Tratado Acerca do Absurdismo – Israel Russo

A Filosofia do Absurdo

Introdução

Só existe um problema filosófico realmente sério: o suicídio. Julgar se a vida vale ou não vale a pena ser vivida é responder à questão fundamental da filosofia. O resto, se o mundo tem três dimensões, se o espírito tem nove ou doze categorias, aparece em seguida.”

A citação acima são as primeiras palavras do ensaio filosófico O Mito de Sísifo escrito pelo autor franco-argelino Albert Camus, que é uma das principais bases desse artigo. O intuito aqui é fazer jus à citação, pois sua veracidade é notável; ora, ninguém tira sua própria vida por não conseguir resolver o problema dos universais, mas sim por um confronto direto com questões existenciais que há muito incomodam a mente do homem. “Por quê?” e “Para quê?” são perguntas que, ao se chocarem com a existência de quem as proferem, causam a angústia, a sensação de abandono no mundo, o medo e o desespero. O homem esperançoso lança suas perguntas ao mundo, mas o mundo permanece em silêncio. O silêncio do mundo, em algumas ocasiões, pode tornar a vida tão insuportável ao ponto de levar o sujeito a querer findar sua existência por sua própria vontade. A partir dessa problemática, surgem muitos sistemas de pensamentos tentando solucioná-la, mas, levados às últimas conseqüências, todos esses sistemas são insuficientes para sanar o homem. Então, o único sistema de pensamento que comporta todas as questões e responde de maneira satisfatória é o Absurdismo (muito embora essa satisfação exija uma reflexão profunda, pois só é possível dar as chaves do castelo, o resto é por conta do sujeito), uma corrente que pega essas questões existenciais e as caracterizam como o absurdo, mas não é tão simples entender completamente a filosofia do absurdo, tão pouco compreender significa contemplar; o leitor não irá sofrer danos com a leitura do artigo, pois isto só é possível em uma contemplação independente.

O que é absurdismo?

O conceito de absurdismo foi cunhado no século XIX pelo filósofo Dinamarquês Søren Kierkegaard, mas só foi desenvolvido como uma corrente filosófica no século XX pelo filósofo, escritor e romancista franco-argelino Albert Camus, nascido em 7 de novembro de 1913 na cidade de Mondovi e falecendo em 4 de janeiro de 1960 aos 46 anos em uma viagem de carro. Ao longo de sua vida, Camus se envolveu em diversas causas sociais; como base de sua espécie de “altruísmo”, estava sua filosofia absurdista, que ao desenvolver a consciência do absurdo, chega a um humanismo. Um grande exemplo de seu humanismo pode ser visto em sua desavença com o filósofo (até então seu amigo), também francês, Jean-Paul Sartre (1905 – 1980); Camus declarou em seu ensaio “O Homem Revoltado” que o homicídio é injustificável, mesmo que para um bem maior. A questão é que Sartre estava atrelado com os ideais comunistas, o que pressupunha o “homicídio justificado”. Todavia, para Camus, é necessário que haja vida para que exista a consciência do absurdo, de onde deriva um direito à vida a todos (mais sobre esse conflito no decorrer do texto). O filósofo ainda foi premiado com um Nobel por seu romance “O Estrangeiro”. Era uma pessoa cheia de vida e energia, entusiasta do esporte e dos prazeres do corpo, festivo e elegante. Faleceu aos 46 anos, uma obra absurda do acaso; Camus morreu em um acidente de carro, em seu bolso tinha uma passagem de trem que ele decidiu no último segundo não usá-la. Uma morte absurda para um homem absurdo. Suas três obras supracitadas (O Mito de Sísifo, O Estrangeiro e O Homem Revoltado) serão tratadas no decorrer do artigo.

É muito comum que se confunda o absurdismo com existencialismo, afinal ambas as correntes abordam as mesmas questões existenciais e suas consequências, no entanto, o que diferencia as duas correntes são as soluções propostas por cada uma. Dentro do próprio existencialismo podem-se notar distintas soluções. No existencialismo cristão de Kierkegaard, por exemplo, a solução apresentada por ele é o salto de fé; a inexistência de um sentido para a vida seria o motivo para acreditar em Deus, isto é, dar um salto na fé e usá-la como suas bases para acabar com o sentimento de absurdo. Mas isso nada mais é que uma forma de suicídio para Camus; como ele denomina “suicídio filosófico”. Ora, se a fé é inquestionável, nega-se a razão e negar a razão é como tirar de sua vida o princípio questionador de sua natureza, o que o define como sendo ser humano. Não é uma afirmação que Deus não exista, mas é uma apelação recorrer a ele para solucionar este problema mesmo não podendo provar sua existência (através da filosofia, pois não há outra via para se investigar a natureza ou existência de Deus). Logo essa solução é considerada insuficiente e apelativa, um suicídio do Eu filosófico; o homem precisa, ao invés de se esconder atrás da fé, encarar o absurdo.

O niilismo (e aqui será tratado apenas o niilismo que tange a filosofia nietzschiana) também se distingue do absurdismo, mesmo sendo muito parecidos. O absurdista reconhece que não necessariamente a vida e a existência não tenham um sentido inerente, mas a condição humana é impossibilitada de compreender esse sentido, caso ele exista; enquanto o niilismo não aceita que exista nenhum sentido intrínseco à vida. No entanto, basta um exercício mental para perceber que essa negação total está no mínimo equivocada. Se um homem perdido na solidão e no tédio de sua casa vazia resolve tentar imaginar o tempo como sendo simultâneo, este não o consegue; se o mesmo conceber o nada absoluto, este não o consegue. Todavia, conceber o tempo como sendo simultâneo é uma impossibilidade humana, mas o tempo pode ser compreendido desta maneira por outro tipo de ser. É a limitação dos nossos sentidos e da nossa compreensão que faz o absurdista afirmar que a vida pode ou não ter um sentido inerente, mas o homem não poderia alcançá-lo se houvesse. Ademais, o niilismo propõe, em consequência da falta de sentido, uma negação total dos valores da sociedade, pois estes não partiram do sujeito, mas de uma tradição que impede o homem de transcender a própria humanidade, ele é limitado por valores supostamente impostos pelos mais fracos. Se o homem nega todos os valores existentes, cabe a ele viver de acordo com seus próprios valores. O absurdismo, em contraste, não nega os valores existentes, mas impõe limites a eles, não aceitando que esses valores ultrapassem sua liberdade e o direito à vida. Muito embora haja discordância entre niilismo e absurdismo, também há semelhanças, assim serão explanados ao longo do artigo.

Quando se fala de Sartre e Camus, é sugestivo que se trata de uma discordância, mas no caso, não é necessariamente sobre o existencialismo sartreano e sim, muito mais, sobre suas opiniões políticas. Mesmo Camus tendo participado de muitos movimentos sociais, em suas obras ele se opõe a tais lutas quando partem de um idealismo; quando Camus disserta sobre o suicídio político, nasce mais um motivo de discórdia com Sartre. O suicídio político é uma reação ao absurdo; após esse sentimento angustiante provocado pelo confronto com o absurdo, os homens buscam desesperadamente um significado, um propósito e encontram rapidamente em ideologias políticas pelas quais lutarem. Entretanto, a utopia não é uma consolação definitiva para o homem, pois o sentimento de absurdo não se trata da simples infelicidade do homem, isso transcende sua condição financeira, social etc. lutar por ideologias utópicas, esperando que um mundo melhor possa matar o monstro do absurdo é sinônimo da não compreensão do absurdo, pois ele não pode ser morto pela condição de vida. Quem sabe que não tem um “porquê”, não importa o “como”, a falta do porquê sempre virá à tona.

O sentimento do absurdo pode levar o sujeito ao suicídio físico, assim como a depressão, porém, não devem ser confundidas, pois essas situações têm tratamentos diferentes. A depressão pode ser caracterizada pela falta de interesse ou vontade para atividades; baixa auto-estima e, acima de tudo, a depressão é um distúrbio, considerado uma doença que precisa de ajuda profissional. Em total contraste, se encontra o problema do absurdo, que não é um distúrbio e nem uma doença; o sujeito não tem problema de auto-estima ou a indisposição, característica da depressão. Para o psicólogo ou qualquer profissional é um problema impossível de ser solucionado, pois o absurdo é um problema unicamente filosófico. Aquele que se encontra contemplando o absurdo e por ignorância é tratado como depressivo, realiza um esforço inútil. A melhor maneira de lidar com o absurdo é compreendê-lo e aceitá-lo.

O que é o Absurdo?

Há muitas maneiras de se entender o termo “absurdo”; dentro do próprio absurdismo ele pode ser definido de acordo com o grau de compreensão dessa filosofia. Etimologicamente, do latim “absurdo”, que significa “o que é incompreensível”. Na maioria dos dicionários o absurdo é colocado como um sinônimo de contradição, incoerência paradoxal etc., mas, à primeira instância, o absurdo pode ser definido como uma contradição entre dois termos; uma contradição incompreensível. Essa definição pode ser muito bem aplicada na maioria das situações que consideramos absurdas. Assistindo um desenho animado tradicional de perseguição, é possível notar inúmeras absurdidades; um personagem que só cai de um penhasco quando percebe que não está sobre nenhuma superfície, nota-se o absurdo, uma contradição entre o personagem sob o nada e a lei da gravidade; o absurdo é ilógico. Do mesmo modo, o absurdo é visto na filosofia como uma contradição entre dois termos, o termo homem e o termo universo.

Para entender o que é o homem nesse contexto é necessário fazer uma pequena viagem no tempo, para compreender como se tornou o que é nessa contradição. O que define o homem é o que o diferencia do restante da natureza, mas essa diferença não é una e não apareceu simultaneamente; foi um enorme processo de evolução marcado por eventos que mudaram o que é o homem. São dois eventos principais para entender quem é o homem do absurdismo; o primeiro evento é chamado de “a revolução cognitiva”. Não é possível saber quando, como ou o porquê ocorreu essa revolução, mas indubitavelmente ocorreu. Acredita-se que tenha ocorrido por volta de 30000 e 70000 anos atrás, um evento que mudou completamente o rumo da história da humanidade; simplesmente por que o homem passou a ser capaz de atribuir sentido aos fenômenos, dar significado às coisas. A primeira vista, essa capacidade pode parecer ínfima, no entanto, ela é que tornou possível o homem compreender o mundo à sua volta de uma nova maneira e contar histórias sobre ele. O ato de contar histórias criou laços afetivos entre seres humanos que agora viam todo o mundo com algum sentido mitológico; isso solidificou a sociedade humana, fortificou os grupos sociais e fez com que o homem se sobressaísse na natureza, desenvolvendo tão rapidamente que dominavam tudo por onde passavam. Isso porque agora os homens tinham muito mais em comum, as histórias contadas moviam a sociedade para um propósito. Mas foi só depois de cerca de vários milênios que ocorreu o segundo evento extremamente importante: a primeira revolução agrícola (houve uma segunda no século XVIII d.C na Europa). Segundo a mitologia grega, foi quando Prometeu trouxe o fogo para os homens (um exemplo de atribuição de sentido à descoberta do fogo); com esse novo recurso, o homem sofisticou suas ferramentas e sua maneira de produção de alimentos. Além disso, o homem também passou a domesticar animais, o que provocou grandes mudanças, como a diminuição do deslocamento para conseguir alimentos. O homem deixou de ser nômade e o sistema de caça para se tornar agricultor e sedentário. Os registros arqueológicos de produção agrícolas mais antigos que temos estão na cidade de Jericó; mais tarde chegaram à Suméria e logo chegaria a todo mediterrâneo, norte da África e grande parte da Europa. Mas quando esse sistema de civilização atingiu as regiões da Grécia, esse evento provocou uma mudança em toda a configuração da estrutura social. No sistema de caça, o homem dedicava a maior parte do seu tempo para a sua própria sobrevivência, lutando contra a fome, predadores e outros grupos de humanos. Já na agricultura, a produção de alimentos não é mais escassa; esse sistema proporciona um excedente de produção e tal excedente pode ser destinado para a manutenção da vida dos inimigos capturados nas guerras, isto é, escravos. Com isso, o cidadão grego (o que nesse contexto requere que indivíduo seja do sexo masculino tenha mais de 21 anos, seja livre e nascido na Grécia) não precisava mais se preocupar o tempo todo com sua sobrevivência. Essa comodidade levou homens como Tales de Mileto a sentirem que as histórias míticas eram insuficientes para explicar o mundo; essa é uma mudança fundamental para o homem do absurdismo, pois é nesse processo gradual que o homem abandona os mitos e se dedica a filosofia. Em outras palavras, o homem deixa de atribuir sentido arbitrário ao mundo e passa a postular um sentido lógico, que esteja de acordo com a razão. Então está pronto o homem como termo do absurdo: “O homem é um ser que postula um sentido para o mundo.” Toda essa viagem pode parecer inútil, mas ela mostra como é essencial o homem ser o que é para que haja o absurdo, pois se assim não fosse, tal absurdo não existiria. Por quê? Antes é necessário explanar o segundo termo dessa contradição.

Sobre o universo, é interessante observar um breve texto escrito pelo autor do presente artigo, onde há um monólogo do universo, caso ele pudesse falar:

Eu não sou mudo, mas não posso falar; não tento me expressar, pois não sinto coisa alguma, mas se eu pudesse falar, se eu pudesse me expressar, eu diria que não me importo. Não me importo com você, nem com suas convicções; suas crenças não me influenciam em nada. Não farei nada ao seu favor, nem contra você, pois não sinto vontade de nada; sou completamente indiferente perante sua existência. Você não será a primeira e nem a última parte do meu todo que age por vontade própria e que se percebe; não passará de um segundo em toda minha história. Sou o que sou e não posso deixar de ser; sempre fui e sempre serei, mesmo que de maneiras as quais você não compreenda. Seu tempo segue a luz, eu sou antes e depois dela. Já fui tanto que sua prepotência ao acreditar ser importante é cômica. Todavia, você não é o primeiro, muitos antes de você pensavam o mesmo, não há nada de novo. Pode usar sua vontade para fazer o que tu queres, por maior que sejam suas obras não me lembrarei de você. Se quiseres um conselho, pare de se iludir achando que eu olho por você, pois também não posso ver; não te atrevas a tentar me entender, você ao menos sabe quem é você. Aliás, quem sou eu? Por que sou? Por que ser? Se sempre fui, nada nunca é e também não pode ser, desse modo, não fui e nem serei, mas apenas sou.”

Todo aquele que acredita que o universo conspira contra sua vida ou que o universo esteja a favor de si, é no mínimo uma pessoa arrogante. Achar que o universo agiria em detrimento ou a favor de si é acreditar que tem alguma importância para o mesmo, enquanto o universo é totalmente indiferente e silencioso. O homem postula sentido, mas o universo permanece calado, pois não há um sentido, um por que último que o universo pode oferecer; essa é a contradição entre os dois termos, o homem que anseia por resposta de um mundo que permanece em silêncio. Esse é o absurdo, que não pode existir se o homem não for o que ele é, ou seja, não é o universo que é absurdo, nem o homem, mas a relação entre esses dois termos.

Como supracitado, o sentimento do absurdo transcende a condição financeira, amorosa, social etc. é um sentimento que pode atingir o homem em qualquer situação e geralmente é nas situações mais corriqueiras que o homem se depara com o absurdo. Apesar de sempre estar vulnerável, é mais comum e mais provável que o indivíduo experimente esse sentimento quando está envolvido em uma rotina; trabalho de segunda a sexta, levantar às seis horas da manhã, tomar café, pegar o ônibus e ir para o trabalho. Passar dez horas em um escritório e voltar para casa, para sua família. Em um dia como qualquer outro, depois de seu expediente, o sujeito está sentado no ponto de ônibus esperando que o seu passe, mas a demora é grande, o que lhe dá tempo para olhar em volta e observar várias outras pessoas envolvidas em suas rotinas, quando surge a questão mais perigosa de sua vida: “Por quê?” É assim que começa, o sujeito se pergunta o porquê de estar fazendo aquilo tudo, mas não é um simples por que respondido por um mesquinho “preciso de dinheiro para isso ou aquilo”, pois se ele tenta responder com isso, logo virá outro por que e virão mais até que não haja mais uma resposta. Isso basta para deixar o homem assombrado com essa realidade; a falta de sentido, motivo ou significado lhe joga no fundo do poço de sua psique. Antes que o homem possa pensar em alguma maneira de reagir a isso, ele ainda cava mais fundo nos questionamentos desse absurdo e encontra o que pode lhe colocar o desejo de abreviar sua existência, a falta de necessidade.

O Mito de Sísifo

Essa narrativa grega tem se tornado cada vez mais popular no meio intelectual devido ao conteúdo produzido pela mídia associado ao absurdismo e niilismo; todavia, será extraído nesse artigo o que é mais necessário para compreender a falta de necessidade que o homem enxerga na vida. Sísifo era um camponês, filho do deus do vento Éolo; foi o fundador da cidade de Corinto (segundo o mito) e era considerado o homem mais inteligente e ardiloso de seu tempo. Sísifo como rei de Corinto teve diversas desavenças com os deuses, mostrando sua inteligência e audácia para enganá-los. Porém, os deuses não aceitaram de bom grado sua insolência e resolveram puni-lo da pior forma possível, algo que seja insuportável para um ser humano e é aqui que se extrai o mais importante desse mito. Os deuses condenaram Sísifo a rolar uma pedra ao topo de uma colina todos os dias, mas à medida que ele chegasse ao topo, a pedra rolaria de volta e ele teria de descer à superfície e rolar a pedra novamente por toda eternidade. Mas antes de aplicarem a punição à Sísifo por profanar os deuses e enganá-los, os deuses disseram a seguinte frase: “Não existe castigo pior para o homem que o trabalho inútil.” Essa frase não poderia ser mais verdadeira; um ser que postula sentido está condenado a um trabalho inútil, sem sentido.

No fim do dia, quando Sísifo está terminando seu trabalho chegando ao topo, a pedra torna-se tão pesada que rola de volta à superfície; Sísifo então precisa descer a colina para recomeçar tudo de novo e é nesse percurso de volta é que ele percebe a sua condição, a inutilidade a que está condenado. Vem com a consciência do trabalho inútil a revolta; Sísifo se encontra revoltado com sua condição, não é possível para ele aceitar aquilo, mas não há outras opções para ele. Agora se torna possível uma segunda definição de absurdo, o absurdo é a consciência da falta de sentido. Essa consciência não aparece enquanto Sísifo rola a pedra, mas sim quando ele está descendo de mãos vazias para recomeçar; nesse momento, como o final de mais um dia inteiro no escritório (ou qualquer outro emprego que seja) que o homem percebe a falta de sentido, como já foi dito, quando aparecem os porquês.

Esse mito grego causa no mínimo um sentimento estranho para quem o lê, pois a condição de Sísifo é a mesma condição de todos os homens; o homem abalado pelos porquês entende que como o trabalho de Sísifo é inútil, todo trabalho é inútil. Por que levantar todas as manhãs e traçar o mesmo caminho? Não há um motivo, um por que último; essa condição causa medo, assombro e estranheza aos homens, que passarão todo o tempo até o recomeço da rotina procurando um por que, mas não o encontrarão.

O sábio Salomão já havia compreendido essa condição humana em seu livro mais emblemático e, pode-se dizer mais absurdista. Vale explanar alguns de seus versículos para perceber como o pregador (como ele se refere no livro) percebe toda inutilidade das ações humanas:

Vaidade (no velho testamento a palavra ‘vaidade’ tem o significado de inutilidade) de vaidades! diz o pregador, vaidade de vaidades! É tudo vaidade. Que vantagem tem o homem de todo seu trabalho debaixo do Sol? Uma geração vai, e outra geração vem; mas a terra permanece […] O que foi, isso é o que há de ser; e o que se fez, isso se tornará a fazer; modo que nada há novo debaixo do Sol. Há alguma coisa que possa dizer: Vê? Isto é novo? Já foi nos séculos passados, que foram antes de nós. Já não há lembrança das coisas que precederam; e das coisas que hão de ser também delas não haverá lembrança, nos que hão de vir depois.” (Eclesiastes 1:2,3,4,9,10,11.)

Nessas passagens, a principal questão aparece logo o início, mas as premissas vêm em seguida, quando Salomão percebe que tudo o que se faz debaixo do Sol já foi feito e não será lembrado por ninguém, pois inúmeras gerações pisaram sobre a Terra, mas o ciclo permanece, a vida humana é contingente, logo, de que valera todo trabalho do homem? Assim, como Sísifo, a humanidade está submetida à inutilidade.

A contradição entre dois termos vem à tona, o homem olha mais uma vez para o universo; este homem está em sua casa, de uma cidade, de um país, de um planeta, mas esse planeta é apenas mais um de um sistema solar dentro de uma galáxia que é só mais uma das bilhões de galáxias do universo observável. Segundo os cálculos, tal universo teria cerca de 13,8 bilhões de anos. O ser humano é totalmente insignificante perante a grandeza do universo, mas não apenas insignificante, o universo é indiferente quanto à vida; ora, planetas conhecidos como Júpiter ou Saturno funcionam perfeitamente sem a existência de nenhum ser vivo inteligente e consciente de si. Na verdade, todo o universo existiria e funcionaria perfeitamente sem a existência da vida, de qualquer microorganismo vivo, pois ele independe disso; é muito arrogante o ser humano acreditar que tem algum significado para o mundo ou uma atenção especial vinda do mesmo. Assim como a humanidade é pequena em questões de espaço, é também pequena em questões de tempo. Se todos os 13,8 bilhões de anos do universo pudessem ser comprimidos em um calendário de um ano, toda a história do homem moderno se encontraria nos últimos instantes de 31 de dezembro, mais precisamente depois das 22h30min, isto é, o homem moderno teria apenas uma hora e meia em um calendário de um ano. O universo existiu todo o tempo antes disso e continuará existindo normalmente e indiferente depois que o evento da humanidade passar. É uma verdade de difícil aceitação, mas a humanidade é passageira, como disse o homem considerado o mais sábio da bíblia Salomão:

Todos vão para um lugar; todos foram feitos do pó, e todos voltarão ao pó.” (Eclesiastes 3;20)

Nesse caso, excluindo a ideia de um criador, mantém-se apenas o entendimento da contingência da existência humana, que veio do pó e ao pó retornará. A humanidade em última instância tende ao nada, mas o nada como a falta de sua existência, pois o Ser, o mundo, continuará. Outro filósofo que retrata muito bem essa contingência e insignificância é Nietzsche:

No desvio de algum rincão do universo inundado pelo fogo de inumeráveis sistemas solares, houve uma vez um planeta no qual os animais inteligentes inventaram o conhecimento. Este foi o minuto mais soberbo e mais mentiroso da história universal, mas foi apenas um minuto. Depois de alguns suspiros da natureza, o planeta congelou-se e os animais inteligentes tiveram de morrer. Esta é a fábula que se poderia inventar, sem com isso chegar a iluminar suficientemente o aspecto lamentável, frágil e fugidio, o aspecto vão e arbitrário dessa exceção que constitui o intelecto humano no seio da natureza. Eternidades passaram sem que ele existisse; e se ele desaparecesse novamente, nada se teria passado; pois não há para tal intelecto uma missão que ultrapasse o quadro de uma vida humana.” (Verdade e Mentira no Sentido Extramoral, 1873)

Nesse trecho fica claro como o ser humano está limitado pela morte e como o mesmo é pretensioso em acreditar ter alguma significância sendo tão pequeno e passageiro.

Depois de se questionar sobre os motivos pelos quais o homem faz o que faz o sujeito para de se perguntar o porquê e passa a se perguntar “pra quê?” Ora, se a humanidade é passageira, pra quê fazer algo? Toda produção, todo trabalho é inútil, pois a humanidade irá se perder no tempo. Não importa a grandeza, seja Alexandre Magnos ou Napoleão, os feitos não serão eternizados, pois durarão à medida que a humanidade existir. Desse modo, todas as ações humanas transparecem para o sujeito sua falta de necessidade, isto é, toda ação humana é contingente. Tendo isso em vista, por que ser o presidente dos Estados Unidos da América? Por que ir trabalhar amanhã? O sentimento do absurdo consome o homem por dentro; é uma condição lamentável e angustiante. Como pensava Heidegger, o homem é um ser para a morte, estando consciente disso, sua existência não tem sentido, não há motivo ou razão de viver, então passasse a cogitar que a morte seja a única solução possível para acabar com esse tormento. Não é um pensamento de todo errado, pois se o absurdo é uma contradição entre dois termos e esses termos são o homem e o universo, se o homem deixa de existir, o absurdo tem seu fim. Todavia, o absurdo não deve ter um fim, ele precisa existir, pois sua contradição é suficiente para preencher o vazio da mente humana; carregar a pedra todos os dias torna-se mais fácil a cada dia, todos os dias adquire mais força e a pedra fica cada vez mais leve. É preciso abraçar o absurdo, admirar o mundo enquanto desce de volta a superfície. É preciso imaginar Sísifo feliz.

O que fazer depois de contemplar o absurdo?

Não é tão simples assim abraçar o absurdo e imaginar Sísifo feliz, essas poucas palavras não irão saciar o desejo de encontrar um sentido para vida, um motivo para se viver.

Após passar por tantos questionamentos angustiantes, o homem está quebrantado, destruído e sem rumo, não há esperança, não há fé, não há luz no fim do túnel. Esse é um dos momentos mais decisivos da vida de um homem; depois de passar por toda desilusão, ele precisa tomar uma decisão. O homem precisa decidir o que irá fazer daí em diante e são poucas as opções, mas é impossível não tomar uma, pois a própria negação total seria uma maneira de lidar com o conhecimento recentemente adquirido. A primeira coisa que passa pela cabeça do indivíduo que contempla o absurdo é o suicídio. Ora, se a vida não tem sentido e viver neste mundo muitas vezes enfadonho, angustiante e dolorido, por que continuar vivendo? O suicídio torna-se uma solução, não uma válvula de escape, como se imagina, pois não há como escapar através da morte, já que quando a morte passa a ser, o homem não é mais. Todavia, o suicídio nesse caso é contraditório em si mesmo; se o motivo pelo qual se deseja a morte é a constatação da falta de sentido, o ato de abreviação da existência é atribuir sentido a morte, como se ela fosse o sentido de viver, logo não faria sentido suicidar-se pela falta de sentido, já que, dessa maneira, há um sentido. Por esse motivo, a morte não deve ser adiantada pelo próprio sujeito por ter contemplado o absurdo, mas sim aceitada. Claro, com isso se responde o porquê viver, mas não o porquê vivo.

No entanto, encerrar a própria vida não é a única maneira de cometer suicídio, existem mais duas formas que envolvem apenas a mente humana. A primeira forma é o suicídio filosófico. Quando Kierkegaard tem um encontro com o absurdo, ele toma uma decisão ou, melhor dizendo, uma crença de que esse absurdo é um motivo para se acreditar em Deus, pois seria impossível viver com ciência do absurdo sem Deus. Immanuel Kant dizia que o homem precisa de Deus para ser feliz. Ambos apresentam que o seu vínculo com Deus é baseado no fideísmo e em uma espécie de pragmatismo; acredita-se em Deus não pelas provas ou evidências (que não devem ser postuladas), mas pela necessidade de que esse exista; é preciso dar um salto de fé. Mas para o absurdismo, o salto é interpretado de outra maneira; não se trata de algo positivo ou negativo, pois o absurdismo é indiferente, porém, o salto é, em outras palavras, um “sacrifício”. O maior dos sacrifícios, o sacrifício do intelecto. Esse salto parte da tentativa desesperada de sanar o sentimento de absurdidade, mas ele não deve ser curado, é preciso aprender a viver com ele. Deixar o que se acabou de compreender para se apoiar em muletas metafísicas por puro espanto é um erro que muitos cometem. Parece um caminho muito fácil, divinizar, buscar um recurso supranatural para dar sentido à vida; mas, como já foi dito, resume-se ao suicídio daquilo que nos faz ser o que somos, é escapar por vias que não se pode saber se são verdadeiras ou não. Caso seja, qual seria o sentido de ser? Ao pensar em jogar o problema do absurdo nos ombros do divido, tenha certeza que não irá postular um sentido para este, pois também não irá encontrar. A falta de sentido não é exclusiva da existência humana, mas sim do Ser. No final, autodestruição do intelecto é uma atitude desesperada, assim como o suicídio físico. Para finalizar o assunto, as palavras de Albert Camus no ensaio O Mito de Sísifo:

Eu tomo a liberdade de chamar agora de suicídio filosófico a atitude existencial. Mas isso não implica um julgamento. É uma maneira cômoda de designar o movimento pelo qual um pensamento se nega a si mesmo e tende a se ultrapassar naquilo que constitui sua negação. Para os existenciais, a negação é seu Deus. Exatamente: esse deus só se sustenta com a negação da razão humana.”

O segundo tipo de sacrifício do intelecto é o suicídio político. O homem que não encontra sentido para sua existência busca significado em ideologias políticas para que haja um propósito que o conforte, até mesmo inconscientemente. Por mais claro que sejam as contradições da ideologia ou movimento político adotados pelo indivíduo, este não o nega, agarra-o como única possibilidade de permanecer confortável com sua própria existência. Exemplos muito claros são: o comunismo, socialismo, fascismo, nacionalismo, anarcocapitalismo etc. Crenças irracionais e cegas que alimentam o desejo insaciável de propósito do homem, mas, como a cegueira do suicídio filosófico, essa também é a que nega tudo em volta, toda a racionalidade por uma vida que tenha um sentido criado por ela mesmo. Apoiar-se nessas crenças é atribuir sentido a elas, um sentido artificial, criado pelo próprio homem e que desperta enorme desprezo dos homens absurdos, pois estes são aqueles que vêem a indiferença do universo e sabem o quão medíocre é acreditar que tem um propósito para existir, mas isso é assunto para um tema futuro.

Além das três formas de suicídio supracitadas, o homem também pode optar pelas distrações. As distrações podem ser hedonistas, buscando o prazer incessantemente, muitas vezes como uma fuga da realidade; por meio de entorpecentes, alucinógenos, sexo e vícios em geral. Não há juízo de valor sobre essas ações, como se fossem positivas ou negativas em sua essência, mas o erro está em quem as pratica. Aqueles que utilizam desses meios para escapar do absurdo cometem o mesmo erro da negação, pois a diversão e distração propiciadas por eles são passageiras, o homem voltará a se deparar com o absurdo e quando já não puder raciocinar direito, não haverá nenhuma opção mais viável que o suicídio. Todas essas práticas são permissíveis, contanto que o objetivo não seja fugir do absurdo. Em contrapartida, existem as distrações que podem ser categorizadas como “fatos sociais”. Na filosofia do sociólogo francês Émile Durkheim (1858 – 1917) os fatos sociais são estruturas sociais que influenciam diretamente o indivíduo, sendo eles existentes na relação do indivíduo com o coletivo. Todas as atividades realizadas pelo sujeito em sociedade, onde existe uma estrutura social, implicam um fato social que podem influenciar – é importante destacar que são influências e não uma determinação advinda de estruturas sociais ou uma consciência coletiva, vide que o próprio Durkheim nega que haja uma consciência além da individual – o íntimo do indivíduo. São exemplos de fatos sociais: instituições religiosas, família, cônjuge, instituição escolar etc. No estudo a cerca do suicídio realizado por Durkheim, todos esses fatos são extremamente importantes para a vida do sujeito para que este não seja levado ao suicídio, já que o sociólogo francês mostra que o caminho para a abreviação da própria existência é a inexistência social. Se o indivíduo não é atingido pelos fatos sociais, este sente o vazio da falta de importância, logo, é sugestivo que, para o homem ciente do absurdo, ou seja, da total falta de sentido e importância, buscar nos fatos sociais uma solução para sua angústia é apenas mais uma forma de distrair-se. O homem não deve querer a diversão ou a distração para esquecer o absurdo; quanto antes o homem compreender o absurdo, mais rápido poderá abraçá-lo.

O homem não só deve rejeitar todas essas formas de suicídio ou distrações, como aceitar o sofrimento e entender que a vida não é uma busca incessante pela felicidade. Mais uma vez é necessário dar voz ao homem mais sábio da bíblia, Salomão:

Disse eu no meu coração: Ora, vem, eu te provarei com minha alegria; portanto, goza o prazer; mas eis que isso também era inútil. Do riso disse: Está louco; e da alegria: De que serve esta?”

Aos que lêem o livro de Eclesiastes, as obras de Albert Camus ou mesmo este artigo e concluem que os pensadores por de trás de tais reflexões passam por profunda depressão e infelicidade. No entanto, isso é um engano, pois tanto Salomão quanto Camus eram alegres e viviam a vivacidade, não seria justo dizer que eram melancólicos de espírito moribundo e, da mesma forma, que eram felizes e saltitantes, pois contemplar o absurdo é para todos. Ricos e pobres, dominantes e dominados, tristes e alegres. O rei de Jerusalém tinha riquezas, trezentas mulheres, setecentas concubinas, sabedoria e Deus; mas ao ser confrontado pelo sentimento de absurdidade, todas essas coisas, assim como a felicidade, transparecem suas inutilidades. Portanto, é errôneo querer tratar esse temível problema filosófico com uma inocente e ignorante busca pela felicidade que ao menos existe tal como se acredita; é preciso deixar as ilusões para o senso comum, pois aquele que experimentou o absurdo é consciente de sua condição no universo. Por todas as coisas passarão os homens; felicidade, enfado, sofrimento, alegria, tédio etc. todos esses estados estão sujeitos ao absurdo, mas nenhum deles justifica os tipos de suicídio supracitados. É uma regra lógica simples para que não se caia em contradição: Toda ação tomada em virtude da falta inerente de um sentido último e primordial não deve postular ou atribuir sentido a algo ou alguém. Fica claro, com essa máxima, que o homem que age motivado pela revolta ou reação da falta de sentido, cai em contradição quando aquilo que faz idealiza um sentido para suprimir seus anseios. O suicídio físico é o maior exemplo. Se o homem busca o suicídio com a finalidade de acabar com o sentimento de absurdidade, este enxerga na morte um sentido, logo, surge um paradoxo. Se X da razão para Y e Y faz com que X não exista, então não há mais razão para Y; portanto, X não pode ser razão de Y. É contraditório que o sujeito aja em virtude do absurdo para fugir ou cessar o absurdo. Essa lógica se aplica a qualquer tipo de suicídio supracitado. São maneiras ineficazes de tentar solucionar o problema do absurdo, como Camus diz, sobre Kierkegaard, não se deve tentar curar, mas conviver com o absurdo, pois só assim o homem pode apreciar o mundo e ver beleza não só na ordem, mas também no caos; apreciar a alegria, mas também a melancolia; apreciar a paz, assim como a guerra. E se por acaso esvaziar o coração do homem e este vazio lhe incomodar ao ponto de causar-lhe angústia, que aprecie o absurdo; a contradição cômica e trágica entre o homem e o universo será o suficiente para preencher o coração dos desamparados.

O Homem Absurdo

Não é de se estranhar que uma reflexão tão profunda que traz uma compreensão de mundo totalmente diferente para o homem não o transforme de tal maneira que se torna impossível compreendê-lo, é um novo homem; ou talvez mais do que isso. O homem absurdo não é nada mais que outra idealização utópica de superação da humanidade como o Übermensch? Não é possível responder essa questão sem que antes se defina o que é o homem absurdo. Como já foi visto no decorrer do artigo, desde o primeiro “por que”, o sujeito se envolve em uma série de meditações que o levam para uma dimensão de pensamentos e reflexões profundas transcendentes. Mesmo que esteja em uma mesa de jantar com a família, ele estará isolado, em outra realidade, por assim dizer. Passa-se pelo medo, pela densidade, angústia e desespero, o que o torna diferente do homem que fez a introspecção, agora ao sair, ele enfrenta um novo tipo de sentimento que não há como julgar positivamente ou negativamente; trata-se da estranheza.

O sentimento de absurdidade afasta o homem tanto do restante do mundo, que quando esse precisa voltar a suas relações sociais, todos lhe parecem estranhos. Até mesmo os próprios familiares não parecem mais tão próximos e significativos quanto antes. É claro que os sentimentos afetivos podem ser mantidos, mas o estrangeiro irá se questionar sobre a real importância desses. Logo todos os ambientes onde existem interações humanas tornam-se estranhos. Em uma festa qualquer, um simples cortejo de outras pessoas é medíocre aos seus olhos, não há motivo para uma convenção como aquela. É assim que começa, todas as ações humanas resumem-se a convenções medíocres que tem o propósito de dar sentido às vidas pacatas e sem sentido. Questões políticas, esquemas burocráticos, instituições religiosas etc. tudo parece uma ferramenta para dar propósito e significado para a humanidade. Isso causa repugnância ao estrangeiro que já não se sente mais parte desse todo, pois é tudo estranho e medíocre para ele. Enquanto passa por esse nível de absurdidade, o homem praticamente não é capaz de ter sentimentos, transmuda em um indivíduo apático. Voltar para a rotina de sempre é um grande desafio; é trabalhoso relacionar-se com pessoas que estão iludidas, acreditando que são importantes, que suas vidas significam alguma coisa. Essa ignorância faz com que o estrangeiro despreze seus semelhantes, porque não se sente um deles, mas alguém que transcendeu à ignorância. No entanto, o sentimento de estranheza, assim como todos os níveis do absurdo não são definitivos, mas passageiros, com o tempo o estrangeiro se acostuma novamente com a mediocridade das convenções humanos, porém, este sempre saberá que já não faz mais parte de tudo aquilo e quando a racionalidade falar mais alto novamente, estará ciente de que essa condição não lhe faz melhor e nem pior, apenas um estrangeiro.

Todavia, ainda é trabalhoso voltar à rotina, à submissão por um salário, à entrega de energia para um fim de terceiros. Não é mais possível aceitar aquilo que lhe parece injusto, pois agora o homem tem o absurdo ao seu lado; a total falta de sentido faz com que ele deixe de ser refém de um sistema, o escravo se contrapõe ao chicote do senhor. Porém, o homem revoltado sente uma revolta diferente do sentimento de revolta causador de revoluções; revolta não é revolução. Muito embora revolta seja entendido e na maioria das vezes associado com rebelião e revolução, nesse contexto resumi-se ao estabelecimento de limites por parte do indivíduo perante aquilo que infringe seus direitos, isto é, o que ele acredita que ultrapassa o limite pré-estabelecido por ele mesmo. E se o homem revoltado reivindica direitos para si, por conseguinte, precisa assumir que todos têm tal direito, como o direito à vida por exemplo. De acordo com a regra já citada que aponta a contradição de X dar razão para Y enquanto Y exclui X e o suicídio político, filosófico etc. caem nessa contradição, o homicídio em prol dessas causas também. Nega-se o suicídio e mantém o absurdo vivo, pois apenas existindo os dois termos homem (H) e universo (U), que pode haver o absurdo (A). A partir do momento em que H é, A também passa a existir (U era antes de ambos), logo, o que ameaça a existência de A por causas provindas do H em virtude do próprio A é contraditório. Desse modo, o homem absurdo tem o dever de prover a manutenção da existência do absurdo, o que significa a preservação da própria vida e a de outrem. Todo homicídio passa a ser injustificável, pois este estaria cessando o absurdo e não convivendo com ele. Ideologias, doutrinas religiosas e tudo mais que podem cometer o assassinato “justificado” por um bem maior, uma ordem divida etc. são eticamente erradas, não apenas por ferirem os imperativos categóricos de Immanuel Kant (Alemanha, 1724 – 1824) tendo a humanidade como um meio para um fim, mas também encerram o absurdo por serem movidos pelo desejo de escapar do sentimento de absurdidade. Assim, o homem absurdo não é revolucionário, mas aquele que mantém o absurdo vivo enquanto pode, pois o homem está preso a este e as amarras são a lógica.

Por fim, o homem absurdo é um conjunto de características presentes nos graus de absurdidade apresentados em seus devidos momentos neste artigo. Muito embora o conceito de um ser que transcenda a humanidade pareça uma concepção de “ser ideal”, o homem absurdo não é um ideal, pelo contrário, este é uma consequência dos eventuais contatos com absurdo, sendo, em última instância, inevitável para aqueles que contemplam o absurdo e não cometem nenhum tipo de suicídio. Como foi dito, são inúmeras formas de suicídio quando se trata de absurdismo, portanto, não é fácil tornar-se um homem absurdo, na verdade, a questão seria: o homem em toda sua natureza tem a capacidade de se tornar um homem absurdo? Não é uma questão simples, mas basta saber os elementos que constituem o homem absurdo. O elemento que se destaca, é a indiferença perante a sociedade, pois esta está a todo o momento se mutilando frente ao absurdo, logo, o estrangeirismo deve permanecer, o homem nunca mais verá a sociedade como antes, pois este, agora, busca o fim de suas ações nela mesmas. O homem absurdo não permite que seja injustiçado pela sociedade que age em prol da tentativa de fugir do sentimento de absurdidade, pelo contrário, este luta para que esse sentimento permaneça vivo. Riquezas, localidade, posses, amizades, prazeres etc. são elementos indiferente para o absurdista; não que ele não queira ter ou que não haja para ter, mas jamais age motivado pela falta de sentido, pelo vazio existencial buscando preenchê-lo. O leitor pode se lembrar que Camus foi intitulado como sendo um homem absurdo no início do artigo, mas essa homenagem foi direcionada às suas obras, pois não é possível saber como este se sentia perante o mundo e o absurdo. Se um indivíduo pode ou não se tornar um homem absurdo? Existe sim uma possibilidade de que consiga, todavia, não é um caminho fácil, é preciso rolar a pedra todos os dias; o difícil é rolar todos os dias, mas é tanto mais difícil para aqueles que não têm o absurdo do lado de si.

Conclusão

Mesmo que, por uma questão de ignorância intencional ou não intencional, haja aqueles que não tenham contato com o absurdo durante toda sua vida, o que, em termos aristotélicos, trata-se de um ente que possui apenas a alma vegetativa e a alma sensitiva (não literalmente e nem em sentido pejorativo), a grande maioria dos homens uma vez na vida tem de confrontar o absurdo. Não pode ser atribuída, a consciência do absurdo, a um contexto histórico ou social, pois Salomão, Kierkegaard, Nietzsche, Heidegger e Camus viveram em condições totalmente distintas e todos tiveram esta contemplação; para que o absurdo exista, basta que existam dois termos contraditórios. O homem está fadado a confrontar o absurdo, seja lá qual for a pedra que cada indivíduo rola, quando este estiver descendo a colina para começar de novo seu trabalho, será o momento em que este perceberá a sua inutilidade e insignificância, não apenas de suas ações, mas as meditações serão tão profundas que sua própria existência parecerá inútil. É um problema totalmente filosófico e só é possível lidar com ele usando a filosofia. São muitas maneiras de reagir à absurdidade, entretanto, somente uma é racional e lógica, somente uma não exige um sacrifício do intelecto e da racionalidade. A única maneira é abraçar o absurdo e conviver com este. Ademais, será uma árdua tarefa voltar às relações sociais após a contemplação, mas o homem absurdo não se envolve em convenções e distrações buscando um sentido para suprimir o vazio existencial, pois para isso, basta o próprio absurdo, o que mantém o homem vivo e absurdo. Em pequena discordância com Albert Camus, não é mais preciso imaginar Sísifo feliz, pois não se trata de felicidade, esta é apenas ilusão e vaidade; o absurdista sabe que a vida tem seu labor, e se por ventura acreditar que possa ser feliz em toda sua vida cometendo constantes mutilações ao intelecto, que sacrifique a racionalidade, a ignorância é uma benção. Todavia, o sofrimento e dor são inerentes ao homem e é muito melhor viver as adversidades ao lado do absurdo.

Agradecimentos e Referências

Gostaria de agradecer, principalmente, ao meu nobre amigo Haslley Queiroz por incentivar-me a dedicar-me a filosofia e por me apresentar o filósofo, que considero como pai do absurdismo, Albert Camus. O filósofo franco-argelino, assim como Haslley, me influenciaram fortemente sobre o assunto e muitas vezes ajudaram com os problemas causados por esse assunto. Muito me influenciaram os filósofos Friedrich Nietzsche e Salomão. Gostaria de agradecer também os respeitabilíssimos amigos Lucas Lima e Breno Emanuel pelos diálogos desenvolvidos a cerca do assunto e Bruno Moura Leão pela correção do artigo.

Bibliografia

Albert Camus – O Mito de Sísifo, 1942

Albert Camus – O Estrangeiro, 1942

Albert Camus – O Homem Revoltado, 1951

Søren Kierkegaard – O Desespero Humano, 1849

Martin Heidegger – Ser e Tempo, 1927

Friedrich Nietzsche – Assim Falou Zaratustra, 1891

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: