Intencionalidade e Linguagem: Uma Abordagem Normativa, Pragmatista e Inferencialista – Robert B. Brandom (Tradução de Raffz Vieira)

 

I. Intencionalidade

Neste ensaio eu apresento uma bateria de conceitos, distinções, terminologias e questões que são amplamente utilizadas entre filósofos da mente e da linguagem que discutem sobre intencionalidade. Juntos, eles definem um espaço de possíveis prioridades e estratégias com poder explanador. Em adição, eu esboço um grupo sistemático e interligado de compromissos a respeito das relações entre estes conceitos e distinções, os quais subscrevem um distinto grupo de respostas para algumas das mais importantes dessas questões. Esse método normativo, pragmatista e inferencialista para com intencionalidade e linguagem é bem mais controverso. Eu desenvolvi e apresentei-o em alguns livros durante as duas últimas décadas. No contexto atual, a sua exposição serve ao menos para ilustrar como se deve formar um framework pelo qual se pensará sobre as relações entre essas questões supracitadas.

O uso filosófico contemporâneo do termo escolástico medieval “intencionalidade” foi introduzido por Franz Brentano [1838-1917]. O seu estudante Edmund Husserl [1859-1938] reconheceu o termo como apto à caracterizar um fenômeno que Immanuel Kant [1724-1804] havia colocado no centro do nosso pensamento sobre o campo mental, como parte do que nós chamaríamos hoje de sua transformação semântica da virada epistemológica de René Descartes [1596-1650] na filosofia da mente. Essa é a ideia de um tipo de conteúdo que é distintivo de pelo menos alguns dos nossos estados psicológicos e enunciados linguísticos. Brentano caracterizou intencionalidade em termos de “referência para um conteúdo, uma direção sobre um objeto.”[1]John Searle [b. 1932] oferece esse sumário pré-teórico da temática do seu livro Intentionality:

…se um estado S é Intencional, então tem que haver uma resposta para perguntas como estas: Sobre o que é S? O que é S de? O que é um S?[2]

Nós podemos especificar o conteúdo da crença de alguém ao dizer, por exemplo, que ela crê que o servo de Kant se chamava ‘Lampl’. Nesse caso, é uma crença de ou sobre o servo de Kant, representando ele como um ser nomeado como tal. Brentano havia se impressionado com a ideia de que, enquanto coisas conseguem se estabelecer apenas em relações físicas ou causais com fatos, eventos e objetos, estados intencionais podem “se referir a conteúdos” que não são verdadeiros (não expressam fatos) e serem “direcionados sobre objetos” que não existem.[3]Eu só posso chutar uma lata se ela existe, mas eu posso pensar em unicórnios mesmo que eles não existam.

Nós devemos distinguir intencionalidade nesse sentido de consciência. Esses fenômenos somente se sobrepõem. Pois, de um lado, dor é um exemplo paradigmático de fenômeno consciente. Mas dores não são nesse sentido relevantes para estados ou episódios com conteúdo intencional.  Elas não tem conteúdos que possam ser expressados com cláusulas sentenciais ‘que’. E elas não são (pelo menos não sempre) sobre nada. Por outro lado, não há nada incoerente sobre o conceito de crenças inconscientes – as quais têm conteúdos intencionais especificáveis em termos de ‘que’ e ‘de’. Atribuições de crenças respondem a dois tipos de normas de evidência, que em alguns casos divergem. Evidência derivada de afirmações sinceras proferidas pelo detentor da crença licencia a atribuição de crença da qual o detentor está consciente. Mas crenças, desejos e outros estados intencionais também podem ser atribuídos com base em quais crenças e desejos relativamente estáveis providenciam premissas para recortes de um raciocínio prático que clarifique o que o detentor da crença realmente faz, mesmo na ausência de disposições a afirmar sinceramente tais estados intencionais. Onde tais explicações intencionais funcionam como boas explicações, os estados intencionais atribuídos são, portanto, inconscientes.

A necessidade de se fazer tal distinção é uma manifestação de uma distinção mais profunda entre dois tipos de consciência: senciência e sapiência. Senciência é consciência no sentido de estar acordado. Qualquer coisa que sinta dor é senciente. Sapiência é ter estados intencionais com conteúdo como crenças, desejos e intenções: crendo, desejando ou pretendendo sobre aquele cachorro que ele está sentado, vai sentar ou deveria sentar.  Um elemento essencial da invenção de Descartes de uma concepção nitidamente moderna da mente é a sua assimilação de sensações (por exemplo, dor) e pensamentos (por exemplo, que raposas são onívoros noctívagos). Os seus predecessores não haviam sido tentados por tal assimilação de senciência e sapiência. Sua inovação, e a razão crucial para a assimilação, foi um critério de demarcação epistêmico do mental. Tanto sensações como pensamentos, Descartes manteve, eram transparentes e incorrigíveis para seus sujeitos: não podiam ocorrer sem que o sujeito soubesse que haviam ocorrido, e se o sujeito tomasse como ocorrido, então de fato teriam ocorrido. Apesar da crescente apreciação (começando com Gottfried Leibniz [1646-1714]) do significante potencial explicativo de estados mentais inconscientes, a respeito dos sujeitos que não teriam o tipo de acesso epistêmico privilegiado que Descartes focava, nós viemos a apreciar a importância de não pré-julgar problemas a respeito da relação entre senciência e sapiência. Em particular, nós chegamos ao patamar de enxergar que alguns dos problemas mais relevantes a respeito da plausibilidade, e até mesmo inteligibilidade, de inteligência artificial como classicamente  concebida, se vira para a questão se sapiência pressupõe senciência (que, ao menos até onde nosso entendimento alcança, é um fenômeno exclusivamente biológico).

II. Dimensões Proposicionais e Representacionais de Intencionalidade Prática e Discursiva

Dentro da área geral demarcada pelo termo ‘intencionalidade’, existem duas distinções importantes a se manter em mente: a distinção entre intencionalidade prática e discursiva, e a distinção entre intencionalidade proposicional e representativa. Intencionalidade prática é o tipo de direcionamento a objetos que animais exibem quando estes lidam habilmente com o mundo: a maneira pela qual o predador é direcionado à presa que caça, ou a presa ao predador do qual escapa. É um fenômeno de senciência,  com o papel que objetos, eventos e situações exercem na vida de um animal providenciando as significâncias práticas (comida, ameaça…) que podem ser perceptualmente atribuídas. No nível mais abstrato de descrição, no entanto, intencionalidade prática biológica é um caso de um tipo de direcionamento a objetos amplamente teleológico que também possui exemplos não-sencientes. Pois qualquer processo que possua uma estrutura de retroalimentação Teste-Operação-Teste-Saída, onde operações em um objeto são controladas por informações sobre o resultado de uma operação prévia nele (objeto) que são repetidas até que um padrão seja satisfeito, pode ser visto de uma forma distintiva como “direcionado à (aos)” tanto o(s) objeto(s) no(s) qual(quais) o sistema opera como ao(s) objeto(s) do(s) qual(quais) o sistema é informado sobre. Esse gênero inclui tanto autômatos de estado-finito executando algorítimos de ramificação programada condicionais, como por exemplo, num míssil antiaéreo guiado por radar, e nos reguladores de roda que ajustavam a pressão da caldeira dos primeiros motores a vapor. Intencionalidade discursiva é a exibida por utilizadores de conceitos no sentido mais rico: aqueles que podem fazer julgamentos ou asserções que são sobre objetos no sentido semântico. O paradigma desse tipo de sapiência que chamo de “intencionalidade discursiva” é exibido por usuários de uma linguagem, os quais podem dizer o que estão pensando ou falando sobre.

A distinção entre intencionalidade representacional e proposicional é aquela entre duas dimensões que estados intencionais com conteúdos podem exibir, correspondendo à duas das questões de Searle, mencionadas anteriormente: “O que é S de? O que é um S que?”. A resposta ao primeiro tipo de questão é a especificação de um objeto representado pelo estado (“É uma crença de ou sobre navios, sapatos, cera de selagem…”), enquanto a resposta ao segundo tipo de questão é a especificação do que se acredita ou pensa (“É a crença que navios devem estar em boas condições de navegação, que sapatos são úteis, que cera de selagem é arcaica…). A primeira resposta expressa o que estamos pensando ou falando sobre e a segunda expressa o que estamos pensando ou falando sobre tal coisa.

Essa distinção de duas dimensões de conteúdos se aplica tanto à espécie prática de intencionalidade como na discursiva. O cachorro crê que seu mestre está em casa, e ele crê nisso de Ben, seu mestre. The dog believes that his master is home, and he believes that of Ben, his master. As dificuldades que temos ao usar os termos apropriados para intencionalidade discursiva para especificar precisamente os conteúdos proposicionais exibidos na intencionalidade prática (o cachorro não possui os conceitos especificados por “mestre” e “casa” – já que ele não apreende a maioria dos contrastes e implicações essenciais à tais conceitos) não comprometem o fato de que há algum conteúdo na sua crença sobre aquele humano, Ben, em virtude de que sua crença de que seu mestre está prestes à alimentar-lhe difere da sua crença que seu mestre está em casa, ou que outra pessoa irá lhe alimentar.

Duas ordens opostas de explicação a respeito das relações entre intencionalidade prática e discursiva são pragmatismo e platonismo. Pragmatismo é a visão que intencionalidade discursiva é uma espécie de intencionalidade prática: que saber-que (coisas são desse e daquele daquele jeito) é um tipo de saber-como (fazer alguma coisa). O que está explícito na forma de um princípio é inteligível apenas perante um pano de fundo de práticas implícitas. A ordem oposta de explicação, que dominou a filosofia até o século XIX, é um tipo de intelectualismo que vê cada habilidade cognitiva implícita ou propriedade de uma prática como subscrita por uma regra ou princípio: algo que é ou poderia ser feito discursivamente explícito. Uma versão contemporânea do platonismo é endorsada pelo programa de inteligência artificial simbólica, que procura descrever a intencionalidade discursiva como algo redutível à manipulação simbólica em concordância com regras definidas. Uma versão contemporânea do pragmatismo é endorsada pelo programa de inteligência artificial pragmático, que busca fundamentar a intencionalidade discursiva ao encontrar um conjunto de práticas não-discursivas (práticas às quais já podem ser exibidas em sistemas dotados somente de intencionalidade prática) que possam ser elaboradas algoritmicamente em práticas discursivas autônomas.[4]O pragmatismo não precisa, no entanto, tomar a forma redutiva da IA pragmática.

E sobre a prioridade explanatória das dimensões representacionais e proposicionais da intencionalidade? Aqui também temos várias estratégias disponíveis. O meu método consiste em dar diferentes respostas dependendo se estivermos falando de intencionalidade prática ou discursiva. Dentro da intencionalidade prática, a dimensão proposicional deve ser compreendida em termos da dimensão representacional. Dentro da intencionalidade discursiva, a dimensão representacional deve ser compreendida em termos da proposicional. (Note que a possibilidade de tal visão não seria sequer viável para um teorista que não fizesse tais distinções como fiz no início dessa seção do artigo). O tipo de representação que importa para entendermos intencionalidade prática é a relação de mapeamento que ações hábeis produzem e promovem entre itens no ambiente e estados do organismo. A utilidade das representações de mapeamento depende da qualidade de inferências de fatos-de-mapa (tem uma linha azul ondulada entre esses dois pontos) para fatos-terrenos ou fatos-empíricos (tem um rio entre essas duas cidades). O conteúdo proposicional do fato-de-mapa é construído a partir de relações representacionais que são sub-proposicionais (correlacionando linhas azuis e rios, pontos e cidades). Tais relações subscrevem a ordem de explicação representação-para-proposição no nível da intencionalidade prática.

As considerações que sustentam essa ordem de explicação para a intencionalidade prática são, muitas vezes, pensadas como sustentando também a mesma ordem de explicação para a intencionalidade discursiva. E o caso ficaria mais forte quando se combina tal comprometimento com uma ordem de explicação pragmatista relacionando intencionalidade prática e discursiva. De qualquer forma, penso que há razões fortes para se endorsar a prioridade explanatória da dimensão proposicional à representacional da intencionalidade no nível da intencionalidade discursiva. Tais razões derivam, em primazia, a partir das considerações do caráter essencialmente normativo da intencionalidade discursiva.

III. A Normatividade da Intencionalidade Discursiva

Kant iniciou uma revolução no pensamento filosófico sobre intencionalidade discursiva. Sua ideia mais fundamental era que julgamentos e fazeres intencionais são distintos de respostas de criaturas não-discursivas pois tais fazeres (e julgamentos) são coisas pelas quais o sujeito é de uma maneira distintiva responsável. Eles expressam comprometimentos, ou endossos, eles são exercícios de autoridade do sujeito.  Responsabilidade, comprometimento, endosso, autoridade — todos estes são conceitos normativos. Ao adotar um comprometimento discursivo prático ou teorético que coisas são ou devem ser de um jeito ou de outro, o portador de conhecimento/agente se submete à regras (que Kant chama de “conceitos”) que determinam pelo quê ele agora é responsável.  Por exemplo, ao fazer o julgamento de que a moeda é de cobre, o conteúdo do conceito cobre que o sujeito aplica determina que ele está comprometido (sabendo ou não disso) com a moeda sendo condutora de eletricidade, derretendo a 1085ºC., e que ele está impedido de reivindicar a afirmação de que ela é menos densa que água.  A diferença entre criaturas discursivas e não-discursivas não é, como Descartes havia pensado, uma diferença ontológica (a presença ou ausência de uma substância peculiar e obscura denominada mente), mas sim uma diferença deontológica, isto é, normativa: a habilidade de se submeter a conceitos, que são entendidos como um tipo de regra. Onde a tradição pré-kantiana focou na nossa força na aquisição de conceitos (é esta clara, distinta e adequada?), Kant focou na força deles sobre nós (o que um sujeito deve fazer para se submeter sob um conceito na forma de uma regra?). Ele entende criaturas discursivas como as que vivem, se movem e tem o seu ser em um espaço normativo.

A tradição que Kant herdou perseguia uma ordem de explicação semântica de baixo para cima (dita “lógica”) que começava com conceitos, particulares e gerais, representando objetos e propriedades. No nível seguinte, os proponentes dessa tradição consideravam como tais representações poderiam ser combinadas para produzir proposições de diferentes formas (“Sócrates é um homem” “Todos os homens são mortais”). À “doutrina de conceitos” que sustentava a “doutrina de julgamentos” eles então acrescentaram a “doutrina de silogismos”, que classificava inferências como boas ou ruins, dependendo dos tipos de julgamentos envolvidos. (“Sócrates é um homem, e todos os homens são mortais, logo Sócrates é mortal.”)  Essa teoria clássica foi o paradigma da ordem de explicação que procede da dimensão representacional à proposicional da intencionalidade. Numa dissociação radical com a tradição, Kant começou em outro lugar. Para ele a unidade intencional fundamental, a unidade mínima de experiência no sentido de consciência sapiente é o julgamento (proposição). Pois essa é a unidade mínima de responsabilidade (submetimento à regra). Conceitos devem ser entendimento de cima para baixo, ao analisarmos julgamentos (eles são, Kant disse, “funções de julgamento”, regras para o ato intencional de julgar), procurando qual contribuição eles fazem para as responsabilidades que os sujeitos se submeteram por via desses conceitos no julgamento (e agência intencional). Ele iniciou uma ordem de explicação que move da dimensão proposicional à dimensão representacional da intencionalidade.

Seguir essa ordem de explicação no contexto de seu entendimento normativo da dimensão proposicional da intencionalidade discursiva levou Kant à uma visão também normativa da dimensão representacional da intencionalidade discursiva. No lado proposicional, o conceito que um sujeito aplica no julgamento determina pelo quê ele se colocou responsável. No lado representativo, o conceito determina para o quê um se colocou responsável, no sentido do que estabelece o padrão para avaliação da corretude do julgamento. Kant vê que tratar algo como representando, como pelo menos tendo o propósito de apresentar algo representado, é reconhecer a autoridade do que é representado sob as estimações de corretude daquela do que se está representando. Representação discursiva também é um fenômeno normativo. E é para ser entendido em última instância em termos da contribuição que faz para a normatividade característica da intencionalidade discursiva proposicional.

Análises da filosofia contemporânea sobre a normatividade característica da intencionalidade discursiva, junto com as dimensões proposicionais e representacionais, caem em duas classes amplas: sócio-prática e teleossânticas. Ambos são métodos amplamente funcionalistas, no sentido que eles olham para o papel que estados intencionais discursivos fazem num sistema maior ao explicar as normas às quais que estão submetidos. Teorias teleossânticas derivam normas (o que deve seguir, como o representando deve ser) a partir de seletivamente, evolutivamente, avaliar explicações adaptativas do advento de estados e expressões que contam como dotados de conteúdo intencional (tipicamente não somente no sentido discursivo, mas também no prático) só em virtude de serem governados por tais normas.  Ruth Millikan [b. 1933], por exemplo, define Função Apropriada como uma função que seletivamente (contrafactualmente) explica a persistência de uma característica ou estrutura, no sentido que se tal característica não tivesse no passado cumprido tal função, ela não teria persistido.[5]Teorias de práticas sociais datam para Georg Hegel [1770-1831], que aceitou a perspicácia de Kant no caráter normativo da intencionalidade discursiva, mas buscou uma naturalização das normas em questão (as quais Kant havia transcendentalizado). Ele compreendeu status normativos, como comprometimento, reivindicação, responsabilidade e autoridade, como instituídos por atitudes práticas normativas.  (Slogan: “Toda constituição transcendental é uma instituição social.”).  Na sua visão, normas genuínas só podem ser instituídas socialmente: como ele colocou, por meio de “reconhecimento recíproco”.  A ideia que normas discursivas devem ser entendidas como implícitas em práticas sociais foi tomada de Hegel pelos pragmáticos americanos (C. S. Peirce [1839-1914], William James [1842-1910], e John Dewey [1859-1952]), e posteriormente por Ludwig Wittgenstein [1889-1951], que independemente descobriu o caráter normativo do conteúdo discursivo.

A ideia é que normas sociais são instituídas quando praticantes tomam ou tratam performances como adequadas ou inadequadas, tomam ou tratam cada um como comprometido, intitulado, responsável, autorizado e assim por diante. O pensamento pragmatista é que até mesmo se as normas em questões forem normas discursivas, adotar as atitudes normativas de instituição pode requerer apenas intencionalidade prática. Praticamente punindo ou recompensando performances é uma maneira de tratá-las como inapropriadas ou apropriadas.  Então, por exemplo, hominídeos em uma certa tribo podem praticamente tratar como inapropriado para que qualquer um entre em uma certa cabana sem estar exibindo uma folha de uma árvore rara, ao bater com galhos qualquer um que tente fazer isso. Em virtude do papel que elas cumprem nessa prática, as folhas adquirem a significância normativa prática de licenças-de-cabana. Em casos mais sofisticados, a recompensa ou punição pode ela mesma ser uma alteração de status normativo, independente do seu efeito real de consolidação. Então um pode tratar a performance como apropriada ao dar ao sujeito (que performa a prática) uma folha de licença-de-cabana, mesmo que ele não tenha interesse em entrar na cabana.

IV. Um Método Inferencialista para o Conteúdo Intencional Proposicional Discursivo

O que faz algo uma norma especificamente discursiva? Normas discursivas são normas governando a aplicação de conceito, paradigmaticamente em julgamentos. Normas discursivas governam a aplicação de algo julgável, isto é, conteúdos intencionais proposicionais. No contexto do comprometimento com o pragmatismo, tal questão se torna: que tipo de saber como (fazer algo) configura saber (ou acreditar) que (algo seja de um jeito ou de outro)? Qual a diferença decisiva —a diferença que faz a diferença —entre um papagaio que consegue com segurança responder de forma diferencial à presença visível de coisas vermelhas, talvez pelo proferimento de “Rawk! Isso é vermelho”, de um lado, e um observador humano que pode responder com base no mesmo escopo de estímulos através da asserção e do julgamento que algo é vermelho? O que é que o observador sapiente e dotado de intencionalidade discursiva sabe fazer que o papagaio meramente senciente e dotado de intencionalidade prática não sabe?

A diferença importante é, sem dúvidas, uma questão de um tipo característico de entendimento que usuários de conceitos evidenciam. O pragmatista quer saber: que habilidades práticas consistem nesse entendimento? Nós já reconhecemos a diferença normativa: a performance do observador expressa um endossamento, o reconhecimento de um compromisso, enquanto a do papagaio não o faz. O ponto chave adicional a ser entendido é que o conteúdo endossado, o conteúdo com o qual o observador sapiente está comprometido qualifica como conteúdo conceitual (do qual especificamente conteúdos proposicionais são uma espécie principal) na medida em que está situado num espaço com outros tais conteúdos os quais este permanece em relação de consequências e incompatibilidades materiais. O observador sabe como fazer inferências e retirar conclusões do seu comprometimento: determinar pelo que mais ele se comprometeu com a asserção de que a maçã é vermelha (por exemplo, que ela é colorida, que ela está pronta para ser colhida…). Ele sabe distinguir o que é evidência para e contra tal asserção, e o que mais aquele comprometimento exclui como incompatível (por exemplo, que ela não é completamente verde). O ser sapiente entende na prática o seu comprometimento como tomando uma posição numa rede de comprometimentos relacionados possíveis, que se situam um com o outro em relações racionais de consequências e incompatibilidades materiais. Ele está fazendo um movimento na prática (análoga a um jogo) de dar e pedir por razões, na qual um movimento tem consequências normativas para o que outros tem como obrigatório, permitido ou proibido.

Relações materiais inferenciais (e de incompatibilidade), em contraste a relações inferenciais e de incompatibilidade lógicas formais, articulam os conteúdos de conceitos não-lógicos. Tais são inferências como “A é ao Oeste de B, logo B é ao Leste de A“, “Relampejou, logo virá um trovão”, e “Se esta amostra é de cobre, então ela irá conduzir eletricidade”. Parte do que um sujeito deve fazer para contar como entendedor de conteúdos de conceitos como Leste e Oeste, relâmpago e trovão, cobre e condutor elétrico é endossar inferências como essas. Isso, no entanto, não é dizer que para cada conceito há um conjunto de inferências materiais que seja constitutiva do significado aos quais o sujeito deve endossar para contar como um entendedor do conceito. Mas se o sujeito não faz nenhuma distinção, nem que seja parcial ou falível, entre relações de inferências e incompatibilidades materiais que articulem ou não o conteúdo de um conceito, então o sujeito não pode contar como um usuário competente daquele conceito.

Outra maneira de chegar ao mesmo ponto sobre a conexão interna entre conteúdo conceitual e articulação inferencial é considerar a diferença entre rotular ou classificar algo e descrever algo. Qualquer disposição confiável de reposta diferenciável impõe uma classificação num estímulo, distinguindo aqueles que iriam daqueles que não iriam elicitar uma resposta do tipo em questão pelo exercício dessa capacidade prática responsiva confiável. Um pedaço de um ferro enferruja em alguns ambientes e não em outros, a viga quebra sob algumas cargas e não outras, o papagaio grasna “Vermelho!” em algumas situações e não em outras. O que mais é preciso para tal performance contar não somente como uma discriminação ou rotulação mas também como uma descrição de algo como vermelho??   O filósofo Wilfrid Sellars [1912-1989] oferece a seguinte resposta inferencialista:

É somente pelas expressões em termos das quais descrevemos objetos…

localizarem tais objetos em um espaço de implicações que elas descrevem, ao invés de meramente rotularem.[6]

Se eu descubro que todas as caixas no sótão das quais eu estou encarregado de limpar foram rotuladas com adesivos vermelhos, amarelos e verdes, tudo que aprendo é que aquelas rotuladas com o mesmo adesivo compartilham alguma propriedade. Aprender o que eles significam é aprender, por exemplo, que o dono colocou um adesivo vermelho em caixas que devem ser descartadas, verde naquelas que devem ser mantidas e amarelo naquelas que devem ser reanalisadas. Uma vez que eu saiba o que segue da fixação de um rótulo ao invés de outro, eu posso entendê-los não somente como meros rótulos, mas como descrições das caixas nas quais eles se aplicam.  Descrição é classificação com consequências inferenciais, ou imediatamente prática (“ser descartada/examinada/mantida”) ou para classificações posteriores.

A proposta semântica inferencialista é que o que distingue comprometimentos especificamente discursivos (paradigmaticamente, mas não exclusivamente, proposicionais) é que seus conteúdos são articulados pelos papéis que estes exercem em relações de inferência e incompatibilidade material. Adquirindo ou entendendo tais conceitos é um tipo de saber-como prático: distinguindo na prática o que segue de um certo conteúdo julgável ou reivindicável, do que ele segue, o que seria evidência para ou contra ele, e do quê ele seria evidência a favor ou contra. As habilidades inferências práticas de reconhecer as consequências do comprometimento de um sujeito para com comprometimentos posteriores (tanto os quais ele está comprometido ou impossibilitado de reivindicar) e distinguir evidência que iria ou não intitular o sujeito para tais comprometimentos são o que distingue criaturas sapientes de meras criaturas sencientes, criaturas essas que exibem intencionalidade discursiva ao invés de apenas intencionalidade prática.

V. A Relação da Linguagem e do Pensamento na Intencionalidade Discursiva

É óbvio que pode haver intencionalidade prática sem linguagem. Pode haver intencionalidade discursiva na ausência da linguagem? Filósofos modernos desde Descartes até Kant tomaram como óbvio que pensamentos e crenças com conteúdo proposicional não somente antecedem como são inteligíveis separadamente de suas expressões linguísticas, as quais eles entendiam em termos de símbolos em que os significados são herdados desses estados e episódios discursivos pré-linguísticos antecedentes. Mais recentemente, H. P. Grice [1913-1988] ampliou essa tradição, ao entender significado linguístico em termos do significado do falante, e o significado do falante em termos da intenção do falante em induzir uma crença na audiência através de uma elocução acompanhada pelo reconhecimento da audiência que a elocução foi produzida por tal intenção. Outra linha de pensamento proeminente na área, devido à Jerry Fodor [b. 1935], é a afirmação que linguagem pública é feita possível por uma linguagem do pensamento, que é inata e não precisa ser aprendida.

Uma ordem contrária de explicação, identificada com Wittgenstein em meio a muitos outros, dá uma prioridade explanatória para práticas linguísticas sociais no entendimento da intencionalidade discursiva. Michael Dummett [b. 1925] vigorosamente expressa uma das consequências desse método:

Nós nos opusemos, em suma, a visão que asserções são a expressão de um ato interior de julgamento; julgamento, ao invés disso, é a interiorização do ato externo de assertar.[7]

Essa maneira de alterar a estratégia explanatória tradicional é mais extrema do que é necessário para reconhecer o papel crucial da linguagem pública. Donald Davidson [1917-2003]diz que para ser um sujeito dotado de crença no sentido discursivo, tal sujeito deve ser um intérprete do discurso de outros.  Mas ele também diz que:

Nem a linguagem nem o pensamento podem totalmente ser explicados em termos um do outro, e nenhum tem prioridade conceitual. Os dois estão, de fato, conectados no sentido que cada um requer o outro para ser entendido, mas tal conexão não é tão completa que qualquer um seja suficiente, até mesmo quando razoavelmente reforçado, para explicar o outro.[8]

Apesar de Davidson compartilhar algumas motivações importantes com a teoria puramente linguística de Dummett, de fato essas duas visões ilustram uma diferença importante entre duas maneiras possíveis de dar proeminência para a prática linguística ao pensar sobre a intencionalidade discursiva. A afirmação de Davidson, em contraste com a de Dummett, serve para resumir uma visão relacional da significância da linguagem para a sapiência: tomando que o uso de conceitos não é inteligível em um contexto que não inclua o uso de linguagem, mas não insistindo que práticas linguísticas possam ser compreendidas sem apelo ao mesmo tempo a estados intencionais como crenças.

De acordo com tais visões relacionais, a transição de mera senciência para sapiência (de intencionalidade prática para discursiva) é efetiva ao adentrar-se numa linguagem: participar em práticas linguísticas sociais discursivas. A capacidade de pensar no sentido discursivo —isto é, ter pensamentos com conteúdo proposicional ou conceitual, ser capaz de pensar que coisa são de um jeito ou de outro (uma questão de saber que, não somente saber como)—e a capacidade de falar surgem e se desenvolvem juntas. Para Wittgenstein, a essencialidade da linguagem pública para a capacidade do pensamento individual é uma consequência da normatividade da intencionalidade discursiva. Ele endossou uma ordem de explicação pragmatista que entende normas discursivas em sua primazia implícitas em práticas sociais (“usos, costumes, instituições” como ele coloca).[9]A capacidade de fazer asserções explicitamente proposicionais e ter pensamentos com conteúdo conceitual é inteligível somente no contexto de práticas linguísticas sociais normativas.

VI. Unificando uma Pragmática Normativa Social e uma Semântica Inferencial para a Intencionalidade Discursiva

Um inferencialista com relação ao conteúdo discursivo que compreende normas discursivas como implícitas em práticas linguísticas sociais e que mantém uma visão relacional da prioridade da linguagem e do pensamento irá tomar que o aspecto central da intencionalidade discursiva é encontrado no papel que sentenças declarativas fazem ao expressar conteúdos proposicionais em um ato de fala de asserção. Essa conexão entre a categoria sintática de sentenças declarativas, a categoria semântica de proposições, e a categoria pragmática de asserções é o triângulo de ferro da discursividade. Um pragmatista com respeito às relações entre tais categorias tem que os elementos sintáticos e semânticos são, em última instância, compreendidos em termos dos pragmáticos. É o papel deles na prática de assertar, de reivindicar que coisas são desse ou daquele jeito, que é requerido no discernimento de sentenças declarativas e conteúdos proposicionais.  Conteúdos proposicionais tanto servem como razões, como são necessitados de razões—isto é, podem performar o ofício tanto de premissas ou de conclusões em inferências.  Portanto, o inferencialista pragmatista toma que o distingue o ato de fala de asserção é o seu papel em práticas de dar e pedir por razões.

Uma maneira de construir uma pragmática normativa social e uma semântica inferencial para a intencionalidade discursiva é pensando em práticas linguísticas em termos de uma pontuação deôntica. Um status normativo aparece como um status social. O status deôntico paradigmático é o comprometimento. A ideia é que devemos entender o que um sujeito está fazendo ao performar uma asserção como tendo um tipo distintivo de comprometimento: fazer uma afirmação é buscar sustentar uma afirmação. Se adquirir o status de estar comprometido da maneira comumente tida através da pronúncia assertiva da sentença p for algo significante, então há de haver consequências. O inferencialista diz para procurarmos por consequências inferenciais (e antecedentes): pelo que mais alguém se torna comprometido ao assertar (o que segue de p) e ao que iria se comprometer o sujeito ao assertar (do que segue p).  O pragmatista diz ]para entendermos isso em termos do que um sujeito é obrigado (ou permitido) a fazer, ao assertar p. Entender um ato de fala assertivo é saber como manter a pontuação dos comprometimentos que o sujeito tomou ao performar tal ato. Ao tomar um comprometimento para p, o sujeito que assertou obrigou a si mesmo a reconhecer outros comprometimentos: aqueles que seguem de p. O sujeito também autorizou outros interlocutores a atribuírem aquele comprometimento a ele.  Além disso, o sujeito se colocou sob uma obrigação de oferecer uma justificação (dar razões) para sua asserção, se sua autoridade for devidamente desafiada. A ideia é que exercer tal autoridade articulada inferencialmente e cumprindo tal responsabilidade articulada inferencialmente é o que alguém deve fazer (as responsabilidades de tarefas que devem ser cumpridas) para contar como responsável ou comprometido —não em como fazer algo, mas para o quê nesse contexto de pontuação sócio-prática se mostra como o conteúdo proposicional p.

Para tal prática assertiva idealizada contar como uma de dar e pedir por razões, tem que haver uma diferença entre comprometimentos pelos quais um sujeito pode dar uma razão (portanto cumprindo sua responsabilidade de uma tarefa justificatória) e aqueles pelo quais um sujeito não pode. Isto é, tem que haver uma distinção entre comprometimentos em que o declarante é (racionalmente, inferencialmente, por meio de evidências) intitulado, e aqueles em que ele não é intitulado. Portanto, na prática, para tomar ou tratar uma performance como uma asserção de um conteúdo proposicional específico, outros interlocutores devem manter-se cientes não somente de como aquela performance modifica a pontuação de com o quê o declarante está comprometido, mas também o que ele (e outros) tem intitulação sobre. Manter a pontuação discursiva requer atribuições de dois status deônticos: comprometimentos e intitulamentos (com relação a comprometimentos), e requer saber como diferentes atos de fala modificam as “pontuações” deônticas de vários interlocutores —que podem se tornar intitulados a novos comprometimentos fiando-se na autoridade de outros declarantes (para quem eles podem submeter a sua responsabilidade justificatória). Essa narrativa de manutenção de pontos deôntica é um esboço de como intencionalidade discursiva é inteligível enquanto emergente de exercícios de intencionalidade prática que contém a estrutura social e normativa adequada.[10]

Interlocutores reconhecendo e atribuindo dois tipos de status deônticos normativos, comprometimentos e intitulamentos. podem distinguir três tipos de relações consequenciais práticas entre eles, que geram três tipos de relações inferenciais, e uma relação de incompatibilidade material. Interlocutores que tomam qualquer um que esteja intitulado à também (prima facie) como intitulado à q, desse modo, endossam na prática uma relação inferencial (em termos de provas:evidencial) permissiva entre . Isto é uma generalização, do caso lógico-formal ao caso de conteúdo material, de inferência indutiva. (O barômetro está caindo, portanto haverá uma tempestade). Interlocutores que tomam qualquer um que esteja comprometido à também como comprometidos à q, desse modo, endossam na prática uma relação inferencial (em termos de disposição: evidencial) de comprometimentos entre q.  Isto é uma generalização, do caso lógico-formal ao caso de conteúdo material, de inferência dedutiva. (Se a amostra é de cobre puro, irá conduzir eletricidade). Interlocutores que tomam ou tratam na prática qualquer um que esteja comprometido à como não intitulados à q, e vice versa, desse modo, tratam as duas asserções expressas como incompatíveis materialmente (A figura plana não pode ser, ao mesmo tempo, quadrada e circular). Interlocutores para os quais tudo incompatível com é incompatível com p, por meio disso, tomam ou tratam na prática como incompativelmente implicado por (tudo incompatível com Pedro sendo um mamífero é incompatível com Pedro sendo um asno, portanto Pedro ser um asno nesse sentido implica nele sendo um mamífero). Essas são implicações de suporte contrafactual, modalmente robustas.

Quando um interlocutor faz uma asserção ao proferir p, os interlocutores mantendo as pontuações tomam ou tratam-no como também comprometido às consequências de comprometimento de p, intitulações de retirada atribuídas às quaisquer afirmações incompatíveis com p, e se eles tomarem que ele está também intitulado à p, atribuem-no mais intitulações para suas consequências permissivas a ele e a qualquer um na audiência que esteja impedido em virtude de comprometimentos incompatíveis. Adotar essas atitudes deônticas práticas de manutenção de pontuações é o que aqueles que apreciam a significância prática do ato de fala devem fazer para assim contar como implicitamente tomando ou tratando a elocução como tendo um papel funcional em virtude de expressar um conteúdo proposicional discursivo. Outros usos de linguagem são construídos nesse núcleo inferencial-assertivo (o “centro da cidade” da linguagem), e fazem uso dos conteúdos conceituais outorgados por tal núcleo.

VII.  Lógica:  o Órgão de Autoconsciência Semântica

De acordo com essa narrativa sócio-prática inferencialista sobre a estrutura da intencionalidade prática (saber como, habilidades) que se soma à intencionalidade discursiva (saber ou acreditar que as coisas são desse ou daquele jeito)—uma narrativa sobre pragmática, ou o uso da linguagem (as normas implícitas nas práticas de manter pontuações deônticas)—está sendo tomado ou tratado na prática como se colocando em relações de inferências (e incompatibilidades) materiais em virtude das quais as expressões vêm a ter conteúdo discursivo semântico proposicional e, portanto, ser capaz de fazer algo explícito, no sentido de ser algo capaz de dito, assertado, afirmado ou pensado. Usando de alicerce esses tipos de habilidades e práticas intencionais discursivas (sapientes) básicas, também é possível para tais praticantes que façam explícito proposicionalmente tais relações normativas materiais de incompatibilidade e inferência, que estão inicialmente implícitas nas atitudes discursivas práticas que os que mantém os placares deônticos adotam uns com os outros.

De forma mais central, relações inferenciais (incluindo inferências materiais) podem ser colocadas em formas de asserção (proposicional, explícita) pelo uso de locuções condicionais.  Pode-se expressar explicitamente o endossamento que se tem da inferência de p para q ao assertar “S e p, então q“. Relações de incompatibilidade podem ser explicitadas usando operadores de negação.  Pode-se expressar explicitamente a relação de incompatibilidade de p com q que alguém toma como válida ao assertar “Não (p&q).”[11]Operadores condicionais e de negação são parte de um vocabulário lógico (de fato, versões destes operadores são suficientes para definir o cálculo proposicional clássico). O papel expressivo característico do vocabulário lógico serve para explicitar as relações de incompatibilidade e inferências materiais em virtude de que um vocabulário não-lógico expressa o conteúdo semântico que o faz ter tal função. É através do papel que cumprem numa estrutura de tais relações que expressões adquirem o conteúdo proposicional que permite a consciência sapiente e discursiva, que consiste em afirmar ou julgar explicitamente que as coisas são deste ou daquele jeito. Vocabulário lógico faz possível consciência sapiente, discursiva e explícita de relações de incompatibilidade e de inferências materiais semantogênicas. A lógica é o órgão de autoconsciência semântica.

Nessa perspectiva do papel expressivo que demarca o vocabulário como distintivamente lógico, é inteligível que devam existir criaturas que são racionais, mas ainda não lógicas. Ser racional é engajar em práticas de dar e pedir por razões, isto é, fazer asserções articuladas inferencialmente e justificá-las. Para fazer isto, um sujeito deve atribuir e reconhecer comprometimentos e intitulamentos, e na prática manter-se ciente das relações inferenciais ao longo das três dimensões que esses dois status deônticos geram: implicações de permissão, comprometimento e incompatibilidade. No entanto, não é preciso ainda utilizar vocabulário especificamente lógico, que permite que se seja capaz de fazerem explícitas (e sendo assim estar discursivamente consciente) as relações de incompatibilidades e inferências materiais. Ao ser racional, um sujeito já sabe como fazer tudo que é preciso para que se saiba como introduzir vocabulário lógico. Mas até que tal vocabulário de explicitação semântica seja empregado, criaturas racionais não precisam ser autoconscientes semanticamente, isto é, criaturas lógicas.

Não somos assim, mas nossos ancestrais hominídeos podem ter sido.

VIII. Perspectivas Pragmáticas Sócio-normativas e a Dimensão Representacional do Conteúdo Semântico Discursivo

Acompanhar na prática os comprometimentos e intitulamentos articulados inferencialmente (isto é, engajar em práticas discursivas) requer a distinção entre status normativos que se atribui (ao outro) e aqueles que se reconhece (por si mesmo). Essa distinção da perspectiva social entre atitudes normativas significa que existem duas visões das quais se pode avaliar os comprometimentos consequenciais de outrem. Para as hipóteses auxiliares ou as premissas colaterais, o sujeito combina com o comprometimento declarado de outro para extrair suas consequências (sejam elas de permissão, de mais comprometimentos ou de implicações de incompatibilidade) que podem ser obtidas ou de outros comprometimentos que o sujeito atribui àquele interlocutor, ou daqueles que o sujeito toma para si. Suponha que S atribui para A um comprometimento com a afirmação “Benjamin Franklin era um tipógrafo” (talvez, pautado por ter escutado A fazer tal asserção). Se S também atribui para A comprometimento para “Benjamim Franklin é (=) o inventor do para-raios”, então S deve também atribuir para A um comprometimento com “O inventor do para-raios era um tipógrafo”. Mas suponhamos que S, mas não A, está comprometido com “Benjamim Franklin é (=) o inventor de bifocais”. Deve S atribuir à A comprometimento com “O inventor de bifocais era um tipógrafo”? Dado o fato (como S toma por fato) que Franklin inventou bifocais, isto é de fato uma consequência da asserção original de A. No contexto daquele fato, uma afirmação sobre Ben Franklin é uma afirmação sobre o inventor das bifocais, mesmo que A não saiba disso. Portanto num sentido genuíno e importante, A vai ter, sem saber, se comprometido com a afirmação de que o inventor de bifocais era um tipógrafo. Mas esse é um sentido diferente do qual A se comprometeu com o inventor do pára-raios ter sido um tipógrafo.

Quando a adoção prática de uma atitude normativa de atribuição de um comprometimento para outro interlocutor é feita de forma proposicionalmente explícita pelo uso de locuções que permitem que se diga quais comprometimentos se atribui praticamente para outro, essa diferença em perspectiva social se manifesta em dois tipos de atribuições de atitude proposicional. Comprometimentos consequenciais atribuídos somente na base de comprometimentos dos quais o alvo afirmaria são atribuídos de dicto. S pode dizer “A assevera (crê, está comprometido com a afirmação) que o inventor do para-raios era um tipógrafo”. Comprometimentos consequenciais atribuídos parcialmente na base de comprometimentos os quais o alvo afirmaria e parcialmente pelo uso de premissas colaterais que o atribuidor, mas não o alvo da atribuição, afirmaria são atribuídos de re. S pode dizer “A assevera do inventor das bifocais que ele era um tipógrafo”. Ao colocar dessa forma, S demarca que, ao mesmo tempo em que ele está atribuindo para A responsabilidade pela afirmação como um todo, o próprio S está se submetendo à responsabilidade pela inferência de substituição licenciada pela identidade “Benjamin Franklin é o inventor das bifocais” (que é um comprometimento o qual ele não atribui para A).[12]

Locuções que atribuem atitudes proposicionais, tais como afirmações e crenças, permitem que seus usuários façam explícita suas manutenções de placares deônticos na atividade de atribuição de comprometimentos, isto é, usar tal vocabulário empodera-os com a capacidade de dizer que adotam tais atitudes, que de outra forma permaneceriam implícitas nas atividades que eles praticam. A performance desse ofício expressivo com respeito às atitudes sociais normativas, no lado da pragmática, marca-os como outra espécie do mesmo gênero de explicitação como um vocabulário lógico, que faz um serviço correspondente no lado da semântica, ao fazer explícito comprometimentos inferenciais. O que S está fazendo ao efetuar atribuições de re é expressar a distinção da perspectiva social entre comprometimentos atribuídos (Ben Franklin era um tipógrafo) e aqueles comprometimentos tomados para si (Ben Franklin inventou as bifocais). Mas o que se está dizendo é o quê aquele aos comprometimentos são atribuídos estava falando sobre. Atribuições de re de atitudes proposicionais são o lar do jogo de linguagem de locuções representacionais: as usadas para tornar explícito o que se está falando ou pensando sobre. O que elas fazem explícito é a dimensão representacional da intencionalidade discursiva.

Essa dimensão representacional está sempre implícita na distinção da perspectiva social que é integral para o acompanhamento dos comprometimentos atriculados inferencialmente dos outros. Pois aqueles que mantém placares deônticos, jogadores do jogo de dar e pedir por razões, se importam com o que segue das afirmações de outros por duas razões. Eles se importam com os comprometimentos consequenciais que seriam atribuídos como de dicto pois eles querem saber o que mais o alvo endossaria e o que ele faria baseando-se nos comprometimentos que ele reconhece. Eles se importam com os comprometimentos consequenciais que seriam atribuídos como de re pois eles querem extrair informação das afirmações de outros—isto é, premissas que o atribuidor pode usar nas suas próprias inferências. Se S atribuí para A a intenção de atirar em um veado e a crença de que a criatura fulva na frente de A é um veado, a atribuição de dicto “A acredita que a criatura fulva em sua frente é um veado, e que atirar nessa criatura iria realizar a sua intenção,” S irá prever que A irá atirar. Se S, mas não A, crê que a criatura fulva em frente a A é (=) uma vaca, então a atribuição de rede S será: “A crê da vaca em sua frente que esta é um veado, e que atirar nessa criatura iria realizar sua intenção,” S irá prever que o resultado da ação de A será um tiro em uma vaca. Isso é uma inferência que S está em uma posição de extrair dos comprometimentos declarados de A, mesmo que a informação não esteja disponível para A.  Acompanhar quais premissas estão disponíveis para o raciocínio dos outros e quais premissas estão disponíveis para o nosso próprio raciocínio é o que estamos fazendo quando falamos ou pensamos sobre o que falamos ou pensamos sobre: a dimensão representacional da intencionalidade discursiva.

FIM

[1]   Franz Brentano, “Psychology from the Empirical Standpoint,”tradução de D.B. Terrell, citadoem pp. 119-20 no H. Morick (ed.) Introduction to the Philosophy of Mind: Readings from Descartes to Strawson [Scott, Foresman; Glenview, Ill. 1970].

[2]John Searle, Intentionality [CambridgeUniversity Press, 1983].

[3]Perceba que é pelo menos não muito óbvio que a primeira parte dessa afirmação é verdadeira. Reforçar a barragem poder muito bem ter evitado um possível desastre. Se sim, então a não-existência do desastre foi presumivelmente um efeito causado pelo reforço da barreira.

[4]Eu discuto esses programas em maior detalhe no Capítulo Três de Between Saying and Doing: Towards an Analytic Pragmatism [Oxford University Press, 2008].

[5]Language, Thought, and other Biological Categories [MIT Press, 1987].

[6]   Pp. 306-307 (§107) em: Wilfrid Sellars: “Counterfactuals, Dispositions, and Causal Modalities” NoMinnesota Studies in the Philosophy of Science, Volume II: Concepts, Theories, and the Mind-Body Problem, ed. Herbert Feigl, Michael Scriven, e Grover Maxwell (Minneapolis: University of Minnesota Press, 1958), p.225-308.

[7]Frege’s Philosophy of Language [New York: Harper and Row, 1973], p. 362.

[8]   “Thought and Talk,” em Inquiries Into Truth and Interpretation [New York: Oxford University Press, 1984], p. 156.

[9]Ludwig Wittgenstein Philosophical Investigations, G.E.M Anscombe [Wiley-Blackwell, 3rd edition, 1991] §199.

[10]EudesenvolvoessemodeloemMaking It Explicit: Reasoning, Representing, and Discursive Commitment [Harvard University Press, 1994]—especialmente no Capítulo Três.

[11]Eu suprimo aqui considerações sobre o qu~e operadores modais (também vocabulário lógico) fazem explícito. Incompatibilidade deve ser considerada como “Necessariamente não (p e q)”. Operadores modais e de incompatibilidade são discutidos no Capítulo Cinco de Between Saying and Doing [op. cit.].

[12]Eu discuto a distinção entre atribuições de atitudes proposicionais de dicto e de re no Capítulo Oito de Making It Explicit [op. cit.], e no Capítulo Três deTales of the Mighty Dead: Historical Essays in the Metaphysics of Intentionality [Harvard University Press, 2002].

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: