A crise asiática de 1997 – Guilherme Machado

A crise asiática de 1997 – Guilherme Machado

A crise asiática de 1997 foi um dos eventos econômicos que precederam a tão assustadora crise de 2008. A crise, como qualquer outra, gerou retrações no crescimento, incerteza generalizada e um cenário propício à politicagem e populismo, facilitando a eleição de líderes que só irão prejudicar ainda mais, porém acredito que todos saibam dos malefícios do populismo.

Um ano após seu estouro, mais especificamente em 1998, ocorreram discussões sobre quais teriam sido as razões da crise – um embate entre as teses de Paul Krugman e George Stiglitz – porém, meu trabalho aqui será de explicar, desenvolver e analisar a crise, visando mostrar que a tese de Paul Krugman, que resumidamente, culpa a euforia generalizada e a irresponsabilidade da política macroeconômica do governo, é a correta.

Apesar disso, a tese de Krugman não poderá ser usada isoladamente. Avanços no framework utilizado para estudar as crises financeiras, proporcionaram novas análises que complementam ainda mais as anteriores. Portanto, utilizarei diferentes artigos, mas ainda com a mesma tese central para construir um resumo capaz de fornecer um conhecimento suficiente para o leitor sobre a crise financeira asiática, e como ela nos ensina sobre política macroeconômica. Os artigos utilizados nesta tese estão disponibilizados no fim do texto.

A dificuldade de analisar a crise

Um problema na análise da crise asiática dificultava explorar seus verdadeiros causadores; esse problema estava relacionado aos modelos da época, utilizados para investigar tais fenômenos. Em suma, o modelo de análise da primeira geração – o mais antigo – verifica o nível da expansão do crédito dentro do país, e poderíamos observar esse crescimento em demasia, observando os déficits do governo. Porém, nos países do Sudeste da Ásia, tais indicadores macroeconômicos não apontavam grandes déficits, e alguns apresentavam até mesmo superávits. Um exemplo é a Tailândia, que manteve baixos os déficits públicos até 1998.

Os modelos da segunda geração mudaram um pouco seus parâmetros de análise. Agora são investigados o crescimento anual do PIB, a taxa de desemprego e a taxa de inflação. Com isso, foi considerado que com o advento desse novo modelo, agravamentos nos indicadores macroeconômicos fundamentais da economia poderiam levar o sistema financeiro a um deslocamento abrupto das expectativas dos agentes econômicos, e assim, resultar em crises econômicas. Porém, assim como no primeiro modelo, tais indicadores não demonstravam nenhum tipo de ameaça de crise até a explosão da bolha.

A taxa de crescimento do PIB (Representado pela sigla GDP, que significa Gross Domestic Product) manteve-se estável e alta, até 1996-1997, quando a bolha da crise estourou.

O mesmo para a taxa de desemprego.

Sendo assim, o que teria ocasionado essa crise, tendo em vista que os modelos da época não foram capazes de explicá-la? Um novo modelo, adotado por Paul Krugman e melhor demonstrado (na minha visão) num artigo feito pelos economistas Giancarlo Corsetti, Paolo Pesenti e Nouriel Roubini, adiciona novas variáveis aos modelos antigos. Nesse novo modelo, é enfatizado o efeito “moral hazard” nos investimentos, graças a diversos fatores, como fraca regulamentação de instituições financeiras, garantias públicas a investimentos e irresponsabilidade na política monetária do país. Tendo em mente esse modelo, podemos agora analisar as causas da crise asiática com clareza e atestar seus motivos.

O contexto da crise

Uma breve recessão no início dos anos 90 nos países em desenvolvimento da América Latina, gerou uma reação evasiva dos países investidores, mais especificamente, os Estados Unidos. Sendo assim, os EUA estavam buscando outro lugar para investir e ter bons retornos, e nenhum outro lugar seria mais propício a esses investimentos do que os ‘MIT’ da Ásia, Malásia, Indonésia e Tailândia, tendo em vista que eram países com um polo industrial crescente e com exportações de produtos num nível altamente competitivo.

Esse súbito e gigantesco fluxo de capital estrangeiro que adentrou em tais países, gerou um aumento excessivo nos investimentos devido à uma política do Banco Central Tailandês. Com a entrada gigantesca de dólares na economia, o Baht (moeda tailandesa) sofreria uma apreciação real (ou seja, iria se valorizar em relação ao dólar), já que pela lei da oferta e demanda, uma maior oferta de dólares reduzirá seu valor. Assim, o natural seria a moeda tailandesa passar por uma valorização e ter uma redução nas exportações conforme essa valorização subisse, o que prejudicaria o país. Porém, esse prejuízo em NADA chegou ao nível gerado pela política monetária tailandesa, que buscava atingir um câmbio de equilíbrio e evitar a queda nas suas exportações (pois os interesses das autoridades políticas seria insatisfeito, e que capitalismo de laços deseja isso, não é mesmo?).

Como eu mencionei, o rumo natural das coisas seriam a queda das exportações tailandesas e sua consequente valorização cambial, porém, o governo não deixou isso acontecer. Na época, o Banco Central tailandês estava comprometido a atingir a taxa de equilíbrio tão sonhada por Bresser Pereira; para efetivar isso, o Banco Central deveria impedir a valorização do Baht, no qual poderia realizar isso de duas maneiras: inflacionar a moeda local – se endividando – ou, esterilizar o dólar, agindo como um comprador. Porém, no segundo caso, esterilizar o dólar era mais prejudicial ainda no ponto de vista do governo, pois, para esterilizar o dólar, ele precisava se endividar, e se endividando, a taxa de juros aumentaria exponencialmente.

A taxa de juros mais alta atrairia ainda mais investidores de fora, visto que os retornos de investimento seriam maiores para os bancos americanos e japoneses. No primeiro caso, a lógica é muito simples: o governo inflaciona a própria moeda, se endividando novamente e a desvalorizando; isso mantém a taxa controlada, mas para fazer isso, ele precisaria de uma alta quantidade de reservas internacionais, algo que possuía naquele momento,  devido ao alto investimento estrangeiro nos países do sudeste asiático. Assim, o governo efetuava manobras de endividamento constante.

O desenrolar da crise

Esse aumento dos investimentos internos, sustentados pelos empréstimos do exterior, estava criando um déficit na conta corrente. Isso por que, como os bancos estrangeiros emprestavam dinheiro a eles, eles deveriam pagar esse empréstimo. Assim, todo o capital que era investido, deveria retornar aos bancos americanos e japoneses. Aliado a tal problema, havia outro. Os países, buscando manter a taxa de câmbio fixa, incentivavam cada vez mais esse déficit. A demanda por crédito dentro do país crescia, conforme as empresas expandiam seus negócios. Isso, aliado ao aumento do fluxo de capital estrangeiro descontrolado já citado, gerou um crescimento do déficit na conta corrente pode ser visto nesse gráfico:

E a bela fase de boom dos ciclos econômicos, permutou-se por alguns anos. As empresas ampliavam seus negócios, investidores aplicavam seus fundos, empregos surgiam, a renda aumentava e tudo parecia lindo. Os intermediários financeiros eram as principais autoridades monetárias da época, pois eram eles que repassavam os dólares aos especuladores e investidores imobiliários. Ocorreu que, essas instituições passaram a se engajar em investimentos de alto risco, com retornos duvidosos e muito voláteis.

Isso se deu por dois fatores, primeiro, porque o constante endividamento do governo encharcava a economia de liquidez, fazendo com que os bancos, agora, pudessem baixar suas taxas de juros para atrair mais clientes. Tecnicamente falando, uma taxa de juros menor, representa um menor medo dos bancos em emprestar capital, pois já que tinham grandes reservas monetárias, problemas com o retorno dos empréstimos não os preocupavam, se comparado com um cenário de baixa liquidez. O segundo fator foi o capitalismo de laços, típico dos países asiáticos. Os líderes de companhias financeiras eram, muitas vezes, políticos ou figuras públicas, associadas com o governo. Assim, eles tinham a crença de que, eles teriam seus passivos assegurados, ou seja, numa possível situação, onde o dinheiro emprestado não voltasse, o governo arcaria com o ônus de quaisquer dívidas ou prejuízos, sob a justificativa de que a falência dessas instituições iriam “devastar o sistema financeiro, com medo e incerteza”.

Antes do imenso fluxo de investimento estrangeiro adentrar esses países, isso já acontecia, porém os investidores que o faziam eram mais prudentes (o que não significa que não era errado). Assim, os investimentos de risco não tinham tantos investidores e os prejuízos eram pequenos e o governo conseguia arcar com eles. Porém, com o aumento massivo do engajamento em investimentos, já que os investidores tinham seus passivos garantidos e as companhias financeiras não se investe o capital próprio, e sim o capital da companhia, por que não se arriscar um pouco mais, não? Isso fez com que o valor dos ativos crescesse e, especialmente os ativos de risco. Esse aumento no valor, tornou esses ativos atraentes, ao ponto de vista de outras companhias financeiras e, até mesmo de pessoas físicas (qualquer semelhança com o bitcoin é mera coincidência, rs), criando um efeito de retroalimentação da bolha, fazendo com que o preço dos ativos explodisse.

Ou seja, companhias financeiras investiam nesse capital, fazendo com que mais empresas investissem em ainda mais capital de risco, inflando a bolha de ativos. O resultado disso foi, após os países MIT (Malásia, Indonésia e Tailândia) entrarem em crescentes déficits na balança comercial, devido ao excesso do fluxo de capital estrangeiro em seus países, e terem que pagar isso com suas reservas internacionais, que diminuíam, conforme o déficit crescia, os especuladores, antes eufóricos, passaram a olhar com maus olhos tudo isso, resultando num cenário de incerteza.

Um tempo depois, entre 1997 e 1998, foi quando a festa da desgraça se instaurou completamente (Obaaaa!). Os investidores dos países asiáticos descobriram uma coisa linda: Quando seus investimentos (imprudentes) em capital de risco, não tinham retorno e sim, prejuízos em massa, eles não se preocuparam, pois sabiam que o governo iria cobrir seus passivos, mas adivinha só? O governo estava sendo pressionado pela inflação, dificuldades para amparar o regime de câmbio fixo, visto que as reservas internacionais desses países diminuíram constantemente. Conforme o déficit em conta corrente crescia, uma bolha especulativa se armava e, no cenário internacional, quanto às exportações, piorava, devido a valorização intensa da moeda local, impulsionada pela entrada massiva de dólares na economia, entrada essa impossível de evitar. Percebendo isso, os investidores e especuladores iniciaram o, que é conhecido como, ataque especulativo. Os governos do MIT tentavam, ressaltando o ponto citado anteriormente, manter a taxa de câmbio fixa artificialmente, ou seja, imprimindo moeda e manipulando a entrada de dólares, por meio da venda de títulos e da esterilização, tentavam fixar a taxa de câmbio nacional. Porém, isso dificultava o principal trabalho dos especuladores, pois era difícil prever qual seria a taxa de câmbio quando, num cenário de instabilidade generalizada, o governo controla a mesma. Então, quando os especuladores percebiam que o país estava com reservas internacionais baixas, eles aproveitam essa fragilidade para efetuar o ataque. Eles, basicamente, forçavam o governo a parar de tentar fixar a taxa, vendendo sua moeda nativa guardada em troca de dólares, fazendo assim com que as reservas internacionais sejam completamente esgotadas. Isso fazia com que o governo desistisse de fixar a taxa, pois sem uma quantidade boa de reservas, ficava impossível controlar a taxa de câmbio, permitindo com que a taxa flutuasse.

Após isso, ocorreu o famoso BURST dos ciclos econômicos. Os empresários descobriram que o governo não iria ajudá-los, gerando uma insolvência generalizada, que provocou uma massiva falência de companhias financeiras, ondas de demissões: um cenário financeiro terrível para se investir. Além de que, países estrangeiros perderam a confiança em investir nos países asiáticos, já que eles tiveram muitos prejuízos. Além disso, com o fim da expansão de crédito e a drástica redução do fluxo de capital estrangeiro, os empresários que expandiram seus negócios, descobriram que tudo era insustentável, coisa que já sabemos que acontece, quando o BURST substitui o BOOM econômico. A base que sustentava o intervencionismo cambial era o capitalismo de laços asiático e o típico pensamento de que, o governo pode controlar a estabilidade macroeconômica, melhor que os mercados. Se os governos MIT tivessem, simplesmente permitido a apreciação real da moeda nativa, as consequências advindas da queda nas exportações seriam gigantescamente menores, do que o resultado que eles tiveram com sua política monetária irresponsável. Mas é claro, como eles permitiriam que isso acontecesse? Isso iria desagradar os interesses corporativos e políticos dos países.

Outros fatores importantes para o desenrolar da crise

Existem outros fatores que contribuíram para o agravamento da crise. Um deles foi a forma peculiar do capitalismo existente nestes países. Como a grande maioria dos bancos e autoridades financeiras asiáticas eram políticos ou tinham laços com os mesmos, elas eram pobremente vigiadas e controladas. Sendo assim, tais agentes poderiam agir, da forma que lhes convinha, sem nenhum medo de represália, controle e sem nenhum tipo de conselho fornecido pelo governo, já que o mesmo participava do jogo político. A quantidade de “nonperforming loans”, ou seja, empréstimos que não estão sendo pagos como o acordado, assim como os “lending booms”, que são aumentos no empréstimo de dinheiro ao setor privado, nos mostra que existia um crescimento direto entre ambos. Ou seja, conforme os empréstimos aumentavam (lending booms), mais “nonperforming loans” surgiam. Não obstante, o ICOR (Increment in Capítal Output Rate) das corporações asiáticas vinha caindo desde 1993. O que mostrava que, além do aumento dos empréstimos e de seus calotes, os empréstimos que ainda tinham retorno eram cada vez menos rentáveis aos bancos.

O principal problema disso, além de ser um problema per se, é que o mesmo ficava escondido. Um dos vários efeitos do, já citado, boom financeiro asiático, foi o aumento do desejo de entrada de novas companhias financeiras. Mais pessoas estavam impressionadas com a maré de boas notícias e, assim, desejavam investir mais, seja por si mesma ou pela expansão da entrada de novas companhias financeiras no mercado. Porém, isso não foi LEGALMENTE possível, devido às barreiras colocadas pelo próprio governo, por conta do corporativismo influente dentro do Estado. Assim, bancos e outros tipos de companhias financeiras ilegais cresceram aos montes, o que piorava a situação, pois as instituições legais já tinham pouco controle, então, imagine como seriam as instituições ilegais?

Quais lições podemos extrair disso?

Após todo esse colapso financeiro, os bancos centrais de cada país, elevaram drasticamente suas taxas de juros, devido a iliquidez instaurada. Alguns deles passaram por pequenas contrações, enquanto outros, como a Tailândia, sofreram drasticamente com a crise. Podemos várias lições disso, mas a essencial é a que o Estado, por conta de sua racionalidade limitada, não é capaz de prover resultados melhores que a autorregulação dos mercados e o seu processo natural, pois isso se baseia na falsa premissa de que o homem é capaz de compreender algo mais complexo que si mesmo. O homem tem sua racionalidade limitada e limites neurológicos que o impossibilitam de compreender, por completo, todas as atitudes que envolvem os mercados e a sociedade.

Sendo assim, se não pode compreendê-lo, deixe-o livre para se regular. Cada passo na direção do intervencionismo estatal na economia, é mais um passo dado a legitimação de um Estado totalitário. É um passo, em direção ao caminho da servidão.

Bibliografia

BURNSIDE; CRAIG; EICHENBAUM, M; SERGIO. What Caused the Recent Asian Currency Crises? The Asian Financial Crisis: Origins, Implications, and Solutions. 1999. 17-26.

CORSETTI; GIANCARLO; PESENTI, P; ROUBINI, N. Paper Tigers? A Model of the Asian Crisis. 1998.

KRUGMAN, P. What Happened to Asia. Global Competition and Integration. 1999. 315-27.

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