Sávio Coelho – É a cultura, estúpido!

Artigo originalmente postado aqui, no dia 24 de Março de 2018. 

Max Weber tinha razão. É assim que inicio esse potencialmente polêmico artigo. Nosso sociólogo alemão favorito fez uma brilhante observação de que se a história do desenvolvimento econômico tem algo para nos ensinar, é que quase todas as diferenças estão na cultura. Apesar dessa observação já datar de mais de cem anos, a questão da cultura como o significado de valores e atitudes internas que orientam a população, ainda tende a assustar boa parte dos intelectuais. Ela exala um cheiro místico e tradicionalista, um ar de imutabilidade e anti-progresso. Em seus momentos de estudo e discussão, economistas e outros cientistas sociais tendem a não reconhecer isso como uma verdade; aplaudem mudanças culturais boas e condenam as ruins. Mas tanto a crítica como o lamento implicam em uma passividade do observador — uma incapacidade de usar o conhecimento para moldar pessoas. Fora isso, as críticas culturais sempre tendem a ferir egos e afetar identidades estabelecidas. Quando provenientes de forasteiros, sobretudo, essas censuras, por mais cuidadosa que seja sua formulação, tem sempre um ar de superioridade. Quem deseja realmente melhorar suas críticas e argumentos derivados delas já deve ter aprendido a não dar palpites.

Mas se a cultura é tão importante, por que sua aplicação não é universal e por que os efeitos são sempre tão diversos?

Os economistas provavelmente não são os únicos a se perguntar a razão de alguns povos — como os chineses — serem mais empreendedores fora se suas terras natais do que dentro delas. Se a cultura é tão importante, por qual motivo ela não mudou a China primeiro?

Certos economistas tendem a resolver esse paradoxo, agora talvez obsoleto, negando qualquer conexão com a cultura. A cultura, dizem eles, não permite prever resultados. Eu discordo dessa visão. Baseando-se na cultura, seria bastante possível, por exemplo, prever o sucesso da Alemanha e do Japão no pós-guerra. Ou, usando um recente caso famoso, o da Coreia do Sul em oposição ao Brasil, mesmo ambos usando padrões semelhantes de políticas.

Claro, não estou aqui para defender a cultura como elemento isolado no desenvolvimento. Diferente de análises econômicas convencionais que tomam a ilusão de que apenas uma razão basta para explicar algo, mas as determinantes de processos complexos, como o desenvolvimento, são invariavelmente plurais e inter-relacionadas. Explicações monocausais tendem sempre a se encontrarem perseguidas por “ruídos estocásticos” e eventos não vistos. Os mesmos valores sufocados por um governo X em casa podem encontrar oportunidades em outros lugares, como no caso dos imigrantes. Os gregos antigos, como de costume, já analisavam esse tipo de fenômeno: esses metecos, residentes estrangeiros, eram o fermento justamente das sociedades, de seu dinheiro e ofícios. Eram esses estrangeiros que, quando encontravam uma situação institucional propícia em seus países de destino, produziam bens, comercializavam-os e ganhavam dinheiro.

Por estarem tão intimamente ligadas, a cultura e o desempenho econômico tendem a um afetar o outro. Tomemos o exemplo da região que mais cresce no planeta: o Sudeste Asiático. Nessa região, nos países de maioria budista, os jovens do sexo masculino costumavam passar anos em aprendizado religioso em mosteiros. Esse período de amadurecimento era bom para o espírito e para a alma e passava diversos ensinamentos e técnicas milenares para as novas gerações; além de, claro, se adequar ao ritmo quase morto da atividade econômica. Assim foi em tempos idos. Hoje essa região anda depressa, bem mais até que o Ocidente; o comércio se desenvolve e os negócios se concretizam bem mais rápido que qualquer região do planeta. Como resultado, os jovens agora, por uma questão de custo de oportunidade, só tem tempo de aprender as tradições mais básicas, o suficiente para forma seu caráter e senso de honra e religiosidade, e então voltam para o mundo real complexo e em constante mudança. O valor relativo do tempo, que todos sabem que é medido em dinheiro, mudou. Ninguém impôs essa mudança cultural de forma linear, ela surgiu das causalidades não pretendidas dos processos espontâneos que advém de micromudanças na forma da cultura.

A história do Sudeste Asiático ilustra a resposta da cultura ao crescimento. O inverso, todavia, também é possível. Temos o caso da Rússia, onde 77 anos de ensino antimercado, antilucro e de lobbismo alimentaram uma cultura antiempresarial. Mesmo após a queda da URSS, as pessoas ainda temem os mercados e anseiam pela vida calma dos empregos públicos.

Todavia que esses exemplos possam explicar por si a questão, creio que abordar dois casos especiais mais a fundo seja necessário para enriquecer minha explicação.

O melhor exemplo de que mudanças culturais podem fazer até o mesmo povo se desenvolver diferente.

 

Teoria da Dependência:

A Teoria da Dependência foi uma alternativa confortadora para as explicações culturais do subdesenvolvimento dos países de Terceiro Mundo. Vários intelectuais latino-americanos, como Celso Furtado e Maria da Conceição Tavares, e até mesmo alguns de fora da América Latina, como Andre Gunder Frank, explicavam o fracasso no desenvolvimento dos países latino-americanos em comparação, sobretudo, com os Estados Unidos, como culpa dos países mais fortes e ricos. A tese afirmava que no estado de dependência, a vulnerabilidade implica um estado de inferioridade no qual não temos controle sobre nosso próprio destino; fazemos aquilo que os países mais fortes nos ordenam. Assim, os países mais fortes usam de sua superioridade para transferir produtos para os países mais fracos dependentes, de forma semelhante ao feito na época colonial. A força dos impérios é o que torna o capitalismo uma força imperialista também.

Todavia que isso realmente tenha existido a 200 anos atrás, um problema surge com essa linha de pensamento. Pelo menos desde a década de 60, nenhum país é simplesmente pilhado por países mais fortes. As instituições, acordos, leis internacionais e a própria natureza da Balança de Poder internacional impedem que isso ocorra. Se um império X ataca um país mais fraco Y, os países aliados de Y e os impérios rivais de X irão contrabalancear essa ação, usando as leis e instituições internacionais se necessário, no sentido de impedir que a Balança de Poder saia de seu equilíbrio atual para uma situação onde X tenha mais poder que toda a situação internacional.

Dessa forma, o uso da superioridade da força não pode ser uma tática usada pelos impérios para forçar países fracos a consumirem seus produtos ou fazerem acordos internacionais, como era na época colonial. Assim, o hard power já não pode mais ser usado como forma de domínio econômico imperialista. Partindo disso, um império só poderia estabelecer domínio agora por meio de formas de soft power. No campo econômico, esse soft power se materializa de uma maneira interessante, pois necessita de uma boa dose de voluntarismo e irresponsabilidade do país “dominado” para que ele se concretize. Para um império cooptar um país soberano, é necessário que esse tome grandes quantidades de dinheiro emprestado, e que invista esse dinheiro da forma mais idiota possível. As economias subdesenvolvidas tem o histórico de ter níveis de poupança extremamente baixos (em grande parte por causa das políticas irresponsáveis das elites dominantes) e de recorrerem ao capital estrangeiro para solucionar esse problema. Esse dinheiro tomado, todavia, quase sempre é usado ou para pagar despesas correntes ou para fazer obras ostentatórias e que não trarão nenhuma melhoria em termos de infraestrutura para o país. Assim, esses países, quase sempre ao tomarem empréstimos, se colocam em uma situação em que ficam reféns de seus credores por causa da incompetência interna da administração do Estado. Todavia, os políticos adoram tomar esses empréstimos por razões de eficiência e para esconder seus erros administrativos. E, quando esses países se encontram em uma situação de liquidação de crédito, os políticos e economistas associados sempre usavam a desculpa do “imperialismo financeiro” estrangeiro para justificar calotes de dívidas que colocavam esses países em “casulos” perante o mercado global de capitais e bens.

Isso ocorreu muito na América Latina. Antes da Primeira Guerra Mundial, o Império Britânico servia como credor das “farras” das elites que controlavam esses países. Grandes fluxos de capital foram destinado à construção de cidades, ferrovias, portos e outros obras de infraestrutura. Porém, nunca essas obras levavam o país em direção ao desenvolvimento, pois não eram usados para nenhuma atividade econômica significativa além de servirem para escoar a produção agropecuária dos grandes latifúndios. Assim, os países latino-americanos (talvez com a grande exceção do Brasil, que conseguiu ter um bom surto industrial nos últimos anos da República Velha) acumulavam grandes volumes de dívidas externa para praticamente nada; e tudo isso por vontade própria, note-se. Quando a Primeira Guerra Mundial estourou e o Império Britânico entrou nela, os créditos desses países foram rapidamente liquidados e os países latino-americanos, sobretudo a Argentina, foram cortados de sua “mamadeira” de crédito e capital, e viram-se sem nenhuma outra fonte, uma vez que não havia nenhum tipo de empresa interna além dos grandes latifúndios. Mesmo com os Estados Unidos assumindo o papel do Império Britânico de maior fornecedor de linhas de crédito para países pobres no mundo, ainda sim os países latino-americanos não conseguiram voltar para a situação que tinham antes. Assim, muitos recorreram a estratégias desesperadas para desenvolver rapidamente seus países. A mais famosa delas foi a estratégia de Industrialização por Substituição de Importações (ISI). Nessa estratégia, os países latino-americanos se colocavam em um casulo protecionista para se protegerem contra o “imperialismo econômico” dos países ricos, onde iriam desenvolver suas industrias rapidamente por meio da substituição dos produtos outrora importados, que agora se encontravam mais caros devido a intervenções alfandegárias ou cambiais.

Evolução da renda per capita argentina até antes da Crise da Moratória (Banco Mundial).

Essa política de ISI realmente teve seus resultados. Durante sua implantação no Brasil durante os anos de 1960–1990, ela realmente conseguiu fazer a produção industrial aumentar em torno de 72%, segundo dados do brasilianista Albert Fishlow em “Desindustrialização Brasileira em Debate”. Todavia, esse crescimento nada mais era do que uma ilusão. As industrias criadas com essa política eram extremamente ineficientes, criando diferenças de preços entre produtos nacionais e estrangeiros de 90% a 200%. Isso se devia ao fato de que o mesmo “casulo protecionista” que permitia que essas indústrias surgissem, também isolava elas da competição, dos estímulos e dos choques tecnológicos globais. O economista brasileiro Gustavo H.B. Franco ainda chama a atenção para a consequência não pretendida da “A Maldição das Multinacionais”. Ele colocou da seguinte forma:

“Os veredictos quanto ao sucesso da substituição de importações parecem incontestes, ao menos quando não é preciso comparar com o desempenho de países asiáticos que seguiram o modelo alternativo conhecido como ‘promoção de exportações’. Entretanto,aqui não é o espaço para penetrar nessa velha polêmica, que sempre deixa o país em posição desconfortável; o princípio aqui exposto procura chamar a atenção para um paradoxo pouco notado que diz respeito a algumas consequências inesperadas dos ideais nacionalistas envolvidos no conceito de substituição de importações. Festejamos imensamente, por exemplo, a implantação da indústria automobilística no Brasil, mas nem sempre lembramos que os ‘produtores locais’ eram empresas multinacionais, essas terríveis criaturas que traziam para cá máquinas e equipamentos anteriormente usados em outras localidades de onde exportavam sua produção para o Brasil. A importância do capital estrangeiro na industria, que era desprezível antes de 1945, chegou a um terço nos anos 1960, período em que os especialistas indicam que a substituição de importações explicaria mais de 40% do vigoroso crescimento da economia na ocasião. Essa curiosa combinação entre aumento da ‘autossuficiência’ e a desnacionalização também ocorreu nos ciclos de substituição de importações do Regime Militar, apenas com a diferença de uma maior intervenção do governo em assuntos econômicos por meio de estatais. Esse notável paradoxo se observa mais uma vez nos anos posteriores ao Plano Real. As importações como proporção do PIB não se alteraram tanto quanto se imaginava a julgar pelos gritos de dor, a despeito de toda a discussão e da efetiva implementação de medidas para liberalizar o comércio exterior”

Os teóricos da Teoria da Dependência rebatem esses argumentos usando a retórica malthuasiana de que isso tudo se devia às baixas taxas de poupançaque eram resultado do crescimento populacional, e das altas taxas de imigração desses países (nem preciso dizer que a China e suas taxas de poupança de 55% do PIB são uma refutação viva a isso). Todavia, nos cabe fazer uma pergunta: se uma parcela do capital emprestado foi tomado para construir obras de infraestrutura que impulsionavam os empreendimentos, por que nenhum empreendimento foi feito? Por qual razão os países latino-americanos e boa parte dos subdesenvolvidos, mesmo quando seus governos conseguem fornecer certos bens públicos importantes, não conseguem fomentar o empreendedorismo de seus cidadãos?

O ilustre jurista liberal argentino Juan Bautista Alberdi parece nos fornecer uma pista da razão de isso ocorrer ao analisar a situação de seu país em 1852. Ele notou da seguinte forma, em espírito weberiano:

“Respeito o altar de todas as crenças. A América Espanhola, limitada ao catolicismo com a exclusão de qualquer outra religião, assemelha-se a um solitário e silencioso convento de freiras. Excluir outras religiões na América do Sul é excluir os imigrantes ingleses, alemães, suíços e americanos, ou seja, os povos de que este continente mais necessita. Permitir sua entrada sem sua religião é o mesmo que trazê-los sem o agente que faz deles o que eles são”

O que Alberdi aborda aqui é a prática comum dos países latino-americanos na época, de instituir religiões oficiais de Estado, o catolicismo no caso, e de forçar que os imigrantes que neles chegavam a se converterem para não perder certos direitos comuns aos cidadãos católicos. Dessa forma, os governos latino-americanos tiravam o protestantismo de imigrantes vindos dos países do norte da Europa e acabavam por incentivar as formas de catolicismo “profano” praticadas na América Latina. E, segundo José Osvaldo de Meira Penna, foi justamente isso uma das causas culturais de nosso subdesenvolvimento.

Todavia que o autor negue a causalidade weberiana entre o catolicismo e subdesenvolvimento, ele afirma que certas características culturais de nosso catolicismo “profano”, como nosso familiarismo, apego a aparências rutilantes (usando uma linguagem machadiana) e hábitos fogosos, prolíficos e lúdicos, são as responsáveis tanto por nossa riqueza de manifestações e hábitos culturais como pela nossa baixa afinidade para com o capitalismo, tipicamente um sistema friamente racional, individualista, frugal e anti-prolífico.

Isso, para você leitores, poderia muito bem indicar o seguinte: “Nossa, Sávio, mas o que você está definindo aqui é que estamos fadados a um Apocalipse Weberiano em que nossa religião é uma barreira para nosso desenvolvimento. Você não tem fé no seu próprio povo?”.

Apesar de que eu desejaria muito dizer que não, existe sim uma esperança para esse pesadelo latino, e o exemplo vem dos nossos colegas nipônicos.

Carnaval, o melhor exemplo de nossa cultura prolífica e fogosa.

O Japão e a Era Meiji:

O famoso historiador britânico Bernard Lewis certa vez observou que quando as pessoas percebem que as coisas estão erradas, elas fazem dois tipos de pergunta: “O que fizemos de errado?” e “Quem fez isso conosco?”. Essa última geralmente leva a teorias da conspiração e à paranoia de que até Nauru está imperializando seu país. A segunda pergunta conduz a outra linha de pensamento: “Como corrigir o erro?”. A América Latina, como vimos, optou pela segunda pergunta, caindo na conspiração e na paranoia do anti-imperialismo. O Japão, todavia, parece ter escolhido o caminho do “Como corrigir nossos erros?”.

O pontapé inicial dessa mudança está na “Restauração” Meiji. Antes de 1868, o Japão era um domínio feudal muito semelhante a Europa antes da Renascença. Os xoguns, versões japonesas do que nós ocidentais conhecemos como senhores feudais, controlavam grandes pedaços de terra e possuíam exércitos fortificados que podiam facilmente fazer frente até mesmo ao imperador em Kyoto (então capital do império). O Japão nessa época também não possuía grande atividade comercial ou nenhum indício de industrialização. Era uma terra basicamente agrária, e, como todos as terras agrárias de seu tempo, vivia sob aquilo que Malthus definiu como Lei de Ferro dos Salários. Qualquer mudança que ocorresse com relação a produtividade das lavouras, aumentando assim a produção total de alimentos, levava a um aumento de renda per capita que, se batesse os 3 dólares, começava a gerar pessoas dentro do ambiente analisado que estavam fadadas a morrerem por causas “naturais”, como a fome. O padrão de vida de alguém no Japão feudal era muito inferior a alguém da França mercantilista e absurdamente inferior a alguém do Império Britânico.

Tudo mudou em 1867. Nesse ano, as forças do imperador Mitsuhito Meiji se levantaram para reunificar o Japão e derrotar o antigo e xenofóbico sistema do xogunato, que então impedia a entrada e o contato de qualquer coisa estrangeira no Japão. Com ajuda de apoio americano, Meiji combateu cada um de seus inimigos xoguns no período de 1867–1868. Devo dizer que deve ter sido uma luta meio entediante de se testemunhar, pois era basicamente os exércitos xoguns vestidos de armaduras de couro e armados com katanas combatendo os soldados imperiais armados com metralhadoras e rifles (apesar de que, mesmo assim, muitos soldados imperiais morreram). No dia 8 de Maio de 1868, o último xogun, Tokugawa Yoshinobu, se rendeu e o controle do Estado finalmente voltou às mãos do imperador em Kyoto. Assim também terminou um quarto de milênio de domínio da família Tokugawa. Todavia, os próprios japoneses não se referem a isso como derrubada ou revolução. “Revolução é coisa de chineses”, eles dizem. Ao invés disso, dizem que tudo foi apenas uma volta à normalidade, com a família Meiji retomando o controle do Estado. Para os japoneses, a família Meiji é a dona por direito natural do poder. A China tem dinastias — devido à queda constante de imperadores devido a golpes — mas o Japão não. Eles tem a mesma família real desde o surgimento do país em 660 a.c.

Com isso, os símbolos de unidade nacional já estavam presentes; os ideais de orgulho nacional já definidos. Isso evitou muita confusão. Revoluções, como guerras civis, podem acabar destruindo tanto a ordem como instituições essenciais que garantem a soberania e a sanidade social do país. Ok, a Restauração Meiji foi bastante manchada de sangue mesmo em seus primeiros anos após a queda dos Tokugawas. Mesmo assim, a transição no Japão foi bem mais suave e conservadora do que a de suas colegas francesa e russa, por duas razões: o novo regime tinha uma vantagem moral e o senso de comunidade japonês em torno das tradições acabou evitando que houvesse lutas posteriores pelo poder. Uma certa dose de nacionalismo anti-imperialista também ajudou. Como naquela época ainda era normal os impérios europeus usarem de hard power para fazer cumprir seus objetivos, os japoneses sentiam que deveriam se unir para que as disputas de poder internas não enfraquecessem o Estado e abrisse espaço para que poderes estrangeiros invadissem sua amada terra natal; como havia ocorrido na China.

Nos primeiros anos, os Meiji trataram de integrar o Japão à economia global. Isso, todavia, não foi sem problemas. Em uma sociedade que existia aversão por estrangeiros (e parte disso permanece até hoje, só que em escala BEM menor), a simples presença de ocidentais causou problemas. É registrado que várias vezes homens japoneses enfrentavam ocidentais, na maioria das vezes por causa de mulheres, para mostra-lhes quem dava as ordens. Diante disso, e da incapacidade de honrar com certas demandas ocidentais por reforma, o governo Meiji ficou desacreditado aos olhos dos impérios ocidentais.

Meiji ainda tinha de lidar contra remanescentes dos movimentos no sul e oeste contra a modernização. Os líderes desses movimentos desejavam que o Japão voltasse a época de outrora, na paz miserável de seu isolamento. Porém, logo eles viram-se apanhados não pelo Ontem, mas pelo Amanhã. O que faz bastante sentido na Terra do Sol Nascente. Ao invés de derrotar os “bárbaros” através do seu próprio isolamento, os japoneses o fizeram por meio de uma onda de modernização. Era basicamente eles dizendo: “Ok, ocidentais, vocês tem armas. Mas, um dia, nós também teremos”.

Os japoneses trataram sua própria modernização com método rígido e frio que lhes é característico. Eles estavam preparador para a modernização. Isso se devia a uma tradição histórica de governos bons e responsáveis, de altos níveis de alfabetização, de uma estrutura familiar sólida, de uma ética de trabalho que competia em rigor com os protestantes e de um inerente senso de superioridade.

Eis o âmago da mentalidade japonesa: eles sabiam que eram superiores e, como sabiam disso, foram capazes de reconhecer a superioridade dos outros povos. A partir de medidas tomadas por Meiji, eles começaram a contratar especialistas estrangeiros para ensinar seu povo e enviavam as melhores mentes do país para fora, com prazo de retorno e condições de ida e volta, para aprenderem em primeira mão sobre as inovações americanas e europeias. Mesmo a instituição mais tradicionalista do Japão, o exército, abraçou a mudança. Eles, inicialmente, passaram a adotar o sistema de tropas francês como base; apesar de que, após a Guerra Franco-Prussiana, eles terem visto que a França não era o melhor país para se copiar em questões militares.

Não perdiam uma oportunidade de aprender. Em outubro de 1871, registra-se, uma delegação japonesa de alto nível comandada por Okubo Toshimichi (quem assistiu Samurai X, como eu, provavelmente deve lembrar do nome) viajou aos Estados Unidos e à Europa, visitando fábricas e forjas, estaleiros e arsenais, ferrovias e canais. Eles voltaram quase dois anos depois inflamados de entusiasmo por causa de suas novas descobertas.

Segundo registros, Okubo ficou espantado em como o mundo era diferente fora do casulo em que o Japão vivia. Ele, antes, achava que com a Restauração tudo estava resolvido: a autoridade imperial restaurada, o feudalismo morto e o povo unido. Mas, olhando os grande impérios liberais, ele via o quão pequena e atrasada era sua nação. A Grã-Bretanha, sobretudo, foi a que mais lhe impressionou e deu exemplos de autodesenvolvimento. Outrora uma nação insular e pobre — como o Japão era nesse período — a Grã-Bretanha buscou sistematicamente sua própria melhoria. Adotando uma forma de governo sólido e eficaz (o parlamentarismo) e dando liberdade para seus cidadãos empreenderem; além de, claro, construir um forte poder militar, a Grã-Bretanha tornou-se a Senhora do Mundo (creio que essa análise não esteja tão errada, Adam Smith concordaria com ela).

Todavia, como notou Okubo, o Japão jamais poderia recriar as condições iniciais de que desfrutara a Grã-Bretanha. Por isso, o Japão se voltou para o mais novo império europeu: a Alemanha. A delegação de Okubo, quando visitou a Alemanha, ficou impressionada com o modo como os alemães trabalhavam e buscavam a perfeição em tudo que faziam. Ficou admirado em como seus lideres conseguiram tirar o país do caos da Confederação do Reno e criar uma gigantesca zona de livre-comércio ao mesmo tempo que centralizava o governo em lideres pragmáticos e ultrarealistas, como o então chanceler Otto von Bismarck. Baseando-se no exemplo alemão, o Japão começou a modificar sua burocracia.

Primeiro, vieram tarefas de governo básica: correios, um novo padrão horário, educação pública e serviço militar universal. A educação foi a parte mais importante dessa mudança. Ela difundiu o conhecimento, como de costume, mas teve um papel além desse. Ela também impôs a disciplina, a obediência, a pontualidade e o ensino de valores e glórias históricos da nação. Essa foi a chave para criar um senso de comunidade que rompia as antigas fronteiras mentais do xogunato. O serviço militar complementou esse serviço. Usando o mesmo uniforme e sob a bandeira do sol nascente os japoneses sabiam agora que não eram membros de um grupo C ou D, mas sim de um mesmo grupo J.

Enquanto o governo criava essa cola para unir a sociedade, os indivíduos se dedicavam aos negócios, como produzir máquinas. Não foi nada fácil, sobretudo tendo que incorporar tecnologia estrangeira até o ponto de acompanhar o ritmo do mundo externo, mas em poucos anos, para o espanto de muitos líderes ocidentais, o Japão passou de um reino agrário para a primeira potência industrial da Ásia.

A explicação rotineira dos economistas estruturalistas para esse “milagre” foi a falta de fluxos de capital estrangeiro (não havia recursos, logo, não havia interesse dos “imperialistas”). De fato, a carência inicial de capital fez com o Estado japonês tivesse que ficar disposto e investir e subsidiar industrias. Como o fez, em alguns casos. Todavia, os países latino-americanos também fizeram uma estratégias semelhante (porém mais radical) de intervencionismo estatal, usando desculpa parecida, e falharam miseravelmente. Logo, a carência não era propriamente capital, mas outra coisa. Mas o que seria essa outra coisa? Eu respondo, apesar de que Theodore Schultz já ter respondido antes de mim: Pessoas. O que o Japão realmente precisou para sair de seu estado de miséria foi um grande investimento em capital humano. Literalmente “construir” pessoas. Pessoas criativas, pessoas empreendedoras, pessoas que tivessem conhecimento em determinadas áreas, pessoas que gostassem de trabalhar duro. Foi essa a chave para o sucesso japonês. Todavia que o governo tivesse, realmente, financiado a viagem de mentes para o exterior, foi o senso de comunidade e o talento dos trabalhadores japoneses que realmente fizeram a diferença final.

Outros países mandaram seus jovens ao exterior para aprender novidades e acabaram perdendo-os ou não tendo retorno nesse investimento (tipo o Brasil e o “bolsa classe média” chamado “Ciência sem Fronteiras”); os expatriados japoneses voltaram e o governo teve lucro científico no seu investimento. Muitos países tentaram engenharia reversa de produtos estrangeiros para se industrializar, mas falharam devido a incapacidade dos empreendedores internos de usar as tecnologias obtidas e do governo dar liberdade para que essas tecnologias passassem por processos falibilisticos dentro do mercado (tipo o Brasil e seus diversos “planos de desenvolvimento” nacional que sempre acabam em crises gêmeas fiscais e monetárias); o Japão treinou seus empreendedores e deu liberdade para eles testarem suas ideias. Outros países podem odiar, por razões históricas, o Japão (que brasileiro gosta de gringos?), mas certamente admira o seu grau de desenvolvimento e a habilidade de seu povo.

Todavia, talvez a chave dourada do sucesso japonês esteja na instituição central de sua sociedade: a família. Na cultura japonesa, um trabalhador indolente, comodista e pouco produtivo, é uma vergonha não apenas para si mesmo, mas também, e mais ainda, para sua família. Desde os tempos feudais, antes mesmo da Restauração Meiji, a família foi o lugar onde os valores eram ensinados e onde a ética era perpetrada desde a infância. Nem a religião possuía a importância que a família ainda tem na cultura japonesa. Desonrar o clã era algo passível de levar ao suicídio, até tempos relativamente recentes. E a família foi onde os japoneses aprenderam seu senso de trabalho duro e honra profissionais. Levar honra para o clã era algo que os japoneses aprendiam desde que aprendiam a ler.

Aqui estava uma versão japonesa da ética protestante de Weber. Junto com as iniciativas governamentais e como compromisso coletivo em prol da modernização, essa ética do trabalho tornou possível o milagre econômico japonês. Qualquer explicação sobre o desenvolvimento do Japão sempre precisará, de alguma forma, a colocar como centro de sua explicação esse capital humano culturalmente determinado.

A família, o coração vital do povo japonês.

Sobre Max Weber:

Max Weber, um socioeconomista nascido em Erfurt, Alemanha, foi talvez o maior pensador social de sua geração. Entre os anos de 1904 e 1905, ele publicou um dos mais provocativos e influentes ensaios acadêmicos escritos até hoje: “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”. Sua tese era: o protestantismo — e, mais especificamente, o calvinismo — promoveram o surgimento do capitalismo moderno; isto é, do capitalismo industrial. Weber dizia que isso não se devia a uma característica inerente ao protestantismo ou porque o protestantismo tinha rompido com a fé romana, ou porque ele tinha encorajado a acumulação de riquezas. O que Weber afirma é que o protestantismo criou a estrutura social que moldou o comportamento diário que levaria ao sucesso econômico.

O protestantismo calvinista, segundo Weber, fez isso inicialmente afirmando a predestinação: não se pode alcançar a salvação pela fé ou pelos atos; essa questão já foi decidida para todos os homens no começo dos tempos; e nada poderia alterar a vontade de Deus.

Essa crença, claro, poderia ter estimulado um comportamento fatalista nos protestantes. Se o comportamento e os atos de fé não fazem diferença alguma, por que não aproveitar e fazer o que quiser? Por que ser bom? Porque, segundo um calvinista, a bondade era um sinal plausível de eleição. Qualquer um poderia ser escolhido, mas era razoável supor que a maioria dos escolhidos mostraria naturalmente a bondade de sua alma e natureza de destino. Essa crença era um poderoso incentivo ético a agir de tal forma que todos aqueles a sua volta pudessem tomar seu exemplo como demonstrativo daquilo que Deus queria para uma boa pessoa. E, mesmo que a doutrina da predestinação não fosse passada de geração em geração, ela se converteu em um poderoso código secular de conduta em sociedades calvinistas: muito trabalho, honestidade, seriedade, uso parcimonioso do dinheiro (porém não amor ao dinheiro) e responsabilidade com o uso do tempo.

Todos esses valores ajudam os negócios e a acumulação e uso adequado do capital, mas Weber ressalta que o bom calvinista nunca se preocupava em ser rico ou não (apesar deles considerarem a riqueza uma forma de dádiva divina). Claro, antes da Reforma Protestante já haviam grupos que tinham valores parecidos, como os judeus, e Weber reconhece isso. Todavia, a ideia central é que o protestantismo produziu uma nova espécie de homem de negócios, que almejava viver e trabalhar seguindo um rígido código ético. Era a maneira como se trabalhava e não os frutos do trabalho que realmente importavam para os calvinistas. Só quase um século depois é que essa ética protestante virou o moderno princípio geral administrativo secular ensinado em muitos cursos de administração e em escolas de negócios.

A tese de Weber provocou todo tipo de refutação; a maioria infundada em achismos e palpites ontológicos e derivados de um tóxico racionalismo construtivista. O mesmo tipo de reação cercou a tese do brilhante sociólogo americano Robert Merton, que afirmava existir inúmeras ligações diretas entre o protestantismo e o surgimento da ciência moderna; sobretudo devido a liberdade criativa dada por essa doutrina. Deirdre McCloskey conecta essa tese de Merton e a de Weber para mostrar que, antes da acumulação de capital, foi a liberdade criativa dado pelo liberalismo e pela cultura de países como a Holanda e a Grã-Bretanha que permitiu o surgimento do “capitalismo” (apesar de que a autora discorda desse nome que Marx teria dado ao sistema).

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Max Weber (1864-1920) 

Muitos intelectuais dizem que as teses de Weber estão mortas. Eu não concordo com isso. Não no nível empírico, onde os registros mostram que, de fato, os protestantes foram centrais para o estabelecimento de comércios, bancos e indústrias. Nem no conceitual. O cerne da tese afirma que a produção de um novo tipo de homem  — racional, frio, ordeiro e produtivo —  foi central para o estabelecimento do capitalismo, e realmente foi. Essas características certamente poderiam ser encontradas em outros grupos, mas foram os protestantes calvinistas que tornaram ela um ethos social pelo qual os membros do grupo eram julgados.

Duas características do protestantismo confirmam essa ligação entre desenvolvimento e hábitos religiosos. A primeira é importância dada ao capital humano. Nas sociedades calvinistas a alfabetização era dada a meninos e meninas, sobretudo por causa da leitura da Bíblia. Era obrigatório em todos os lares que todos os membros da família soubessem ler as Escrituras Sagradas. Resultado: um maior nível de alfabetização de uma geração para outra. É interessante que dentro de sociedades calvinistas, uma mulher só seria considerada uma boa esposa se ela soubesse ler e ensinar as crianças a também ler e interpretar as Escrituras. Isso fazia com que elas tivessem um papel mais ativo na formação das crianças do que em sociedade católicas, onde a mãe tinha apenas a função de dar a luz e passar certos valores familiares. Nas sociedades católicas, geralmente o ensino era dado por clérigos, o que acabava monopolizando muito o conhecimento nas mãos de um pequeno grupo e não permitia muito espaço para interpretações diferentes ou interpretações críticas do conhecimento que iria ser passado.

A segunda é a importância dada ao tempo. Aqui temos o que os sociólogos chamam de “evidência discreta”: quase todos os protestantes trabalhavam na fabricação de relógios. Mesmo em regiões tradicionalmente católicas como a França e a Baviera, eram os protestantes os responsáveis pela fabricação de relógios. Essa valorização do tempo nas sociedades calvinistas fica ainda mais visível se olharmos as vilas suíças e da Nova Inglaterra. Nesse lugares, sempre havia perto dos mercados uma torre do relógio para visar os mercadores dos horários.

Novamente, isso não quer dizer que o “tipo ideal” do capitalista weberiano só possa ser encontrado em calvinistas e em seitas ramificadas. Pessoas de todas as crenças, ou de crença nenhuma, podem ser racionais, diligentes, ordeiras, produtivas, limpas e excêntricas. Nem elas precisam ser ligadas aos negócios. Elas podem exercer a atividade que quiserem, na verdade, e isso é maravilhoso. O argumento de Weber, em minha interpretação, é que, na Europa setentrional dos séculos XVI a XVIII, a religião estimulou o aparecimento, em grande número, de um tipo cultural que antes fora sempre acidental e que isso ajudou no desenvolvimento desses países no que eles são hoje, em maioria: economias capitalistas de livre-mercado e, mais importante ainda, economias desenvolvidas e funcionais. Essa é o cerne do argumento de Weber: é a cultura, e não o Estado, o egoísmo ou o acúmulo de capital, a razão central do capitalismo, estúpido!

 

Bibliografia:

— LANDES, David S. A Riqueza e a Pobreza das Nações. Editora Elsevier. 784p.

— ALBERDI, Juan Bautista. Sistema Economico y Rentismo. Ciudad Argentina.

— LEWIS, Bernard. Islam and West. Oxford Press. 217p.

— FARRIS, William Wayne. Japan to 1600. University of Hawaii Press. 248p.

— WEBER, Karl Emil Maximillian. A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. Companhia das Letras. 301p.

— FRANCO,Gustavo H.B. As Leis Secretas da Economia. Zahar Editores.

— PENNA, J.O de Meira. A Psicologia do Subdesenvolvimento. Vide Editorial.

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