O Conceito de Empreendedorismo II: Pobreza e Impactos da Inovação no Desenvolvimento Industrial – André Filipe

O Conceito de Empreendedorismo II: Pobreza e Impactos da Inovação no Desenvolvimento Industrial – André Filipe

No texto anterior, o leitor teve acesso a uma breve revisão crítica de literatura sobre o conceito de empreendedorismo. Entre outras coisas, concluímos que o empreendedor é o motor do desenvolvimento econômico de uma sociedade ao promover identificação de oportunidades, assumir riscos e criar valor. Vimos também, não obstante tudo isso, que existem diversas correntes que tecem críticas substanciais ao livre-mercado e que cabe analisá-las. A principal de todas talvez seja a demonização da figura do empresário enquanto alguém que explora a classe trabalhadora e apenas tira benefícios pessoais de uma atividade eminentemente exploratória. No próximo capítulo, iremos apresentar alguns pontos teóricos e empíricos.

Atividade Empreendedora vs Pobreza: Qual é a correlação?

A réplica à abordagem anti-iniciativa privada na vertente técnica foca-se, sobretudo, no problema do cálculo econômico desenvolvido por Mises e aperfeiçoado pelo Prêmio Nobel da Economia, Friedrich Hayek. Este problema diz respeito a impossibilidade de um órgão de poder central ter acesso a todas as informações necessárias que possibilitem que este realize uma correta alocação de recursos sem gerar escassez, uma vez que ele interfere diretamente no sistema de preços. Segundo o professor austríaco, isto acontece porque a informação se encontra dispersa na sociedade: “O sistema de preços tem como verdadeiro papel transmitir informação. É maravilhoso como, em um caso de escassez de um determinado bem, sem que ninguém tenha que dar uma ordem, e talvez com apenas um punhado de indivíduos conhecendo as causas, dezenas de milhares de pessoas cuja identidade não se poderia determinar em meses de pesquisa, começam a utilizar esse material com mais cuidado, ou seja, a mover-se na direção correta”. (Hayek, 2013).

E sobre o problema da mais-valia?  Para a Escola Austríaca, é um erro de análise que acontece devido ao menosprezo pelo fator tempo.

Assim,  quando um empreendedor contrata um empregado não existe nenhuma forma de exploração ou relação injusta, mas uma preferência temporal distinta: o trabalhador possui uma preferência presente maior que o empreendedor e aceita um salário fixo e sem riscos, independente da produção; já o empreendedor, prescinde de um salário fixo assumindo o fator risco e maiores ganhos no futuro, sendo que, no fundo, o que existe é uma relação contratual voluntária (além disso, vale lembrar que investimentos têm retorno apenas a médio/longo prazo então o ganho do empreendedor em relação ao investimento durante um bom tempo é 0).

Tendo em vista estes exemplos, a correlação entre livre mercado e pobreza parece ser de proporcionalidade inversa e não direta, ao contrário do que se pensava como iremos constatar empiricamente. Não necessariamente desigualdade de renda se constitui em aumento da pobreza. Comparando tendências a longo prazo de pessoas abaixo do limiar da pobreza e aumento da desigualdade social, conclui-se que desigualdade e pobreza não são indicadores interdependentes entre si, como demonstrado num estudo de Hillebrand (2009), que cruzou dados relativos de população abaixo do limiar da pobreza com a desigualdade social (Coeficiente de GINI):

FONTE: HILLEBRAND, E. (2009) Poverty, Growth, and Inequality Over the Next 50 Years, UNITED NATIONS

Observa-se que, apesar da desigualdade social ter aumentado, a pobreza vem tendo uma curva descendente constante desde a 2ª metade do século XIX. Outros estudos, como o desenvolvido por Max Roser & Esteban Ortiz-Ospina (2018), sugerem números ainda mais otimistas: de 1820 a 2015, a população mundial passou de cerca de 1,1 bilhão para 7 bilhões de habitantes, porém a quantidade de pessoas em situação de pobreza extrema caiu de cerca de 1 bilhão em 1820, para aproximadamente 700 milhões em 2015 (ou de 90% a 94,4% para 9,6% da população mundial). Ludwig von Mises tenta explicar este fenômeno com base no desenvolvimento tecnológico proporcionado pela Revolução Industrial e que só foi possível devido a um sistema de mercado: “(…) é esta ascensão das multidões que caracteriza a radical mudança social efetuada pela ‘Revolução Industrial’. Os desfavorecidos que em todas as épocas precedentes da história formavam os bandos de escravos e servos, de indigentes e pedintes, transformaram-se no público comprador por cuja preferência os homens de negócios lutam. Tornaram-se os clientes que estão ‘sempre com a razão’, os patrões que têm o poder de tornar ricos os fornecedores pobres, e pobres os fornecedores ricos.” (Mises, 2010).

Mas de que forma os empreendedores contribuem para a diminuição desta pobreza? A resposta será dada no próximo capítulo.

Efeitos do Empreendedorismo no Desenvolvimento Industrial: Implicações práticas da Inovação

No texto anterior lançado no site, houve uma parte específica dedicada à definição do empreendedorismo em Schumpeter. Isso não foi sem propósito: as suas teorias impactaram de forma decisiva a concepção moderna em diversos aspectos como inovação, produtividade e desenvolvimento industrial.

Recapitulando, para Schumpeter existe um efeito quando da introdução de novas empresas no mercado que ele denomina de “criação destrutiva”. Este processo assemelha-se a algumas ideias do próprio evolucionismo social, onde as empresas sem capacidade de acompanhar as inovações acabam por desaparecer: “Assim, é esperado que o crescimento da produtividade da indústria seja melhorada pela entrada de novas Empresas (…) a saída de empresas [do mercado] funciona como um mecanismo necessário para eliminar tecnologias (ou produtos) não competitivos – a teoria ‘da criação destrutiva’ Schumpeteriana (…)” ( Carreira & Teixeira, 2010: 3,4)

Estes autores citados acima realizaram um estudo empírico aplicado a um grupo de empresas industriais num período compreendido entre 1996 e 2000 na região centro de Portugal. Os dados foram recolhidos através do Inquérito às Empresas Harmonizadas (IEH), um estudo anual conduzido pela plataforma INE. Foram abrangidas 1,738 empresas da região referida (unbalanced panel), sendo que, no total, todas aquelas que tinham mais de 100 empregados e algumas entre 20 e 99, que foram sorteadas. Os dados adicionais relativamente à data de nascimento/morte foram obtidos do FUE (Ficheiro de Unidades Estatísticas), outra plataforma de dados regida pelo INE. Foram estudadas variáveis de competição de mercado como concentração industrial, tamanho da indústria, crescimento e intensidade de exportação. O grau de desenvolvimento tecnológico foi medido através da Metodologia OECD (Cf. OECD, 2005 citado por Carreira & Teixeira,2010), atribuindo valor igual a 1 a empresas que pertencem a grupos industriais grau de intensidade em I&D médio/alto. Os resultados ilustram que existe uma correlação positiva entre o aumento de produtividade dos incumbents (empresas já existentes no mercado) e a entrada de novas empresas no mesmo. Relativamente à outra hipótese inicial, os ganhos dos entrants (novas empresas)  são substanciais mas tendem a substituir as empresas menos eficientes à medida que os ganhos de produtividade se aproximam das empresas extintas (Carreira&Teixeira, 2010:18).

Existem alguns comentários interessantes ao schumpetarianismo na língua portuguesa. Para Moricochi e Gonçalves (1986), fazendo uma análise crítica à Teoria do Desenvolvimento Econômico, o rompimento dos ciclos de equilíbrio, não obstante de gerar necessidades de financiamento, acabará por findar novamente numa fase favorável ao aparecimento de novas inovações – um ciclo continuamente repetido: “A economia tende então a entrar em recessão, com declínio da atividade inovadora. Essa recessão é intensificada mais ainda com a necessidade de resgate dos empréstimos bancários que forçam os preços e a renda monetária a caírem. Todavia, os efeitos da destruição criadora e a queda dos preços e rendas monetárias, decorrentes da necessidade de resgate dos empréstimos, não são suficientes para provocar uma depressão em larga escala e, portanto, antes que transcorra muito tempo o clima pode se tornar propício para novas atividades empresariais.” (Moricochi & Gonçalves, 1994:31).

Segundo Costa (1982), o processo de criação destrutiva é nada mais do que uma espécie de substituição de hábitos no consumidor (que troca hábitos antigos por novos hábitos/novos produtos) onde existe a centralidade da figura do empresário enquanto precursor da “mudança econômica”: “É, contudo, o produtor que, via de regra, inicia a mudança econômica e os consumidores, se necessário, são por ele ‘educados’; eles são, por assim dizer, ensinados a desejar novas coisas, ou coisas que diferem de alguma forma daquelas que têm o hábito de consumir”. Daí a prescrever a “destruição criadora”, ou seja, a substituição de antigos produtos e hábitos de consumir por novos, foi um passo que Schumpeter rapidamente deu ao descrever o processo do desenvolvimento econômico.” (Costa, 1982:5, Cf. Moricochi e Gonçalves 1994:5).

Outros estudos no resto do mundo sugerem que o crescimento da produtividade gerado pela inovação é tanto devido a reestruturação interna das empresas estabelecidas quanto à realocação de recursos em empresas de baixa produção (Baldwin and Gu (2006), Cantner and Krüger (2008), Disney et al. (2003), e Foster et al. (2001)).

A produção intelectual mais exemplificativa da importância da inovação na Europa foi desenvolvida nos anos 90 por um grupo de trabalho (Focus Group on Innovative Networks) da OCDE. Além de examinar os dados das pesquisas de inovação, o grupo realizou uma série de investigações empíricas em diferentes países, concluindo que as empresas que inovam (geralmente entre 40% e 80% das empresas pesquisadas) têm uma forte tendência a colaborar. Os resultados desse esforço coincidem integralmente com as conclusões e proposições sugeridas nos trabalhos iniciais dos anos 80 (FREEMAN & GILBERT,  1987 e LUNDVALL, 1988). Neste caso específico, os autores concluíram que:

  1. Axiste uma correlação de linearidade positiva entre a taxa de entrada de novas empresas e o aumento de produtividade de firmas já existentes;
  2. Os ganhos das empresas entrants são substanciais em termos de comparação estrita entre novas e velhas empresas no 1º ano;
  3. As entrants tendem a substituir empresas menos eficientes à medida que a produtividade se aproximam do nível das empresas extintas (Cf. Carreira e Teixeira, 2010).

As implicações para as políticas da teoria de Schumpeter são um ponto fundamental para o desenvolvimento estratégico de um país. Estas políticas são parte estruturante da competitividade industrial de uma dada região geográfica ou de uma nação como um todo, incluindo o desenvolvimento e difusão de novas tecnologias por meio da promoção das atividades de R&D e do estímulo à difusão e cooperação nas áreas de pesquisa genérica de longo prazo. Explicitamente, também visam a promover a consolidação das bases regionais para o desenvolvimento tecnológico, o reforço de malhas de pequenas e médias empresas e o desenvolvimento de atividades consideradas estratégicas para o crescimento econômico doméstico (Cf. Cassiolato & Lastres, 2005).

Conclusão

Assim, à vista desta abundância de dados empíricos a respeito dos benefícios da inovação associada à atividade empreendedora, que se traduz num desenvolvimento industrial de uma região, o que podemos concluir? Que a ideia de que empreendedorismo traz pobreza massiva não é apenas falsa como é completamente indefensável do ponto de vista teórico e empírico.

Concluindo esta série de dois textos, saliento a importância de trazermos ao debate público a discussão dos pontos aqui levantados, sobretudo em países onde existe uma cultura popular de demonização ao empresário e onde os sistemas educativos não expõem a outra face da moeda. As evidências contra o caso marxista são devastadoras. Cabe a nós esforçar-nos cada vez mais para disseminarmos um bom conteúdo acadêmico, pois só assim será possível alterar as dinâmicas sociais e inculcar às pessoas a mentalidade pró- empreendedora que tantos desenvolvimentos trouxe aos países que a implementaram.

 

Referências Bibliográfica

Baldwin, J. R., & Gu, W. (2006). Competition, firm turnover and productivity growth.

Cantner, U., & Krüger, J. J. (2008). Micro-heterogeneity and aggregate productivity development in the German manufacturing sector. Journal of Evolutionary Economics, 18(2), 119-133.

Carreira, C. & Teixeira, P. (2010). Does schumpeterian creative destruction lead to higher productivity? The effects of firms’ entry (No. 2010-20). GEMF-Faculdade de Economia, Universidade de Coimbra

Cassiolato, José Eduardo, & Lastres, Helena Maria Martins. (2005). Sistemas de inovação e desenvolvimento: as implicações de política. São Paulo em Perspectiva, 19(1), 34-45

Costa,R.V. (1982) A Teoria de Desenvolvimento Económico em Joseph Schumpeter, São Paulo

Disney, R., Haskel, J., & Heden, Y. (2003). Restructuring and productivity growth in UK manufacturing. The Economic Journal, 113(489), 666-694.

Foster, L., Haltiwanger, J. C., & Krizan, C. J. (2001). Aggregate productivity growth: Lessons from microeconomic evidence. In New developments in productivity analysis (pp. 303-372). University of Chicago Press.

Freeman, R. E., & Gilbert, D. R. (1987). Managing stakeholder relationships. Business and society: Dimensions of conflict and cooperation, 397, 423.

Hillebrand, E. (2009). Poverty, growth and inequality over the next 50 years. In Expert Meeting on How to feed the World in(Vol. 2050, pp. 2012-02).

Hayek, F. (2013) O Caminho da Servidão.In : Biblioteca de Teoria Política. Editora Edições 70. Lisboa

Lundvall, B.A. (2007) National Innovation Systems—Analytical Concept and Development Tool, Industry and Inovation , Volume 14, Issue 1, pp. 95-119

Mises, L.W. (2010) Mentalidade Anticapitalista – 2ª edição. Instituto Liberal e Instituto Ludwig von Mises. São Paulo.

Moricochi E Gonçalves (1994) Schumpeter’s Economic Theory of Development: A Critical Revision, Informações Econômicas, SP, v.24, n.8

Roser, M., & Ortiz-Ospina, E. (2016). Literacy. Our World in Data.

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