

Os dados dos sentidos não podem existir sem os que o percepcionam, tendo em conta então que os objetos físicos dependem do sujeito que os percebem. Uma consequência então dessa explicação seria pressupor que o mundo externo não existe se não for percebido, então para sair desse solipsismo, Berkeley, ou para condizer melhor com a próxima afirmação, o Bispo Berkeley, afirma que quando não podemos percepcionar algum objeto, é Deus quem tem a percepção sobre eles, sustentado assim a sua existência como dados dos sentidos que são apenas enquanto são percebidos. É justamente a saída do solipsismo usando Deus que os fenomenalistas rejeitam. Para os fenomenalistas, essa posição é altamente problemática e contra intuitiva, assim eles adaptaram esse idealismo negando Deus como a prova da existência. Mas como então eles saem do solipsismo.

c) Não é Deus? Então é o que?

Notamos então que para os fenomenalistas o argumento de que Deus assegura a existência das coisas como tais enquanto dados dos sentidos percebidos era contra-intuitiva e problemática, mas então como eles justificam a existência?

“Os objetos materiais não são mais do que possibilidades permanentes de sensação.” -John Stuart Mill,1889.

Continuando a explicação de como os fenomenalistas asseguram a existência sem mundo externo e sem a presença de um Deus com essa frase de J.S.Mill, podemos então dizer que os objetos físicos podem existir sem serem percepcionados, visto haver uma possibilidade continuada de experiência, ou seja, dizer que tem uma garrafa de café na minha gaveta é dizer que eu veria uma garrafa de café se abrisse a gaveta. Assim o mundo é descrito em termos dos dados dos sentidos presentes, e em termos de condicionais que descrevem os dados dos sentidos em situações contrafactuais e futuras[2].

3- O DALTÔNICO DE LUVAS E A MAÇANETA
  “Refutação de Chisholm ao fenomenalismo”

O título pode parecer bobo, ou engraçado, até mesmo os dois, mas logo mais você entenderá. Então finalmente chegamos ao que eu gosto de chamar de A emboscada de Chisholm onde você verá que até mesmo as coisas simples analisadas com atenção podem acabar com uma corrente epistemológica. Separei então elas em ‘a’ e ‘b’, sendo a) a crítica de Chisholm a Stuart Mill e b) a crítica de Chisholm a Lewis.

a) Chisholm vs J.S.Mill

Bom, então entendemos que, para Stuart Mill, se eu tenho um copo rosa já velho com canetas a minha direita quer dizer que a experiência de deslocar o meu braço para a direita seria seguida de uma sensação áspera ao encontrar o copo e que a sensação de virar a cabeça seria acompanhada pela presença de dados dos sentidos de rosa no meu campo de visão, porém Chisholm afirma que os fluxos de experiência não têm de ocorrer dessa maneira, e dá o exemplo que se eu estivesse de luvas, não sentiria essa sensação de aspereza, e se eu fosse daltônico ou se as luzes estivessem apagadas, não experienciaria esses dados dos sentidos de rosa, aí ele conclui que as sensações que tenho dependem de vários fatos acerca de mim e do meio envolvente, não há afirmações condicionais que descrevam a relação entre as sensações consideradas isoladamente de certos aspectos físicos de quem percepciona e do mundo externo. Então um fenomenalista não poderia usar os estados físicos do sujeito perceptivo nem dos objetos (a luva, nesse exemplo) para rebater Chisholm, somente os dados dos sentidos e as relações entre eles. Chisholm conclui, então, que o fenomenalista não pode, portanto, dar conta do mundo físico apenas em termos de experiências contrafactuais futuras, por isso o seu projeto falha.

b) Chisholm vs C.I.Lewis

Agora vamos para o exemplo que Lewis aplicou. Se eu tenho uma maçaneta na minha frente, seria a mesma coisa de ter certa condição sensorial que eu deveria ver uma maçaneta e eu deveria parecer estar iniciando um movimento de agarrar, então com toda a certeza a sensação de entrar em contato com uma maçaneta deve seguir. Dessa afirmação de Lewis, Chisholm já se dispôs a dizer que a declaração de que eu tenho uma maçaneta, não implicaria em uma declaração contrafactual, pois se assim fosse, deveria dar ela sem considerar a verdade ou falsidade de qualquer outra proposição, mas então ele supôs que a seguinte declaração fosse verdadeira: “Estou paralisado do pescoço para baixo e experimento alucinações de tal modo que pareço me ver caminhando para a porta”. Se isso fosse verdade, então poderia haver uma maçaneta na minha frente, eu poderia parecer para mim mesmo ver uma maçaneta, e eu poderia parecer a mim mesmo estar realizando o tipo certo de movimento de agarrar, mas é um fato com nenhuma chance de ter uma sensação de entrar em contato com a maçaneta da porta.

Ele também usou outro exemplo bastante parecido com o do daltônico que ele usou contra os argumentos de Stuart Mill, então ele afirmou que a declaração de que “O único livro a minha frente é laranja” não implica a condição sensorial “o laranja provavelmente irá chegar a mim se eu ver um livro”, porque o laranja não é provável aparecer sob efeitos de uma luz azul, ou mesmo se eu fosse daltônico.

Os fenomenalistas tentaram evitar essa emboscada de Chisholm aumentando as condições de Chisholm e analisando que em vez de “há uma maçaneta na minha frente”, posso falar que “há uma maçaneta e não estou paralisado”, mas Chisholm afirma que, se os fenomenalistas quisessem complicar o exemplo de Lewis, ele também deveria complicar sua análise, nesse caso particular, deve-se analisar, em termos puramente sensoriais, o que significa não ficar paralisado e assim por diante, em relação aos quais pode se ver que os mesmos problemas surgiriam.

“Para calcular o que aparece com total sucesso é preciso conhecer quer a coisa percepcionada, quer as condições (subjetivas e objetivas) de observação, porque é a coisa percepcionada e as condições de observação que determinam, por ação conjunta, aquilo que vai aparecer.”
Roderick Chisholm (The problem of Empiricism, página 513.)

Notas:
1 – Seria objetos mentais que nos fornecem as propriedades, ou algumas delas, do objeto percepcionado.
2 – Assim formulada a hipótese de algo que poderia vir a acontecer, ou que algo poderia estar lá, etc.

Este post tem um comentário

  1. muito bom seus post … parabens vou acompanhar seu blog sempre ja esta nos favoritos

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