Teoria da Complexidade: Mente e Sociedade – Jean Batisti

Teoria da Complexidade: Mente e Sociedade – Jean Batisti

I. Sistemas Complexos e Teoria do Caos

Por muito tempo se semeou nas ciências sociais a ideia de raízes racionalistas de que a cultura, a linguagem, a economia e as demais instituições humanas são fruto de desígnios racionais, de colaborações coletivas com vistas a um bem social determinado. Posteriormente, como agravante, deu-se o triunfo do cientificismo, onde toda a análise deveria se focar nos dados empíricos, no mensurável; a primazia da metodologia científica fascinou os positivistas lógicos e sociológicos dos séculos XIX e XX com a mesma intensidade que iluminou as fantasias dos racionalistas cartesianos. Apesar de ambas correntes hoje serem desacreditadas, sua herança viciou de tal forma o pensamento comum e acadêmico que até hoje somos onerados com a pretensão de conhecimento carregada pelos detentores do poder de mudança.

Friedrich Hayek foi um dos primeiros intelectuais a sistematizar uma crítica ao pensamento designado por ele como racionalismo construtivista, a ideia da possibilidade de se modificar e criar instituições atuais, da mesma forma que as mesmas foram, supostamente, fruto de criação intencional. Seu arcabouço teórico se baseou no caráter evolutivo dos fenômenos sociais: as instituições não mais eram vistas como arquitetadas, mas sim emergentes num processo complexo de aprendizagem e adaptação — o mesmo caráter de emergência evolutiva atribuído aos fenômenos mentais, emergentes, mas não redutíveis aos processos neurológicos. As contribuições de Hayek que antecederam importantes desenvolvimentos na psicologia, neurociência, economia e sociologia, já previam e forneciam fundamento para um novo paradigma, tanto das ciências naturais quanto sociais: o estudo de sistemas adaptativos complexos.

Sistemas podem ser considerados complexos quando produzem qualidades e aspectos que não podem ser entendidos pela análise de seus componentes isolados, que é o mesmo que dizer que o todo é maior que a soma de suas partes.

Uma das vertentes mais conhecidas do estudo de sistemas emergentes que surgiu entre os anos 60 e 70 é a Teoria do Caos, ou Teoria dos Sistemas Gerais. Enquanto seus predecessores tinham pressupostos de um sistema estático e estável, tal teoria foca no processo, na dinâmica da mudança. A Teoria do Caos propõe princípios e normas gerais que podem ser aplicadas a qualquer sistema, independentemente do nível de análise — macro ou micro — e independente da área de estudo, seja física, biologia, sociologia etc. “Caos” refere-se a comportamentos turbulentos em sistemas de baixa dimensionalidade (ou com poucos graus de liberdade) determinados por leis não-lineares. Um sistema não-linear é um onde o output não corresponde linearmente ao input, fazendo com que o produto final seja imprevisível e altamente sensível a mudanças no “estado inicial” do sistema.

Exemplo disso é o famoso efeito borboleta, onde mínimas mudanças no estado de coisas inicial podem acarretar em enormes mudanças no estado de coisas final, sendo o inverso também verdadeiro, mudanças abruptas podem resultar em quase nulas consequências. Esses processos, governados por equações não-lineares geralmente apresentam atratores, espaços relativamente estáveis ao redor do qual o sistema tende a gravitar, gerando loops de retroalimentação negativos reforçando a configuração. O processo de auto-organização de um sistema caótico é, ironicamente, dependente de seu grau de desordem, quanto maior o movimento dinâmico de um sistema em seu espaço de estados, isto é, quanto maior o ruído, maior a probabilidade de cair em um atrator. O Nobel Ilya Prigogine explica esse fenômeno pelo princípio de “order through fluctuation”, onde um sistema que reside entre atratores apresenta uma chance de variação, chamada flutuação, que cedo ou tarde, o levará para alguma órbita. Assim, a ordem emerge do caos.

Há muito o que se dizer sobre a Teoria do Caos e suas contribuições. Sua importância e relevância se fazem presentes em vários campos. Conceitos forjados por ela, como atrator estranho, bifurcação, não-linearidade etc. fazem até hoje parte do vocabulário de sistemas em diversas áreas do conhecimento; todavia, a Teoria do Caos não é o foco desse artigo, e essa breve descrição é apenas para finalidades contextuais. Nossa jornada aqui prosseguirá por um rumo semelhante, porém distinto, onde acredito que poderemos encontrar terreno mais fértil para questões centrais da sociologia, como o fenômeno da emergência em si e a interação entre níveis macro e micro na esfera social. Portanto, sem mais delongas, vamos à Teoria da Emergência de Sistemas Adaptativos Complexos.

II. Emergência e níveis de análise.

Para começar, quando, onde e como podemos dizer que um sistema social é emergente? ​O fenômeno da emergência é mais correntemente observado em sistemas ​1) de alta densidade e interconexão entre seus componentes; 2) nos quais as propriedades globais do sistema não podem ser entendidas pela análise de subsistemas ou componentes isolados, mas apenas como dispersas por toda a rede; 3) o sistema não pode ser decomposto em subsistemas, pois esses teriam que ser decompostos em outros subsistemas ad infinitum; 4) os componentes interagem por meio de uma complexa e sofisticada linguagem.

Em seu ensaio “The Theory of Complex Phenomena” (1962), Hayek observa — e esse é um dos casos em que estava corretamente a frente de seu tempo — que:

A “emergência” de “novos” padrões como resultado do aumento do número de elementos entre os quais existem relações simples significa que esta estrutura maior como um todo possuirá certas características gerais ou abstratas que se repetirão independentemente dos valores particulares do sistema. dados individuais, desde que a estrutura geral (como descrito, por exemplo, por uma equação algébrica) seja preservada.

Pouco mais de uma década mais tarde, o mesmo seria notado pelo físico Nobel Philip Warren Anderson em seu famoso artigo “More is Different” (1972). Não há nenhuma menção a Hayek, embora o princípio seja o mesmo, de que por um sistema de X número de elementos ser governado por uma lei fundamental conhecida, não se segue que podemos sempre prever os resultados a partir de seu estado inicial na medida em que a escala de elementos e suas interações aumentam. Claro, Hayek observou isso no fenômeno social, enquanto Anderson nos compostos das ciências naturais, como ele demonstra por vários exemplos no artigo referido. Aqui está como ele, concisamente, define a questão:

… a hipótese reducionista de modo algum implica um “construtivista”: a capacidade de reduzir tudo a simples leis fundamentais não implica a capacidade de partir dessas leis e reconstruir o universo. De fato, quanto mais os físicos de partículas elementares nos dizem sobre a natureza das leis fundamentais, menos relevância estas parecem ter para os problemas reais do resto da ciência, menos ainda para as ciências sociais. A hipótese construtivista se desfaz quando confrontada com as dificuldades gêmeas de escala e complexidade. O comportamento de agregados grandes e complexos de partículas elementares, ao que parece, não deve ser entendido em termos de uma simples extrapolação das propriedades de algumas partículas. Em vez disso, em cada nível de complexidade, aparecem propriedades inteiramente novas, e a compreensão dos novos comportamentos requer pesquisas que considero tão fundamentais em sua natureza quanto qualquer outra.

Em suma, o grau de complexidade das relações de um sistema determina em que nível de análise devemos explorar os padrões emergentes observáveis. Sendo assim a primeira característica acaba por gerar a segunda: fenômenos emergentes frequentemente apresentam grau de complexidade suficientes para tornar infrutífera a análise reducionista.

O terceiro ponto poderia ser objetado com o argumento de que poderíamos decompor fenômenos emergentes sociais, em última análise, ao nível individual, afinal, de onde eles emergem senão dos indivíduos? Bom, certo, mas também errado, como veremos a seguir. Para o melhor entendimento vamos pegar emprestado o principal debate da filosofia da mente e um dos mais importantes para a neurociência. Por serem campos relacionados, porém diferentes, também carregam nomenclaturas distintas, sendo a posição sociológica chamada de individualismo reducionista e a posição filosófica que, como veremos a seguir, argumenta em favor da análise reducionista da mente aos processos neurobiológicos é chamada de fisicalismo reducionista. Mostrarei as falhas de ambas e em seguida apresentarei uma solução “confortável”, que tanto nega o reducionismo sociológico e materialista quanto uma ontologia mental ou social.

O fisicalismo reducionista argumenta que eventos mentais (pensamentos, sentimentos) estão sempre relacionados a eventos físicos neurológicos por identidade: X evento mental ocorre quando Y entidade neurológica é ativada; podemos então dizer que X=Y. Usando o exemplo clássico, se a dor é causada pela excitação de fibras C, logo, o evento mental dor é sempre idêntico ao processo físico ‘excitação das fibras C’. Esse argumento é chamado de tese da identidade de tipo (type-type identity thesis), e tal tese pode ser usada como análoga para as ciências sociais, sendo assim, determinada estrutura social X, como “cristianismo”, pode ser entendida pela interação de x, y, z indivíduos de a, b, e formas. Talvez identificar o erro desse argumento seja mais fácil à intuição ao analisarmos na esfera social, mas, por via das dúvidas, é melhor extingui-lo em ambos os casos.

Em oposição ao fisicalismo reducionista temos o monismo anômalo, que é uma espécie de fisicalismo não-reducionista, se baseia na tese da identidade de token (token-token identity thesis), que basicamente diz que um determinado evento mental particular é idêntico a eventos físicos neurológicos no instante em que ocorre. Podem parecer iguais, a diferença é sutil, porém destrutiva. Ambas as teses, type-type e token-token, aceitam que todo evento mental é também físico, porém, diferentemente da identidade de tipo, a identidade de token para por aí, ela não identifica o evento “dor” ao evento hipotético observável “estimulação das fibras C”, afinal, “dor” não é necessariamente idêntica à estimulação das fibras C, mas é necessariamente idêntica a determinado evento neural no instante em que ocorre. Tome como exemplo a sentença “pinguim rinoceronte pinguim rinoceronte”, quantas palavras há nessa sentença? Se pensares em quatro, estará pensando em tokens, se a resposta for duas, estará se referindo a tipos (types). Em suma, a dor não pode ser identificada a um tipo físico específico pois, como Hilary Putnam coloca, é um fenômeno de realizabilidade múltipla.

Realizabilidade múltipla é uma propriedade de eventos emergentes que podem ser produzidos por diferentes configurações em suas bases, o evento dor pode não só ser idêntico e causado pela estimulação das fibras C, como também pela estimulação das fibras A, B…J, K, inclusive, e como a mais coerente, emergir em função de todo o sistema nervoso agindo de forma dispersa. Tome a situação hipotética seguinte: um paciente com dores de cabeça, devido a danos cerebrais, vai ao neurologista. Esse lhe recomenda substituir parte de seu cérebro por uma prótese com a mesma funcionalidade. Após o procedimento, o paciente, agora bem, tem suas propriedades mentais plenamente saudáveis. Mas não deveria! Afinal, a parte que ele retirou, de acordo com a tese type-type, deveria suprimir os eventos mentais à qual é idêntica. Suponha que o paciente, seguidas vezes durante sua vida, faça novos procedimentos em outras partes do sistema nervoso. No momento em que estiver completamente substituído, perderá suas propriedades mentais? Parece que não. Em realidade, o que geralmente ocorre ao se retirar partes do cérebro, é que as mesmas funções antes satisfeitas por estas, são distribuídas entre as partes remanescentes. Aceitar a identidade de tipo é também se comprometer com a crença de que outros animais que não possuem fibras C, também não sentem dor, quando na realidade é perfeitamente possível que tal ocorra apesar da diferença neurológica entre espécies. Podemos concluir então que eventos mentais são emergentes de eventos neurológicos, mas não redutíveis a eles, da mesma forma que instituições sociais emergem de pessoas, mas não são redutíveis aos indivíduos que as compõe, pois em ambos os casos existe múltipla realizabilidade.

Cabe notar, porém, que não podemos afirmar que todo evento social ou mental tem realizabilidade múltipla. Compostos mais simples podem ter entendimento resumido as partes que os compõe. Isso foi notado por Jerry Fodor, que argumentou que fenômenos emergentes só são irredutíveis se suas causas forem extremamente disjuntivas (wildly disjunctive), por exemplo, como já mencionado, em casos onde a propriedade macro emerge em função da interação de todo o sistema. Claro, quais propriedades ou instituições tem extrema disjunção é uma tarefa para investigação empírica. É importante notar também que determinada propriedade, se não for suficientemente disjuntiva, pode ser redutível a seus componentes que não necessariamente serão, imediatamente, indivíduos na sociedade ou sinapses para a mente, existem diferentes graus de complexidade e, portanto, vários níveis de possibilidade ou impossibilidade de redução.

Ilustração de propriedades emergentes multiplamente realizáveis e a disjunção de seus componentes de base.

Se é inviável uma defesa coerente do individualismo reducionista, nem por isso torna coerente uma defesa ontológica de estruturas sociais sem que se caia em falácias de reificação de agregados sociais. Seria uma questão em aberto determinar ontologias de agregados sem cair de alguma forma em um dualismo macro-micro, e assim sofrer dos mesmos pesadelos do dualismo mente-corpo de Descartes. Apesar de tudo, torna-se indispensável, até mesmo para um individualista (do tipo não-reducionista), explicar o mecanismo de interação entre propriedades emergentes e elementos micro, ou seja, qual a relação entre sociedade — entendida aqui como o caráter emergente social — e indivíduo.

III. A independência analítica da linguagem

Essa relação só pode se dar por meio de um terceiro nível de análise, qual seja, o da interação social, que nada mais é do que a interação linguística. Não seríamos mais que animais selvagens sem linguagem, sendo ela o que nos individualiza como seres racionais. Animais são muito mais facilmente objetos de simulação computacional, são guiados predominantemente por instintos facilmente observáveis de modo a podermos simulá-los como agentes reativos – sem estados mentais, apenas reagentes a situações externas – sem que o resultado final desvie muito de uma autuação real.

Mesmo assim, uma simulação é sempre imperfeita, como Richard Dawkins objetou na crítica aos processos evolutivos simulados que geraram resultados semelhantes a realidade: uma simulação sempre vai depender dos valores arbitrariamente quantificados pelo programador para que o agente reaja, além do ambiente que sempre dependerá de um pressuposto de constância para tudo que estiver além do observado e quantificado pelo designer. É impossível levar em conta todas as influências que levaram a um determinado efeito, tampouco quantificá-las comparativamente com precisão, até porque tampouco existem números na natureza. Agora, imagine quão complexa seria a tarefa de programar um agente que não só reage institivamente, mas pensa, se comunica por linguagens extremamente sofisticadas, tem estados mentais, age baseado em conjecturas sobre quais os melhores fins e os melhores meios para tais.

A abordagem da interação simbólica é interessante justamente por criar um link entre o sujeito e a estrutura social, rejeitando tanto o reducionismo individualista quanto o estruturalismo ontológico. A interação tanto constitui quanto serve de veículo de mudança e emergência. Um dos modos pelo qual a interação pode causar emergência de situações não planejadas, e ao mesmo tempo ser veículo do que podemos chamar de causalidade cultural, é pela meta-pragmática inerente de qualquer interação humana. A meta-pragmática é o conjunto de condições que possibilitam e influenciam o agir comunicativo na forma de conhecimento tácito relacional e coletivo em seu framework cultural.

Muitos foram os pensadores que por não se dar conta da natureza pública da linguagem, que por sua vez media todas as relações intersubjetivas, além de subjetivas  (na verdade, podemos dizer que a linguagem é constitutiva da subjetividade, já que todo pensamento e conhecimento é linguisticamente mediado ), tiveram seus pilares teóricos minados. Principalmente os defensores da posição denominada internalismo semântico que, influenciados por Descartes, defendem que o significado dos termos das palavras depende puramente dos estados mentais internos. Todavia, uma crítica robusta a essa, como as demais teses, não cabe a este artigo.

Tudo o que foi exposto aqui consistiu apenas numa breve introdução geral à teoria da complexidade e da emergência de fenômenos sociais e mentais. Este texto servirá de base e guia para próximos artigos de análise econômica e sociológica, usando as ferramentas que a mais nova ciência social nos oferece.

 

Referências Bibliográficas:

SAWYER, Keith. Social Emergence: Societies as Complex Systems. United Kingdom: Cambridge University Press, 2005.

SIMON, Herbert. The Architecture of Complexity. Vol. 106. American Philosophical Society, 1962.

HAYEK, F.A. The Theory of Complex Phenomena: A Precocious Play on the Epistemology of Complexity. Studies in Philosophy, Politics and Economics, London, UK: Routledge & Kegan Paul, pp. 22–42, 1967.

AXTELL, Robert. Hayek Enriched by Complexity Enriched by Hayek, in (ed.) Revisiting Hayek’s Political Economy (Advances in Austrian Economics, Volume 21) Emerald Group Publishing Limited, pp.63–121, 2016.

ANDERSON, P.W. More Is Different: Broken symmetry and the nature of the hierarchical structure of science. Science, New Series, Vol. 177, №4047. American Association for the Advancement of Science, 1972.

BIKCLE, John. Multiple Realizability. The Stanford Encyclopedia of Philosophy (Spring 2016 Edition), Edward N. Zalta (ed.). Metaphysics Research Lab, Stanford University, 2016.

HEYLIGHEN, Francis. The Self-Organization and Adaptativity. Brussels, Center “Leo Apostel”: Free University of Brussels, 1999.

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