Haslley Queiroz – Hayek Revival (Part l) [SÉRIE]

Artigo originalmente postado aqui, no dia 21 de Junho de 2016 

Introdução à série e seu propósito

Se você, por algum acaso, for um libertário que chegou nessa postagem pelos mais diversos motivos, você provavelmente conhece Hayek como um dos mais influentes e populares economistas da Escola Austríaca. Se for um anarco-capitalista, provavelmente acredita que ele seja um socialista e que toda a contribuição dele, não só para o pensamento econômico, mas para todas as outras áreas sobre as quais ele escreveu, é descartável. E se você é um simpatizante da Esquerda, provavelmente acredita que ele é um pensador ultra-conservador reprodutor das “velhas e ultrapassadas ideias do liberalismo clássico do século XIX” que não possuem mais lugar no pensamento contemporâneo. Agora, se for você for um minarquista ou um liberal neo-clássico, você provavelmente possui opiniões mais favoráveis sobre Hayek. E se você sequer sabe quem foi Hayek, continue lendo porque, se você for alguém interessado em adquirir conhecimento de alta qualidade, eu te darei motivos para continuar. Independentemente do que você sabe ou acha de Hayek e você sendo libertário, anarco-capitalista, socialista, marxista ou até mesmo minarquista ou liberal clássico, eu quero demonstrar que muito provavelmente você não conhece realmente o pensamento de Hayek (e isso porque a maioria de suas obras mais fundamentais e sofisticadas ainda não foram traduzidas para o português) e que será extremamente intelectualmente proveitoso que você conheça. Você vai poder continuar socialista, anarco-capitalista ou o que quer que você for caso queira. Eu quero te mostrar que, independente disso, o pensamento de Hayek, desde sua epistemologia e metodologia científica até a sua teoria política, sociológica, econômica e psicológica, vale a pena ser estudado mais profundamente.

O meu propósito com essa série não é nada modesto. Mas também não tenho certeza que conseguirei atingi-lo. De qualquer forma eu darei o tiro, se acertar, acertei. O que eu realmente quero é iniciar um Hayek Revival. Um renascimento no interesse e estudo de todas as obras de Hayek. Se isso acontecer apenas no meio libertário pelo menos, já sentirei a sensação de dever cumprido. Isso porque acredito que as principais ideias hayekianas foram pouco estudadas, negligenciadas e até mesmo completamente ignoradas. Se você for libertário, minarquista ou liberal clássico deve estar pensando: “Como assim? Você está louco? Hayek ganhou um nobel, cara! Hayek é bem mais conhecido até mesmo que Mises na Academia! Do que tu estás falando?”. Bom, eu estou falando de um efeito muito curioso, porém não pouco comum, onde um pensador se torna popularmente conhecido (merecidamente) por uma obra popular (quero dizer panfletária mesmo e que, no caso de Hayek, foi seu livro “Caminho da Servidão”), mas acaba se tornando apenas um ícone cujas ideias, na cabeça da maioria das pessoas, se resumem ao que foi exibido na obra que o tornou famoso. Eu quero demonstrar que o pensamento de Hayek é riquíssimo e quero compartilhar com vocês a surpresa e fascínio que tive quando descobri que Hayek antecipou de forma independente e surpreendentemente substancial desenvolvimentos na epistemologia, filosofia da ciência, psicologia, neurociência e neurobiologia que só ocorreram várias décadas depois do que ele escreveu.

Mas se Hayek realmente fez tudo isso, por que é que não existem o interesse e o engajamento com sua obra que quero tanto instigar? Bom, a explicação que encontrei foi a de que, no Brasil pelo menos, as ideias liberais e libertárias se tornaram bastante conhecidas muito mais através de sites e blogs como o IMB (Instituto Mises Brasil) e que tais sites são de vertente predominantemente miseana ou rothbardiana. Tá, mas e daí? Bom, caso você não saiba, existiu uma rixa enorme entre os economistas e teóricos políticos miseanos-rothbardianos e os hayekianos por motivos que irei esclarecer parcialmente nessa série, mas de forma mais substancial e histórica em postagens especificamente dedicadas a esse tópico. É claro que existem artigos de Hayek e de economistas hayekianos no IMB. No entanto, se você for dar uma olhada na biblioteca virtual do IMB, perceberá que existem apenas dois livros do Hayek (e dois livros extremamente panfletários e superficiais e que não se comparam aos trabalhos mais robustos e sofisticados de Hayek), sem contar que os artigos pró-Hayek são escassos. Perceba também que, além de existirem muito mais livros de Mises do que de Hayek, a Magnum Opus de Hayek Direito, Legislação e Liberdade (1973) não está inclusa e a Ação Humana (1949), a obra magna de Mises, sim [ADENDO: Você pode encontrar essa obra de Hayek com uma pesquisa rápida no google e na biblioteca do site Libertarianismo]. O triste é que a magnífica obra Direito, Legislação e Liberdade não é nem a ponta do iceberg do pensamento de Hayek. Também não acho que esse seja o único motivo para a negligência do estudo de Hayek, principalmente quando olhamos para a Academia. Afinal, Hayek foi laureado com um Nobel. Por que é que as obras que quero enfatizar não são tão conhecidas também? Bom, não tenho uma hipótese completamente formada sobre isso. Tem o efeito curioso que mencionei acima e também o fato de que Hayek ficou muito mais conhecido, pelo menos na Academia, como simplesmente só um economista e suas considerações em outras áreas foram sistematicamente ignoradas. De toda forma, o objetivo principal dessa série é justamente corrigir esses erros e distorções.

A importância do pensamento de Hayek

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Friedrich Hayek (1899-1992) nasce em Viena em um momento onde a alta cultura intelectual vienense aflorava maravilhosamente. Primo do influente filósofo analítico Ludwig Wittgenstein, com o qual teve pouco contato e o pouco contato que tiveram foi, nas próprias palavras de Hayek, “bem peculiar”, Hayek foi um dos primeiros a ler a única obra publicada do filósofo em vida, o Tratactus Logico-Philosophicus e admitiu, posteriormente, que o pensamento de Wittgenstein o influenciou profundamente. Na Universidade de Viena, Hayek estuda e se torna doutor em Direito e Ciência Política, estudando também Psicologia, Economia e Filosofia. Hayek também teve um profundo contato com o estudo da Anatomia Cerebral no laboratório de Monakow, tal contato, aliado ao seu estudo das obras de Ernst Mach (1838-1916) sobre fenomenologia e fisiologia da percepção, dão origem ao ensaio intitulado “Contribuições para Uma Teoria de como a Consciência se desenvolve” escrita pelo jovem Hayek de 21 anos em 1920 enquanto ainda aluno. Tal ensaio seria aprimorado por Hayek e se transformaria em uma das obras monumentais de Hayek e que será uma das quais mais analisaremos nessa série: The Sensory Order (A Ordem Sensível, publicada em 1952 e ainda não traduzida para o português e duvido muito que será traduzida em qualquer momento do futuro próximo, infelizmente). The Sensory Order, apesar de ter sido bastante negligenciada pelos psicólogos e neurobiólogos da época (muito provavelmente por conta de Hayek ter escrito algo muito além de seu tempo. De fato, a revolução connectionista na neurociência aconteceria apenas muito muito depois e tal fato só demonstra a dimensão da pré-ciência de Hayek!), tal obra tem sido exponencial alvo de maior atenção. Principalmente por conta dos trabalhos do psicólogo cognitivo Walter B. Reimer, neurofisiologistas como Gerald Edelman e Joaquim Fuster chamaram a atenção para a perspicácia das considerações hayekianas sobre a relação entre a percepção, o cérebro e a mente. Veremos também um pouco sobre a recepção que The Sensory Order vem tendo nos últimos anos.

Hayek também rejeita a teoria dos dados dos sentidos dos neopositivistas (de novo, antecipando críticas que só ocorrerão décadas depois) e rejeita uma concepção puramente empirista da percepção humana. Partindo de um ponto de vista extremamente kantiano, Hayek acredita que toda percepção humana já é conceitualmente estruturada e categorizada. De que forma veremos depois. O que é importante ressaltar é que a epistemologia de Hayek, muito mais do que a epistemologia de qualquer outro economista austríaco, é essencialmente kantiana (A despeito dos que acreditam que Mises é mais kantiano, veremos porque isso não é verdade). Hayek rejeita que possamos ter acesso direto a uma realidade independente da forma de nossa percepção. No entanto, o que é muito mais interessante é a sua concepção connectionista da mente. Hayek antecipa (novamente!) as posições, muito populares décadas depois, que tomam a mente como um sistema complexo adaptativo emergenteguiado não por processos computacionalistas, mas por redes neurais interconectadas.

O que será interessante notar é como isso se encaixa com as considerações de Hayek sobre a sociedade, o direito e o mercado como ordens espontâneas. Na verdade, a dimensão das ordens espontâneas já começa na própria forma de como a nossa consciência se desenvolve. A consciência é ela mesma uma ordem espontânea. O que nos leva para o último ponto a se considerar nessa introdução.

Hayek como um pensador sistemático

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Talvez pelo fato de Hayek escrever tão prolificamente sobre variados assuntos em um período bastante longo de tempo, muitos não conseguem perceber a sistematicidade do seu pensamento. Aliás, minto, a maioria das pessoas sequer conhece as outras partes do pensamento de Hayek que complementam, corroboram aprimoram suas considerações sobre a economia, o mercado, a sociedade e a política. A minha missão é, além de introduzir de forma analítica seu pensamento e incitar um novo interesse nas obras de Hayek, evidenciar como tudo forma um sistema internamente consistente e interconectado. É claro que nenhum pensador sistemático na história (nem Aristóteles, nem Kant e nem Hegel) conseguiram ser totalmente sistemáticos. Não deixaram de ser humanos, claro. É por isso que certa dose interpretativa será inserida no meio. Tentarei trazer o pensamento de Hayek da forma mais objetiva e crua o possível. No entanto, apontarei as inconsistências (muitas vezes apenas aparentes) e mostrarei de que forma elas podem ser dirimidas. É claro que não negligenciarei as contribuições de Hayek para a Economia e Política. Mas uma das minhas estratégias é começar do micro e ir para o macro, isto é, começar pelas observações de Hayek sobre a mente e a consciência e passar posteriormente para suas considerações sobre o comportamento humano, o mercado, a sociedade e a Política e tentar mostrar como tudo se encaixa e como o próprio Hayek acreditava que se encaixava.

Para finalizar esse post de introdução, eu preciso apenas fazer alguns comentários adicionais que estão diretamente vinculados ao meu projeto geral com esse site. A preocupação de Hayek com regras implícitas no comportamento humano e como isso está relacionado ao conhecimento tácito assevera uma dimensão pragmática no pensamento hayekiano que é curiosamente semelhante ao que encontraremos em pensadores como Wilfrid Sellars, Ludwig Wittgenstein, Robert Brandom, Hilary Putnam e Jurgen Habermas. Por que é então que eu não mencionei o nome de Hayek nessa lista? Bom, isso é porque eu aprendi muitocom todos os pensadores citados naquela seção, mas aprendi pouco com Hayek. Ora, isso se deve a um fato muito sinistro e ao mesmo tempo engraçado: desde que comecei a ler as obras de Hayek, eu sinto que eu já sabia do que ele estava falando. Não no sentido de eu ter aprendido em outro lugar, mas de Hayek ser muito semelhante a mim na forma de pensar e estruturar um raciocínio. É óbvio que eu aprendi muita coisa lendo Hayek e eu quero mostrar isso também aqui. Mas o único motivo para eu não menciona-lo como influência é que, tendo lido Hayek muito antes do que os outros que citei, eu me conecto num nível pessoal e cognitivo com Hayek (talvez você até note uma semelhança na forma de escrever e no nome também, ha!). É quase como se fossemos a mesma pessoa. Meio louco, né? Alguns diriam que é injusto não menciona-lo como influência. Eu diria que essa é a forma mais clara de mostrar que, talvez, ele seja a minha maior influência.

Bom, notas pessoais à parte (prometo que não se repetirão). Tem uma última coisa a qual quero chamar a atenção. Com o passar do tempo (se você continuar acompanhando o site), quero que prestem atenção nas semelhanças que unem todos os pensadores que me influenciam. Não me influenciam apenas por conta da profundidade e sofisticação de pensamento. Uma tendência ou uma pré-disposição existe no pensamento de cada um deles: um anti-dogmatismo. É claro que ainda é preciso esclarecer exatamente o que quero dizer quando falo de “dogmas” e “dogmatismo” e de que forma todos eles são, de fato, anti-dogmáticos no sentido que quero chamar a atenção. Basta dizer que tal anti-dogmatismo será de suma importância para a compreensão do que é o Pragmatarianismo e de como poderemos superar o que eu acredito ser os principais dogmas do Libertarianismo mainstream e da Filosofia em geral.

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