Francis Bacon: Progenitor do Cientificismo – F. A. Hayek (tradução de Joaquim Dornelles)

Francis Bacon: Progenitor do Cientificismo – F. A. Hayek (tradução de Joaquim Dornelles)

[1] Cientistas práticos, às vezes, imaginam estar seguindo o “método empírico baconiano”. É no mínimo duvidoso se algum cientista de sucesso conseguiu segui-lo. O próprio Francis Bacon não era cientista, era um advogado, foi Lorde Chanceler da Inglaterra uma vez – e foi um homem que simpatizava muito pouco com o trabalho dos grandes cientistas da sua época, como Galileu, Harve ou Gilbert. Porém, foi um homem que escreveu muito sobre o que a ciência deveria fazer ao mesmo tempo em que era um grande locutor das suas ideias, um homem que acreditava ser destinado a guiar o trabalho científico dos outros e, portanto, compreender o esforço científico para fazê-lo o mais benéfico possível para a humanidade.
O ponto interessante que não é percebido, frequentemente, é a conexão da concepção do que é ciência para Bacon com suas visões políticas. Nós viemos a entender seu significado quando lemos o relato de A.V. Dicey sobre a história constitucional inglesa do século XVII que “o verdadeiro motivo da disputa entre estadistas tais como Bacon e Wentworth[2] de um lado e Coke[3] e Eliot[4] do outro era se a administração do tipo continental deveria ou não ser permanente estabelecida na Inglaterra”.
Nós devemos a vitória de Coke e Eliot pelo mundo anglófono não ter se tornado uma tirania da administração ‘científica’. De fato, exceto para o seu secretário de uma ocasião, Thomas Hobbes, nem as visões políticas ou científicas de Bacon tiveram muito impacto na Inglaterra. Felizmente, foram os sucessores do seu grande opositor Edward Coke – Matthew Hale[5] e David Hume, Adam Smith e Edmund Burke – que moldaram a tradição política do mundo anglófono.
O livro mais recente dedicado ao Bacon por um dos seus admiradores contemporâneos,[6] J. G. Crowther, conta de forma reveladora: “A influência de Bacon pode ter atingido de forma mais ampla e profunda na Enciclopédia Francesa do que na Sociedade Real, mas a completa realização dos seus objetivos, até agora, só foram encontrados nos novos Estados socialistas, onde a vida social foi reorganizada por diretrizes científicas, onde a ciência tem o dever de seguir um plano abrangente para aprimorar a vida humana ‘com novas descobertas e poderes’.” Adiante no livro, os chineses de 1958 são citados por serem uma expressão moderna das ideias de Bacon; e há a suspeita de que o autor geralmente considera Bacon mais como um predecessor daquilo que ele discretamente chama de “socialismo não igualitário” do que do socialismo democrático ocidental.
O que é tão interessante nesse livro não é a descrição do caráter de Bacon, que provavelmente é correta, mas que ele deva ser exaltado por isso. Isso fica mais significante quando se descobre mais sobre o autor. Sr. J. G. Crowther tem sido proeminente por muitos anos como ‘um jornalista científico do novo modelo’ que, em suas palavras, “tenta, através de relatos imparciais, criar a postura científica necessária para resolver os problemas sociais da atualidade”. Ele tem sido um dos membros mais ativos de um grupo pequeno, mas influente, que espalha a mensagem marxista introduzida de forma tão exitosa pelos russos no Congresso da História da Ciência, em Londres, trinta anos atrás. Dez anos depois, com seu livro As Relações Sociais da Ciência[7], ele produziu um dos trabalhos modelos daquela escola e agora é capaz de listar nada menos do que vinte e quatro outros livros que ele publicou sobre vários aspectos do ‘estadismo científico’. (Isso não chega nem perto da ambição de Bacon, que, em algum ponto, propôs escrever livros sobre os vários departamentos científicos no ritmo de um por mês!).
Sr. Crowther vê com razão em Bacon primariamente “um dos precursores da moderna arte de propaganda”, especialmente importante para uma geração que vê “propaganda para a ciência voltada ao desenvolvimento e governo dos afazeres humanos como tão importante quanto qualquer habilidade técnica”. Ele o admira como um homem ansioso para comandar a inteligência dos homens e organizar uma “produção em massa de descobertas por máquinas junto de linhas industriais”, mesmo que ele tenha de admitir que Bacon “quase certamente não conseguiu descobrir…um método automático de descoberta na qual a imaginação não tem lugar”. Não obstante, ele é representado como “o primeiro a traçar os objetivos principais do homem moderno na qual tem tomado forma tão rapidamente no século XX…mais próximo às ideias atuais do que dos últimos três séculos”, ou até como “o maior profeta da era moderna” e o “precursor de Hegel e de Marx e Engels”.
Não se deve dispensar esse livro como apenas uma propaganda marxista por esse motivo. É, de fato, extraordinariamente informativo sobre um dos fenômenos mais significantes da nossa época, o grande fascínio na qual a ideia da sociedade planejada centralmente tem exercido sobre  alguns dos melhores cientistas da nossa época – apesar de que os piores excessos raramente vêm dos cientistas práticos que estão trabalhando, mas de modo geral vêm de gente que se entusiasma em usar a ciência para modelar a sociedade, do qual Francis Bacon é um grande protótipo. Com certeza não é acidental que ele foi provavelmente o primeiro a afirmar que não se deve “deixar (como até agora) ao prazer dos aventureiros e empreendedores onde e como construir e plantar; mas que eles ajam de acordo com preceitos e formulários”.
Com certeza também não é acidental que o grande oponente de Bacon, Sir Edward Coke, “apesar de ser um conservador na lei, emergiu como o campeão da liberdade e do progresso”, e teve a perspicácia em escrever na página inicial da cópia do Novum Organon que Bacon havia lhe presenteado:
Não merece ser lido nas escolas
Mas deve ser deportado para a ilha dos idiotas
O retrato de Bacon que Sr. Crowther apresenta não é da qualidade da grande biografia de Coke, a qual Catherine Drinker Bowen nos ofereceu alguns anos atrás.[8] Mesmo assim, ambos são uma fascinante leitura lado a lado. Nenhum dos dois, entretanto, conseguiu apresentar a natureza do contraste intelectual que tem realizado uma grande função desde então, no qual Bacon e Coke são talvez, historicamente, o primeiro exemplo e o mais interessante. A diferença entre esses dois homens residia fundamentalmente na diferença das posturas de como reverenciar o conhecimento.
Para o pseudocientista, o conhecimento é uma ferramenta na qual ele pode manipular e através dela manipular a sociedade. Bacon pensava como o gênio que comanda e conscientemente aplica todo o conhecimento. Para Coke, a maior parte do conhecimento da humanidade está incorporado na tradição cultural na qual o legista em particular é a ferramenta e instrumento. Para ele o processo no qual o conhecimento se desenvolve é maior do que qualquer indivíduo e além da capacidade de controle de qualquer mente singular.
Pelos últimos 350 anos, os ideais de Coke têm predominado no ocidente. Eu acredito que esses ideais também estão mais próximos aos grandes cientistas de verdade, que geralmente são instruídos com humildade. Mas não será talvez que a grande quantidade de cientistas que não são tão primorosos, mas provavelmente vão nos comandar no futuro, sejam geralmente mais próximos ao Bacon do que de Coke?
Notas
[1] [Publicado como “Progenitor of Scientism”, National Review, 16 de julho de 1960, pp. 23-24, como uma crítica de J. G. Crowther, Francis Bacon, The First Statesman of Science (Londres: Cresset Press, 1960). Entre outros livros de J. G. Crowther estão An Outline of the Universe (Londres: Paul, French, & Trubner, 1931); Scientists of the Industrial Revolution (Londres: Cresset, 1962); Six Great Scientists: Copernicus, Galileo, Newton, Darwin, Curie, Einstein (Londres: Hamish Hamilton, 1961); British Scientists of the 20th Century (Londres: Routledge & Kegan Paul, 1952); A Short Story of Science (Londres: Methuen, 1969); Founders of British Science (London: Cresset, 1960). – Ed.]
[2] [Peter Wentworth (1530-1596), Líder parlamentar puritano de 1571 até 1593. Wentworth foi mandado para a Torre repetidamente por insistir na isenção parlamentar da prerrogativa real e por exigir que Elizabete nomeasse um sucessor em 1593. – Ed.]
[3] Sir Edward Coke (1552-1634), Juíz inglês, apontado como Procurador Geral em 1594 (um apontamento que Bacon também estava competindo). Ele se tornou Chefe da Justiça do Tribunal do Rei em 1613, mas fricção com o Rei forçou sua renúncia e prisão. Depois de se juntar ao parlamento, tornou-se um líder do movimento popular contra os poderes arbitrários da corte. Ele é o autor de Reports (1600-15) e de Institutes of the Law of England (1628). Veja Stephen D. White, Sir Edward Coke and ‘The Grievances of the Commmwealth’ 1621-28 (Chapel Hill, N. C.: University of North Carolina Press, 1974). Veja também William Holdsworth, História da Lei Inglesa (Londres: Methuen, 1909-72), e Louis Knafla, Law and Politics in Jacobean England (Cambridge: Cambridge University Press, 1977. -Ed.]
[4] [Sir John Eliot (1592-1632), líder do Partido Constitucional no segundo parlamento de Carlos I (1626). Atacou fortemente o desgoverno real e escreveu o grosso da Admoestação e Petição do Direito. Preso após a dissolução do parlamento, escreveu na prisão um tratado sobre monarquia constitucional, Monarchy of Men (1632). -Ed.]
[5] [Sir Matthew Hale (1609-1676), juíz de tribunal sob Cromwell, Lorde Chefe da Justiça sob Carlos II. Autor de History of the Common Law (1739) e Please of the Crown (1736). Veja Edmund Heward, Matthew Hale (Londres: Robert Hale, 1972). -Ed]
[6] [J. G. Crowther, Francis Bacon, The First Statesman of Science, op. cit. -Ed.]
[7] (Nova Iorque: Macmillan, 1941; edição revisada, Londres: Cresset,1967]
[8] The Lion and the Throne (Boston: Little, Brown, 1957; Londres: Hamish Hamilton, 1957).

Este post tem um comentário

  1. Proto-positivista

Deixe uma resposta

Fechar Menu
Top