Sabendo diferenciar um macaco de Adão – Edward Feser (tradução de João Pedro Junqueira)

Sabendo diferenciar um macaco de Adão – Edward Feser (tradução de João Pedro Junqueira)

Em questões sobre evolução biológica, ambos o Magistério da Igreja Católica e os filósofos Tomistas e teólogos tenderam cuidadosamente a seguir um curso médio. Em uma mão, eles permitiram que uma gama bastante ampla de fenômenos biológicos, pudesse, em princípio, ser suscetível de explicação evolucionista, consistente com a doutrina Católica e a metafísica Tomista. Em outra mão, eles também insistiram em terrenos filosóficos e teológicos, que nem para todo fenômeno biológico pode ser dada uma explicação evolucionária, e eles se recusam a emitir um “cheque em branco” para uma interpretação puramente naturalista da evolução. As explicações evolutivas são invariavelmente uma mistura de considerações empíricas e filosóficas. Devidamente entendida, as considerações empíricas devem estar situadas dentro de uma metafísica e filosofia da natureza.

Para os Tomistas, isso terá de incluir a doutrina das quatro causas, o princípio da causalidade proporcional, a distinção entre causa primária e causa secundária, e outros conceitos chaves da metafísica aristotélico-tomista (A-T) e filosofia da natureza (Uma defesa detalhada disto pode ser encontrado em Scholastic Metaphysics). Tudo isso é perfeitamente consistente com a evidência empírica, e aqueles que afirmam o contrário estão implicitamente apelando para suas próprias suposições alternativas naturalistas e metafísicas, em vez da ciência empírica. (Algumas publicações anteriores trazendo noções filosóficas A-T sobre fenômenos biológicos podem ser encontradas aqui, aqui ,aqui, aqui e aqui. Como os leitores de longa data sabem objeções A-T para o naturalismo não tem absolutamente nada a ver com a teoria do “Design Inteligente”, e que filósofos A-T são muitas vezes críticos dessa ideia. Publicações sobre esta disputa entre A-T e DI podem ser coletadas aqui).

No assunto da origem humana, ambos Magistério e filósofos Tomistas reconheceram que uma explicação evolutiva da origem do corpo humano é consistente com princípios teológicos e filosóficos não negociáveis. No entanto, uma vez que o intelecto pode ser mostrado em bases puramente filosóficas como sendo imaterial, é impossível, em princípio, que o intelecto tenha surgido através da evolução. E como o intelecto é o poder principal da alma humana, é, portanto, impossível, em princípio, que a alma humana tenha surgido através da evolução. De fato, dada sua natureza, a alma humana tem que ser especialmente criada e infundida no corpo por Deus – não apenas no primeiro ser humano, mas em todo ser humano. Por isso, os filósofos do Magistério e filósofos Tomistas afirmaram que a ação divina era necessária no início da raça humana para que a alma humana, e assim um verdadeiro ser humano, pudesse existir mesmo com a suposição que a matéria na qual a alma foi infundida, tenha surgido via processos evolucionários de ancestrais não humanos.

Em um recente artigo na revista Crisis, o Professor Dennis Bonnette corretamente nota que os ensinamentos Católicos também exigem que haja um único par de quem todos os seres humanos herdaram a mancha do pecado original. Ele também acusa, com razão, que muitos Católicos supõem erroneamente que esse ensinamento pode ser alegorizado e que a história naturalista padrão sobre as origens humanas é aceita por atacado.



O meio-termo sóbrio

Naturalmente, isso levanta a questão de como o ensino tradicional sobre o pecado original pode ser reconciliado com o que biólogos contemporâneos têm a dizer sobre a origem humana. Eu irei retornar para esse assunto em um momento. Mas primeiro, é importante enfatizar que uma gama de possíveis visões que são consistentes com o ensinamento Católico e a metafísica A-T é bem grande, mas também não indefinidamente grande. Alguns Católicos tradicionalistas parecem pensar que a disposição do Magistério e dos filósofos tomistas contemporâneos de estarem abertos  a explicações evolutivas é uma novidade introduzida depois do Vaticano II. Isso simplesmente não é o caso. Muitos outros católicos parecem pensar que o Papa São João Paulo II deu carta branca aos Católicos para aceitar quaisquer reivindicações sobre a evolução que os biólogos contemporâneos fizeram em nome da ciência. Isso também não é simplesmente o caso. A posição Católica, e a posição Tomista, é o meio termo que venho descrevendo. Ele permite uma ampla gama de debates a respeito sobre que tipo de explicações evolutivas podem ser possíveis e, se possíveis, plausíveis; mas também exclui, em princípio, uma compreensão totalmente naturalista da evolução.

Talvez a declaração magistral mais conhecida sobre esses assuntos seja a do Papa Pio XII em sua Encíclica Humani Generis de 1950. Nas seções 36-37 ele diz:

“Os ensinamento da Autoridade da Igreja não proíbe que, em conformidade com o estado atual das ciências humanas e da teologia sagrada, as pesquisas e as discussões, por parte dos homens experienciados em ambos os campos, ocorram em relação à doutrina da evolução, na medida em que indaga sobre a origem do corpo humano como proveniente de matéria preexistente e viva – pois a fé católica nos obriga a afirmar que as almas são imediatamente criadas por Deus. Entretanto, isto deve ser feito de tal maneira que as razões para ambas as opiniões, isto é, favoráveis e desfavoráveis à evolução, sejam ponderadas e julgadas com a seriedade, moderação e medida necessária, e contato que todos estejam preparados para se submeter ao julgamento da Igreja…” [1]

Quando, no entanto, há uma questão de outra opinião conjuntural, a saber, o poligenismo, os filhos da Igreja de modo algum desfrutam de tal liberdade. Pois os fiéis não podem abraçar aquela opinião que sustenta que após Adão, existiram nessa terra homens verdadeiros dos quais não têm sua origem através de geração natural dele como primeiro pai de todos, ou que Adão representa certo número de primeiros pais. Agora não há nenhum caminho aparente de como uma opinião dessas pode ser conciliada com as fontes da revelação verdadeira e os documentos que os ensinamentos da autoridade da Igreja propõem em relação ao pecado original, do qual procede de um pecado cometido por um indivíduo Adão e do qual, através da geração, é passado para todos e está em todos como seus.

O Papa aqui abre a possibilidade de uma explicação evolucionária para a origem do corpo humano e também, em termos fortes, exclui qualquer explicação evolutiva para a alma humana e qualquer negação que seres humanos têm um único homem como ancestral comum. Essa combinação de teses era comum na filosofia tomista e na teologia católica ortodoxa da época, e pode ser encontrada nos manuais da era neoescolástica publicados, com o Imprimatur, tanto antes de 1950 como nos anos posteriores à Humani Generis, mas antes do Vaticano II.

Por exemplo, em The Whole Man: Ṕsychology de Celestine Bittle, publicado em 1945, nós encontramos:

“A evolução do corpo humano poderia, por si só, ter sido incluída no esquema geral do processo evolutivo de todos os organismos. A evolução seria uma hipótese de trabalho justa, porque faz pouca diferença se Deus criou o homem diretamente ou usou o método indireto de evolução…” [2]

“Qualquer que seja o veredito final da ciência e filosofia sobre a origem do corpo humano, seja através da evolução organizada ou através de um ato especial de intervenção divina, a alma do homem não é produto da evolução.” [3]

George Klubertanz, em Philosophy of Human Nature (1953), escreve:

“A evolução essencial dos seres vivos incluindo o corpo humano (todo o homem com sua alma espiritual excluída), como explicado através de causalidade equívoca, acaso e providência, é uma explicação possível da origem desses seres vivos. A possibilidade desse modo de origem pode ser admitida tanto pelo filósofo quanto pelo teólogo.”  [4]

Klubertanz adiciona em uma nota de rodapé:

“Existem alguns problemas teológicos envolvidos em tal admissão: esses problemas não nos importam aqui. É suficiente dizer que pelo menos alguns teólogos competentes acham que esses problemas podem ser resolvidos; de qualquer forma, uma dificuldade não constitui, por si só, uma refutação.” [5]

Ao final de dois capítulos analisando a metafísica da evolução de uma perspectiva tomista, Henry Koren, em seu indispensável An Introduction to the Philosophy of Animate Nature (1955), conclui:

“Não parece haver objeção filosófica contra qualquer teoria que sustente que mesmo tipos de animais (ou plantas) amplamente diferentes se originaram de organismos primitivos através das forças da matéria inerentes a esses organismos e outros agentes materiais…” [6]

“Mesmo no caso do homem, parece não haver razão para que a evolução de seu corpo dos organismos primitivos (e mesmo da matéria inanimada) deva ser considerada filosoficamente impossível. É claro que a alma do homem pode ter obtido sua existência somente através de um ato direto de criação: portanto, é impossível para a alma humana ter evoluído da matéria. Em certo sentido, até mesmo o corpo humano deve ser considerado o resultado de um ato de criação. Pois o corpo humano é feito especificamente humano pela alma humana, e a alma é criada; portanto, como corpo humano, o corpo do homem resulta da criação. Mas a questão é se a matéria de seu corpo tinha que ser adequada para a atuação de uma alma racional através da intervenção natural de Deus, ou se o mesmo resultado poderia ter sido alcançado pelas forças da natureza agindo como dirigidas por Deus. Como vimos, parece não haver razão para que a segunda alternativa tenha sequer uma impossibilidade.”  [7]

Adolphe Tanquerey, no volume I de A Manual of Dogmatic Theology (1959), escreve:

“É de fé que nossos primeiros pais em relação ao corpo e em relação a alma foram criados por Deus: é certo que suas almas foram criadas imediatamente por Deus; a opinião, uma vez comum, que afirma que até mesmo o corpo do homem foi formado imediatamente por Deus, agora caiu em controvérsia…” [8]

“Enquanto a origem espiritual da alma humana for corretamente preservada, as diferenças de corpo entre homem e macaco não se opõem à origem do corpo humano da animalidade…” [9]

“A opinião que afirma que o corpo humano surgiu da animalidade através das forças da evolução não é herética, na verdade, pode ser admitido teologicamente…” [10]

“Tese: a raça humana universal surgiu através do primeiro pai Adão. Segundo muitos teólogos, essa afirmação está próxima de uma questão de fé.” [11]

De forma similar, o bem conhecido Fundamentals of Catholic Dogma de Ludwig Ott, em sua quarta edição de 1960, diz:

“A alma do primeiro homem foi criada imediatamente por Deus do nada. No que diz respeito ao corpo, sua formação imediata de material inorgânico por Deus não pode ser mantida com certeza. Fundamentalmente, existe a possibilidade de que Deus soprou a alma espiritual em um material orgânico, isto é, em um corpo originalmente animal…” [12]

“A Encíclica ‘Humani Generis’ de Pio XII (1950) estabelece que a questão da origem do corpo humano está aberta à livre pesquisa por cientistas e teólogos naturais…” [13]

“Contra… a visão de certos cientistas modernos, segundo os quais as várias raças são derivadas de vários ramos separados (poligenismo), a Igreja ensina que os primeiros seres humanos, Adão e Eva, são os progenitores de toda a raça humana (monogenismo). O ensino da unidade da raça humana não é, de fato, um dogma, mas é uma pressuposição necessária para o dogma do Pecado Original e da Redenção.” [14]

J. F. Donceel, em Philosophical Psychology (1961),escreve:

“Até cem anos atrás era tradicionalmente considerado que a matéria na qual Deus pela primeira vez infundiu uma alma humana era inorgânica (o pó da terra). Temos agora muitas boas razões científicas para admitir que esse assunto era, na realidade, matéria orgânica – isto é, o corpo de algum animal simiesco.” [15]

“Aquino sustentou que, durante o curso da gravidez, Deus infundi uma alma humana no embrião que, até então, era um simples organismo animal, embora dotado de finalidade humana. A teoria da evolução se estende à filogenia, o que Aquino sustentou para a ontogenia.” [16]

“Portanto, não há dificuldade filosófica contra a hipótese que afirma que a primeira alma humana foi infundida por Deus no corpo de um animal que possui uma organização muito semelhante a do homem.”  [17]

Você pegou a ideia. É na luz dessa tradição que nós devemos entender o que o Papa João Paulo II disse em 1996 em uma “Mensagem à Pontifícia Academia das Ciências” as passagens relevantes seguem:

“Em sua Encíclica Humani Generis (1950), meu predecessor Pio XII já afirmou que não existe conflito entre evolução e a doutrina da fé em relação ao homem e sua vocação, desde que não percamos de vista alguns pontos fixos.” [18]

“Hoje, mais de meio século depois do aparecimento dessa encíclica, algumas novas descobertas nos levam ao reconhecimento da evolução como mais do que uma hipótese. De fato, é notável que essa teoria tenha exercido progressivamente maior influência sobre o espírito dos pesquisadores, após uma série de descobertas em diferentes disciplinas acadêmicas. A convergência nos resultados desses estudos independentes – que não foram planejados nem buscados – constitui em si um argumento significativo em favor da teoria…” [19]

“A elaboração de uma teoria tal como a da evolução, embora obediente à necessidade de consistência com os dados observados, deve também envolver a importação de algumas ideias da filosofia da natureza.” [20]

“E para dizer a verdade, em vez de falar sobre a teoria da evolução, é mais correto falar das teorias da evolução. O uso do plural é necessário aqui – em parte devido à diversidade de filosofias envolvidas. Existem teorias materialistas e reducionistas, assim como teorias espiritualistas. Aqui o julgamento final está dentro da competência da filosofia e, além disso, da teologia…” [21]

“Pio XII sublinhou o ponto essencial: se a origem do corpo humano vem através da matéria viva que existia anteriormente, a alma espiritual é criada diretamente por Deus…” [22]

“Como resultado, as teorias da evolução que, por causa das filosofias que as inspiram, consideram o espírito como emergindo das forças da matéria viva, ou como um simples epifenômeno desse assunto, são incompatíveis com a verdade sobre o homem.” [23]

Final da citação. Alguns tradicionalistas e teólogos liberais parecem considerar a declaração de João Paulo como uma nova concessão ao modernismo, mas não é nada disso. A observação de que a evolução é “mais do que uma hipótese” certamente expressa mais confiança na teoria do que Pio, mas tanto os julgamento de Pio quanto de João Paulo sobre essa questão em particular, são meros juízos prudenciais sobre o peso da evidência empírica. No nível de princípio, não há diferença entre eles. Ambos os papas afirmam que o corpo humano pode ter surgido através da evolução, ambos afirmam que a alma humana não surgiu assim, e ambos se recusam a aceitar a compreensão da metafísica naturalista sobre a evolução. João Paulo II é especialmente claro neste último ponto. Como você esperaria de um tomista, ele insiste corretamente em que as explicações evolucionistas nunca são puramente empíricas. Mas todas pressupõem um esquema metafísico de fundo. Portanto ele observa que uma teoria da evolução totalmente elaborada “deve também envolver a importação de algumas ideias da filosofia da natureza” e que aqui “o julgamento final está dentro da competência da filosofia e, além disso, da teologia” – não ciência empírica por si só. E como nota Bonnette, o Catecismo publicado sob o Papa João Paulo II reafirma essencialmente, nas seções relevantes (396-406), o ensino tradicional de que a raça humana herdou a mancha do pecado original de um homem.

Nem os católicos conservadores que, em princípio, descartariam qualquer aspecto evolutivo das origens humanas, nem os católicos liberais que descartariam a submissão das alegações feitas pelos biólogos evolucionistas contemporâneos a qualquer crítica filosófica ou teológica, podem encontrar apoio no ensino de qualquer um desses papas.

Monogenismo ou Poligenismo?

Mas novamente, como pode a doutrina do pecado original ser conciliada com o que a biologia contemporânea diz sobre a origem humana? Por conta que a doutrina requer a descendência de um único ancestral original, enquanto os biólogos contemporâneos sustentam que a evidência genética indica que os humanos modernos descendem de uma população de pelo menos vários milhares de indivíduos.

Esse é um problema que eu abordei há uns anos atrás em uma série de publicações (aqui, aqui e aqui). Leitores de longa data vão se lembrar que eu reiterei uma proposta desenvolvida por Mike Flynn e Kenneth Kemp, no sentido que precisamos distinguir uma criatura que é humana em sentido metafísico estrito, daquele de uma criatura que é “humana”, apenas em um sentido frouxo e puramente fisiológico. O último tipo de criatura seria mais ou menos igual a nós em seus atributos corporais, mas careceria de nossos poderes intelectuais, que são incorpóreos. Em suma, faltaria uma alma humana. Assim, embora geneticamente parecesse humano, não seria um animal racional e, portanto, não seria humano no sentido estrito da metafísica. Ora, esse tipo de criatura fisiologicamente “humana”, mas não racional, é essencialmente o que Pio XII, João Paulo II e os filósofos teólogos citados acima tem em mente quando falam de um cenário em que o corpo humano surge por meio de processos evolutivos.

A proposta Flynn-Kemp é essa. Suponha que os processos evolutivos deram origem a uma população de vários milhares de criaturas desse tipo não racional, mas geneticamente e fisiologicamente “Humano”. Suponha ainda que Deus infundiu almas racionais em duas dessas criaturas, dando-lhes, assim, os nossos poderes intelectuais e volitivos distintos e tornando-os verdadeiros humanos. Chame esse par de “Adão” e “Eva”. Adão e Eva têm descendentes, e Deus infunde em cada um deles almas racionais próprias, de modo que eles também são humanos no sentido metafísico estrito. Suponha que alguns desses descendentes cruzem com criaturas do tipo não-racional, mas geneticamente e fisiologicamente “humano”. A descendência resultante também teria almas racionais, uma vez que elas têm Adão e Eva como ancestrais (mesmo que também tenham criaturas não racionais como ancestrais). Esse cruzamento continua por algum tempo, mas eventualmente a população de criaturas não-racionais, mas geneticamente e fisiologicamente “humanas” é extinta, deixando apenas aquelas criaturas que são humanas no sentido da metafísica.

Nesse cenário, a população humana moderna tem os genes que possui, porque descende desse grupo de vários milhares de indivíduos, inicialmente apenas dois dos quais tinham almas racionais ou humanas. Mas somente aqueles indivíduos posteriores que tiveram este par entre seus antepassados (mesmo que eles também tivessem como ancestrais membros do grupo original que não tinham almas humanas) têm descendentes vivendo hoje. Nesse sentido, todo ser humano moderno descende de uma população original de vários milhares e de um par original. Não há contradição, porque a alegação de que os seres humanos modernos são descendentes de um par original não implica que eles receberam todos os seus genes desse par sozinho.

Claro que isso é especulativo. Ninguém está clamando que isso é o que realmente aconteceu, ou que os ensinamentos Católicos requerem esse cenário específico. O ponto é que isso mostra, um caminho consistente com aquele da Ortodoxia Católica e da Filosofia Tomista permitem em relação à evolução, que a evidência genética não está de fato em conflito com a doutrina do pecado original. Naturalmente, outros católicos e tomistas poderiam razoavelmente discordar.

Dito isso, eu ainda tenho que ver quaisquer objeções plausíveis ao cenário Flynn-Kemp. Isso nos traz de volta ao artigo do Professor Bonnette. Em resposta à proposta Flynn-Kemp, ele escreve:

“A dificuldade com qualquer solução de cruzamentos (salvo, talvez, em casos raros) é que isso colocaria no começo da raça humana um impedimento severo ao seu crescimento e desenvolvimento saudável. A lei natural exige que o casamento e a procriação ocorram apenas entre um homem e uma mulher, de modo que as crianças recebam modelos adequados para a vida adulta. Da mesma forma, mesmo que a união entre um verdadeiro humano e um sub-humano não fosse apenas transitória, mas duradoura, a paternidade e o modelo de um pai que não é um humano verdadeiro introduziria uma séria desordem no bom funcionamento da família e educação das crianças. Assim, o cruzamento generalizado não é uma solução aceitável para o problema da diversidade genética.” [24]

“Além disso, dada a redução acentuada no número de antigos alelos HLA-DRB1 encontrados pelos estudos genéticos posteriores de Bergström e von Salomé, pode-se concluir que nenhum cruzamento é necessário, ou no máximo, que casos muito raros podem ocorrer. Tais eventos raros podem até não implicar o consentimento de seres humanos verdadeiros, uma vez que podem resultar de um ataque de um homem sub-humano sobre uma fêmea humana não consentida.” [25]

Eu ponho de lado as observações do Professor Bonnette sobre a evidência genética, que deixarei para os biólogos avaliarem. Bonnette permite que alguns cruzamentos possam ter ocorrido, mas ele afirma que não pode ter sido “generalizado” e que a razão disso tem a ver com a lei natural. Mas qual é o problema exatamente?

Em 2011, quando Flynn, Kemp e eu escrevemos sobre esse tópico pela primeira vez, e a proposta Flynn-Kemp estava recebendo muita atenção na blogosfera, algumas pessoas objetaram que o cruzamento do tipo em questão equivalia à bestialidade. Mas é claro, ninguém está sugerindo que devemos aprovar o cruzamento entre os gêneros em questão. A alegação é meramente que, de fato, pode ter acontecido, mesmo que isso fosse contrário à lei natural e divina (assim como Caim matou Abel mesmo que isso fosse contrário à lei natural, e assim como Adão e Eva comeram do fruto da Árvore do Conhecimento, mesmo que isso fosse contrário à lei divina).

Também não seria uma boa objeção sugerir que ninguém seria plausivelmente tentado a participar desse cruzamento. Afinal de contas, o cenário em questão dificilmente seria comparável ao do membro médio da civilização contemporânea sendo tentado a fazer sexo com um macaco, o que obviamente não seria psicologicamente plausível. Por um lado, as criaturas sub-racionais, mas geneticamente e fisiologicamente “humanas” em questão, não seriam como os macacos, ou de fato como qualquer um dos animais não humanos com os quais estamos familiarizados. Eles seriam mais ou menos parecidos conosco. Além disso, eles até agiriam como nós em algum grau. Como observei em uma publicação recente, embora um sistema puramente material nunca pudesse, em princípio, exibir uma verdadeira racionalidade, ainda poderia simulá-la de forma significativa (como se você adicionasse lados suficiente a um polígono, teria algo parecido com um círculo, embora realmente não possa ser um círculo). As criaturas sub-racionais em questão teriam sido “sphexish”, mas uma criatura suficientemente complexa nesse sentido, poderia parecer não estar em um exame superficial. Lembre-se da distinção de Popper entre quatro funções da linguagem: expressiva, sinalizadora, descritiva e argumentativa. As criaturas sub-racionais em questão não seriam capazes das duas últimas funções (que pressupõem racionalidade), mas poderiam ter exibido versões muito sofisticadas das duas primeiras funções.

Enquanto isso, os primeiros seres humanos verdadeiros, não teriam nada parecido com os modernos acompanhamentos civilizacionais da atividade sexual, especialmente dados os efeitos do pecado original. Obviamente, seria absurdo pensar em suas ligações como envolvendo técnicas suaves de sedução romântica, padrões contemporâneos de higiene pessoal, etc. Portanto, a “distância” cultural entre os seres humanos primitivos e as criaturas sub-racionais em questão, não precisa ter sido tão grande a ponto de tornar a tentação sexual psicologicamente implausível.  Poderia ser comparável a uma pessoa muito inculta e pouco sofisticada, que se aproveitasse sexualmente de uma pessoa ainda menos sofisticada e muito estúpida. Não que fosse exatamente assim, já que mesmo uma pessoa estúpida ainda é inteligente no sentido estrito, enquanto as criaturas sub-racionais em questão nem sequer chegam ao nível de estupidez. O ponto é que a situação poderia ter sido psicologicamente próxima o suficiente para a tentação ser real. (Como eu indiquei, em parte em tom de brincadeira, em uma das publicações anteriores, poderíamos pensar no modelo do personagem Charlton Heston, “Taylor”, sendo atraído para o personagem de Linda Harrison “Nova” no Planeta dos Macacos – não que no início as criaturas sub-racionais pareceriam tão boas assim!).

Não parece que a questão da “bestialidade” por si só seja realmente o coração da objeção do Professor Bonnette. Seu ponto de vista parece ser que uma “união” de um ser humano verdadeiro com uma criatura sub-racional do tipo em questão seria disfuncional em relação à criação apropriada de crianças verdadeiramente humanas. Isso é verdade, mas é difícil ver como isso é um problema para o cenário Flynn-Kemp, pois nada nesse cenário exige que tais “uniões” estejam em qualquer lugar perto do ideal do ponto de vista da criação dos filhos, ou mesmo se há “uniões” (de algum tipo de longo prazo) em primeiro lugar. Tudo o que é necessário é que haja cruzamentos suficientes para explicar as evidências genéticas de que os biólogos contemporâneos recorreram. Não está claro como a questão de se, como, e em qual medida as criaturas sub-racionais estavam envolvidas na criação dos filhos afeta o julgamento de que houve cruzamentos o suficiente.

Talvez o Bonnette pense que a criação dos filhos teria sido tão deficiente que a população de verdadeiros humanos não poderia ter sobrevivido por tempo suficiente para substituir as criaturas sub-racionais. Mas é difícil perceber porquê. Certamente o filho de uma “união” entre um ser humano verdadeiro e uma das criaturas sub-racionais teria uma vantagem sobre os descendentes de duas criaturas sub-racionais, pois tal criança teria a mesma racionalidade, e pelo menos um pai racional, enquanto o outro tipo de descendência não teria nenhum dos dois. Além disso, não precisamos pensar em termos de tais pares em primeiro lugar. Por que não pensar em um cenário em que um macho verdadeiramente humano forma uma união com uma fêmea verdadeiramente humana, mas também possui várias fêmeas sub-racionais, mas geneticamente e fisiologicamente “humanas”, como concubinas, onde as crianças resultantes são essencialmente criadas pelo casal humano? E tais arranjos só precisam ter ocorrido com frequência o suficiente para a população verdadeiramente humana suplantar a população de criaturas sub-racionais. Não há necessidade de detalhar o cenário Flynn-Kemp de maneira específica que o Bonnette (aparentemente) faz.

Então, me parece que nem o Professor Bonnette, nem qualquer pessoa levantou qualquer dificuldade séria para a proposta Flynn-Kemp. No entanto, o Professor Bonnette está certo em afirmar que muitos católicos precisam mostrar maior cautela ao comentar assuntos relacionados à evolução.

Artigo original postado aqui.

 

Notas

[1] PIO XII, Papa. Encíclica Humani Generis. Cidade do Vaticano: 1950

[2] BITTLE, Celestine. The Whole Man: Ṕsychology. 1945

[3] Ibid, p. 585

[4] KLUBERTANZ, George. Philosophy of Human Nature. 1953. p. 425

[5] Ibid.

[6] KOREN,Henry. An Introduction to the Philosophy of Animate Nature. 1955

[7] Ibid, pp. 302-4

[8] TANQUEREY,Adolphe. A Manual of Dogmatic Theology. 1959

[9] Ibid.

[10] Ibid.

[11] Ibid, pp. 394-98

[12] OTT,Ludwig. Fundamentals of Catholic Dogma. 1960

[13] Ibid.

[14] Ibid, pp. 94-96

[15] DONCEEL,J.F. Philosophical Psychology. 1961

[16] Ibid

[17] Ibid, p. 356

[18] PAULO II, Papa João. Mensagem à Pontifícia Academia das Ciências. 1996

[19] Ibid

[20] Ibid

[21] Ibid

[22] Ibid

[23] Ibid

[24] BONNETTE, Denis. Did Adam and Eve Really Exist?. Crisis Magazine, 2014. Disponível em: <https://www.crisismagazine.com/2014/did-adam-and-eve-really-exist>. Acesso em: 06  abr. 2019.

[25] Ibid

 

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