Direita e Esquerda: para que servem? – Claudio Costa

Direita e Esquerda: para que servem? – Claudio Costa

O artigo a seguir é uma participação especial de Claudio Ferreira Costa, doutor em Filosofia e professor titular de Filosofia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Recomendamos a todos que confiram seus livros, blog e canal — especialmente interessados na filosofia analítica.

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Se você acredita que eu penso que é preciso fazer uma opção entre ser de direita ou de esquerda, devo decepcioná-lo. No que se segue, quero demonstrar que é desejável a existência de uma saudável dialética entre direita e esquerda, e que ela é intrínseca a um sistema político verdadeiramente democrático. Após a consideração dos argumentos, essa ideia torna-se, ao meu ver, uma quase obviedade quando aplicada ao mundo atual, não tanto como ele é, mas como deveria ser.

Para começar, quero tirar de foco aquilo que foge ao escopo de nossa discussão, que são os sistemas totalitários ou pró-totalitários ditos de esquerda ou de direita, que não deveriam nem menos pertencer à contemporaneidade. Quero também excluir deformações sociais demagógico-populistas, como esquerda e direita ditas regressivas, que não são o que aparentam ser, apontando para uma deformação manipuladora do processo democrático e possuindo um elemento, ao menos, potencialmente totalitário e economicamente autodestrutivo. Suponho, como base necessária ao argumento, uma sociedade bem formada na qual as leis sejam cumpridas, onde exista transparência e ‘fairness’ na atividade política.[1] Dito isso, minha intenção é procurar esclarecer os verdadeiros papéis da esquerda e da direita nessa sociedade legitimamente democrática. Escolho usar esses termos semanticamente carregados e ambíguos ao invés de termos um pouco mais neutros, que poderiam ser respectivamente libertarianismo (libertarianism) versus liberalismo igualitarista (liberal-igualitarism), ou conservadorismo versus liberalismo, dado que quero desafiar concepções arraigadas nas mentes de muitos e que me parecem claramente errôneas.

A tese é simples: esquerda e direita, em um sistema legitimamente democrático no qual existe desenvolvimento econômico, são opostos dialéticos interdependentes que podem e mesmo devem alternar-se em uma enriquecedora dinâmica interna.

Ou seja, faz parte da dinâmica de um estado legitimamente democrático em processo de desenvolvimento material, um esperado revezamento entre governos mais voltados para a direita e outros mais voltados para a esquerda, pois ambos se complementam no intento de maximizar o bem comum e a justiça social.

Naturalmente, essa tese demanda esclarecimentos. Primeiro, é preciso definir com alguma precisão o que estamos entendendo por direita e esquerda, de modo a expor a razão dessa dicotomia. Depois é necessário esclarecer por que, e de que maneira, considero ambas as posições legítimas. Posteriormente preciso explicar por que uma alternância entre ambas em um sistema sócio-político suficientemente desenvolvido costuma ser desejável. Finalmente, quero testar minhas considerações aplicando o critério de estado justo de John Rawls, [2] de maneira a mostrar que ele pode se aplicar positivamente a ambos os casos, uma vez dado o contexto adequado.

I

Vejamos, primeiro, como podemos definir o espectro político que vai da esquerda à direita de forma que, espero, não ser ideologicamente comprometida. Como é sabido, os termos surgiram no período da Revolução Francesa, a direita se referindo aos defensores da monarquia e a esquerda aos que a ela se opunham. Mais tarde, a oposição passou a constituir um espectro que vai da extrema-esquerda à esquerda moderada, ao centrismo, à direita moderada e à extrema-direita. Desse espectro quero considerar apenas a esquerda e a direita moderadas, uma vez que por não serem autoritárias, elas são compatíveis com um sistema democrático suficientemente desenvolvido e capazes de um diálogo construtivo mútuo, diversamente de posições extremadas. Começo com uma breve caracterização contrastando as duas posições, a começar pela direita democrática:

Tese A1. O ponto fundamental é o de que a direita deve, por definição, representar as classes sociais ditas mais favorecidas ou dominantes, ou, para usar um termo mais neutro, classes influentes. Claro que sob essa perspectiva, a direita democrática por consequência defende a maximização do capitalismo privado. Ela defende a livre competição da parte da economia privada e a minimização do papel do Estado. A diminuição das taxações decorrentes da minimização do papel do Estado auxilia no crescimento econômico, porque em um sistema regido pela lei comum e livre de distorções – no qual o Estado é o menor possível e taxa minimamente – as empresas se tornam muito mais capazes de competir umas com as outras. A livre competição, por sua vez, faz com que as empresas mais eficazes e criativas predominem, enquanto as menos competitivas vão à falência, o que no final serve como o principal instrumento para o enriquecimento de uma nação. Trata-se de uma espécie de inegável darwinismo econômico. O melhor exemplo disso foi o do desenvolvimento dos Estados Unidos na última metade do século XIX, notado pelo economista Milton Friedman. O governo taxava os cidadãos entre 3% a 5%, restringindo-se ao papel de manter a lei e a ordem, além da defesa. Praticamente tudo era privado. Como havia, por exemplo, competição entre as companhias ferroviárias, o preço das viagens era minimizado, facilitando a vida do cidadão. O resultado dessa política econômica foi um crescimento econômico exponencial, que já no início do século XX, fazia os Estados Unidos ultrapassarem a Europa em termos de riqueza, o que explica a imigração de mais de quarenta milhões de Europeus para o país na primeira metade do século.

Mas essa forma radical de capitalismo não acontece sem um preço, pois os perdedores da competição pelo capital caem na miséria, seja por incapacidade ou por simples má-sorte, passando a depender da caridade dos mais afortunados. Há também a ansiedade social, bem como um ethos social gerado pela competição. Por si mesma a mentalidade competitiva não parece algo muito saudável [3]. Os muitos casos de assassinatos em massa nos Estados Unidos testemunham isso. A palavra ‘perdedor’ (loser) é tipicamente norte-americana. O pecado capital da direita, visível no que já foi apelidado de “capitalismo selvagem”, é o da ganância.

Vejamos agora, como contraste, características econômicas da esquerda:

Tese A2. Aqui o ponto fundamental é o de que a esquerda deve representar as classes ditas menos favorecidas, ou, tentando encontrar um vocabulário mais neutro, classes subordinadas na ordem social. Economicamente, a esquerda moderada tende a defender algum grau de socialismo democrático. Uma maneira de se tentar alcançar esse objetivo é através de uma maior intervenção estatal na economia, pois geralmente o Estado é quem é capaz de redistribuir riquezas que tendem a se acumular nas mãos de alguns poucos. Essa é uma inevitável tendência do domínio da economia privada: dinheiro gera dinheiro. Um exemplo trivial evidencia isso: um fazendeiro que possui 50 hectares pode investir suas economias comprando o dobro do que tem. Nesse caso conseguirá ter 100 hectares. Já se um pequeno produtor que possui 5 hectares investir suas economias comprando o dobro do que possui, conseguirá no final obter 10 hectares. Na comparação o primeiro ganhará 50 hectares a mais, enquanto o segundo apenas 5, ou seja, o primeiro dez vezes mais do que o segundo. O exemplo evidencia o fato de que o capital tende a se concentrar nas mãos de alguns poucos. Isoladamente, esse fato pode não ser mal do ponto de vista meramente econômico (o dinheiro em excesso é reinvestido ou vai para os bancos onde é emprestado), mas os poucos possuidores de mais recursos tendem a possuir maior poder, o que usualmente os permite introduzir distorções a seu favor, distorções no mercado capazes de produzir danos colaterais indesejáveis como a falta de igualdade de oportunidades. Como notou um jornalista de esquerda, nos Estados Unidos a maioria das pessoas tem alguma chance uma vez na vida, mas aqueles que pertencem às famílias ricas e influentes, tem inúmeras chances que se sucedem umas às outras continuamente. Isso contribui para limitar a mobilidade social e debilitar a meritocracia.

Considerando o seu compromisso de aumentar a qualidade de vida das classes ditas subordinadas, a esquerda democrática deve, por princípio, buscar diminuir desigualdades. É aí que entra o papel redistributivista do Estado. A melhor maneira de assegurar a redistribuição é agregar valor humano às pessoas, o que se faz pela educação, a começar pela educação básica. O próprio Marx acreditava que um engenheiro deve ganhar mais, uma vez que (segundo o seu raciocínio) foi investido trabalho na sua formação, o que o valoriza. Certamente, apenas isso não basta. O estado do bem-estar social (o welfarestate) foi uma conquista da civilização, protegendo os mais desfavorecidos.

Que as pessoas possam de forma gratuita ter educação básica de qualidade, saúde, alimentação e moradia garantidas em caso de desemprego, deveria passar à condição de direito humano. Mas não podemos nos esquecer que esses direitos só existem sob o pressuposto de uma estrutura econômica suficientemente robusta. Se a economia regredisse à Idade Média, esses direitos deixariam de existir. Eles são dependentes da realidade econômica, o que foi claramente percebido por Marx.

O óbvio problema causado pela introdução de medidas de auxílio social é que elas causam um aumento na taxação, diminuindo a competitividade da economia privada. A economia privada – o livre mercado – é, como já notei, o principal motor do desenvolvimento: o próprio Estado se sustenta sobre ela. Essa tese fundamental de Adam Smith vale ainda hoje. O que enriquece uma nação é a livre competição entre os agentes econômicos; uma livre competição sem monopólios, cartéis ou ajuda do estado, e sob o controle de leis igualmente aceitas e aplicáveis a todos, ainda que esse “bom capitalismo” seja geralmente um ideal apenas parcialmente realizado. Trata-se aqui do que Smith chamou de a “mão invisível” do mercado, através da qual cada agente econômico, movido pelo interesse pessoal, busca vencer na livre competição do mercado, acabando por produzir mercadorias melhores e mais baratas, o que acaba por promover o maior bem para todos.

O risco envolvido na busca do estado do bem-estar social está no enrijecimento da mão invisível. É o caso de erros estratégicos por vezes grosseiros conduzidos pelo Estado (vide a presente distopia na política europeia) ou (no caso típico do Brasil) o crescimento excessivo de um Estado ineficiente e corrupto a ponto de esmagar a economia privada, produzindo estagnação ao matar o “espírito animal” do empreendedorismo. O Estado, como todos sabem, não tem competidores e é por essa razão pouco eficiente. A intervenção estatal pode até certo ponto auxiliar no desenvolvimento, mas os limites são bem definidos e culturalmente dependentes. E como a Escola Austríaca demonstrou, a economia planejada tentada por Estados totalitários de esquerda, destruía a informação econômica necessária para que o mercado operasse satisfatoriamente, pois não era capaz de prever as necessidades de milhões de atores econômicos. Ou seja, uma economia socialista totalitária não tem como dar certo, e uma economia capitalista democrática com maior intervenção do Estado, possui limites economicamente e culturalmente variáveis e determinados. A experiência social-democrática mais bem-sucedida, a dos países nórdicos (Noruega, Suécia, Finlândia, Dinamarca) foi na verdade um desejável subproduto de um livre mercado altamente desenvolvido.

A falência de sistemas totalitários de esquerda como a URSS e a China de Mao, para citar dois exemplos entre muitos outros, é uma prova irrefutável do que escrevi acima. Esses sistemas de capitalismo de estado só funcionaram sob as mãos de ferro de ditadores e, mesmo assim, dando algum espaço não-oficial ao livre mercado. O pecado capital da esquerda, claramente visível em estados comunistas, sempre foi o da inveja.

Tese B1. A direita deve estar comprometida com uma defesa racional das classes dominantes, geralmente sob alguma justificação de fundo meritocrático. Segundo Rawls, os membros dessas classes merecerão mais na medida em que forem capazes de produzir um bem comum maior (Digamos, Henry Ford ao produzir carros populares na década de 20, ou Bill Gates por ter fundado a Microsoft).

Tese B2. A esquerda deve estar comprometida com um redistributivismo razoável com relação às classes menos favorecidas e com a minimização de desigualdades econômicas que podem facilmente se tornar injustas.

Tese A3. A direita costuma estar comprometida com a conservação dos valores tradicionais, com a resistência à velocidade da transformação ou mesmo com o retorno à ordem antes estabelecida, mesmo que alterada. Mas qual a razão disso? Esse é um ponto crucial a ser considerado no curso deste artigo.

Tese B3. A esquerda deve estar mais comprometida com a mudança social sob o suposto (inevitável) de um contínuo progresso econômico. A razão da oposição entre A3 e B3 é simples: uma sociedade é um todo dinâmico geralmente em desenvolvimento, necessitando acomodações nas relações entre classes. O aumento da riqueza é o que permite uma melhoria na condição econômica das classes ditas subordinadas. Por isso, é a esquerda que costuma demandar mudanças, até o limite nos quais elas possam se tornar excessivas. Um exemplo claro foi a Revolução Francesa antes da vinda de Napoleão até sua degradação absolutista, seguida da reação conservadora vinda após sua derrota.

II

Muitos pensaram, influenciados pelo marxismo, que a direita e a esquerda devessem ser posições políticas incompatíveis, a primeira delas defendendo a justiça social e a outra não. Para a esquerda, influenciada pelo marxismo-leninismo, as classes menos favorecidas são socialmente exploradas e injustiçadas. Esse ponto valeu para certos momentos da história, como os abusos da Revolução Industrial, mas não pode ser de modo algum generalizado. Já a direita, influenciada por conservadores como Edmund Burke, defende que os mais abastados formam uma elite preservadora da tradição conquistada pela experiência de séculos, sendo no final das contas, em geral, aqueles que se demonstraram os mais preparados e que por isso merecem preservar o que conquistaram, preservando assim o que foi bem sucedido em uma sociedade. Em termos individuais esse raciocínio pode ser claramente falacioso. Mas não em termos coletivos. Se considerarmos a maneira como o Estado sempre funcionou, há uma certa lógica em se pensar assim. Por exemplo: os que pertencem à classe dominante têm mais acesso à educação, tem meios de conhecer os mecanismos concretos do poder e são capazes de passar sua experiência para os que pertencem ao mesmo grupo social. Em princípio, ao menos – pressupondo legalidade e a ausência de corrupção – seriam de maneira geral, mais capazes de gerir o Estado de modo a produzir o bem comum.

Quero defender aqui algo diverso disso, pois penso que ao menos quando consideramos formas moderadas de esquerda e direita, representadas em um sistema verdadeiramente democrático de governo no qual a corrupção é minimizada e as leis são reconhecidas e seguidas, ambas as posições são complementares e capazes de uma interação enriquecedora capaz de beneficiar a todos. John Searle devia ter algo assim em mente quando notou que o bipartidarismo americano é uma forma de sabedoria política.

Quero examinar a questão da justiça social, mas antes disso pretendo considerar a questão das classes sociais. A existência de diferentes classes sociais é algo inevitável e absolutamente necessário às sociedades desenvolvidas. Ela praticamente não existe em tribos indígenas em que mais ou menos tudo é de todos, nas quais existem em geral duas classes equiparadas: a dos homens, dedicados à caça e eventualmente à guerra, e a das mulheres, dedicadas aos afazeres domésticos e ao cuidado dos filhos. Mas desde os impérios da antiguidade, a existência de classes sociais se tornou um fato social cuja necessidade é indiscutível. A existência de classes sociais não significa, inevitavelmente, injustiça social, como erroneamente pensava Marx. A história não é “a história das lutas de classe”, mas dos compromissos entre as classes.[4] Um legionário romano sentia-se honrado em servir ao Cesar, apesar da realidade brutal de sua vida. Os moradores do Butão prezam o seu rei a ponto de se sentirem indignados diante da sugestão de avaliá-lo pelo voto. E falando do mundo contemporâneo, basta considerar estados social-democráticos muito desenvolvidos para que esse compromisso se torne claro. Uma pessoa rica na Finlândia tem encargos sociais muito elevados, estabelecidos pelo Estado do bem-estar social e a sua maior riqueza e maior status social devem ser justificados por maiores deveres e responsabilidades sociais, ou seja, pelo que ela é capaz de retornar para a sociedade. Um milionário de Helsinski, dono de uma cadeia de restaurantes, notou em entrevista que, para ele, quase não vale a pena ser rico. Isso nos faz passar à questão da justiça social.

É importante notar que tanto um Estado de esquerda quanto um de direita podem ser socialmente injustos. Não é somente a classe dominante que pode ser injusta com a subordinada, mas o contrário também é possível. Considerando Estados de direita, quero exemplificar meu ponto considerando o Estado francês pouco antes da Revolução Francesa. Os custos do governo monárquico absolutista eram imensos, junto às suas dívidas, enquanto o povo passava fome. Aqui temos um exemplo da direita injusta e exploradora. Passemos agora ao caso oposto, o do comunismo soviético da época de Stalin. Nesse tempo uma pessoa que tivesse pertencido à nobreza corria risco de vida. Seu próprio modo de falar poderia denunciá-la, fazendo com que fosse acusada de traição ao regime por qualquer razão banal ou inventada, sendo então julgada e executada.[5] Esse é um entre muitos exemplos de injustiça da esquerda no poder. Um exemplo bárbaro foi o dos exageros que se seguiram à Revolução Francesa, como a indiscriminada condenação à morte de parte do clero (na região bretã foram assassinados cerca de 120.000 católicos por motivos religiosos).

Mas o ponto crucial a ser notado é que a distância entre classes dominantes e classes subordinadas, em termos de liberdade ou de satisfação de necessidades relevantes à vida humana (e não necessidades artificialmente criadas) tende a diminuir com o progresso econômico. Considere, por exemplo, a sociedade da Grécia antiga. Dois terços da população da polis era escravo e a distância entre a vida de um escravo e a vida de um cidadão grego devia ser considerável. Essa distância era imensa em Esparta, onde a população autóctone (cerca de 90%) havia sido escravizada, o que fez com que a classe dominante fosse educada de modo a se tornar extraordinariamente violenta em um sistema de rigor extremo, de modo a ser capaz de reprimir qualquer possibilidade de revolta. Essa distância continuou com os romanos, mas diminuiu muito com o cristianismo e o subsequente desaparecimento da escravidão na Europa durante a Idade Média. Ainda assim a distância entre os servos da Gleba, o príncipe e membros das cortes era muito grande. Essa distância certamente diminuiu após o Renascimento e diminuiu ainda mais depois que as revoluções industriais se sedimentaram.

A distância entre pobres e ricos em um país como a Finlândia, em termos de satisfação de necessidades concretas sem um surplus hedonista, é muito menor do que entre os escravos e nobres na Roma antiga. E a razão disso é que o desenvolvimento econômico e a tecnologia permitem uma produção de bens que é mais do que suficiente para a satisfação dessas necessidades humanas fundamentais. Sob tais circunstâncias, a disposição para uma mais equitativa divisão de bens fundamentais deve se tornar muito mais aceitável. O papel da esquerda é o de diminuir essa distância, na medida em que o desenvolvimento econômico-tecnológico torna isso possível. Essa distância pode ser diminuída na medida em que as necessidades que o ser humano precisa satisfazer para o seu bem-estar básico são limitadas e que o desenvolvimento da tecnologia permite provê-las para um número cada vez maior de pessoas. Contudo, é um erro grosseiro se diante desses acontecimentos formos induzidos a pensar que em qualquer momento histórico a distância econômica entre as classes tenha sido desnecessária. A natureza humana não mudou, as circunstâncias da vida humana é que mudaram. Se os escravos romanos pudessem dominar o Estado, eles não poderiam ter feito outra coisa senão escravizar os seus antigos donos. Um fenômeno desse tipo aconteceu quando escravos nos Estados Unidos foram enviados de volta para a África, com o resultado que eles passaram a escravizar os habitantes locais.

É impossível aplicar esse argumento nos casos de totalitarismos de extrema-esquerda ou direita, pois eles deixam de representar realmente a população, uma vez que a oligarquia dominante com poder absoluto se corrompe e passa a ter sobre ela controle físico e mental. Considere a anomalia trágica que foi o Kmehr Vermelho que liderou o Camboja de 1975 a 1979. A ideia absurda pela qual se guiavam os seus líderes era a de que o Estado ideal seria o de camponeses autossuficientes. Todos foram forçados a se tornarem agricultores do dia para noite. O resultado é que quase um terço da população do país, talvez mais de dois milhões de pessoas, foi morta em um período de pouco mais de três anos, de fome, de doenças, ou executados sob qualquer suspeita. Qualquer pessoa que fosse educada, não tivesse calos nas mãos, ou conhecesse outro idioma, era executada. A capital Pohn Penh, de um milhão e meio de habitantes, foi esvaziada em poucas semanas, e seus habitantes – mesmo os velhos e doentes – precisaram marchar a pé para os campos para trabalharem em grandes fazendas coletivas. Quem não sobrevivesse é porque não seria digno do comunismo idealizado por PolPot e alguns outros. Algo não tão diverso ocorre hoje no regime de extrema-esquerda da Coréia do Norte. Lá o povo camponês vive em extrema miséria. Comer grama não é coisa impossível, dada a escassez de alimentos. Estima-se em 150 mil o número de prisioneiros em campos de concentração, vulgo campos de extermínio. Kim Jong-un, entretanto, vive na opulência junto aos que se corromperam de modo a poderem pertencer ao governo. Não sei se é possível classificar essa anomalia como sendo um governo de esquerda ou a sua degradação final pela manipulação totalitária, mas esse sistema, como outros – da URSS à Cuba – se tornou extraordinariamente injusto para o povo a quem supostamente deveria beneficiar.

O idealismo simplista ingenuamente cercado de oportunismo e sociopatia – que nega fatos econômicos inexoráveis, percebidos desde Adam Smith – cede lugar ao despotismo e se volta contra o próprio povo que, no início, ao menos em tese, objetivava proteger. Temos um bom exemplo disso se compararmos Cuba com Porto Rico. A ilha de Porto Rico foi adquirida da Espanha no final do século XIX pelos Estados Unidos. Hoje ela tem uma renda per capita de cerca de US$ 30.000,00. A renda per capita de Cuba é de cerca de US$ 20.000,00. Os habitantes de Porto Rico querem agora que a ilha se torne um novo Estado dos Estados Unidos. Cuba, que já foi quase um país rico antes de Fidel Castro, pagou e ainda paga um preço altíssimo ao ter uma população escravizada na fazenda da família Castro e seus feitores – os membros do partido. Considere agora o nazismo. Era uma ditadura com objetivos socialistas, mas que ao mesmo tempo admitia um certo grau de capitalismo, o que não nos permite considerarmos um regime de extrema-esquerda, mas também não propriamente de direita no sentido em que estamos considerando, que tem como principal elemento caracterizador, a defesa democrática das classes dirigentes. Essas aberrações totalitárias não se enquadram em minha tentativa de compreensão das razões do espectro sócio-político e merecem um estudo à parte.

III

Quero aplicar agora o teste de John Rawls para a justiça social. Para Rawls, existe um teste para se saber qual é o Estado justo, ainda que a sua aplicação concreta não possa ser mais do que rudimentar. Trata-se de se perguntar em que sistema político você preferiria viver se você caísse nele sob o véu da ignorância. O véu da ignorância é aquele no qual uma pessoa, embora sabendo como funcionam os sistemas político-econômicos, devendo escolher um deles, não sabe como nele cairá, se rico ou pobre, homem ou mulher, saudável ou doente, heterossexual ou não, hábil ou inábil, etc. Sob tais condições a pessoa tenderá a escolher o Estado justo, pois é nele que ela terá mais chances de ser tratada de forma justa. Mesmo um jogador disposto a correr riscos tenderá a escolher o Estado justo, uma vez que se trata de uma escolha única e definitiva.

Rawls estava pensando no sistema de bem-estar social ao formular sua teoria. Mas é interessante perceber que a melhor escolha pode se dar tanto com relação a um sistema de esquerda quanto em relação a um sistema de direita. Por exemplo: um sistema direitista justo como o de Singapura, que é governado por um único partido desde a sua libertação da Inglaterra (o Partido da Ação Popular) e que possui características autoritárias, mas privilegia a meritocracia, é ainda assim um lugar ao qual preferiríamos pertencer se a escolha fosse entre ele e a vizinha Birmânia ou mesmo o Vietnã, pois está mais próximo de um sistema social justo. Um sistema com viés de esquerda, mas democrático, como o da Finlândia, também é algo que sob o véu da ignorância seria de nossa escolha. Não escolheríamos anomalias econômico-sociais como a Rússia ou o Brasil atual e muito menos Cuba ou a Coréia do Norte. Assim, tanto um governo considerado de direita quanto um governo considerado de esquerda podem se aproximar de um sistema socialmente justo.

Finalmente, as circunstâncias de uma sociedade são mutáveis. Um governo de esquerda ou de direita moderado pode levar longe demais suas intenções, tornando-se facilmente injusto. Ele pode facilmente aplicar políticas que se tornem inapropriadas. Esse parece claramente o caso da Suécia contemporânea. A admissão descontrolada de imigrantes acabou por formar mais de trinta “no go zones”, algo que lembra as favelas brasileiras, onde as pessoas, embora recebendo auxílio governamental, reforçam-se em seus valores próprios e não se dispõem a se integrar culturalmente e economicamente ao país onde se encontram, passando facilmente à criminalidade. Com isso, um Estado social-democrático exemplar corre o risco de se perder. O exemplo contrário é o de uma direita como a mexicana atual, que privilegia uma minoria de governantes que certamente não conquistaram o poder por méritos próprios, dificultando a mobilidade social. Pelas informações que tive, o governo mexicano em 2016 secretamente dirigia o narcotráfico, privatizando empresas entre amigos. Não pode haver muito lugar para um livre mercado não distorcido e para a meritocracia em um governo dessa espécie.

Vejamos finalmente as vantagens da alternância de poder entre esquerda e direita. Aqui outra vez os Estados Unidos servem como exemplo: em princípio, ao menos, o partido democrata exemplifica a esquerda moderada (libertarian-igualitarism), enquanto, em princípio, o partido republicano exemplifica a direita moderada (libertarianism). O governo republicano de George Bush cometeu um grave erro tático e humanitário na política externa, que foi a invasão do Iraque. Já na época especialistas advertiam que o preço daquela intervenção militar seria a guerra civil, dado que o Iraque é uma colcha de retalhos cultural, herança do colonialismo unificado apenas pelas mãos de ferro de Saddam Hussein. O resultado da ação americana foi um conflito com um preço humano extremamente alto: fala-se em cerca de cem mil vítimas civis.

O contraponto disso foi o governo esquerdizante liberal de Barack Obama. Ele conseguiu conter a crise econômica, mas foi além do razoável, do possível e mesmo do justo na implementação de políticas de auxílio social com intenções supostamente populistas. Dessa maneira foram cometidos erros memoráveis, como a aceitação indiscriminada de imigrantes, o aumento na taxação de indústrias, produzindo fuga de capital, a desastrosa Obamacare, a suspensão do embargo a uma ditadura sanguinária como a de Cuba. Um exemplo de apoio ingênuo a ditaduras foi o acordo para a utilização pacífica da energia nuclear, que liberou o estado totalitário que é o Irã para, após dez anos, produzir uma bomba nuclear, o que inevitavelmente deverá provocar uma corrida armamentista no Oriente Médio, uma vez que a Arábia Saudita, como a maioria dos países da região, é sunita e não xiita (84% dos muçulmanos são sunitas e não xiitas, mas o Irã é xiita). Finalmente, como é frequente nas esquerdas, Obama gastou mais do que podia: a dívida norte-americana saltou de 8 trilhões de dólares para mais de 20 trilhões, pondo em risco a estabilidade econômica do país. A continuação dessa política significaria um fracasso econômico. Ou seja: a esquerda foi longe demais e cometeu tantos erros quanto a direita antes dela.

O contraponto disso está sendo agora o governo conservador de Donald Trump, cujo programa é essencialmente de direita: organizar a imigração, aumentar o papel da iniciativa privada taxando menos e com isso criando mais oportunidades de emprego, além de combater a corrupção. Vemos aqui um bom exemplo do zig-zag político em um país desenvolvido, o que entendo como sendo responsável pelo equilíbrio dinâmico constitutivo da forma como um sistema democrático é capaz de reorganizar as relações entre classes sem recurso à violência do totalitarismo. Os programas de esquerda e direita se corrigem um ao outro, como se poderia dizer, “dialeticamente”.

O conjunto das considerações acima justifica a meu ver a minha tese inicial. Tanto a esquerda – fazendo ouvir os interesses das classes ditas subordinadas – como a direita – privilegiando os interesses das classes dominantes – tem o seu lugar, e uma alternância de poder entre uma e outra é algo saudável e plenamente compatível com uma sociedade legitimamente democrática em desenvolvimento.

Notas

[1] Isso é sempre uma idealização. Mas uma democracia só possui legitimidade na medida em que se aproxima suficientemente desse ideal.

[2] John Rawls, A Theory of Justice (Harvard: Belknap Press, 2. Ed., 1999).

[3] Um bom exemplo disso seria um país pobre como o Butão, que tem conseguido priorizar uma bem formada estrutura social e a manutenção de sua cultura milenar acima das benesses do capitalismo.

[4]  A meu ver Marx foi essencialmente um filósofo social e filosofia é mera especulação com o objetivo de nos fazer pensar com base em alguma réstia de verdade ou não é filosofia. A maior parte do que ele escreveu se demonstrou errônea e inaplicável à realidade, mas para a filosofia isso pouco importa. Isso vale também para Platão, Hobbes e Rousseau. O maior erro de Marx estava em sua auto interpretação como sendo capaz de fazer filosofia para mudar o mundo. A filosofia pode quando muito, mudar-se a si mesma.

[5] Stalin chegou a fazer listas de pessoas que eram escolhidas pelos nomes para serem acusadas e executadas com o objetivo de manter a população aterrorizada.

Este post tem 2 comentários

  1. Gosto do tom do texto, que busca o consenso e uma perspectiva menos maniqueizada do processo político. Fez-me pensar, ao mesmo tempo, na dificuldade em se aplicar o mesmo raciocínio no Brasil atual, onde (tenho a impressão de que) as identificações políticas não parecem ser mobilizadas pelos frames que o texto descreve. Evidentemente o texto não é sobre isso, mas faz pensar: como lidar com os aspectos emocionais envolvidos com essas identificações, especificamente a relação que temos com decepções em série a criar ciclos pendulares na democracia representativa? Pergunto porque a impressão que tenho é a de que votamos e agimos politicamente quase sempre contra algo, por motivos que nem sempre parecem estar ligados com uma visão de mundo ou com a filiação a um discurso. A corrupção é um exemplo do que quero dizer: deve ser combatida sempre, mas tende a virar uma metonímia para todo um espectro político quando descoberta.

  2. Excelente artigo! Muito rico e esclarecedor.

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