A MISÉRIA DA HISTÓRIA: Uma análise crítica da Pré-História de Hans-Hermann Hoppe (parte I) — Christopher Henrique.

Talvez nenhum tema levante tantas discussões acaloradas e debates violentos quanto temas ligados à História. Como Jaime Pinsky gosta de frisar, nosso amor pela história é algo perfeitamente natural. O ser humano tem uma propensão a gostar, defender e romantizar a história porque em certa medida ela faz parte dele. Ela simboliza e materializa aquilo que o “moldou”, as tradições que ele odeia ou respeita, as instituições que quer destruir ou preservar etc. Além disso, é sempre bom frisar a interpretação utilitária de que a história sempre foi e sempre será um importante instrumento na construção e na validade de uma boa argumentação.

Este meu artigo buscará, todavia, não uma investigação acerca da historiografia, mas uma análise crítica de uma obra de história. Meus colegas neoiluministas (apesar de eu discordar quanto à utilização desta denominação) me pediram para revisar o livro “Uma Breve História do Homem” do senhor Hans-Hermann Hoppe. De início, iria fazer isso por minha curiosidade científica, uma vez que não tinha lido o livro ainda; contudo, no decorrer de minha leitura do primeiro capítulo, eu encontrei vários erros cometidos pelo senhor Hoppe em sua explanação do processo histórico da humanidade. Portanto, o presente artigo será uma análise crítica acerca dos erros e acertos de Hoppe ao explicar a “pré-história” (discordo deste termo por achá-lo fruto de um positivismo histórico pobre, mas na ausência de substitutos terei de usá-lo).

Quero deixar claro de antemão duas informações: a primeira é que não usarei meu nome verdadeiro neste artigo, pois eu não tenho ligação alguma com o Neoiluminismo; faço-o por julgar ser meu dever, e quero evitar que os inimigos desta corrente venham me retaliar de alguma forma por este artigo. Segundo, o fato deste artigo ser publicado no Neoiluminismo não significa que eu concorde com o posicionamento ideológico do site ou de seus membros, pois, em verdade, discordo de muita coisa posta por eles.

A Origem do Homo

Um dos primeiros e mais gritantes erros do senhor Hoppe no livro é tentar tomar como ponto de partida da história humana algo por volta de 50 mil anos atrás, como ele coloca na abertura do capítulo I:

“Quero marcar o início da história humana a apenas 50 mil anos, quando o homem anatomicamente moderno se transformou no homem comportamentalmente moderno.”

Eu, sinceramente, não faço a menor ideia do que Hoppe quer dizer com isso, pois cometer tal erro só pode ser perdoável tomando-se como certo o total desconhecimento de Hoppe acerca de antropologia básica, pois seria tratar como início da história humana a Revolução Cognitiva. Isso seria, no mínimo, ignorar 150 mil anos de história do Homo sapiens e 2,45 milhões de anos de história do gênero Homo, gênero este cujo pertencimento ou não define se algo é humano ou não.

Nossa real história começa quando um determinado grupo de Australopithecus decidiu continuar na África Oriental ao invés de seguir seus iguais em uma grande migração pelo globo. Nossos ancestrais que seguiram nesta grande jornada de desbravamento deram origem a nossos irmãos do gênero Homo. Aqueles que seguiram em direção à moderna região do Levante e do sul da Gália, Britânia e Ibéria deram origem ao Homo neanderthalensis; os que seguiram em direção à moderna Índia e ao Leste Asiático originaram o Homo erectus; os que seguiram em direção à Sibéria deram origem ao Homo denisova; os que ocuparam a moderna Indonésia originaram o Homo soloensis e os que ocuparam a pequena Ilha de Flores deram origem ao Homo floresiensis. Os Australopithecus que permaneceram na África Oriental deram origem ao Homo ergaster, ao Homo rudolfensis e a nós, o Homo sapiens. Isso tudo ocorreu em um espaço de tempo entre 2,5 milhões e 200 mil anos atrás. É justamente este espaço de tempo extremamente importante da história humana que Hoppe parece esquecer. Se você espera encontrar no livro alguma referência à separação do ramo evolutivo de humanos e chimpanzés devido a mudanças climáticas constantes ocorridas por volta de 6 milhões de anos atrás, que transformaram densas florestas em savanas e desertos e forçaram nossos ancestrais a buscar comida em terra, enfrentando vários riscos, fazendo-os divergirem do ancestral dos chimpanzés, devo lhe dizer que é uma esperança tola.

Não sei como ele pretende falar de “história do homem” sem citar eventos decisivos na formação histórica do homem. Eventos nos quais ele pretende tocar ao longo do livro como o surgimento da família, desenvolvimento linguístico e desenvolvimento da propriedade privada necessitam de informações acerca de fatos ocorridos durante esse período histórico.

A demonstração de ignorância de Hoppe continua ao afirmar:

“Com base em provas arqueológicas, os seres humanos que viviam a cem mil anos ainda eram aparentemente incapazes de caçar. Eles certamente eram incapazes de abater animais grandes e perigosos e aparentemente não sabiam pescar.”

Ele está certo em dizer que nossa habilidade em caçar animais grandes e perigosos era inexistente. Animais grandes, como mamutes, necessitariam de um grande número de caçadores e armas perfurantes eficientes para romper o couro do animal e causar dano suficiente para que ele fosse derrubado. Seria tolice acreditar que as primeiras sociedades humanas, que não tinham mais de 150 indivíduos por grupo, pudessem dar conta de tal caçada. Todavia seria uma tolice ainda maior supor que por isso eles não saberiam caçar. Existem evidências arqueológicas bastante fortes de que os primeiros homens, Homo sapiens e nossos irmãos, possuíam conhecimentos avançados acerca da confecção de armas de caça para animais de pequeno e médio porte. Um exemplo bastante interessante disso são as armas conhecidas como bifaces acheulenses. Essas pedras lascadas primitivas, usadas pelos nossos parentes, os Homo heidelbergensis, eram instrumentos desenvolvidos para vários usos, de corte de madeira à pederneira. Porém, um dos usos mais notáveis é o de instrumento de caça de animais como cavalos. Em Boxgrove, no atual Reino Unido, a 500 mil anos atrás, o Homo heidelbergensis já usava esses instrumentos para matar e esfolar cavalos selvagens, mostrando tanto que os Homos antes do surgimento do “homem comportamentalmente moderno” de Hoppe já sabiam caçar com habilidade como quanto tinham o conhecimento acerca do desenvolvimento de armas eficientes de caça.

Um fato digno de nota são os outros usos dessas ferramentas. Além de servir de instrumento de caça, essas pedras serviam de facas e instrumentos para quebrar ossos e lascar madeira. Isso é bastante importante de se notar, pois com a possibilidade de se cortar a carne em pedaços menores o tempo de ingestão e absorção de alimentos e nutrientes poderia ser reduzido. Nossos primos chimpanzés levam em média 4 a 5 horas por dia somente mastigando alimentos, o que reduz significativamente a quantidade de alimentos ingeridos por dia útil. Com a possibilidade de reduzir os alimentos a pedaços menores (e mais fáceis de serem digeridos por ação química), as porções ingeridas em um dia podiam ser maiores e o tempo gasto bem menor, o que permitia uma maior absorção de nutrientes dos alimentos por dia. Outro uso interessante desses instrumentos era para quebrar ossos. O historiador israelense Yuval Noah Harari trata de uma maneira bastante simples esse uso interessante de tais ferramentas:

“Um dos usos mais comuns das primeiras ferramentas de pedra foi abrir ossos até chegar ao tutano. Alguns pesquisadores acreditam que esse foi uma das nossas fontes alimentares primárias. Assim como os pica-paus se especializam em extrair insetos dos troncos de árvores, os primeiros humanos se especializaram em extrair tutano dos ossos. Por que o tutano? Bem, suponhamos que você esteja observando um bando de leões abater e devorar uma girafa. Você espera pacientemente até eles terminarem. Mas, mesmo quando os leões saem, não é a sua vez, porque primeiro vêm as hienas e os chacais para revirar as sobras. Só então você e seu bando ousam se aproximar da carcaça, olhando com cuidado à sua volta, e explorando o único tecido comestível que sobrou.”

Esses nutrientes a mais, conseguidos há mais de 50 mil anos atrás, foram de extrema importância para a próxima etapa de nossa evolução, o que mostra a extrema importância desses objetos multiuso. Em verdade, eles parecem ter sido tão bons que todos os membros do gênero Homo os usavam. Exemplares de lâminas bifaces acheulenses foram encontradas desde Zhoukoudian, na China, até Saint-Acheul, na França, isso significa que esses instrumentos multiuso foram usados desde o Homo erectus até o Homo neanderthalensis e o Homo heidelbergensis. Matt Ridley fala um pouco dessas lâminas e desse interessante fato da seguinte forma:

“Na época dos caçadores de cavalo de Boxgrove, os ancestrais deles faziam [as bifaces acheulenses] mais ou menos no mesmo formato — do tamanho de uma mão, afiado, de dois lados e um pouco redondo — havia um milhão de anos. Seus descendentes continuaram a fazê-lo por mais um centena de milhares de anos. Não apenas isso, faziam mais ou menos as mesmas ferramentas no sul e norte da África e em todos os lugares entre esses dois extremos. Levaram o mesmo modelo para o Oriente Médio e para o longínquo noroeste da Europa.”

Isso indica que essas ferramentas conseguiam viajar grandes distâncias entre diversos grupos do gênero Homo. Duas possíveis explicações para isso são: ou essas ferramentas foram incorporadas por diferentes grupos por meio de permutação de conhecimento entre eles, o que indica um nível médio de comunicação entre eles (o que é bastante difícil), ou que essas pedras podiam funcionar como uma forma de moeda entre os diferentes grupos.

Hoppe continua sua história do homem situando o surgimento do “homem comportamentalmente humano” no período de desenvolvimento de ferramentas sofisticadas como instrumentos de caça (o que já sabemos que ocorreu bem antes do que ele atesta) e alguns enfeites corporais como colares. Ele atribui esse desenvolvimento à seguinte causa:

“Um das hipóteses é a de que o que tornou possível esse importante desenvolvimento foi uma mudança genética que levou ao surgimento da linguagem, o que envolveu uma melhora radical na capacidade humana de inovar.”

Nisso eu não discordo de Hoppe. Realmente, o surgimento da linguagem foi uma das conquistas mais importantes da espécie humana. Graças ao desenvolvimento das habilidades linguísticas humanas, pudemos superar os limites de compreensão e articulação lógica impostos pelas linguagens naturais. Um leão certamente tem sua linguagem, apesar de nós não podermos compreendê-la, mas essa linguagem é extremamente simples, do tipo “olhe uma gazela, vamos pegar” ou “cuidado, existe perigo à frente” ou coisas assim. Leões certamente não são capazes de articular sua linguagem com lógica, não podem realizar descrições detalhadas como “Gandalf sentou-se à cabeceira, com todos os anões em volta e Bilbo se sentou num banquinho ao lado do fogo, mordiscando um biscoito e tentando fingir que tudo aquilo era perfeitamente normal e nada parecido com uma aventura”. Graças ao desenvolvimento de uma linguagem logicamente articulada, os custos de informação puderam ser diminuídos drasticamente, apesar de que só poderiam ser eliminados com o desenvolvimento de documentos escritos. Como meu grande amigo neoiluminista Sávio Coelho disse em seu artigo sobre isso:

“Pelo que sabemos de registros históricos, os povos primitivos não possuíam nenhum conhecimento científico avançado ou compreensão sólida acerca das leis da natureza — e isso fica evidente em seu frequente apego a crenças mitológicas ou místicas, como bruxaria — e não possuíam um sistema de escrita ou algum sistema de comunicação além da fala, o que limitava o arquivamento de registros à tradição oral de comunicação social.

Isso sugere que o custo de obtenção de informação nas sociedades primitivas, uma vez que os registros eram passíveis de esquecimento e não havia muita informação prévia, era substancialmente mais elevado do que nas sociedades atuais. Mais precisamente, o tempo e os recursos despendidos para a obtenção de certas informações eram tão altos que ficava impossível à maior parte da população, salvo uma elite minoritária (geralmente da classe sacerdotal), obtê-las.”

Ainda que meu amigo esteja certo em relação à precariedade da transmissão de conhecimento devido aos altos custos de informação e de sua manutenção em sociedades dependentes de transmissão oral, creio que ele foi meio ingrato com uma das maiores conquistas da humanidade. Antes do desenvolvimento da linguagem humana, sequer havia acúmulo de conhecimento, uma vez que a transmissão oral inexistia. A partir do momento em que podemos articular logicamente o que falamos, podemos observar fenômenos, interpretá-los e dividir aquilo que observamos com os outros membros do nosso grupo. A consequência disso não é somente um desenvolvimento de certa investigação científica primitiva, mas também o desenvolvimento posterior de outro tipo extremamente importante de linguagem: a linguagem simbólica. Com ela, os humanos puderam superar os limites impostos pela natureza e criar coisas de suas cabeças. Fundir um humano com um leão, criar mitos sobre a criação da espécie, criar símbolos que representem os ancestrais, o grupo ou certas virtudes, criar hábitos e tradição etc; tudo isso foi um dos vários e brilhantes desenvolvimentos da linguística-simbólica. Esse ponto será extremamente importante, uma vez que é a cultura simbólica que irá fundamentar vários desdobramentos da história humana, como veremos mais à frente com relação a um determinado aspecto.

Eu acho deveras interessante que o senhor Hoppe coloque este como um dos pontos do desenvolvimento de seu “homem comportamentalmente humano”. A razão disso é porque a revolução cognitiva que permitiu tal fenomenal acontecimento ocorreu há 70 mil anos, bem antes do período estabelecido por Hoppe de 50 mil anos. Creio que chamar o esquecimento de 20 mil anos de história de ignorância é um elogio neste caso.

Esse desenvolvimento, há 70 mil anos, foi um dos vários da evolução humana em direção a uma espécie cooperativa. Por volta dessa época, os humanos adquiriram modificações genéticas que favoreceram a cooperação (como o surgimento do gene FOXP2, que permitiu o desenvolvimento cerebral, possibilitando nossa desenvoltura linguística). Certamente, a necessidade de cooperação para reduzir custos de informação, criar indivíduos que obedecessem mais facilmente a ordens e respeitassem hierarquias, reduzir problemas de custo de transação etc fez uma espécie de “seleção natural” que favoreceu o caráter comunitário dos humanos. Várias caraterísticas físicas dos seres humanos foram justamente selecionadas para este propósito de facilitar a cooperação. A esclera de seu olho é branca justamente para facilitar a leitura de seu olhar e evitar problemas de distorção de informação e custos de transação derivados desta; você rosado para demonstrar vergonha e assim permitir uma leitura mais fácil de suas intenções; seus lábios são vermelhos para chamar a atenção de fêmeas/machos e assim permitir uma maior socialização; você sente atração maior por pessoas de olhos claros em média por esta característica permitir uma melhor leitura dos olhos da pessoa etc. Claro, a cultura tem seu peso em muito do comportamento humano, sobretudo em nível institucional, porém ignorar o peso da genética seria como tentar cortar papel somente com uma das lâminas de uma tesoura.

Seria difícil fazer uma comparação para mostrar esse desenvolvimento genético, uma vez que nossos irmãos do gênero Homo estão mortos (em boa parte por nossa causa). Todavia, como fez o psicólogo Michael Tomasello, podemos fazer uma comparação quase perfeita com nossos primos chimpanzés. Como mostra Tomasello, os chimpanzés cooperam sob certos aspectos, como se reunirem em grupos de guerreiros para patrulhar as fronteiras de seu território, porém, além das exigências mínimas para ser uma espécie social, eles têm pouco instinto de ajudar um o outro. Os chimpanzés selvagens buscam sozinhos seus alimentos. Até as mães chimpanzés recusam-se regularmente a dividir comida com os próprios filhotes, que desde muito cedo têm de aprender a coletar seus próprios alimentos. Em laboratório, os chimpanzés também não compartilham comida voluntariamente. Com algumas pequenas exceções, a esmagadora maioria dos experimentos mostra que os chimpanzés sofrem de uma carência aguda de sentimentos para com outros de sua espécie. Se um chimpanzé é colocado em uma jaula em que possa puxar uma bandeja com comida para si ou, sem fazer maior esforço, empurrar uma bandeja com comida também para o vizinho da jaula ao lado, ele vai puxá-las indiscriminadamente — eles não se importam se o vizinho precisa comer ou não.

Crianças humanas, por outro lado, são intrinsecamente cooperativas em seus primeiros anos de vida. Desde a mais tenra idade, elas desejam ajudar os outros, compartilhar informações e participar na busca de objetivos em comum. Tomasello observa que, se crianças de dezoito meses veem um adulto desconhecido com as mãos cheias tentando abrir uma porta, quase todas tentam ajudá-lo imediatamente. Certamente existem várias razões para isso, como comportamentos induzidos pela linguística-simbólica das tradições e cultura nas quais a criança é criada, porém, como mostra Tomasello, existem também muitas razões para crer que os ímpetos humanos para ajudar, informar e compartilhar “surgem espontaneamente” em crianças no sentido de que são em boa parte inatos e não aprendidos.

Hoppe não desconsidera esta característica genética de nossa evolução linguística, porém ele parece superestimá-la. Em minha interpretação, parece que ele considera que essas modificações genéticas ocorreram de uma hora para outra, espontaneamente, sem nenhuma causa. Para ele, esse desenvolvimento da linguagem foi um evento aleatório que possibilitou a supremacia do Homo sapiens sobre nossos irmãos. Tanto que ele considera isso uma característica exclusiva do Homo sapiens:

“Os humanos mais arcaicos — o Homo ergaster, Homo neanderthalensis e Homo erectus — não tinham controle da linguagem. Pode-se dizer com certeza que estes humanos arcaicos empregavam, como fazem muitos animais, as duas funções inferiores da linguagem: a função expressiva e função de sinalização.”

Todavia, isso é no mínimo ultrapassado. A teoria genética do surgimento da linguagem é deveras incompleta para explicar a superioridade do Homo sapiens sobre seus irmãos —  lembrando que de 2 milhões a 10 mil anos atrás o planeta era habitado por pelo menos seis grandes espécies humanas ao mesmo tempo. Segundo essa teoria, uma mutação genética fortuita desencadeou uma mudança no comportamento humana ao alterar sutilmente a forma como o cérebro humano era construído. Modificações como o surgimento do gene FOXP2, a secreção de ocitocina a partir do hipotálamo (hormônio essencial para a criação de sentimentos de amizade e simpatia para com membros dentro de um grupo e hostilidade para com membros de fora do grupo) e o surgimento do gene MAO-A (gene responsável pela produção de uma das duas formas da monoamina oxidase, enzima responsável pelo corte da transmissão de dopamina e serotonina entre neurônios, o que o faz ser um regulador natural da nossa agressividade) aconteceram primeiramente na espécie humana por um mero acidente evolutivo. Porém, de acordo com o bioquímico Johannes Krause e sua equipe, essas características genéticas nunca foram exclusivas da espécie humana. Segundo pesquisa feita pela equipe de Krause no Instituto Max Planck, os nossos irmãos neandertais compartilhavam das mesma modificações genéticas mesmo sendo uma espécie bem menos cooperativa. A pesquisa mostra que os neandertais possuíam o gene FOXP2, o que indica, ao contrário do colocado por Hoppe, que eles poderiam facilmente desenvolver a função descritiva e argumentativa da linguagem assim como os Homo sapiens modernos.

Claro, certamente o “milagre da razão” teve muita influência nessa superioridade da linguagem do Homo sapiens, afinal não sabemos os reais limites de compreensão impostos pela lógica do sistema linguístico do Homo neanderthalensis. Mas esse é um debate que deixo para os filósofos, uma vez que eles não entram propriamente na minha área de debate. Meu foco aqui é no desenvolvimento evolutivo dessas características genéticas no Homo sapiens. Em minha visão, a teoria genética, que Hoppe adota, é falha por desconsiderar certas características da seleção natural e desenvolvimento de tais genes por meio dela. Se houve uma seleção natural de determinadas características genéticas, quais seriam os fatores exógenos que criaram as condições para tal seleção. Se os defensores da teoria genética querem falar de tal seleção, devem apontar as razões de características que favorecem a cooperação terem sido selecionadas.

Isso nos leva a outro erro de Hoppe ao tentar resumir a história humana nos últimos 50 mil anos. Se tal erro não fosse cometido, o senhor Hans talvez pudesse ver a verdade com mais facilidade. A simples presença do FOXP2 não é garantia suficiente para garantir a superioridade de uma espécie em nível cognitivo. Mesmo possuindo esses genes e conseguindo desenvolver instrumentos de sobrevivência sofisticados (como roupas de pele e lanças de pedra lascada), os neandertais e nossos ancestrais mais primitivos tinham seu mundo por um senso de naturalidade, um status quo mental, que os fazia serem complacentes com relação à sua situação atual. Ou seja, eles eram extremamente pouco empreendedores e criativos se comparados ao Homo sapiens que vive entre 70 mil anos e hoje. Para os hominídeos paleolíticos, fazer os machados de pedra lascada era como andar, algo em que se tornaram bons com a prática e nunca mais pensaram em formas de melhorar ou tornar mais eficiente essa atividade. Era quase como uma função do corpo. Sem dúvida, a técnica de fazer machados e bifaces acheulenses era passada de geração em geração por meio de imitação e por articulação lógica da linguagem, mas, diferentemente das tradições culturais modernas, ela demonstrava pouca variação local e regional. Uma biface acheulense feita por um Homo erectus era praticamente a mesma feita por um Homo heidelbergensis. Era basicamente um instinto inerente do gênero fazer isso, aquilo que Richard Dawkins chama de “fenótipo ampliado”, a expressão externa dos genes.

Então, segundo a visão inferida da exposição de Hoppe, magicamente, entre 200 mil e 160 mil anos atrás, em algum lugar da moderna Etiópia, um crânio de sapiens começou a cingir uma coluna vertebral. Por volta da mesma época, em algum lugar nas costas da África do Sul, as mesmas criaturinhas estavam cozinhando frutos do mar e fazendo lanças e lâminas de pedra lascada e pintando o corpo de pó de arenito vermelho, o que indica já um desenvolvimento da linguística-simbólica de grupo. Isso ocorreu por volta da Idade do Gelo e como nos lembra Ridley:

“O desenvolvimento dessas novas características se deu quando a África era em sua  maior parte um grande deserto. E, mesmo assim, aparentemente esse experimento não resultou em grande coisa. Provas consistentes de comportamento inteligente e ferramentas imaginativas desapareceram outra vez. Provas genéticas sugerem que os Homo sapiens eram raros até na África, vivendo uma existência precária em bolsões de terreno arborizado nas savanas e nas margens de lagos e rios. No período Eemiano interglacial de 130.000 a 150.000 anos atrás, o clima se tornou mais quente e bastante úmido, e o nível dos mares subiu. Alguns crânios encontrados na moderna Israel sugerem que uns poucos sapiens começaram a colonizar o Oriente Médio por volta do Eemiano, antes que o frio e os neandertais os mandassem de volta para a África.”

Foi durante esse “suave” período que um novo tipo de ferramenta apareceu em cavernas do moderno Marrocos. Lâminas, espadas, raspadeiras dentadas e pontas de lança ornamentadas foram encontradas nessas cavernas, o que mostra que os homens antes de 50 mil anos atrás já possuíam as características completas do “homem comportamentalmente humano” de Hoppe: linguagem, sofisticadas habilidades e instrumentos de caça e uma compreensão simbólica do mundo. Porém, uma das descobertas mais extraordinárias encontradas foi uma simples concha de um caracol de rio conhecido como Nassarius. O que mais intriga nessas simples conchinhas é que todas elas apresentam um buraco artificial passando por seu  interior, o que indica que elas eram usadas para a confecção de amuletos com algum valor simbólico para esses humanos. As conchas mais antigas, encontradas em cavernas perto de Taforalt, sendo algumas pintadas com argila ocre, datam de aproximadamente 82 mil a 120 mil anos atrás, o que indica um bom desenvolvimento da linguística-simbólica entre humanos mesmo antes do ápice da revolução cognitiva a 70 mil anos atrás e dos 50 mil estabelecidos por Hoppe. Essas simples conchinhas não apenas mostram uma atitude bastante moderna de usar enfeites corporais —  talvez até moedas —  mas fornecem provas de um comércio primitivo. A aproximadamente 200 quilômetros de Taforalt, em Oued na Argélia, as mesmas conchas com as mesmas pinturas foram encontradas. Acha isto impressionante? Pois saiba que as mesmas conchas foram encontradas em Skhul, em Israel, e em Blombos, na África do Sul. De forma semelhante, existem registros de que houve comércio de obsidiana nos leste africano, provavelmente restos da atividade vulcânica dos montes Kulal e Engol. Do outro lado do Mediterrâneo, nossos irmãos neandertais, com os mesmos genes que facilitariam a cooperação e a linguagem e com um cérebro bem maior que o nosso, não praticavam tal comércio nem produziam tais objetos, mostrando um desenvolvimento menor de suas linguística-simbólica.

Claro, não estou aqui afirmando que existia um comércio semelhante e funcional como o que iria surgir por volta de 10 mil anos atrás, com o advento da revolução agrícola e das primeiras civilizações. O comércio, geralmente, só existia entre membros de um mesmo grupo e ainda existiam grandes custos de informação devido às limitações impostas pela linguagem ao sistema econômico. Como meu amigo Sávio coloca:

“A incerteza extrema também poderia levar a um problema de produção. Uma vez que os agentes econômicos não podem traçar planos de produção com base em probabilidades conhecidas de retorno do investimento inicial em bens de capital e fatores de produção, a produção acabaria por se limitar a atividades de subsistência.”

Todavia que isso seja verdade, creio que devemos olhar melhor o quadro dessa época. Como a linguística-simbólica já estava bem desenvolvida, é provável que esses grupos possuíssem tradições solidificadas e regras claras de conduta transmitidas por vias informais. Por meio de um processo completamente espontâneo, criavam elos culturais, tradições e leis comuns que acabavam unindo grupos em regiões diferentes. Assim, custos de informação podiam ser reduzidos, uma vez que nossa genética cooperativa nos fez evoluir para seres que tipicamente gostam de seguir regras estabelecidas. Como o psicólogo Cade McCall mostra, usando o conceito de “intencionalidade compartilhada” de Tomasello, um componente social que chama a atenção em nós sapiens é a obediência a normas ou a regras de consenso geral dentro de um grupo delimitado chamado “nós” (grupo esse comumente definido como pessoas a quem o gene MAO-A considera “amigas” ou, mais comum ainda, aquele universo de pessoas delimitado pela nossa linguagem-simbólica ou cultura). Aliado à simples obediência, McCall coloca outros dois princípios básicos do comportamento social humano. Um é a tendência a criticar e, se necessário, punir aqueles que não seguem as regras gerais do “nós”. Outro é fortalecer a própria reputação, apresentando-se como um desprendido e valioso seguidor de normas, o famoso “santinho”.

Tomasello e sua equipe demonstraram isso uma vez fazendo uma experiência com crianças. Eles fizeram um jogo em que crianças de 2 e 3 anos tinham de seguir certas regras para ganhar. Em seguida aparecia um dos pesquisadores fantasiado de um personagem qualquer e começava a jogar o jogo infringindo as regras. Quase todas as crianças protestaram contra o que viram e muitas chegaram até a repreender o boneco pessoalmente dizendo como ele deveria jogar. Como coloca Tomasello:

“As normas sociais — mesmo desse tipo relativamente trivial — só podem ser criadas por criaturas que se emprenhem em uma intencionalidade compartilhada e em crenças coletivas, e elas têm um papel muito importante na manutenção dos valores compartilhados dos grupos culturais humanos.”

Isso significa que transações feitas entre grupos poderiam ser garantidas de forma quase eficiente por meio de regras informais, ou leis, sem a necessidade de um órgãos institucional legislativo-regulador. Isso claro, tendo-se em mente os limites dessas regras informais. Um desses limites é a famosa Regra dos 150. Para que esse sistema de regras informais funcione de forma mais ou menos eficiente, os custos de informação devem ser diluídos por meio de uma combinação de linguística-simbólica e um dos hábitos humanos mais antigos, a fofoca. Como os indivíduos querem fortalecer a própria reputação se colocando como fiel defensor das normas muitas vezes têm de delatar o vizinho e falar de suas faltas. A fofoca passa de pessoa em pessoa, até que aquela infração de norma seja repreendida ou pela ação da sociedade ou por um dos maiores desenvolvimentos comportamentais do sapiens: a vergonha. A Regra dos 150 de Aiello e Dunbar diz que existe um limite crítico das organizações humanas por volta do número de 150 indivíduos. Abaixo desse limite mágico, comunidades, negócios, redes sociais e unidades militares conseguem se manter unicamente com regras informais de linguística-simbólica e fofocas. Não há necessidade de hierarquias formais, títulos e livros de direito para manter a ordem. Um pequeno exército de 100 soldados pode muito bem manter a disciplina com base apenas em relações íntimas, sem a necessidade de uma hierarquia definida. Quando este limite de 150 é ultrapassado, as regras informais, as fofocas e tradições se tornam menos eficientes em ordenar sozinhas a comunidade. É interessante que essa regra é a base da eficiência do direito natural dos germânicos, uma vez que cada tribo ou clã não possuía mais de 150 indivíduos. Isso também explica a razão de muita da normatividade do direito natural falhar com o aumento da complexidade social circundante.

Como se pode ver, não gosto muito da teoria genética pura. Vou colocar que a resposta não se encontra no clima, na genética e nem mesmo inteiramente na cultura, como coloca um amigo meu. A resposta está na economia. Os seres humanos tinham começado a fazer algo para e com os outros, o que, com feito, começou a construir uma “inteligência coletiva”. Eles começaram, pela primeira vez, a 120 mil anos, a trocar coisas com indivíduos os quais não eram casados ou tinham filiação parental. Isso explica a razão dos Nassarius se movimentarem do interior da África para o Mediterrâneo. O efeito disso foi causar a especialização, primeiro em nível sexual, que, por sua vez, estimulou mais especialização que gerou mais trocas — e assim nasceu o progresso, quando a complexidade da evolução de nossa tecnologia e hábitos foi modificada mais rapidamente do que nossa anatomia. Esse humanos primitivos havia esbarrado, ao acaso, com a cataláxia.

Obviamente, nisso havia limitações, o que explica a lentidão desse progresso. Afinal, como Marshall Sahlins disse:

“Os ganhos privados com inovação, como a redução de custos ou o aumento da variedade de mercadorias produzidas, devem ser insignificantes seja porque é impossível apropriar-se deles ou por razões exógenas.”

Todavia que isso seja um fato, um fato que Hoppe ignora e veremos mais à frente o porquê, há outro fato bastante importante: a troca teve de ser inventada espontaneamente! Como os chimpanzés deixaram claro, ela não ocorre naturalmente com outros animais. Existe compartilhamento, entre famílias, de comida por sexo, tanto em insetos como em grandes primatas e macacos. O que existe no máximo é uma troca de favores e não uma troca de itens de valor marginal relativo. Como já dizia o velho Adam Smith:

“Por vezes, tem-se a impressão de que dois galgos, ao irem ao encalço de uma lebre, parecem agir de comum acordo. Cada um a faz voltar-se para seu companheiro, ou procura interceptá-la quando seu companheiro a faz voltar-se para ele. Mas isso não é efeito de algum contrato, senão da concorrência casual de seus desejos acerca do mesmo objeto naquele momento específico. Ninguém jamais viu um cachorro fazer uma troca justa e deliberada de um osso por outro, com um segundo cachorro. Ninguém jamais viu um animal dando entender a outro, através de gestos ou gritos naturais: isto é meu, isto é teu, estou disposto a trocar isto por aquilo. Quando um animal deseja obter alguma coisa, de uma pessoa ou de outro animal, não dispõe de outro meio de persuasão a não ser conseguir o favor daqueles de quem necessita ajuda. Um filhote acaricia e lisonjeia sua mãe, e um spaniel faz um sem número de mesuras e demonstrações para atrair a atenção de seu dono que está jantando, quando deseja receber comida. Às vezes, o homem usa o mesmo estratagema com seus semelhantes, e quando não tem outro recurso para induzi-los a atenderem a seus desejos, tenta por todos os meios servis atingir este objetivo. Todavia, não terá tempo para fazer isso em todas as ocasiões. Numa sociedade civilizada, o homem a todo momento necessita da ajuda e cooperação de grandes multidões, e sua vida inteira mal seria suficiente para conquistar a amizade de algumas pessoas.”

Se Hoppe não restringisse tanto a história da humanidade a ponto de dizer que seria um início interessante colocá-la por volta de 50 mil anos atrás, ele poderia ver essa riqueza fantástica de fatos e detalhes de nossa evolução. É até irônico, considerando ser ele um libertário, que não possa ver o momento em que as trocas voluntárias surgiram e mudaram o rumo da humanidade.

Por fim, porém não menos grave e para fechar a primeira parte de meus ataques ao senhor Hoppe, é no mínimo cômico para mim constatar seu total desconhecimento de antropologia ao afirmar:

“Os últimos exemplares do Homo erectus, encontrados na Ilha de Flores, remontam há cerca de 13 mil anos.”

Isso é muito engraçado, pois os hominídeos da Ilha de Flores não eram Homo erectus, mas sim um grupo Homo completamente distinto chamado Homo floresiensis. Esses nossos irmãos, apelidados carinhosamente de “hobbits”, eram bem diferentes do nosso irmão erectus. Enquanto o Homo erectus media por volta de 1,70 de altura, o Homo floresiensis tinha em média 1,1 de altura —  uma adaptação feita para compensar a falta de alimento e recurso da Ilha de Flores. Outra característica diferente é o crânio. O crânio do Homo floresiensis apresentava sinais de microcefalização, provavelmente uma mutação radical derivada do nanismo geral da espécie. Hoppe parece, todavia, não ver essas diferenças óbvias ou, o mais provável, é um completo ignorante sobre o assunto e sequer as conhecia.

BIBLIOGRAFIA:

Hoppe, Hans-Hermann. Uma Breve História do Homem; LVM Editora.
— Pinsky, Jaime. Por que Gostamos de História; Editora Contexto.
— Harari, Yuval Noah. Sapiens: Uma Breve História da Humanidade; L&PM.
— Ridley, Matt. Genoma: Uma Autobiografia de uma Espécie em 23 Capítulos; Editora Record.
— Ridley, Matt. As Origens da Virtude; Editora Record.
— Sahlins, Marshall. Stone Age Economics; Routledge.
— Tomasello, Michael. Why We Cooperate?; MIT Press.
— Dawkins, Richard. The Ancestor’s Tale; Houghton Mifflin.
— Dawkins, Richard. O Gene Egoísta; Companhia das Letras.
— Pinker, Steven. O Instinto da Linguagem; Martins Fontes.
— Geertz, Clifford. O Saber Local; Editora Vozes.
— Smith, Adam. Riqueza das Nações; Nova Cultural.

Bibliografia Adicional:
 — https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/17949978
— https://www.nature.com/articles/nn.3084
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