Tratado sobre a Estética – Antônio Siqueira

Tratado sobre a Estética – Antônio Siqueira

A Estética é a área da filosofia que estuda o belo e outras experiências estéticas (sublime, deleite, prazeres e desprazeres estéticos em geral) e não é um estudo jovem. Aristóteles e Platão já discutiam as características da Arte e da Beleza de maneira geral, mas, embora situados em uma época até hoje estudada por sua riqueza estética, tal riqueza era mais comumente vista como uma forma de ode aos deuses e não havia muito estudo filosófico profundo. No entanto, a filosofia estética apenas foi receber esse nome, e consequentemente consolidar-se como estudo isolado, com a filosofia germânica durante o século XVIII, com Alexander Gottlieb Baumgarten (com apenas 20 anos na época), que cunhou o termo epistêmê aisthetikê, ou, como mais habitualmente referido, Estética. Grandes nomes da Filosofia surgiram como criadores de sistemas (ou algumas contribuições menores) estéticos, iniciando-se por Aristóteles, com seu influente Sobre a Arte Poética, que mais definiu os conceitos das artes do que seus sentimentos, seguindo caminho à filosofia medieval com São Tomás de Aquino, e então, agora consolidada como Filosofia Estética, na filosofia moderna, quando o estudo do belo foi tratado principalmente pelos ingleses, tendo Edmund Burke, David Hume e o contemporâneo Roger Scruton apresentados como os maiores nomes, e pelos germânicos, sendo Wolff, Leibniz, Baumgarten, Immanuel Kant, Georg Hegel e Friedrich Schiller os principais nomes. Iremos nos deparar com alguns desses grandes nomes da Filosofia Estética ao decorrer do artigo, e, introduzir os principais quesitos estudados pelos estetas, em prol de facilitar alguma futura leitura direta do assunto.

Arte

“O fim da arte é a elevação do homem por meio da beleza
Assim como o fim da filosofia é a elevação do homem por meio da sabedoria
E o fim da religião é a elevação do homem por meio do bom.”
Fernando Pessoa

Iniciemos pela discussão da arte: o que é arte? Bem, já de início, consideremos arte apenas as belas artes (i.e., toda a arte que cumpra com a reprodução do sentimento da beleza) levando em conta que mera arte, na definição clássica, pode ser considerado tudo aquilo cuja produção é de origem humana. Para Ortega y Gasset, tem significado maior toda a arte que fuja da realidade sem perder a substancialidade – sendo assim, meros riscos aleatórios não teriam valor algum pois, apesar de sua fuga da realidade, não possuiria substancialidade alguma. Ora, é claro que, para podermos responder a pergunta “O que faz da arte uma bela arte?” Devemos primeiramente explicar o que é a beleza.

O sentimento da Beleza

“Apenas através dos portões da beleza,
Encontra-se a terra da sabedoria.”
Friedrich von Schiller

Existem músicas belas, poemas belos, pinturas belas, momentos belos, pessoas belas, e eu posso continuar exemplificando eternamente, mas para primeiro entender o estudo da Estética, deve-se primeiro, claro, entender o que significa a beleza. Belo, para São Tomás, é tudo aquilo que agrada ao ver (e ouvir); Para Burke, no entanto, é aquela qualidade sensível presente nos objetos que nos causa amor ou alguma paixão similar. Para Kant, aquilo que se expressa no juízo estético. Para Schiller, a forma bela é aquela que dispensa explicações ou que se explica por si só sem a necessidade de um conceito. Ignorando as diferenças das visões das estéticas desses filósofos, vamos averiguar as características do sentimento da Beleza que é consenso entre a maioria dos grandes estetas: (1) O belo é universal, isto é, todos sentimos e somos afetados da mesma forma, sempre positiva, prazerosa. (2) A beleza é um prazer necessário subjetivo, ou seja, é definida pelo gosto, de tal forma que aquele que se deleita com a obra de Debussy não está correto ou incorreto quando comparado àquele que se regozija com a obra de Bach. (3) A beleza é um fim em si mesmo. Não tem qualidade de utilidade (Ora, imagine que utilidade teriam as belas camélias.). (4) A beleza é um prazer desinteressado, não há de ser manuseado como objeto econômico ou de quaisquer interesses. Embora Schiller apresente a beleza como intrínseca na questão da liberdade, jamais a trata como um objeto de manuseio. Bem, agora a resposta da pergunta feita no tópico anterior está clara. A arte que cumpra com os pontos agora esclarecidos pode, sem dúvidas, ser considerada uma bela arte, mesmo que, claro, não cause esse sentimento de altivez em todos os contempladores. Concluiu Schiller: A beleza é a natureza da arte [Verschlagenheit]. Mas então o que faz do artista um grande artista? Averiguemos isso mais detalhadamente.

A Beleza na Arte e o Artista

“A beleza da natureza é uma coisa bela;
A beleza da arte é uma bela representação de uma coisa.”
Immanuel Kant

Tendo base na Kallias (Ou Concerning Beauty) de Schiller, investiguemos a beleza enquanto contida na arte. Existem dois tipos de beleza na arte: (1) A beleza de escolha [Wahl] ou da matéria, i.e., a imitação da beleza natural e (2) a beleza de representação ou da forma, i.e., a imitação da natureza. A beleza da forma é específica à arte (ou seja, específica ao talento e à qualidade), já a beleza da matéria se trata do que o artista representa, enquanto na beleza da forma, importa apenas como ele representa. A beleza da matéria é a livre representação da verdade, ao mesmo tempo que a beleza da forma é a livre representação do belo. É grande o artista que une os dois, equilibrando a beleza daquilo que ele representa, com a beleza de como ele representa, em palavras simples, ele deve representar algo belo de forma bela. (Como por exemplo a pintura de Sandro Botticelli, O Nascimento de Vênus, que mantém o equilíbrio entre a beleza do que está sendo representado, ou seja, a beleza de uma deusa, e a beleza de como ele representa, ou seja, suas técnicas renascentistas de representar algo belamente.)

O Nascimento de Vênus, de Sandro Botticelli; exemplo de equilíbrio entre beleza de forma e beleza da matéria.

A Estética e a Moral

Existe uma longa teoria que traça uma ponte entre a Estética e o Dever. Kant, Schiller e outros idealistas aceitaram a importância da Estética quanto às leis morais que dita nossos atos. Sendo uma longa e complexa teoria, trarei apenas o principal ponto, levantado por Friedrich von Schiller. O filósofo demonstra algumas situações: uma na qual se age por puro respeito às leis, uma na qual se age apenas de forma utilitária, uma por mero impulso, mas por fim, a mais pura, foi onde se agiu meramente por instinto e não se pensou nas consequências que poderiam voltar-se a ele – o agente. Assim, uma ação moral é uma ação bela apenas quando aparece como uma imediata reação da natureza. Em suma: a mais pura e bela forma de ação moral não é aquela na qual se age por coerção externa, ou por impulso de um bom coração, mas sim aquela na qual o dever se torna a natureza do caráter.

O valor da Beleza

Plotino, em suas Enéadas, estabelece uma beleza da alma, e, para o filósofo, é bela a alma que é virtuosa, para ele, nem mesmo a estrela da manhã é tão bela quanto o esplendor da Justiça e do Autocontrole. Kant e Schiller defendem a necessidade do valor da beleza e do sublime no caráter do homem. São Tomás equipara a beleza ao bem. Afinal, o que torna a beleza tão valiosa? Aquino demonstra que a beleza apenas difere-se racionalmente do bem, pois a nível de efeito sobre o homem, são semelhantes. “Sendo o bem o que todos os seres desejam, é da sua essência acalmar o apetite; ao passo que é da essência do belo causar o repouso da apreensão de quem o vê ou o conhece. (ST, I-II, Questão 27; Art. 1)”. Tomás considera Deus como um ente de infindável beleza, assim como de infindável bem. Quanto mais belo for, mais próximo estará de Deus. O bem sendo o que agrada ao apetite, o belo é, então, aquilo que agrada à apreensão, e é justamente o que adiciona ao bem uma relação com a faculdade cognitiva. Então, onde houver bem, haverá belo. Também não é necessário o estudo da estética para participar da experiência do belo, mas apenas para entendê-lo; um artista não precisa saber de estética, assim como uma margarida não precisa saber de floricultura, como, por exemplo, no trecho da obra de James Joyce, O Retrato do Artista quando Jovem, onde o personagem principal, ainda uma ingênua criança, se entristece e então se deleita com sua tristeza ao se lembrar de uma melancólica, porém bela, canção religiosa. Dado o contexto em que estava doente, a canção ganha maior significado, e assim o narrador comenta: “Como aquilo era lindo e triste!”. E então, até mesmo um jovem garoto é afetado pelos sentimentos estéticos, mesmo que sequer os conheça. A beleza, também, não necessariamente causa alegria diretamente, pois pode também nos causar melancolia; Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Goethe, por exemplo, causa uma grande dor ao leitor, embora, claro, cause também grande deleite, devido à belíssima forma de escrever de Goethe, e ao jogo de sentimentos envolvido na obra que facilmente entrelaça com os sentimentos de qualquer outro que tenha sido afetado como Werther, ou seja, aqueles que sofreram com a ilusão do amor. Mas se causa tanta dor, por que sentimos prazer na leitura da obra de Goethe? Existe uma espécie de amor autodestrutivo envolvido, e também uma questão de sabedoria, ora, mencionava Michael Oakeshott, em seu ensaio The Voice Of Poetry in The Conversation of Mankind, que enquanto as ciências nos dão sabedoria através de fatos e normas, a poesia (e aqui ele se refere à arte em geral) nos concede valoroso conhecimento direcionado diretamente à alma, por meio, justamente, dos sentimentos estéticos. Há, por último, o valor prático da beleza, levantado por Schiller. Ora, menciona o filósofo que, no decorrer da história, em todo o momento que houve liberdade e virtude, não houve a apreciação necessária da beleza e dos sentimentos estéticos, e quando houve tal apreciação, ausentou-se a liberdade. Para Schiller, o homem possui impulsos que incessantemente ocupam-se em reprimir sua liberdade racional (ou seja, impedir-lhe de agir de acordo com seus princípios corretamente), então, se mostra necessária uma forma de relaxamento sensitivo, como uma forma de abrandar o ânimo do homem, que a partir deste momento deixa de ser um homem rude, caracterizado por fraqueza espiritual e animalidade, e passa a ser um homem culto, que sabe seus limites e possui um espírito de liberdade; e então é concluído o abafamento necessário da selvageria contida no homem; em resumo, é o sentimento do belo que desarma a rude violência da natureza humana.

O Sublime

Tendo a consolidação maior do termo a partir de Burke, comumente posto lado a lado com o belo, o sublime é, na realidade, o oposto da beleza, pois enquanto a beleza habitualmente remete à delicadeza e a sensação de paz provocada pelos elementos belos – o contemplar do nascer do sol no Oceano Pacífico, por exemplo – o sublime, pelo contrário, remete àquilo que nos causa temor, àquilo que é infinitamente enorme e imensurável, que nos reduz a minúsculos observadores diante de sua magnitude infindável. Kant, fortemente influenciado por Burke, faz apenas acrescentar ao conceito do sublime. Em concordância com Burke, Kant afirma que, enquanto o belo é caracterizado pelas suas limitações, pois sua qualidade está em sua forma, o sublime é aquilo que é informe e que, por isso, possui a aparência de ilimitado (em palavras simples, não se sabe onde termina e onde começa, não se conhece seus limites, e então surge a aparência de algo infindável.), novamente demonstrando que são opostos. Para o filósofo, enquanto a beleza produz prazer positivo, o sublime produz negativo, pois o espírito é alternadamente atraído e rejeitado pelo objeto, o prazer do sublime não é uma alegria de efeito positivo, mas sim uma contínua maravilha e estima. Quando afetado pelo belo, o espírito tende a gozar de uma contemplação repousante – como citado anteriormente com Aquino. Quando se é afetado pelo sublime, no entanto, o que se sente é a comoção. Existem dois tipos de sublime: primeiro, o sublime matemático, dado pelo infinitamente grande (como, por exemplo, uma vista noturna da paisagem da Cordilheira dos Andes, onde não se vê muito além das grandes e destacadas montanhas cobertas pela neve e o encantador céu estrelado, e a escuridão parece sem fim, além de, devido à tal escuridão, não mais se distingue céu e superfície terrestre, e somos reduzidos à um mero par de olhos encantados diante de toda a magnitude presente). E segundo, o sublime dinâmico, dado pelo infinitamente poderoso (um feroz, porém majestoso, leão, por exemplo, que ao vê-lo à certa distância ou através de algum outro fator que retire a noção de perigo, nada se sente além de deleite e da admiração – certamente com uma dose de horror – pelo poderoso rei da selva).

O Monge ao Mar, de Caspar David Friedrich; exemplo de paisagem sublime.

Conclusão

Foram introduzidos e trabalhados alguns dos mais importantes diálogos do estudo da Estética, utilizando-se principalmente como base as obras de São Tomás de Aquino, Schiller, Kant, Burke e alguns outros importantes estetas, esclarecendo os pontos de estopim para mais profundas leituras e também abrindo portas para futuros artigos que tratarem também deste estudo, descartando desde já, a necessidade de explicações básicas que são obrigatórias para o entendimento do assunto. Espero ter sido claro quanto ao que tange à arte, à beleza, ao sublime e no que se refere à tudo que expus dessa arte que é o estudo estético. Espero também que, ao terminar de ler este artigo, o leitor se sinta atraído (ou ao menos atiçado por alguma forma de empatia) pelo belo estudo da beleza, a Estética.

Bibliografia

AQUINO, Tomás de. Suma Teológica. São Paulo: Edições Loyola, 2001.

BURKE, Edmund. Investigação Filosófica Acerca da Origem das Nossas Ideias Sobre o Sublime e a Beleza. São Paulo: Edipro, 2016.

HUGHES, Fiona. Kant’s Critique of Aesthetic Judgment. London: Continuum, 2010.

ORTEGA Y GASSET, José. Ensaios de estética. São Paulo: Editora Cortez, 2011.

REALE, Giovanni. ANTISERI, Dario. História da Filosofia Vol. 4: De Spinoza a Kant. São Paulo: Editora Paulus, 2005.

SCHILLER, Friedrich. Kallias or Concerning Beauty: Letters to Gottfried Körner. New York: Cambridge University Press, 2003.

_________, Friedrich. Cultura Estética e Liberdade. São Paulo: Editora Hedra, 2009.

SCRUTON, Roger. Beauty. New York: Oxford University Press, 2009.

PLOTINUS. The Enneads. UK: Cambridge University Press, 2018.

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