Guilherme Cintra – Ordem espontânea e individualismo metodológico em Hayek

Texto originalmente publicado aqui, no dia 27 de outubro de 2016.

Há pessoas que alegam que as ideias de Hayek em alguns campos não obedeciam ao individualismo metodológico.

Alguns dizem até que seu conceito de “ordem espontânea” não estava de acordo com essa ideia. Em uma discussão, um rapaz uma vez me disse:

“O cara defende a “ordem espontânea”, como se houvesse uma causa invisível e remota guiando os fatos. No máximo, há um valor metonímico dessa afirmação.”

Creio que isso é errado e vou tentar mostrar por que a ideia de ordem espontânea, como explicada por Hayek, faz todo o sentido e como ele construiu ela — e outras ideias — baseado no individualismo metodológico, em grande parte herdado por Carl Menger.

carl-menger
Carl Menger (1840-1921) 

Hayek diz que a ordem espontânea é fruto da “ação humana, mas não do desenho humano” (usando as palavras do escocês Adam Ferguson). Ou seja, a explicação última está na própria ação humana. Além disso, o que é “espontâneo” não é a ação, mas sim a ordem. O que ele está dizendo é que tal ordem não é fruto de ações deliberadas que objetivam formar aquela ordem. Podemos citar aqui o mercado, a moral, a cultura, a linguagem, etc. Carl Menger, o fundador da Escola Austríaca, concorda completamente com isso. Ele diz:

“O direito, a linguagem, o Estado, a moeda, o mercado, todas essas estruturas sociais, em suas várias formas empíricas e em suas mudanças constantes, são, em grande extensão, o resultado não intencional do desenvolvimento social. O preço dos bens, a taxa de juros, a renda da terra, os salários, e milhares de outros fenômenos da vida social em geral e da economia em particular exibem exatamente a mesma peculiaridade.” (Investigations into the Methods of the Social Sciences, p. 147)

Essas instituições apontadas por Menger não são, geralmente, formadas por um indivíduo específico. Acreditar que são resultado do desenho de algum indivíduo é um falso antropomorfismo, e isso vai em oposição à ideia de individualismo metodológico. Menger reconhecia muito bem a existência dessas estruturas e acreditava ser de suma importância a pesquisa sobre como se originaram:

“A linguagem, a religião, o direito, até mesmo o próprio Estado, e, para mencionar alguns fenômenos econômicos, o fenômeno dos mercados, da competição, do dinheiro, e numerosas outras estruturas sociais são encontradas já em épocas da história onde não podemos propriamente falar de uma atividade proposital da comunidade em si direcionada a estabelecê-las. Nem podemos falar de tal atividade por parte dos governantes. Nós somos aqui confrontados com o aparecimento de instituições sociais que, em grande medida, servem o bem-estar da sociedade. De fato, elas são muito frequentemente de importância vital para ela e ainda não são o resultado da atividade social comunal. É aqui que encontramos um problema significativo, talvez o mais significativo, das ciências sociais:

Como é possível que instituições que servem o bem-estar comum e são extremamente importantes para seu avanço podem surgir sem uma vontade comum visando sua criação?” (Carl MengerInvestigations into the Methods of the Social Sciences, p. 146)

O “programa de pesquisa” de Hayek era quase todo em busca de responder essa pergunta de Carl Menger. Para isso, ele desenvolveu o “método compositivo” nas ciências sociais, principalmente em sua obra The Counter-Revolution of Science, que ele explica aqui:

“Enquanto o método das ciências naturais é, nesse sentido, analítico, o método das ciências sociais é melhor descrito como compositivo ou sintético. São os tão chamados conjuntos, os grupos de elementos que são estruturalmente conectados, os quais aprendemos a discriminar da totalidade dos fenômenos observados apenas como um resultado de nosso ajuste sistemático dos elementos com propriedades familiares, e que construímos ou reconstruímos das propriedades dos elementos conhecidas.” (The Counter-Revolution of Science, p. 39)

Hayek dá um bom exemplo da aplicação desse método: as trilhas [1]. Segundo ele, primeiramente uma pessoa escolherá qual parece ser, para ela, o melhor caminho. Mas do fato de que esse caminho já foi usado uma vez, ele fica melhor de ser usado novamente. E, gradualmente, caminhos mais claros e definidos serão usados e excluirão outras possíveis maneiras de atravessar. Isso é caracterizado, por ele, como uma ordem espontânea. Ordens espontâneas são complexas, porque tendem a ser imprevisíveis, e é muito difícil acompanhar a formação de todo o processo, pois ele depende de inúmeras variáveis, situações diferentes e um grande tempo para assistir sua formação. Predizer o futuro desenho daquela ordem também é uma missão dificílima. Cada mínima mudança no processo pode acumular, no futuro, como uma enorme mudança (como na Teoria do Caos). Além do mais, no caso da formação da trilha, possivelmente as pessoas nem imaginavam que, passando ali, colaborariam para ajudar com o futuro processo de locomoção das outras pessoas (não sabiam que contribuíam para uma ordem maior). Por isso essa ordem é o resultado da ação, mas não do desenho humano (ou seja, não do objetivo deliberado das pessoas de criarem aquela ordem).

(Em seu artigo mais conhecido, o uso do conhecimento na sociedade, Hayek nos dá um ótimo exemplo da ordem espontânea do mercado ilustrado pelo mercado de estanho. Eu o coloquei separadamente aqui)

Por isso Hayek usa do método compositivo para explicar a ordem espontânea. Segundo ele:

“Nas partes finais desse ensaio, temos que considerar certas atitudes práticas que se derivam das observações teóricas já discutidas. Seu aspecto comum mais característica é um resultado direto da inabilidade, causada pela falta de uma teoria compositiva do fenômeno social, de compreender como a ação independente de muitos homens pode produzir conjuntos coerentes, estruturas constantes de relações que servem importantes propósitos humanos sem terem sido desenhadas para esse fim.” (The Counter-Revolution of Science, p. 80)

md-razao-evolucao-ordem-liberal-web
Friedrich Hayek (1899-1992)

Baseando sua teoria nesse método, Hayek critica fortemente a visão holista da sociedade, que acredita na existência concreta e na ação independente de conjuntos sociais — coisa que desconsidera que, em última instância, eles são fundados no indivíduo.

Em seu próprio The Counter-Revolution of Science, ele nos dá uma teoria subjetivista, relacionando a intencionalidade humana e a categorização mental dos objetos. Ele ainda desenvolve uma teoria psicológica, em seu livro The Sensory Order, com o objetivo de expandir essas ideias e explicar melhor a aquisição do conhecimento humano e sua relação com a ação.

Hayek sempre enfatiza a limitação do conhecimento humano, sem cair no erro de pressupor conhecimento perfeito dos indivíduos. Segundo ele:

“O conhecimento existe apenas enquanto conhecimento individual. Falar do conhecimento da sociedade como um todo não é mais que uma metáfora. A soma dos conhecimentos de todos os indivíduos não existe, em parte alguma, como um todo integrado. O grande problema está em descobrir de que modo todos podemos aproveitar esse conhecimento, que se encontra disperso, na forma de idéias separadas, parciais e, às vezes, conflitantes, nas mentes de todos os homens.” Os Fundamentos da Liberdade, p. 22

Além disso, ele critica, como Menger [2], as metáforas organicistas aplicadas à sociedade, como se, da mera comparação da sociedade com um objeto da natureza ou um organismo vivo, pudêssemos derivar conclusões teóricas sobre ela. No máximo essas comparações poderiam servir como ilustração; nunca como método de pesquisa. Segundo ele:

“Era natural que a analogia organicista deveria ter sido usada desde tempos antigos para descrever a ordem espontânea da sociedade, já que organismos eram os únicos tipos de ordem espontânea com os quais todos eram familiarizados. Organismos são, de fato, um tipo de ordem espontânea e, como tal, exibem muitas das características de outras ordens espontâneas. Era, portanto, tentador emprestar deles tais termos como ‘crescimento’, ‘adaptação’ e ‘função’. Eles são, entretanto, ordens espontâneas de um tipo bem especial, possuindo também características as quais de maneira alguma necessariamente pertencem a todas as ordens espontâneas; a analogia, em consequência, logo torna-se mais enganadora do que útil.” Friedrich Hayek, Law, Legislation and Liberty, p. 52

Acima de tudo, Hayek preza pelo subjetivismo [3], característica tão essencial da Escola Austríaca. E é um seguidor direto do individualismo metodológico de Menger [4]. Deixando claro tudo isso, percebe-se que a fundação da ideia ordem espontânea, da teoria de mercado e de outras teorias sociais de Hayek é solidamente baseada na percepção sobre a subjetividade humana e no individualismo metodológico.

Notas:

1 – Ele a explica em The Counter-Revolution of Science, p. 40

2 – “Se esse significante problema das ciências sociais deve realmente ser resolvido, isso não pode ser feito por meio de superficiais e, na maior parte, inadmissíveis analogias. Ele pode ser feito, em todo caso, apenas por meio da consideração direta do fenômeno social, não “organicamente”, “anatomicamente ou “psicologicamente” , mas apenas de forma especificamente sociológica.” Carl Menger, Investigations into the Methods of the Social Sciences, p. 150

É interessante que Hoppe, numa crítica a Hayek, critica sua utilização de conceitos que segundo ele são inadequados às ciências sociais, como “crescimento natural”, “evolução espontânea”, etc, e tenta usar Menger como sustentação a essa crítica. Entretanto, a crítica de Menger era ao uso dessas metáforas ou termos das ciências sociais como o objetivo de realizar uma explicação: sua crítica não era aos termos em si, mas à tentativa de explicar um fenômeno social puramente por meio de um termo emprestado de outras ciências. O próprio Menger muitas vezes chama os fenômenos de “ordem espontânea” de “organismos” (ver, por exemplo, o uso do termo na página 147 de seu Investigations). O mesmo faz Mises (ver p. 295-297 de seu Socialism).

3 – “O fato de a utilidade de um objeto ou ação, comumente definida como sua capacidade de satisfazer os desejos humanos, não possuir a mesma magnitude para diferentes indivíduos, parece agora tão óbvio que é difícil compreender como cientistas respeitados trataram a utilidade como um atributo objetivo, geral e mesmo mensurável dos objetos físicos. ” Arrogância Fatal, 133

Como ele disse (e Hoppe injustamente critica):

“… provavelmente não é exagero algum dizer que todo importante avanço feito na teoria econômica nos últimos cem anos foi um passo adiante na consistente aplicação do subjetivismo.”  F.A. Hayek, The Counterrevolution of Science (New York: Free Press, 1955), p. 31.

4 – Aqui Hayek faz uma explicação do método de Menger:

“O uso consistente da conduta inteligível dos indivíduos como os blocos construtores a partir dos quais construímos modelos de estruturas de mercado complexas é, certamente, a essência do método que o próprio Menger descreveu como ‘atomístico’ (ou, ocasionalmente, em notas manuscritas, como ‘compositivo’), e que mais tarde veio a ser conhecido como individualismo metodológico. Seu caráter é melhor expresso por essa enfática alegação no Prefácio de Grundsatze, no qual ele diz que seu objetivo era traçar os fenômenos complexos da economia social desde seus elementos mais simples que ainda são acessíveis a certa observação. Mas enquanto ele enfatiza que fazendo isso ele está aplicando o processo empírico comum a todas as ciências, ele implica que, ao mesmo tempo, diferentemente das ciências físicas, que analisam fenômenos diretamente observados em elementos hipotéticos, nas ciências sociais nós começamos com nosso reconhecimento dos elementos e os usamos para construir modelos de possíveis configurações de estruturas complexas nas quais eles podem se combinar e que não são acessíveis da mesma maneira a observações diretas como são os elementos.” Friedrich Hayek, The Place of Menger’s Grundsatze in the History of Economic Thought, p. 28

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s

WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: