Ensaios sobre Livre-Comércio e Globalização — Sávio Coelho

I – O Caminho Ricardiano da Riqueza:

Uma das questões que menos entendo quando vejo debates nas redes sociais é a constante aversão de pessoas, tanto da Esquerda quanto da Direita, ao livre-comércio. Não consigo entender como essas pessoas podem se opor a uma pauta que já é consenso entre economistas desde pelo menos Adam Smith! Creio que essas pessoas estejam apenas cegas ao óbvio e precisem de um pouco de iluminação.

O argumento geral em favor do livre-comércio é o mesmo que o argumento a favor de não se jogar areia nas engrenagens de uma máquina. A maioria das pessoas, na verdade, são a favor da lógica básica do livre-comércio sem nem se darem conta, uma vez que ela é aplicada em outro cenário. Veja o seguinte exemplo: Mato Grosso produz soja, Minas Gerais produz ferro e Pernambuco cana-de-açúcar. Mato Grosso compra seu ferro e açúcar de Minas e Pernambuco e paga pelo que compra com o que vende para fora do estado. Assim o fazem também Pernambuco e Minas quando querem comprar algo. Porém ai levanto a seguinte questão: Não seria mais benéfico para todos esses estados parar de importar esses produtos dos outros e produzir tudo por si mesmo? Se você é uma pessoa normal diria que é óbvio que não, pois só um louco iria tentar produzir ferro em Pernambuco, soja em Minas Gerais e cana-de-açúcar no Mato Grosso. É muito melhor para esses estados se especializar naquilo que possuem uma vantagem natural e pagar pelo que importam com as vendas do que produzem. Se você concorda com essa lógica aplicada ao cenário nacional você também concorda com ela aplicada ao cenário internacional. A linha de uma fronteira não refuta o princípio básico: A especialização e o comércio beneficia aqueles que delas fazem parte.

Diferentes vantagens entre nações surgem em virtude de suas diferenças em clima, solo, recursos minerais, habilidades tácitas do indivíduos, estoques de capital e equipamentos e abundância de recursos humanos e condições do cenário social e políticos. É natural que as nações queiram aproveitar suas vantagens naturais de maneira a obter aquilo que não podem produzir em igual eficiência a seus vizinhos. Quem determina isso? Ninguém, todas essas vantagens ou são dadas pela natureza aleatoriamente ou surgem espontaneamente das relações sociais humanas por descobertas de elementos da dimensão tácita. Mas isso, todavia, não quer dizer que uma nação completamente ineficiente em tudo em relação a seus vizinhos esteja fadada a ser isolada do comércio com seus vizinhos. O mesmo se aplica a um país que seja mais eficiente em produzir tudo, pois ele ainda pode ganhar com o comércio.

Isso se deve um dos princípios básicos da economia: A Vantagem Comparativa. Segundo esse princípio desde que uma nação tenha uma eficiência inferior em produzir alguns bens ao invés de outros, o país deveria importar os bens nos quais tem uma eficiência inferior e exportar os bens nos quais tem uma eficiência superior.

Vamos ilustrar isso com um exemplo para ficar mais claro. Suponha que o Reino de Gondor é mais eficiente, em sentido absoluto, que o Condado em produzir tanto espadas quanto milho. Os trabalhadores e os recursos de Gondor podem produzir 600.000 quilos de milho e 500.000 espadas por ano, ou mais de um aos custo de se produzir menos de outro. Desde que mais trabalho e recursos sejam destinados à produção de espadas do que milho, um deslocamento de recursos e trabalho entre essas industrias fará com que seja produzida 3 espadas a mais para cada quilo de milho que se deixa de produzir, ou 1/3 de milho a mais para cada espada que se deixa de produzir. Ou seja, o custo de substituição é de 3 espadas por um quilo de milho (ou 1 espada por 1/3 quilo de milho).

No Condado, o trabalho e recursos disponíveis podem produzir 400.000 espadas mais 300.000 quilos de milho por ano. Devido à ineficiência e as desvantagens do uso dos fatores no Condado, ambas as produções de milho e espadas são feitos em uma produção menor do que em Gondor. Todavia, a desvantagem relativa do condado é maior em relação a produção de espadas do que a produção de milho: uma alocação de trabalho e recursos entre essas industrias irá produzir mais de um produto e menos de outro a um custo de substituição de 2 espadas para 1 quilo de milho (ou 1 espada para 1/2 quilo de milho). Como os custos de substituição diferem entre as duas nações, estão estabelecidas as condições necessárias para a realização de uma troca benéfica.

Agora o comércio internacional é aberto entre as duas nações. Uma vez que o custo de substituição de milho em termos de espadas não produzidas é maior em Gondor do que no Condado, Gondor importa milho e paga com espadas. Os termos de troca entre espadas e milho tem que ser algo entre o custo de substituição entre os dois países; vamos supor que 2 x 1/2 espadas trocadas por 1 quilo de milho. Esses termos permitem que Gondor consiga mais milho sem precisar fabricar menos espadas e que o Condado consiga mais espadas sem precisar abrir mão de sua produção de milho.

Suponha que o povo de Gondor corte sua produção anual de milho em 100.000 quilos de 500.000 quilos anuais para 400.000 quilos anuais e que, de acordo com o seu custo de substituição de 1 quilo de milho=3 espadas, expandam sua produção anual de espadas em 300.000 unidades de 600.000 para 900.000 unidades anuais. O povo do Condado corta sua produção anual de espadas em 240.000 unidades de 400.000 para 160.000 unidades produzidas anualmente e que, de acordo com seu custo de substituição de 1 quilo de milho = 2 espadas, expandam sua produção de milho em 120.000 quilos de 300.000 para 420.000 quilos anuais. Vamos supor que Gondor troque com o Condado 275.000 espadas por ano por 110.000 quilos de milho, como fica definido em seus termos de troca de 1 quilo de milho por 2 x 1/2 de espadas.

Assim, o livre comércio entre essas nações permite que o povo de Gondor consuma 25.000 espadas e 10.000 quilos de milho a mais do que quando não realização comércio. O povo do Condado pode agora consumir 35.000 espadas e 10.000 quilos de milho a mais do que antes. Ambas as nações claramente ganham com o processo de livre troca. Que um país é absolutamente ineficiente e outro absolutamente eficiente não importa para que a troca seja benéfica para ambos.

Essa é a razão que David Ricardo mostrou, em sua obra “Princípios de Economia Política”, como sendo a razão pela qual o livre-comércio é sempre benéfico para aqueles que dele participam e que ele é um caminho certo para a riqueza. Mas, claro, você poderia contestar a lógica de Ricardo dizendo que: “Não seria melhor que Gondor produzisse tudo que necessitava ela mesma ao invés de entregar seu ouro aos hobbits nessas trocas internacionais?”

Existe duas falhas fundamentais nessa linha de pensamento. Primeiramente é que Gondor não pode produzir tudo de que precisa. Seus recursos, trabalhos e vantagens naturais são limitados e só podem ser eficientemente empregados em certas atividades, ou, do contrário, irá empregá-las na produção de algo na qual não são bons realmente em produzir. Isso é o que eu chamo de A Lei de Smith. Ela é colocada de forma mais elaborada nas palavras do próprio Adam Smith, onde segundo ele:

“Os monopólios domésticos estabelecidos pelas regulações de comércio frequentemente dão um grande incentivo a um tipo particular de industria as quais se aproveitam disso e frequentemente deslocam o emprego de uma grande quantidade do trabalho e os recursos da sociedade para atividades as quais não seriam realizadas se não fosse por essas regulações. Todavia, nenhuma regulação do comércio pode aumentar a quantidade de industrias de uma determinada sociedade além do que seu capital pode manter. Elas podem apenas desviar parte do capital para uma direção não qual não teria ido de maneira natural; e de nenhuma maneira é certo que essa nova direção artificial será mais vantajosa para a sociedade do que aquela que teria sido no curso natural de seus usos.” (Riqueza das Nações, livro IV, capítulo II).

A outra falha desse raciocínio é em não perceber que “ouro” ou qualquer moeda usada em trocas internacionais não é nada além disso: um meio de troca. Para ilustrar o que quero dizer vamos supor que a moeda de Gondor seja a Coroa de Numenor e a do Condado seja o Pence de Arnor. Quando um fazendeiro do Condado exporta seu milho pra Gondor, ele o faz na moeda do país para o qual está exportando, ou seja ele ganha em Coroas de Numenor. Todavia, o que ele pode fazer com essas moedas? A menos que ele vá gastá-las em Gondor, ele não pode usá-las para comprar nada uma vez que a moeda circulante dentro de sua nação é o Pence de Arnor. Contudo, ele conhece alguém que gostaria de importar algumas espadas gondorianas para se equipar para uma aventura até Erebor. Assim ele troca suas Coroas de Numenor por Pences de Arnor com esse aventureiro e assim tanto nosso fazendeiro agora pode comprar o que quiser dentro do Condado (considerando que o Pence de Arnor não seja muito desvalorizado em relação a Coroa de Numenor e que a inflação seja controlada) e nosso aventureiro pode importar suas espadas.

Se o condado apenas acumulasse reservas de nada adiantaria. Uma das razões para isso é que o acumulo de Coroas de Numenor dentro da economia do Condado iria fazer com que essa moeda ficasse sobrevalorizada em relação ao Pence de Arnor. Uma vez que existe mais Coroas em “circulação” dentro do Condado, seu preço cairia e isso acabaria por inviabilizar algumas exportações do Condado. O mesmo aconteceria se ocorresse o contrário, uma grande desvalorização, uma que inviabilizaria o comércio entre Gondor e o Condado e tornaria extremamente caro uma série de insumos necessários para uma série de atividades produtivas dentro do Condado.

A outra razão é que moedas de nada servem se não podem comprar coisas. Um descompasso entre a quantidade de moeda e a quantidade de produtos ofertados que se pode comprar com essa moeda tende somente a produzir inflação, uma vez que mais pessoas poderão dar lances maiores em termos de quantidade monetária para uma mesma quantidade de bens. Esse foi precisamente o caso dos países Ibéricos durante a Era Mercantilista, onde ambos, Espanha e Portugal, acumularam grandes quantidade de ouro sem um proporcional aumento de produção e o resultado foi uma desvalorização de suas respectivas moedas nacionais e uma subsequente hiperinflação. Seja aqui ou em Westeros, simplesmente acumular moeda, seja de que tipo for, não é o caminho para a riqueza.

Outra contestação que se pode lançar sobre a lógica ricardiana é que nada impediria que Gondor, por exemplo, de subsidiar a produção de produtos dentro de seu país de forma a torná-los artificialmente mais baratos e então derrubar o produtor hobbit do Condado, o vulgo dumping. Mas ai lhe pergunto: qual o problema com isso?!

Em primeiro lugar um dumping é literalmente o caso de um governo gastando os recursos e trabalho de sua população para nos ofertar algo mais barato sem que nós paguemos por esses custos por eles incorridos. Quem é que reclamaria de algo assim? Se eles querem empobrecer sua população dessa forma para nos dar roupas, alimentos e telefones mais baratos, quem somos nós para recusar tamanho ato de generosidade de uma nação tão amiga?

Segundo é que o dumping, quando praticado por multinacionais, por exemplo, não faz sentido nenhum.

Vamos supor que uma multinacional agrícola de Gondor entre no mercado do Condado e pratique dumping até quebrar os agricultores do Condado. Depois de penetrar nesse mercado e quebrar seus concorrentes, eles terão que aumentar os preços bem acima do nível original para compensar seus prejuízos. Isto afastará os consumidores. Os produtores do Condado, mesmo não tendo podido igualar as baixas de preço no período anterior, considerariam agora nesse cenário lucrativo voltar ao mercado. Com os preços de volta a seu nível original, os gondorianos não conseguiriam recuperar seus prejuízos e seus concorrentes que tentaram destruir voltariam ao que eram antes.

Claro, você poderia dizer que os agricultores do Condado não voltariam imediatamente, uma vez que leva tempo até que uma firma possa se reerguer. Mas a verdadeira questão é que eles não precisam sequer fechar seus negócios. Tudo que tem que fazer é se recusar a acompanhar o corte de preços dos gondorianos. Você poderia dizer que sou louco ao sugerir isso, pois ninguém compraria um produto relativamente mais caro. Porém, se ninguém comprar das empresas do Condado, os gondorianos se verão abastecendo o mercado do Condado inteiro a um preço com o qual perderão dinheiro. Eles não terão apenas que absorver a produção das companhias hobbits, mas, mais do que isso, terão que vender a preço rebaixado para um mercado amplificado, por incentivos que eles mesmos criaram. Isso certamente seria ruinoso para os gondorianos, de tal forma que, para evitar esses prejuízos enormes, eles seriam forçados a vender a quantidades limitadas, de tal forma que ainda seria lucrativo para as empresas hobbits venderem.

O que quero deixar claro aqui é: Não existe alternativa à riqueza que não seja o livre-comércio e a globalização. Lutar contra ela, em todos os seus aspectos, é tentar lutar contra a própria natureza da economia e um caminho direito para a ruína de um povo.

O grande mago que mostrou à Terra Média que um livre comércio entre Humanos, Anões, elfos e Hobbits seria benéfico para todos.

II – O Mito do Intervencionismo Japonês:

É comum ver nos dias de hoje, sobretudo em círculos de debate da Esquerda (desenvolvimentistas), um certo argumento de que o intervencionismo governamental no Japão foi responsável pela fabulosa industrialização do país. Foi por meio de subsídios, planos governamentais e afins que o Japão foi de uma pilha de destroços radioativos para uma potência tecnológica.

Todavia, esse argumento não condiz com a realidade dos fatos. Geralmente autores que levantam esse argumento confundem uma mera correlação com uma causalidade. O desenvolvimento do Japão nunca foi uma consequência direta de intervencionismo estatal.

Creio que para provar meu argumento basta olhar a história econômica do Japão.

Durante a Era Tokugawa, de 1603–1868, durante o governo dos xoguns, o Japão era um país feudal completamente isolado do resto do mundo. Essa era, em verdade, algo que fazia parte da mentalidade do Estado japonês. O Japão foi talvez o único país da Ásia Oriental a não ser imperializado pela China. Os japoneses sempre tiveram a ideia de que seu país era um nação predestinada à grandeza, pois ela era filha do Sol Nascente e seu imperador era um enviado dos deuses para proteger seu povo dos invasores estrangeiros. Isso fica claro nos Registros da Sucessão Legítima dos Divinos Soberanos, onde:

“O Japão é um país divino. O ancestral celestial foi aquele que ergueu suas primeiras fundações, e a Deusa do Sol deixou seus descendentes para reinar sobre ele para todo o sempre. Isso só é verdade para o nosso país, e nada de parecido pode ser encontrado em terras estrangeiras. É por isso que o chamamos de país divino”

Durante seus 11 mil anos de história, o Japão dificilmente se aventurava para além de suas fronteiras, concentrando suas ações militares em conflitos internos. A única exceção foi em 1590, quando o unificador do Japão, o daimiô Toyotomi Hideyoshi, o grande líder do período Sengoku, tentou derrotar a Dinastia Ming por meio de uma invasão da Coreia e da Manchuria. Seu objetivo era derrotar os chineses e livrar os japoneses da opressão naval de Pequim. Todavia, a campanha foi um fracasso, mesmo tendo sido realizada duas vezes. Na última tentativa Hideyoshi teve sua frota destruída pelas forças do almirante chinês Yi Sun-sin e suas tropas derrotadas pelas forças do imperador Wanli em Pyongyang. Após isso ele teve que recuar para o Japão, sendo perseguido pela frota de Sun-sin. Porém, como relata o historiador Samuel Hawley em “Imjin War”, o Japão foi salvo de uma invasão por parte dos Ming pelo um vento divino, Kamikaze, que destruiu a fronta chinesa antes de ela aportar em Nagasaki.

A partir desse episódio, os japoneses adotaram uma política de isolamento total que tornou o país extremamente atrasado em termos de produção em comparação com seus vizinhos chineses e reduziu sua economia à agricultura feudal. Até a Restauração Meiji, o Japão mantinha relações comerciais mínimas apenas com a Coreia e, após a expulsão dos portugueses e holandeses de Nagasaki em 1587 por Hideyoshi, não manteve nenhuma forma de laço comercial com o Ocidente.

Após os americanos, sob o comando de Matthew Perry, abrirem os portos japoneses a força em 1853 e os Tokugawa serem derrotados junto com os outros xoguns em Kioto em 1868 pela Dinastia Meiji, sobo o comando de Mutsuhito Meiji, o Japão se abriu para o mundo e teve que adotar certas práticas ocidentais para sobreviver no novo mundo.

O livre-comércio teve um papal importante no desenvolvimento econômico japonês após a Restauração. Todavia que empresas estrangeiras dominassem inicialmente o comércio, os japoneses logo aprenderam como competir: eles importavam tecnologia e rapidamente incorporavam essas tecnologias à industria japonesa. Isso se desenvolvia, lembrando, em um cenário de livre-comércio. Isso se devia aos tratados assinados pelo Japão após a Restauração que proibiam restrições ao comércio com os países ocidentais. Como relata o historiador William Lockwood em “The Economic Development of Japan”:

“Até 1899, as tarifas de proteção eram completamente barradas pelos acordos assinados em 1858 e 1866 com as Potências Estrangeiras. O acordo de 1866 ainda estabelecia que as taxas de importação e exportação do Japão fossem mantidas extremamente baixas pelos próximos trinta anos. Mesmo a recuperação da autonomia tarifária em 1900 ainda mantinha vários itens sob as restrições dos tratados. As tarifas não eram mais altas do que 10 ou 15% mesmo após a revisão de tarifas de 1911” (pág 539).

E, como Lockwood documenta, mesmo essas pequenas taxas colocadas sobre certos setores não tinham qualquer efeito no desenvolvimento da nação:

“Muitas tarifas japonesas eram inteira ou parcialmente ineficientes em garantir a posição do produtor doméstico japonês no mercado interno e externo. A maioria da estrutura industrial japonesa após 1900 não dependia em nenhuma medida da proteção governamental.” (pág 543).

E, mesmo a ação governamental direta, como documenta Lockwood, era quase inexistente nesse período:

“Um estudo de todo processo do desenvolvimento econômico no Japão moderno leva à convicção que o verdadeiro impulso veio em grande medida de fora do ambiente político nacional e da atividade estatal. Esse último, no máximo, apenas acelerou um processo de industrialização que já estava ocorrendo. Fora serviços públicos essenciais, o governo apenas provia uma parte negligenciável do PIB japonês. Além disso, o crescimento real da economia japonesa ocorreu em áreas que não possuíam nenhuma forma de suporte ou subsídio do governo” (pág 574).

Esse fabuloso processo de industrialização e exportação crescente é ainda visível nos dados já no período dos acordos de 1858 e 1866:

http://www.jei.org/Restricted/JEIR00/0003f.html

Após a Segunda Guerra, alegam os desenvolvimentistas, também houve um forte período de crescimento industrial no Japão (o que é uma realidade inegável) e esse crescimento foi em grande parte promovido por meio das intervenções econômicas do Ministério do Comércio Internacional e da Indústria (MITI, em inglês), um tipo de BNDES japonês. Porém, essa alegada virtude do MITI é falsa. Como mostra o economista Phillip H. Trezire em um estudo do Brookings Institution entitulado “Asia’s New Giant: How Japanese Economy Works”:

“As políticas adotadas pelo MITI — proteção contra importações, controles sobre investimento estrangeiro e entrada de tecnologia estrangeira, ajuda financeira para industrias selecionadas, incentivos fiscais seletivos e administração executiva de algumas industrias para impedir excessos de investimento e produção — de nenhuma maneira foram a causa do crescimento rápido da economia japonesa. É em boa medida incerto se essas políticas foram realmente responsáveis pelo positivo — se não as vezes negativo — crescimento e desenvolvimento que a elas é atribuído.(pág 793).

Na verdade, se olharmos o histórico do MITI encontraremos uma série de inúmeros fracassos e poucos acertos, esses os quais são propositadamente selecionados pelos desenvolvimentistas como exemplos fabulosos e gerais do sucesso de suas políticas. Dentre algumas das falhas do MITI apontadas estão:

— No começo dos anos 1950, o MITI planejou eliminar todas as companhias automobilísticas que não a Nissan e a Toyota acreditando que ter mais de duas companhias seria ineficiente. Felizmente para os japoneses (e para apreciadores de esportivos japoneses) essa política falhou miseravelmente.

— Ainda nos anos 1950, o MITI se recusou a permitir que a SONY importasse tecnologia de transistores. Ainda que a SONY tenha conseguido vencer as barreiras do MITI, ela levou 2 anos esperando até conseguir importar os componentes em virtude da burocracia do MITI. E, ao mesmo tempo, o MITI deu subsídios para duas outras companhias criarem televisores obsoletos de tubo.

— Um esforço de 30 anos em desenvolver um reator nuclear que terminou em um fracasso de 5 bilhões de dólares.

— Um esforço hercúleo para lançar em 1982 o desenvolvimento de computadores de primeira geração que depois se mostrou um fracasso pois o processo de mercado naturalmente levou o setor de computação para um caminho totalmente diferente do intencionado pelo MITI.

— Um grande esforço de desenvolvimento de televisores de alta definição falhou quando o sistema que o MITI intencionou e investiou 1,2 bilhões se tornou obsoleto.

Outras falhas incluem planos de desenvolvimento de uma frota mercante movida a energia nuclear, preferência à televisão de cabo ao invés da de satélite, uma broca de perfuração de óleo por controle remoto e um alto-forno movido a energia nuclear. E, como mostra estudo de Dick Beason e David Weinstein, não existe evidência econômica que prove que o MITI teve qualquer influência geral no desenvolvimento econômico japonês.

As reais causas do desenvolvimento japonês foram sua estabilidade macroeconômica e não as políticas de intervenção do governo. Como nota o economista americano David R. Handerson foram os altos níveis de poupança e não o MITI que promoveram o desenvolvimento japonês. Além disso é bom notar os índices controlados de inflação e as instituições sólidas que o Japão tem.

https://pt.tradingeconomics.com/japan/inflation-cpi

III – A Dependência da Teoria da Dependência.

Uma das teorias mais difundidas por desenvolvimentistas aqui na América Latina diz respeito à famosa teoria do economista argentino Raúl Prebisch de que que os termos de troca (os bens usados para pagar pelas importações) sofriam uma degeneração em seu valor uma vez que tendiam a permanecer com o mesmo preço ao passo que os bens industrializados tendiam a aumentar seu preço, fazendo com que seja necessário cada vez mais do bem exportado para se comprar a mesma quantidade do bem industrializado importado. Segundo Prebisch os países industrializados ricos de Primeiro Mundo usariam isso para fazer de servos os países pobres do Terceiro Mundo por um processo de imperialismo econômico. Para sair dessa armadilha criada pelas potências econômicas imperialistas seria necessária a adoção de uma política industrial que fizesse os países de Terceiro Mundo aumentassem sua produção de bens de alto valor agregado nas cadeias globais de valor.

Todavia, essa teoria sofre de falhas horrendas. Parece meio óbvio ao senso comum que um país pobre um ano possa comprar um caminhão com quatro toneladas de soja e que 15 anos depois precise vender vinte toneladas para a mesma finalidade. Essa demonstração aparentemente inquestionável omite, entretanto, que no caso de países subdesenvolvidos se trata geralmente daquela mesma soja, mas não do mesmo trator. Enquanto a maioria dos países subdesenvolvidos, geralmente por força de suas históricas elites extrativistas, não tenham se preocupado com a diversificação nem com a qualidade dos produtos que ofertavam no mercado (geralmente por força de serem protegidas das consequência de sua ineficiência pelo Estado, como no caso dos produtores brasileiros de café na República Velha), os produtos industrializados não paravam de sofrer inovações e de sofrer disrupções criativas. Somente se um país perde sua produtividade relativa ao passar dos anos, geralmente por causa de políticas de desenvolvimento fracassadas, é que sofrerá com a degeneração dos termos de troca. Porém isso não significa que um país que só exporte commodities ou afins esteja fadado aos problemas da degeneração dos termos de troca. A questão aqui não é o tipo de produto, mas a produtividade relativa para cada produto.

Vejamos o exemplo do Brasil em uma área que ele possuem alta produtividade, que é a produção de carne bovina, e vamos ver se historicamente ele sofre com a degeneração dos termos de troca. Vamos tomar o período de 9 anos entre um pagamento exportação-importação e outro. Nesse caso vamos olhar se a carne brasileira sofre com a degeneração dos termos de troca quando olhamos quanto dela é necessário para comprar 1 Iphone.

A média do preço da carne brasileira em 2007 era de 2.6 dólares o quilo no mercado internacional (bolsa de chicago). No mesmo ano o Iphone I custava 2.258 reais. Ou seja, para comprar 1 Iphone I era necessário exportar 868 quilos de carne para fora. Se pegarmos agora o ano de 2016, a média do preço da carne brasileira era de 4.2 dólares o quilo no mercado internacional (bolsa de chicago). No mesmo período o Iphone 7 era vendido no Brasil a 3300 reais. Ou seja, era necessário exportar 785 quilos de carne para comprar 1 Iphone 7.

Olhe que interessante, o produto exportado permaneceu uma commoditie e o produto estrangeiro comprado mudou sua produtividade e seu tipo, tendo mais valor agregado, porém agora eu preciso exportar menos carne para comprar um produto industrializado melhor em respectiva taxa de câmbio. Também é interessante notar que o valor da carne brasileira, se olhado a série histórica, foi de U$ 1.65 em 1998 para U$ 3.92 em 2018. Ou seja, onde está os efeitos horrendos profetizados por Prebisch para as economias exportadoras de commodities? Ela existem menos do que a alegada dependência que ele dizia que os países de Terceiro Mundo sofreriam dos países ricos. Na realidade, o que nos tornou mais vulneráveis e dependentes foi justamente termos adotado as políticas prescritas pelo senhor Raúl Prebisch e seu colega brasileiro Celso Furtado.

https://tradingeconomics.com/commodity/beef

IV – As Ilusões do Brexit.

Nos últimos tempos alguns conservotolos iniciaram uma forma de Nova Cruzada contra um tipo de inimigo novo: os globalistas. Movimentos nacionalistas surgiram em todo mundo e teorias da conspiração permeiam cada canto da Internet com artigos e pessoas brandando contra A Nova Ordem Mundial, a imoral globalização e atacando de todas as formas possíveis filósofos popperianos húngaro-americanos.

Um desses movimentos nacionalistas, encarnado na figura do UKIP (United Kingdom Independence Party), liderou um grande movimento no Reino Unido pela saída do país da União Europeia sob a alegação de que a UE seria um plano globalista de dominação para minar a nacionalidade britânica e someter os cidadãos britânicos à tirania das burocracias de Bruxelas. Em 29 de Março de 2017, após referendo, os britânicos escolheram apoiar o plano do UKIP e sair da UE sob a promessa de que assim seria mais prósperos e teriam sua identidade nacional defendida. Todavia, será que isso tem alguma base realística?

Vamos supor que o Brexit dê certo (coisa que não está acontecendo muito nem para o cidadão nem para o governo) e os britânicos saiam ilesos do processo. Mesmo com a saída, 39.8% do comércio britânico ainda é feito com a UE (seu maior parceiro comercial) e muito provavelmente os britânicos iriam querer manter suas relações econômicas com a Europa. Ele poderia fazer isso se tornando membro da European Economic Area (junto com outros países não-associados à UE, como a Noruega e Liechtenstein). Porem, se fizer isso, o Brexit não passará de um movimento circular tolo, pois os membros da EEA ainda tem que se submeter a uma série de regulações e legislações feitas em Bruxelas. No fim das contas apenas viraria um servo da UE. O exemplo norueguês talvez seja mais ilustrativo do caso. A Noruega ainda tem que aplicar para sua sobrevivência econômica uma série de regulações econômicas que não são feitas pelo parlamento em Oslo, mas sim em Bruxelas. Tanto é que, para a grande maioria dos noruegueses, a sua soberania enfraqueceu permanecendo fora da União Europeia e não o contrário como pensam os intelectuais do UKIP.

Outra saída para os britânicos seria negociar uma série de acordos bilaterais com a União Europeia de maneira a garantir que suas empresas tenham acesso ao Mercado Comum. Todavia, essa estratégia ignora uma verdade dura: a União Europeia não tem razões para aceitar uma negociação boa para os britânicos. A UE é a maior economia do mundo, compota de várias economias com diferentes vantagens comparativas, e estaria em uma posição de negociação muito melhor para um acordo bilateral do que os britânicos. Isso é tão verdade que uma das cenas mais caricatas do Brexit são as piadas e barreiras criadas pelo presidente da comissão européia, Jean-Claude Juncker, a um acordo desse tipo.

Uma outra saída para os britânicos poderia ser negociar alguma forma de acordo comercial que desse ao Reino Unido alguma forma de acesso ao Mercado Comum. Todavia, essa estratégia ignora os custos de transação de acordos comerciais com a União Europeia. Um exemplo desses custos é a dificuldade recente de se firmar um acordo comercial entre a UE e o Canadá em virtude de divergências regulatórias entre ambas as partes, sobretudo com relação à questões agrícolas. Além disso, como o Reino Unido opera, por meio da CITY, como um reduto bancário de operação no Mercado Comum, uma luta regulatória poderia trazer uma imensa instabilidade financeira tanto para a UE como para o Reino Unido. Na verdade, isso já está ocorrendo.

Seja qual for o plano adotado pelos britânicos é bom que ele venha logo e que seja rápido, pois, com uma onde de protecionismo acelerando pelo mundo, se tornará cada vez mais difícil para a velha e decadente rainha do mar achar parceiros comerciais para realizar trocas para sobreviver.

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