Haslley Queiroz – Conhecendo Kant (Parte III)

3 A Filosofia Transcendental

Nos últimos posts, vimos como a problemática kantiana se situa historicamente e filosoficamente em relação aos empiristas e racionalistas de sua época e entendemos a natureza e o objetivo do projeto crítico kantiano. Até agora nos mantemos apenas nas preliminares da filosofia kantiana. Nesse post, daremos o primeiro mergulho nas águas da filosofia transcendental. Mas antes disso, algumas coisas precisam ser esclarecidas.

No livro “Crítica da Razão Pura”, Kant afirma querer apresentar uma ciência particularcom o nome de crítica da razão pura. Tal ciência apenas trataria dos limites da razão pura e teria uma serventia muito mais negativa na medida em que retira do uso especulativo da razão pura um papel epistemologicamente ampliativo. Kant também fala de um órganon da razão pura, que seria o conjunto de princípios a priori adquiridos através da investigação das bases transcendentais da nossa racionalidade. A aplicação completa de tal órganon formaria um sistema da razão pura. Tal sistema da razão pura seria, de fato, a filosofia transcendental. No entanto, a crítica da razão pura não é tal sistema. A crítica tem uma função muito mais purificadora e propedêutica já que apenas trata de limpar a área onde o edifício arquitetônico da razão pura seria construído.

Vejamos como a crítica da razão pura é dividida.

3.1 A Divisão da Crítica da Razão Pura

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A primeira parte da crítica se intitula doutrina transcendental dos elementos pois investiga os elementos constitutivos da racionalidade humana, i.e., as faculdades cognitivas do ser humano. A segunda parte da crítica é a doutrina transcendental do método que trata da disciplina, do cânone e da história da razão pura. A parte que toma mais espaço e que é tida como mais relevante é a doutrina transcendental dos elementos que é dividida entre a estética transcendental e a lógica transcendental. Como já vimos, Kant acredita que as duas principais faculdades do conhecimento humano são a sensibilidade e o entendimento. Dessa forma, a estética transcendental trata das formas a priori e puras da sensibilidade humana e a lógica transcendental trata das formas a priori e puras do entendimento humano. Por sua vez, a lógica transcendental é dividida em analítica transcendental, que trata do uso devido dos conceitos e princípios a priori e puros do entendimento humano, e na dialética transcendental Kant tratará do uso indevido da razão especulativa puraquando a mesma tenta ir além dos limites da experiência e acaba por produzir apenas ilusões e antinomias. O uso especulativo da razão pura tem uma serventia especifica e importante para Kant como veremos, mas ela é apenas regulativa. Não é necessário se preocupar em decorar todos esses termos e nem se desesperar se não entendeu ainda o que tudo isso quer dizer. Tudo isso ficará mais claro quando falarmos sobre cada uma dessas seções.

3.2 O Idealismo Transcendental  

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Há muita confusão e más interpretações sobre o termo idealismo transcendental, alguns entendem que Kant era um subjetivista completo que negava a realidade dos fenômenos e que considerava que tudo era uma mera ilusão e, sim, existem inclusive comentadores de filosofia, como o senhor Olavo de Carvalho, que chegam a esse ponto do apedeutismo, outro exemplo de má interpretação seria aquela propagada pela escritora literária Ayn Rand. É importante frisar que Kant era um idealista transcendental e um realista empírico. O que isso quer dizer?

Kant acreditava que o estado decadente da Metafísica de sua época se devia à relutância dos metafísicos em seguirem o exemplo das ciências naturais e da matemática. Os metafísicos acreditavam que a nossa consciência sofria o impacto dos objetos externos e que as nossas ideias de tais objetos eram moldadas passivamente por eles. Kant propõe que façamos algo semelhante ao que os cientistas da Revolução Científica fizeram. Tais cientistas começaram a ativamente testar e investigar a natureza procurando por respostas ao invés de apenas esperar por tais respostas inapetentemente. O projeto crítico de Kant é exatamente aquele. E a hipótese primária de Kant (que posteriormente, como veremos, se mostrará não como hipótese, mas como resultado epistemológico necessário das investigações transcendentais de Kant) é o que ele mesmo chamou de uma Revolução Copernicana na epistemologia. Copérnico notou que o modelo geocêntrico produzia muitas contradições e erros na previsão do movimento dos corpos celestes e, diante disto, inverteu a ordem das coisas: ao invés dos corpos celestes revolverem ao redor da Terra, e se a Terra e os corpos celestes do sistema solar revolvessem ao redor do Sol? Com essa reviravolta, várias aporias e erros de previsão se dissolveram. A Revolução Copernicana de Kant segue de forma semelhante: até agora se presumiu que o nosso conhecimento se regula pela constituição dos objetos externos, mas e se os objetos externos se regulassem, de certa forma, de acordo com a constituição subjetiva das nossas faculdades cognitivas?

Eis o fulcro do idealismo transcendental: já vimos que transcendental significa condição [a priori] necessária para a possibilidade de toda experiência humana. O idealismo corresponde ao fato de que os objetos externos se regulam parcialmente pelas formas puras da sensibilidade e do entendimento, ou seja, os objetos-em-si nos fornecem a matéria [no sentido de conteúdo e não no sentido da física] e as formas puras da sensibilidade e do entendimento nos fornecem a forma necessária para que tal matéria se torne parte do nosso conhecimento. Segue que não podemos saber como as coisas são em si mesmas. E por que não? Bom, nossas faculdades cognitivas são limitadas e não podemos sair do nosso corpo para saber como as coisas são em si mesmas.  Só podemos saber como elas se apresentam para nós. É aqui que surge a distinção entre a coisa-em-si ou númeno [tecnicamente são duas coisas diferentes, mas a diferença veremos mais para a frente] e o fenômeno, o que aparece para nós. Isso quer dizer que não temos contato com o mundo? Que tudo é uma ilusão? Absolutamente não. Temos contato com o mundo sim. Percebemos o mundo sim. Mas apenas aquilo do mundo que nossas faculdades cognitivas nos permitem perceber. Veja bem, só conseguimos enxergar uma parte limitada do espectro das ondas eletromagnéticas que chamamos de cores. Só conseguimos ouvir ondas sonoras de frequência e amplitude específicas. Só conseguimos sentir o cheiro e o gosto de substâncias químicas específicas. E só conseguimos tocar objetos macro-físicos de textura e dimensão específicas. Tudo isso porque nossas capacidades perceptuais são limitadas. Mas isso não quer dizer que não vemos o mundo. Vemos o mundo de uma forma humana. Um cachorro, um morcego, uma formiga, uma baleia e uma bactéria irão perceber o mundo de formas distintas da nossa. Pode ser [muito pouco provavelmente] que existam seres alienígenas que percebam a realidade de uma forma completamente distinta e impensável. O fenômeno que se apresenta para nós não é uma ilusão. O fenômeno é a própria coisa-em-si como percebida por nós. Só não podemos saber como a coisa-em-si é em sua totalidade.

O que Kant vai mostrar é que, além dessas limitações perceptuais mencionadas acima, existem limitações impostas também pelas formas puras da sensibilidade e do entendimento. Essas formas são as condições necessárias a priori que tornam possíveis a nossa experiência e conhecimento das coisas. Os fenômenos são tão reais quanto a coisa-em-si. A diferença é que vemos apenas parte do real. Isso desmonta toda prepotência e arrogância humana em achar ter conhecimento da realidade em sua totalidade. Mas espera aí, se só podemos conhecer os fenômenos e nunca as coisas como elas são em si mesmas, como sabemos que existem coisas-em-si-mesmas? Veremos o argumento de Kant contra idealismo subjetivista mais para a frente. Por hora, basta dizer que, para Kant, se existe uma aparição [fenômeno], é necessário que exista algo da qual tal aparição seja aparição. Esse algo não pode ser percebido em sua totalidade, mas pode ser pensado [daí o nome “númeno” que vem de “nous”, mente, pensamento, ou seja, algo que só pode ser pensado]. Isso se chama realismo de aspecto dual. Quando vemos um copo, vemos apenas a parte do copo-em-si que nossas capacidades perceptuais conseguem perceber e que as nossas capacidades cognitivas conseguem cognizar. Alguém pode se perguntar: mas quem é que está observando? É um eu, não? Esse eu é fenômeno ou númeno? Bom, é claro que o eu é uma coisa-em-si também, a diferença é que só intuímos o eu como fenômeno. Isso não é nenhum problema para a filosofia kantiana. Da mesma forma que a todo fenômeno corresponde uma coisa-em-si da qual aquele é uma aparição, a todo eu fenomênico corresponde um eu numênico [a natureza do eu ou ego e a distinção entre ego empírico e ego transcendental serão tratadas mais para a frente]. Assim, os fenômenos são empiricamente reais e transcendentalmente ideais [ideal apenas no sentido de serem possibilitados pelas formas a priori da constituição subjetiva da nossa cognição, alguns consideram os termos idealismo e ideal infelizes pois causam muita confusão, poderíamos falar do humanamente transcendental, por exemplo. Mas a literatura já aceitou os termos acima. Outra coisa é que o transcendental em Kant é apenas o que diz respeito às nossas faculdades cognitivas. Poderíamos dizer também que a existência de uma realidade objetiva é uma condição necessária não só para a existência da experiência humana mas também para a própria existência do ser humano. Isso é óbvio. Contudo, Kant quer lidar apenas com as nossas faculdades cognitivas e transcendental é usado apenas nesse sentido].

A Doutrina Transcendental das Faculdades

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Como já foi dito, Kant divide a cognição humana em diferentes faculdades [funçõescapacidades]. A sensibilidade é a faculdade da receptividade. Ela apenas recebe passivamente os estímulos sensoriais que atingem nossa superfície nervosa. Essa faculdade nos fornece intuições. Intuição aqui não deve ser entendida em sua concepção do senso-comum. Uma intuição, para Kant, é apenas a representação [apresentação] imediata de um objeto particular à nossa consciência. Veremos posteriormente que a imediaticidade da intuição é apenas aparente, já que o entendimento entra em operação na sensibilidade para sintetizar o diverso dos sentidos [estímulos sensoriais] na forma de intuições particulares. Toda vez que você vê ou percebe um objeto particular, você tem uma intuição [percepção imediata] desse objeto. Existem dois tipos de intuições: as intuições sensíveis e as intuições puras. As intuições sensíveis são todas aquelas fornecidas pela sensibilidade quando é impingida pelos estímulos sensoriais. As intuições puras são aquelas que não possuem nenhum conteúdo empírico em sua constituição. Ocorre que, para Kant, existem apenas duas intuições puras e elas são também, em certo aspectoas duas formas puras da sensibilidade: a intuição/forma pura do espaço e a intuição/forma pura do tempo [veremos que há uma diferença entre o espaço e o tempo como intuições e como formas puras da sensibilidade no próximo post]. Como Kant está preocupado apenas com as formas puras da cognição humana, ele lidará apenas com essas duas formas puras da sensibilidade [espaço e tempo] na sua Estética Transcendental. Por Estética, não se quer dizer o estudo do gosto, da beleza e da arte. Kant busca o sentido etimológico original da palavra [aisthesis] que é percepção sensorial. A Estética Transcendental lida com tudo que diz respeito às nossas percepções sensoriais e lida apenas com aquilo que nas percepções sensoriais é puro [destituído de conteúdo empírico], isto é, lida apenas com o espaço e o tempo.

A outra faculdade cognitiva humana que é necessária para a formação de conhecimento é o entendimento e Kant lida com o mesmo na sua Lógica Transcendental. O entendimento é a faculdade da espontaneidade. Isso quer dizer que é uma faculdade ativa, diferente da sensibilidade que é apenas passiva. O entendimento nos fornece uma forma mediata de contato com o objeto do conhecimento e faz isso através do fornecimento de conceitos. O conceito é um objeto discursivo geral. Discursivo no sentido de ser possível apenas por conta da linguagem e geral porque subsume várias intuições particulares em um termo universal. O conceito de gato se refere a toda a extensão semântica do termo, ou seja, a todas as intuições particulares de gatos que temos no decorrer da experiência. Um conceito é o mesmo que uma regra para o uso correto de termos. Segue que o entendimento é a faculdade da unidade das aparições [intuições] por meio de regras. No entanto, o entendimento só pode conceituar algo quando o mesmo é nos dado por meio da sensibilidade. Isso significa dizer que só existe conhecimento por conta da contribuição conjunta da sensibilidade e do entendimento, a primeira fornecendo as intuições e o segundo sintetizando tais intuições na forma de conceitos. A sensibilidade não sintetiza. Assim como o entendimento não intuiConceitos sem intuições são vaziosIntuições sem conceitos são cegas.

Como precisamos de “conteúdo” para o nosso conhecimento e esse conteúdo é dado, primeiramente, pela sensibilidade. É dela que nos ocuparemos no próximo post tratando da Estética Transcendental e das formas puras [espaço e tempo]. Nesse mesmo post, trarei uma defesa da transcendentalidade do Espaço e do Tempo e de como é possível e compatível com a Teoria da Relatividade Geral. Até lá.

Um comentário em “Haslley Queiroz – Conhecendo Kant (Parte III)

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  1. Estou no Ensino Médio e o professor vai começar Kant nessa semana, duvido que ele consiga explicar tão bem quanto vocês fizeram agora, tenho só um pouco de conhecimento filosófico, mas depois de sofrer um pouco consegui entender tudo. Estão de parabéns.

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