Democracia e Seus Limites – F. A. Hayek (tradução de Guilherme Cintra)

N. do T: O seguinte artigo de Hayek foi publicado sob o título de Whither Democracy? [literalmente: Para onde Democracia?], e apareceu inicialmente como uma palestra em 1976. Hayek faz uma análise e crítica dos sistemas de democracia contemporâneos e propõe uma reforma para eles de acordo com seus princípios políticos por ele defendidos e expostos em suas obras. Tanto em questões teóricas quanto práticas, esse artigo toca em elementos importantes do pensamento de Hayek.


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O conceito de democracia possui um significado – eu acredito ser o significado verdadeiro e original – que considero um grande valor pelo qual é importante lutar. A democracia não provou ser uma proteção garantida contra a tirania e a opressão, como uma vez se esperava. Apesar disso, como uma convenção que permite qualquer maioria livrar-se de um governo que não gosta, a democracia é de um valor inestimável.

Por essa razão, estou cada vez mais incomodado pela contínua perda de fé na democracia entre pessoas pensativas. Isso não pode mais ser ignorado. Está se tornando sério justamente quando – e talvez parcialmente porque – a palavra mágica democracia se tornou tão todo-poderosa que todas as limitações inerentes ao poder governamental estão se desmoronando perante ela. Frequentemente, parece que a soma das demandas que são hoje em todo lugar defendidas em nome da democracia amedrontou tanto pessoas justas e razoáveis que uma reação séria contra a democracia, como tal, é um perigo real. Porém, não é a concepção básica da democracia, mas conotações adicionais que foram no decurso do tempo anexadas a um tipo particular de processo de decisão, que hoje ameaçam a crença em uma democracia tão ampliada em conteúdo. O que está ocorrendo é, na realidade, precisamente o que alguns pensadores do século XIX recearam sobre a democracia. O método sadio de alcançar decisões políticas amplamente aceitáveis se tornou o pretexto de compelir objetivos substancialmente igualitários.

O advento da democracia no último século trouxe uma mudança decisiva no alcance dos poderes governamentais. Por séculos, esforços foram direcionados à limitação dos poderes do governo; e o desenvolvimento gradual das constituições serviu nenhum outro propósito a não ser isso. De repente, pensou-se que o controle do governo por representantes eleitos de uma maioria tornava qualquer outra limitação aos poderes do governo desnecessária, de modo que todas as várias salvaguardas constitucionais que têm sido desenvolvidas no decurso do tempo poderiam ser dispensadas.

E assim nasceu a democracia ilimitada – e é a democracia ilimitada, não democracia, que é o problema de hoje. Toda democracia que nós conhecemos hoje no Ocidente é mais ou menos democracia ilimitada. É importante lembrar que, se as instituições peculiares da democracia ilimitada que temos hoje ultimamente se provarão uma falha, isso não precisa significar que a democracia em si mesma foi um erro, mas apenas que nós a tentamos da maneira errada. Enquanto pessoalmente eu acredito que a decisão democrática em todas as questões sob as quais existe um acordo geral que alguma ação governamental é necessária seja um método indispensável de mudança pacífica, eu também sinto que uma forma de governo na qual qualquer maioria temporária possa decidir que qualquer questão que ela gosta deva ser considerada ‘matéria comum’ sujeita a seu controle é uma abominação.

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A maior e mais importante limitação sobre os poderes da democracia, que foi varrida pela ascensão de uma assembleia representativa onipotente, era o princípio da ‘separação dos poderes’. Nós devemos ver que a raiz do problema é que os tão chamados ‘legislativos’, que os antigos teóricos do governo representativo (e particularmente John Locke) conceberam como limitados a fazerem leis em um sentido bastante específico e estreito da palavra, têm se tornado corpos governamentais onipotentes. O antigo ideal do ‘Rule of Law’, ou do ‘Governo dentro da Lei’, foi, desse modo, destruído. O Parlamento ‘soberano’ pode fazer o que quer que os representantes da maioria achem expediente fazer a fim de manterem o apoio da maioria.

Mas chamar ‘lei’ tudo que os representantes eleitos da maioria decidem, e descrever como ‘Governo dentro da Lei’ todas as diretrizes decretadas por eles – independentemente de quão discriminatórias em favor de, ou em detrimento de, alguns grupos de indivíduos – é uma piada muito ruim. Na verdade, isso é governo arbitrário e sem lei. É apenas um jogo de palavras alegar que, enquanto a maioria aprova os atos do governo, o Estado de Direito está preservado. O Estado de Direito era considerado como uma salvaguarda da liberdade individual porque ele significava que a coerção era permissível apenas para compelir obediência a regras gerais de conduta individual igualmente aplicáveis a todos em um número desconhecido de instâncias futuras. Opressão arbitrária – a saber, coerção não definida por qualquer regra dos representantes da maioria – não é melhor do que ação arbitrária por qualquer outra regra. Se essa regra requer que alguma pessoa odiada deva ser fervida e torturada, ou que sua propriedade seja tomada, não há diferença. Embora haja boas razões para preferir o governo democrático limitado a um governo não-democrático, eu devo confessar preferir um governo não-democrático dentro da lei a um governo democrático ilimitado (e portanto essencialmente sem lei). O governo dentro da lei parece, para mim, ser o maior valor, o qual uma vez se esperava que os defensores da democracia iriam preservar.

Eu de fato acredito que a sugestão de uma reforma, para a qual minha crítica das atuais instituições da democracia irá levar, resultaria em uma concretização da opinião comum da maioria dos cidadãos mais verdadeira do que os arranjos presentes que servem à gratificação da vontade dos grupos de interesse separados que se somam para formar uma maioria.

Não se sugere que a reivindicação dos representantes eleitos do povo para terem uma palavra decisiva na direção do governo seja de qualquer forma menos importante do que a demanda para determinar o que a lei deve ser. A grande tragédia do desenvolvimento histórico é que esses dois poderes distintos foram colocados nas mãos de uma única e mesma assembleia, e que o governo consequentemente cessou de ser sujeito à lei. A triunfante alegação do Parlamento Britânico de ter se tornado soberano, e assim ser capaz de governar sem estar sujeito a qualquer lei, pode se provar tendo sido o anúncio da morte tanto da liberdade individual quanto da democracia.

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Esse desenvolvimento pode ter sido historicamente inevitável. Certamente, ele não é logicamente convincente. Não é difícil imaginar como o desenvolvimento poderia ter ocorrido em diferentes linhas. Quando no século XIX a Câmara dos Comuns reivindicou de forma bem sucedida o poder exclusivo sobre o erário público, dessa forma ela ganhou, com efeito, o controle exclusivo sobre o governo. Se, nesse tempo, a Câmara dos Lordes estivesse em posição de conceder isso na condição de que o desenvolvimento do direito (ou seja, a lei privada e criminal que limita os poderes de todo governo) devesse ser exclusivamente sua preocupação – um desenvolvimento não anti-natural com a Câmara dos Lordes sendo a maior corte do direito – tal divisão entre uma assembleia governamental e uma assembleia legislativa poderia ter sido alcançada e uma restrição ao governo pela lei preservada. Politicamente, entretanto, era impossível conferir tal poder legislativo aos representantes de uma classe privilegiada.

As formas prevalecentes de democracia, nas quais o soberano representativo da assembleia por um lado e ao mesmo tempo cria leis e direciona o governo, devem sua autoridade a uma ilusão. Esta é a crença devota de que o governo democrático irá obedecer à vontade da maioria. Isso pode ser verdade sobre os legislativos democraticamente eleitos no sentido estrito de criadores da lei, no sentido original do termo. Ou seja, isso pode ser verdade quanto a assembleias eleitas cujo poder está limitado a estabelecer regras universais de justa conduta, designadas a delimitar os domínios de controle dos indivíduos em suas interações entre si, e direcionadas a aplicar a um número desconhecido de instâncias futuras. Sobre tais regras que governam a conduta individual, que previnem conflitos nos quais a maioria das pessoas pode se encontrar, é provável que uma comunidade forme uma opinião predominante, e que um acordo exista entre os representantes da maioria. Uma assembleia com tal tarefa definida e limitada tem, portanto, tendência a refletir a opinião da maioria – e, estando preocupada apenas com regras gerais, tem poucos motivos para ser reflexo da vontade de interesses particulares em questões específicas.

Mas o fornecimento de leis nesse sentido clássico da palavra é a última parte das tarefas das assembleias que ainda chamamos de ‘legislativos’. Sua maior preocupação é o governo. Para as regras gerais de justa conduta ou a ‘lei do advogado’, como escreveu um observador perspicaz do Parlamento Britânico há mais de setenta anos, ‘o parlamento não possui tempo nem vontade’. O quanto as atividades, o caráter e os métodos das assembleias representativas em todo lugar são realmente determinados por suas tarefas governamentais mostra-se pelo fato de que seu nome ‘legislativo’ não mais se deriva de elas decretarem leis. A relação de fato se inverteu. Hoje nós chamamos praticamente toda resolução dessas assembleias de leis, apenas porque estas derivam de um legislativo – independentemente de elas terem aquele caráter de um cometimento a uma regra geral de justa conduta, a cuja aplicação os poderes coercitivos do governo eram presumíveis serem limitados em uma sociedade livre.

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Mas, como cada resolução dessa autoridade governamental soberana possui ‘força da lei’, suas ações governamentais também não estão limitadas pela lei. Nem podem elas, e isso é ainda mais sério, pretender serem autorizadas pela opinião de uma maioria do povo. Na verdade, as bases para apoiar os membros de uma maioria onipotente são completamente diferentes daquelas para apoiar uma maioria sobre a qual as ações de um verdadeiro legislativo se baseiam. Votar para um legislador limitado é escolher entre maneiras alternativas de assegurar uma ordem geral que resulta das decisões de indivíduos livres. Votar para um membro de um corpo com poderes para conferir benefícios especiais, sem ele mesmo ser sujeito a regras gerais, é algo inteiramente diferente. Em tal assembleia democraticamente eleita com poderes ilimitados para conferir benefícios especiais e impor encargos especiais a grupos particulares, uma maioria pode ser formada apenas pela compra do suporte de numerosos interesses especiais, fornecendo-lhes tais benefícios às custas de uma minoria.

É fácil ameaçar a retirada da adesão até mesmo a regras gerais que se aprova se seu voto é pago por concessões especiais a algum grupo. Em uma assembleia onipotente, as decisões, portanto, baseiam-se em um processo legalizado de chantagem e corrupção. Isso por muito tempo tem sido reconhecido como parte do sistema, do qual até mesmo os melhores não podem escapar.

Tais decisões em favor de grupos particulares têm pouco a ver com qualquer acordo da maioria sobre a substância da ação governamental, já que em grande parte dos casos os membros da maioria não saberão muito a não ser que concederam a alguma agência poderes mal-definidos para alcançar algum objetivo mal-definido. A respeito da maior parte das medidas, a maioria dos eleitores não terá qualquer razão para ser a favor ou contra, a não ser que eles saibam que, em troca do apoio aos seus defensores, é prometida a satisfação de algumas de suas vontades. É o resultado desse processo de barganha que é dignificado como a ‘vontade da maioria’.

O que chamamos de ‘legislativos’ são de fato corpos decidindo continuamente sobre medidas particulares, e que autorizam coerção para sua execução, sobre as quais nenhum acordo genuíno entre a maioria existe, mas para as quais o suporte de uma maioria têm sido obtido por barganhas. Em uma assembleia onipotente que está preocupada principalmente com particularidades e não com princípios, as maiorias não são, portanto, baseadas no acordo sobre opiniões, mas são formadas pela aglutinação de interesses especiais que se auxiliam mutuamente.

O fato aparentemente paradoxal é que uma nominalmente assembleia todo-poderosa – cuja autoridade não é limitada a, ou não se baseia no cometimento a, regras gerais – é por necessidade exageradamente fraca e completamente dependente do suporte daqueles grupos fragmentados que estão sujeitos a se manterem por meio de presentes sob o comando do governo. A imagem da maioria de tal assembleia unida por convicções morais comuns avaliando os méritos das alegações de grupos particulares é claramente uma fantasia. Ela é uma maioria apenas porque se comprometeu não em princípios, mas em satisfazer reivindicações particulares. A assembleia soberana é qualquer coisa a não ser soberana no uso de seus poderes ilimitados. É um pouco estranho que o fato de que ‘todas as democracias modernas’ decidiram isso ou aquilo é muitas vezes citado como prova da desejabilidade ou da justiça de alguma medida. A maior parte dos membros da maioria muitas vezes sabe que uma medida foi estúpida e injusta, mas eles têm que consentir com ela a fim de permanecerem membros de uma maioria.

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Um legislativo ilimitado que não é proibido por convenção ou provisões constitucionais de decretar medidas específicas e discriminatórias de coerção, tais como tarifas ou impostos ou subsídios, não pode evitar agir de tal maneira desprovida de princípios. Embora algumas tentativas inevitavelmente são feitas para disfarçar essa compra de apoio como uma assistência benéfica aos que merecem, a pretensão moral dificilmente pode ser levada a sério. Um acordo de uma maioria sobre como distribuir os espólios que ela extorque de uma minoria dissidente dificilmente pode reivindicar qualquer sanção moral para seus procedimentos – mesmo se ela invoca a ficção da ‘justiça social’ para defendê-los. O que ocorre é que necessidades políticas criadas pelos estabelecimentos institucionais existentes produzem crenças morais inviáveis ou até mesmo destrutivas.

Um acordo da maioria na repartição do espólio ganhado pela opressão de uma minoria de concidadãos, ou na decisão do quanto deve ser tomado deles, não é democracia. Pelo menos isso não é o ideal de democracia que possui qualquer justificação moral. A própria democracia não é igualitarismo. Mas a democracia ilimitada está sujeita a se tornar igualitária.

A respeito da imoralidade fundamental de todo igualitarismo, pontuarei aqui apenas o fato de que toda nossa moral se baseia nas diferentes estimas nas quais julgamos as pessoas de acordo com a maneira na qual elas se comportam. Enquanto a igualdade perante à lei – o tratamento de todos pelo governo de acordo com as mesmas regras – parece para mim ser uma condição essencial da liberdade individual, aquele tratamento diferente que é necessário a fim de colocar as pessoas que são individualmente diferentes na mesma posição material me parece não apenas incompatível com a liberdade individual, mas altamente imoral. Mas esse é o tipo de imoralidade para a qual a democracia ilimitada está se movendo.

Repetindo, não é a democracia, mas a democracia ilimitada que eu não considero melhor do que qualquer outro governo ilimitado. O erro fatal que deu poderes ilimitados à assembleia representativa eleita é a superstição de que uma autoridade suprema por sua própria natureza deve ser ilimitada, porque qualquer limitação pressuporia outra vontade sobre ela, em cujo caso ela não seria um poder supremo. Mas isso é uma falta de compreensão que se deriva das concepções positivistas totalitárias de Francis Bacon e Thomas Hobbes, ou do construtivismo do Racionalismo Cartesiano, que felizmente no mundo anglo-saxão foi contido pelo menos por um bom tempo pelo profundo entendimento de Sir Edward Coke, Matthew Hale, John Locke e os Old Whigs.

Nesse sentido, os antigos eram de fato frequentemente mais sábios do que o pensamento construtivista moderno. Um poder maior não precisa ser um poder ilimitado, mas pode dever sua autoridade ao seu cometimento a regras gerais aprovadas pela opinião pública. O rei-juiz de antigamente não era selecionado para que qualquer coisa que ele dissesse fosse correta, mas porque, e apenas enquanto, o que ele pronunciava era em geral sentido como correto. Ele não era a fonte, mas meramente o intérprete de uma lei que se baseava em uma opinião difusa, mas que poderia levar a ação apenas se articulada pela autoridade aprovada. E se apenas a autoridade suprema poderia ordenar ação, isso meramente se estendia enquanto ela tivesse o suporte do assentimento geral aos princípios nos quais ela agia. A única e maior autoridade encarregada de tomar decisões sobre ações comuns pode bem ser uma autoridade limitada – limitada a decisões pelas quais ela se comete a regras gerais que a opinião pública aprova.

O segredo do governo decente é precisamente que o poder supremo deve ser um poder limitado – um poder que pode estabelecer regras limitando qualquer outro poder – e que assim pode restringir, mas não comandar, o cidadão privado. Qualquer outra autoridade se baseia, dessa forma, ao cometimento a regras que seus cidadãos reconhecem: o que gera uma comunidade é o reconhecimento das mesmas regras.

Desse modo, o corpo supremo eleito não precisa de qualquer outro poder a não ser o de estabelecer leis no sentido clássico de regras gerais que guiam a conduta individual. Nem ele precisa ter qualquer poder de coagir os cidadãos privados a não ser para gerar obediência a regras de conduta assim estabelecidas. Outros ramos do governo, incluindo uma assembleia governamental eleita, deveriam estar restringidos e limitados por leis da assembleia confiada à verdadeira legislação. Estes são os requerimentos que assegurariam um genuíno governo dentro da lei.

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A solução ao problema, como eu já havia sugerido, parece ser dividir as tarefas verdadeiramente legislativas das tarefas governamentais entre assembleias legislativas e governamentais distintas. Naturalmente, pouco iria ser ganho tendo-se apenas duas tais assembleias com características essencialmente iguais às das assembleias atuais, e apenas encarregadas de tarefas diferentes. Não apenas as duas assembleias com essencialmente a mesma composição agiriam em coalizão, produzindo desse modo os mesmos tipos de resultados das assembleias existentes. Seu carácter, procedimentos e composição foram tão amplamente determinados por suas tarefas governamentais predominantes que elas são pouco adequadas à legislação propriamente dita.

Nada é mais esclarecedor nesse sentido do que o fato de que os teóricos do governo representativo do século XIX quase unanimemente condenavam uma organização do que eles conceberam como legislativo em linhas partidárias. Eles frequentemente falavam de ‘facções’. Mas sua preocupação predominante com questões governamentais fizeram sua organização em linhas partidárias universalmente necessária. Um governo, para efetuar suas tarefas de forma bem sucedida, precisa do apoio de uma maioria organizada comprometida com um programa de ação. E, para dar às pessoas uma opção, deve haver uma oposição similarmente organizada capaz de formar um governo alternativo.

Para suas funções estritamente governamentais, os ‘legislativos’ existentes parecem ter ficado muito bem adaptados e bem se pode permiti-los continuar em sua forma presente, se seu poder sobre o cidadão privado fosse limitado por uma lei decretada por outra assembleia democrática que a assembleia anterior não poderia alterar. A assembleia governamental iria, na realidade, administrar os recursos materiais e pessoais colocados à disposição do governo para permiti-lo fornecer vários serviços aos cidadãos como um todo. Ela também poderia determinar a quantidade agregada de receita para ser levantada dos cidadãos a cada ano para financiar esses serviços. Mas a determinação da parcela de cada cidadão seria realizada por uma lei verdadeira; ou seja, o tipo de regra de conduta individual obrigatória e uniforme que apenas a assembleia legislativa poderia estabelecer. É difícil conceber um controle mais salutar aos gastos do que tal sistema em que cada membro da assembleia governamental saberia que, para cada gasto que apoiasse, ele e seus eleitores teriam que contribuir por meio de uma taxa que não pudessem alterar!

A questão crítica então torna-se a composição da assembleia legislativa. Como podemos, ao mesmo tempo, torná-la verdadeiramente representativa da opinião geral sobre o que é certo, e ainda torná-la imune a qualquer pressão de interesses especiais? Constitucionalmente, a assembleia legislativa seria limitada a passar leis gerais, de modo que qualquer ordem específica ou discriminatória que ela decretasse seria inválida. Ela iria dever autoridade a seu cometimento a regras gerais. A constituição definiria as propriedades que tal tipo de regra deveria possuir para ser uma lei válida, tal como aplicação para um número desconhecido de instâncias futuras, uniformidade, generalidade, e etc. Um tribunal constitucional gradualmente teria que elaborar essa definição tanto quanto decidir qualquer conflito de competências entre as duas assembleias.

Mas essa limitação a passar leis genuínas dificilmente bastaria para prevenir conluio do legislativo com uma assembleia governamental similarmente composta, para a qual seria provável que ele provesse leis que essa assembleia necessitaria para seus propósitos particulares, com resultados pouco diferentes em relação aos do presente sistema. O que queremos em uma assembleia legislativa é claramente um corpo representante da opinião geral, e não de interesses particulares; e ela deveria, portanto, ser composta de indivíduos que, uma vez confiados a sua tarefa, são independentes do apoio de qualquer grupo particular. Ela deveria também consistir de homens e mulheres com uma visão de longo prazo e que não se deixassem balançar por modas e paixões de uma multidão inconstante que devessem agradar.

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Em primeira instância, isso parece requerer independência de partidos, e tal coisa poderia ser assegurada pela segunda condição, independentemente necessária – a saber, não ser influenciada pelo desejo de re-eleição. Eu imagino, por essa razão, um corpo de homens e mulheres que, depois de terem ganho reputação e confiança nas buscas ordinárias da vida, fossem eleitos por um período único e longo de algo como 15 anos. Para assegurar que tivessem ganho respeito e experiência suficientes, e que não precisariam se preocupar com garantir seu sustento no período após seu mandato, eu fixaria a idade de eleição comparativamente alta, digamos aos 45 anos, e os garantiria alguma carreira digna como juízes-leigos ou coisa similar por outros 10 anos, depois de expirar seu mandato aos 60. A média de idade do membro de tal assembleia, pouco menos do que 53 anos, seria ainda menor do que a da maioria das assembleias similares atuais.

A assembleia, de fato, não seria eleita como um todo em uma única data, mas a cada ano aqueles que completaram seu período de 15 anos seriam substituídos por pessoas com 45 anos. Eu favoreceria que essas eleições anuais de um quinto dos membros fosse feita por pessoas de mesma idade (coetâneos), de forma que cada cidadão votaria apenas uma vez em sua vida, com 45 anos de idade, para que um de seus coetâneos se tornasse legislador. Isso me parece desejável não apenas por causa da antiga experiência em organizações militares e similares de que os companheiros de mesma idade são os melhores juízes de seus caráteres e habilidades, mas também porque provavelmente se tornaria uma oportunidade para o crescimento de certas instituições como clubes etários locais, que tornariam eleições com base no conhecimento pessoal possíveis.

Já que não haveria partidos, naturalmente não haveria nenhuma bobagem sobre representação proporcional. Coetâneos de uma região confeririam distinções como um tipo de prêmio para o mais admirado membro da classe. Existem muitas outras questões fascinantes que um arranjo desse tipo levanta, tais como se, para esse propósito, uma eleição indireta não seria preferível (com os clubes locais competindo pela honra de que um de seus delegados fosse eleito representante), mas as quais não seria apropriado discutir em uma exposição do princípio geral.

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Eu não acredito que políticos experientes acharão minha descrição do procedimento de nossos atuais legislativos muito errada, embora provavelmente eles considerarão inevitável e benéfico o que para mim parece evitável e prejudicial. Mas eles não deveriam se sentir ofendidos ao ouvir tal coisa ser chamada de corrupção e extorsão institucionalizada, porque somos nós que mantemos as instituições que tornam necessário que eles ajam assim para se manterem capazes de fazer qualquer bem.

Em certo sentido, o processo de barganha que descrevi é de fato provavelmente inevitável em um governo democrático.

O que eu desaprovo é o fato de que as instituições prevalecentes levam isso ao corpo supremo que deveria fazer as regras do jogo e restringir o governo. O infortúnio não é que essas coisas acontecem – na administração local elas provavelmente não podem ser evitadas –, mas que elas acontecem naquele corpo supremo que tem o poder de fazer nossas leis, presumível a nos proteger contra a opressão e a arbitrariedade.

Um outro efeito importante e bastante desejável de separar o poder legislativo do governamental seria que isso eliminaria a principal causa da centralização acelerada e concentração de poder. Hoje, isso é resultado do fato de que, como consequência da fusão do poder legislativo e governamental na mesma assembleia, esta possui poderes que em uma sociedade livre nenhuma autoridade deveria possuir. Naturalmente, mais e mais tarefas governamentais são empurradas para aquele corpo que pode obter demandas particulares ao fazer leis especiais para esse propósito. Se os poderes do governo central não fossem maiores do que os dos governos regionais e locais, apenas aquelas questões em que uma regulação nacional uniforme parecesse vantajosa a todos seriam encarregadas ao governo central, e muito do que hoje é encarregado a ele seria delegado a unidades menores.

Uma vez que em geral se reconhece que o governo dentro da lei e os poderes ilimitados dos representantes da maioria são inconciliáveis, e todo governo é igualmente colocado dentro da lei, pouco mais do que as relações exteriores precisa ser encarregado ao governo central – distinto da legislação – e os governos regionais e locais, limitados pelas mesmas regras uniformes no que diz respeito à maneira em que poderiam fazer seus cidadãos individuais contribuírem para sua receita, se desenvolveriam em corporações quasi-comerciais competindo entre si para atrair habitantes que poderiam votar com seus pés para a corporação que lhes oferecesse os maiores benefícios comparados ao preço cobrado.

Dessa forma, nós ainda podemos ser capazes de preservar a democracia e ao mesmo tempo interromper o movimento em direção ao que tem sido chamado de ‘democracia totalitária’, que já parece irresistível para muitas pessoas.

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